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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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DA ÁSIA 



DE ■■■■^' í 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS, QUE OS PoRTUGÚEZES FIZERAM 

NO DESCUBRIMENTO , E CONQUISTA DOS 

MARES, E TERRAS DO ? ORIENTE. " 



DÉCADA TERCEIRA 



PARTE PRIMEIRA. 




LISBOA 

Na Regia Officina Tyfografica. 
anno mdcclxxvii. 

Com Licença da Real Meta Çenforia , e Privilegio Real 





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ÍNDICE 

DOS CAPÍTULOS, QUE SE CONTÉM 
NESTA PARTE I. 

DA DÉCADA III. 

LIVRO I. 

CAP. I. Como EIRey D. Manoel man<* 
dou por Capitão geral , e Governa* 
dor da hidia Lopo Soares d^Alber* 
garia em huma Armada de treze nãos , 
o qual partio ãefte Reyno o anno de qui- 
nhentos e quinze ; e do que fez depois 
que partio 5 e ajji na índia com fua che- 
gada. Pag. i. 

GAP. II. Como Lopo Soares , defpachado 
Fernão Peres com huma Armada pêra 
a China , pelo recado que lhe EIRey Dom 
Manoel mandou defte Reyno da Armada 
que o Soldão do Cairo fazia pêra a In* 
dia , elle Lopo Soares partio com huma 
grojfa frota pêra o mar Roxo em bufca 
de fia Armada. 13. 

CAP, III. Em que fe defcreve o fítio da 
Cidade Judd: e o fundamento de huma 
Armada , que o Soldão tinha enviado por 
Raez Sokímãofeu Capitão mor , que ef° 
tava na que lia Cidade Judd. 22. 

CAP. IV. Do que Lopo Soares paffou no 
porto de Judd 7 e depois que fe dalli par~ 
* ii tio 



Índice 

tio té chegar a Cantaram , onde inver~ 
vou , e ahi veio ter D. João y ao qual 
elle mandou bufcar d cofia da Abaf- 
fia. 39. 

CAP. V. Como partido Lopo Soares da 
Ilha Cantaram . foi ter d Cidade Zeila , 
que ejiã na cofia da terra Africa , prin- 
cipal porto âoBeyno Adel , a qual tomou 
por armas , e depois queimou. 54. 

CAP. VI. Como Lopo Soares fe partio pê- 
ra a Cidade Adem : e do que alli pajjòu 
com o Capitão delia ; e querendo ir fobre 
a Cidade Barbora , com hum temporal 
que lhe deo , arribou a Ormuz , e a maior 
parte de fua Armada per diverfas par- 
tes pajfou grandes naufrágios , e infor- 
túnios. 62. 

CAP. VIL Do que fizeram D. Fernando , 
e D. João y que D. Goterre mandou de 
Armada : e o que fuccedeo em huma en- 
trada 5 que elle mandou fazer em as ter- 
ras firmes de Goa , onde mataram João 
Machado , e alguma gente da nojja , don- 
de fe caufou o Hidalcão a mandar cer- 
car , no qual tempo os noffos padeceram 
muito trabalho té a chegada de António 
de Saldanha. 70. 

CAP. VIII. Como D. Goterre mandou Dom 
Fernando com gente de cavallo , e de pé 
fobre o Capitão Ancofiaô 7 na qual entrada. 

mor- 



dos Capítulos 

morreo o Alcaide mor João Machado 
com muita gente nofifia , e foi caufa da 
Cidade Goa fer cercada té a vinda de 
António de Saldanha , que partio defte 
Reyno com huma Armada. 78. 

CAP. IX. Do que fiiccedeo a Jorge de Bri- 
to depois que entrou na capitania de Ma- 
laca : e do que fe pajfiou nella depois de 
feu falecimento fiobre quem o fuc cederia 
no cargo de Capitão. 36. 

CAP. X. Da viagem que António de Sal- 
danha fez* o anno de dezefiete , que de fie 
Reyno partio , e as confias que pafifdram 
na índia com fiua chegada : e como Lopo 
Soares o mandou de Armada á cofia da 
Arábia , e ajjl enviou D. João da Sil- 
veira ás Ilhas de Maldiva. 94. 

LIVRO 11. 

CAP. I. Em que fie deficreve o fitio 5 e 
coufias da Ilha Ceilão , a que os an- 
tigos chamam Taprobana. Pag. 104. 
CAP. II. Como Lopo Soares ? per mandado 
d^ElRey D. Manoel , foi d Ilha Ceilão 
fazer huma fortaleza : e o que pctjjou 
ante de fier feita com o Rey da terra , 
o qual ficou tributário defie Reyno. 118. 
CAP. III. Do que pafifiou D. João da Sil- 
veira nas Ilhas de Maldiva ? onde o en- 

vígu 



Índice 

viou Lopo Soares , e a/Jl em Bengala y 
onde elle foi ter , té chegar a Ceilão a 
fer mettido de poffe de capitania da for- 
taleza de Columbo. 132. 

CAP. IV. De algumas coufas que D. Alei- 
xo de Menezes fez depois que chegou 
a Malaca , entre as quaes foi mandar 
Duarte Coelho a E/Rey de Sião : e do 
que elle pajfou nefia viagem. 146. 

CAP. V. Em que fe defcreve o grande Rey- 
no de Sião , e algumas coufas notáveis 
delle. i?2. 

CAP. VI. Como EIRey D. Manoel mandou 
Fernão Peres d? Andrade defcubrir a en- 
feada de Bengala , e a cojla da China : 
e o que pajfou primeiro que fojfe d Cida- 
de Cantam , que he a principal de huma 
das Provindas que a China tem. 173. 

CAP. VII. Em que fe defcreve aterra da 
China, e relata algumas coufas que ha 
nella , e principalmente da Cidade Can- 
tam , que Fernão Peres hia defcubrir. 186. 

CAP. VIII. Do que Fernão Peres pajfou 
em quanto efleve na China. 205^ 

CAP. IX. De algumas coufas quepajfáram 
em Malaca , em quanto D. Aleixo de 
Menezes efleve nella. 224, 



LI- 



dos Capítulos 

livro III. 

CAP. I. Como EIRey D. Manoel o an- 
no de quinhentos e dezoito mandou 
por Capitão geral , e Governador da ín- 
dia a Diogo Lopes de Sequeira. Pag. 233. 

CAP. II. Do que fe pajjou em Malaca de- 
pois que D. Aleixo de Menezes fe par- 
tio , ajji no cerco que lhe EIRey de Bin- 
tam poz , como na vitoria que os nojjos 
houveram na ida do rio Muar 3 toman- 
do-lhe a fortaleza que alli tinha feita 
na entrada do rio. 242. 

CAP. III. Como Garcia de Sá foi ter a 
Malaca , e Ajfonfo Lopes d^Acofta , por 
ejiar mui doente , lhe entregou a capita- 
nia da Cidade , e fe veio á índia , onde 
morreo em chegando : e do que António 
Corrêa pajjou ajfi em Pegu , como em Ma- 
laca , onde Diogo Lopes de Sequeira o 
mandou. 260. 

CAP. IV. Como António Corrêa chegou ao 
Reino de Pegu: e afji fe defcreve o fitio , 
e coufas delle , e da paz que clle Antó- 
nio Corrêa ajfentou com o feu Rey , e do 
mais que fez té chegar a Malaca. 273. 

CAP. V. Como Garcia de Sd ordenou hu- 
ma Armada a António Corrêa pêra en- 
trar no rio Muar , e affi ir ao Pago, 

on- 



Índice 

onde EIRey de Bintam ejlava y ao qual 
elle desbaratou \ e defiruio. 285*. 

CAP. VI. Como Garcia de Sá mandou de 
Armada a Manoel Pacheco fobre o por- 
to de Pacem, e Achem : e do feito que 
cinco Portugueses , que com elle foram , 
fizeram : e do mais que fobre efte cafo 
fuccedeo. 298. 

CAP. VIL Em que fe defcreve o fitio das 
Ilhas de Maldiva , e algumas coufas del- 
ias : e como João Gomes , que foi envia- 
do a fazer huma fortaleza na principal 
chamada Maldiva , a fez , e depois o 
mataram os Mouros , e a caufa por- 
que. 30J. 

CAP. VIII. Do que fezChriftovao deSou- 
fa com huma Armada , que lhe o Gover- 
nador Diogo Lopes deo para ir d cofia 
de Dabul : e ajfi do que pafiaram outros , 
que também enviou o anno feguinte. 316. 

CÃP. IX. Do que pajfou huma Armada 
de quatorze velas , Capitão mor Jorge 
â Alboquerque , que o anno de quinhentos 
e dezenove EIRey D. Manoel mandou á 
índia : e do que Diogo Lopes de Sequei- 
ra nijjò fez. 324. 

CAP. X. Como o Governador Diogo Lopes 
de Sequeira partio com huma groffa Ar- 
mada ao eftreito do mar Roxo : e do quet 
pajfou té chegar d Ilha Macud > onde o 

Em* 



dos Capítulos 

Embaixador Mattheus foi conhecido Jef 
do Prefle João ; e do mais que fe alli 
pafjòu. 336. 

LIVRO IV. 

CAP. I. Em que fe efcrevem as coufas 
d'ElRey da Abaffia , ou Ethiopia 
fobreEgypto, a que vulgarmente chama* 
mos Prefle João : e as coufas do error 
dejle nome , e o mais que dejle Príncipe 
temos fabido , e affi do feu eflado , e po- 
vo. t / Pag. ^359. 

CAP. II. Como a Rainha Sabd fe foi ver 
a Jerufalem com Salamao Rey de Ju- 
déa , de que houve hum filho chamado 
David , do qual , fegundo dizem os po- 
vos Abaffijs , procedem os feus Reys , e 
o mais que elles dizem defla Rainha Sa- 
bd , e ajji da chamada Canddce , e de 
algumas coufas do eflado dejle Príncipe , 
e fua religião , e cojlumes. 374. 

CAP. III. Como Diogo Lopes de Sequeira 
fe vio com o Bamagax , hum principal 
Capitão do Prefle , com o qual ajjèntou 
paz ; e entregue o Embaixador Mattheus > 
e D. Rodrigo de Lima 5 que elle em fua 
companhia mandou ao Prefle , fe partio 
pêra ir invernar a Ormuz : e o mais que 
fez nejle caminho, 397. 

CAP. 



Índice 

CAP. IV. Em que fe efcrevem algumas 
coufas dos ejiados d?EÍRey de Narfinga , 
e Hidalcão , e huina guerra que entre 
Ji tiveram em quanto Diogo Lopes foi 
ao ejireito , e o que delia refultou em 
proveito nojfo. 414. 

CAP. V. Como EIRey Chrifnardo affentou 
feu arraial , e combateo a Cidade Ra- 
chol , a qual tomou , depois que deo hu- 
ma batalha ao Hidalcao em que o ven- 
ceo , e efta tomada foi por favor dos nof- 
fos que fe acharam com elle : e do mais 
que fe paffou entre efles dous Príncipes , 
no qual tempo Ruy de Mello Capitão de 
Goa tomou as terras firmes. 424. 

CAP. VI. Do que Lopo de Brito Capitão 
da fortaleza de Ceilão paffou com a gen- 
te da terra. 443. 

CAP. VIL Em que fe da noticia do curfo 
dos tempos nas partes do Oriente , que 
navegamos , donde fe caufa o verão , e 
inverno dos navegantes , e das puas mon- 
ções. E como Diogo Lopes fe partio de 
Ormuz onde invernou , paffandoper Maf- 
cate , onde achou recado de huma Arma- 
da que a que lie anno partira defle Reino , 
e dalli fe foi pêra a índia : e o que lhe 
fuccedeo no caminho , e ajfi em Dio com 
Melique Az. 452. 

CAP. VIII. Como Diogo Lopes de Sequei- 



dos Capítulos 

ra 5 depois que defpachou as nãos , que 
o anno de quinhentos e vinte vieram com 
carga de efpeciaria pêra ejle Reyno , fez 
huma grojja Armada , em que foi pêra 
Dio com tenção de fazer ahi huma for- 
taleza. 472. 

CAP. IX. Como Diogo Lopes de Sequeira 
com fua frota chegou fobre a Cidade 
Dio y onde não fez fortaleza , e a caufa 
porque ; e como foi invernar a Ormuz > 
efpedindo os Capitães que hiam ordena- 
dos pêra as partes de Malaca , os quaes 
foram em companhia de D. Aleixo de 
Menezes , que os havia de defpachar em 
Cochij. 481. 

CAP. X. Do que aconteceo a Simão Sodré 
ao longo da cofia caminho de Goa , e 
houvera de acontecer a D. João de Li- 
ma que fe com elle achou : e do defpacho 
que D. Aleixo deo , depois que chegou 
a Cochij , aos Capitães , que levava em 
fua companhia. 496. 

LIVRO V. 

CAP. I. Lm que fe defere ve a fituação 
da Ilha Camatra , e Reinos delia > 
e de algumas coufas que nella acontece- 
ram aos nolfos : e a caufa por que o Prin~ 
cipe do Reyno Pacem mandou á índia 

pe- 



Índice 

pedir ajuda ao Governador contra hum 
tyranno , que lho tinha tomado. Pag. 505- . 

CAP. II. Como Jorge d? Alboquerque che- 
gou ao Reyno de Pacem , onde pelejou 
com o tyranno que o tinha , e o tomou 
com quanta gente comfigo tinha em hu- 
ma fortaleza , e depois metteo o Prínci- 
pe em pojfe delle. 5*19. 

CAP. III. Como Jorge de Brito com fua 
Armada foi ter ao Reyno Achem , onde 
elle , e outros Capitães com muita gen- 
te foram mortos em huma peleja , que 
tiveram com o Rey da terra ; e vindo 
feu irmão António de Brito com os na- 
vios a Pedir , onde os achou , tomou pof- 
fe da capitania delles : e do mais que 
elle , e Jorge d?Alboquerque pafjãram tê 
chegarem a Malaca , e o que aconteceo 
aos outros Capitães , que ficaram em Pa- 
cem. 535\ 

CAP. IV. Como Jorge d? Alboquerque foi 
á Ilha de Bintam pêra deflruir a povoa- 
ção que EIRey nella tinha 5 e o que lhe 
fuccedeo nefla ida , no fim da qual An- 
tónio de Brito fe partio pêra Maluco. 550. 

CAP. V. Em que fe defcrevem as Ilhas 
chamadas Maluco , e fe dd noticia de 
algumas coufas delias. 564. 

CAP. VI. Das coufas que fuccedêram a 
Antónia d' Abreu > e Francifco Serrão > 

que 



dos Capítulos 

que Affonfo tfAlboquerque na tomada de 
Malaca mandou defcubrir as Ilhas de 
Maluco , e Banda : e o que fuccedeo em 
todo aquelle tempo té a partida de An- 
tónio de Brito , que hia jazer huma for- 
taleza por caufa das razoes preceden- 
tes , que eram requerimentos delRey de 
Ternate , que he a principal delias. 583. 

CAP. VII. Da viagem que António de Bri- 
to fez nas Ilhas de Banda , e Maluco : 
e o que paffou té fazer huma fortaleza 
em a Ilha Ternate. 605. 

CAP. VIII. Como Fernão de Magalhães 
fefoi a Caftella em de fervi ço d^ElRey Dom 
Manoel , e as coufas porque : e como El- 
Rey D. Carlos de Caftella , que depois 
foi Emperaâor , accei t ou feu fervi ço , e 
fe determinou em o mandar as Ilhas de 
Maluco per nova navegação. 622. 

CAP. IX. Da viagem que Fernão de Ma- 
galhães fez com efta frota : e o que fuc- 
cedeo a elle , e a ella té defcubrir hum 
eftreito , que pajfava ao mar do Ponen- 
te. 632. 

CAP. X. Do que Fernão de Magalhães 
pajfou em fua navegação do mar do Po- 
vente té chegar á Ilha Subo \ onde ma- 
taram a elle , e a principal gente de fua 
Armada : e do que mais fuccedeo aos que 
ficaram. 647. 

DE- 



DÉCADA TERCEIRA. 

PROLOGO. 

E ESCREVE Platão em o feu Ti- 
i méo , contando a prática y que 
hum Sacerdote Egypcio tinha com 
Sólon fobre a antiguidade , e noticia 
das coufas delia , que lhe diíTe o Sa- 
cerdote com grande indignação : » O 
» Sólon , Sólon , fempre vós-outros , os 
» Gregos , haveis de íer moços , e o vof- 
Ȓb animo fempre mancebo, em o qual 
» não ha conhecimento da antiguidade , 
» nem fciencia de cans ? » Nas quae^pa- 
lavras quiz dizer, que todos aquelles, 
que fe não davam ao conhecimento da 
antiguidade das coufas , as quaes fe al- 
cançam pela lição da Hiftoria , tinham 
entendimento de meninos , porque co- 
mo eftes confufamente recebem o obje- 
£lo de qualquer coufa que vem , e a 
todo homem chamam pai 5 por não te- 
rem noticia perfeita pêra diftinguir qual 
he o feu próprio : aífi os que carecem 
do conhecimento da Hiftoria eftam 
Tom.III. RI. ** póf- 



Prologo. 

póftos em vida de confusão. E ainda 
(como diz Tullio) pela falia diffiri- 
mos dos brutos quanto ao difeurfo 
do juizo : os homens , que totalmente 
ignoram a Hiftoria \ e aborrecem as le- 
tras , são a elles mui conformes. Cá 
nunca o feu juizo fe eftende a mais, 
que ao prefente a olhar fe lhe traz da- 
mno , ou proveito a vida , e do enten- 
dimento das outras coufas fazem pou- 
ca conta , como fe nafcêram fomente 
pêra contentar o corpo em feus affe- 
£los , e defejos. Quafi como gente . que 
vem a degenerar da natureza humana, 
moftrando que não ha nelles natural 
defejo de faber; o qual he tão próprio 
do homem , (como diz Ariftoteles, ) que 
lhe vieram chamar inveftigador , e in- 
ventor das coufas. Da qual proprieda- 
de veio o mefmo Ariftoteles fazer hum 
problema, perguntando: Porque os ho- 
mens fe deleitavam mais em a noticia 
das coufas, que feíabem per exemplo, 
que perenthymemia , que he huma ra- 
zão curta, de que os Lógicos ufam, a 

que 



Prolog o. 

que Tullio chama argumento , que con- 
cilie em huma fó coufa. E parece que 
procede o que Ariftoteles pergunta ; 
porque os exemplos tem muitas razoes f 
cauías, e vivos feitos , em que o en- 
tendimento fe mais fatisfaz , e deleita y 
que em huma fó razão fecca , e curta. 
E como a Hiftoria he hum agro , e cam- 
po , onde eftá femeada toda a doutrina 
Divina , Moral , Racional , e Inftru- 
mental, quem paftar o feti fruto, con- 
vertello-ha em forças de entendimento , 
e memoria pêra ufo de jufta , e perfei- 
ta vida ? com que apraz a Deos, e aos 
homens ; pêro fica aqui huma parte a 
mais principal deita lição da Hiftoria , 
que he faber eleger qual Hiftoria efta 
fera pêra frutificar em proveito pró- 
prio , e commum. Em a qual eleição 
parece que a gente Veneziana tem mui- 
to acertado, porque aííi pêra o gover- 
no próprio , como público da pátria, 
he mui dada á lição de feus próprios 
Annaes , e Hiftoria , e a toda outra , de 
que podem tirar exemplo pêra admi- 
** ii nif- 



Prologo. 

niftrarem os Magiftrados , e officios 7 de 
que a lua Republica os pode prover, e 
principalmente perafaberem aconfelhar 
quando forem admittidos no Confelho 
público y no qual fe hum homem entrar 
íem doutrina da Hiftoria , he como hum 
mudo entre doutos oradores , ou furda 
ante a harmonia de vozes. O fruto do 
qual ufo r que elles tem r fe vê na per- 
petuidade da fua Republica ; a duração 
da qual ainda não temos vifto fer con- 
taminada per tantas centenas de annos 
em outra Nação. E são os Italianos 
geralmente tão dados á lição da hifto- 
ria , por caufa do governo da pátria y 
pêra da conferencia do paíTado ordena- 
rem o prefente r que fe traz quaíi em 
Provérbio : Italianos fe governam pelo 
pajfado , Hefpanhoes pelo prefente r e 
os Francezes pelo que ejid por vir. 
Aqui , fe licito fora , fe pudera dar hu- 
ma rcprehensão de penna á noífa Hef- 
panha acerca deita parte prefente , pê- 
ro como a verdade não apraz quando 
toca em culpa própria P leixemos o feu 

pre- 






Prologo. 

prefente, porque o futuro lhe moftrará 
que tal foi. Somente huma coufa lem- 
brará efta noíTa penna , em que fique 
entendido parte do que leixou por di- 
zer, com que fatisfaremos á obrigação 
da prática fem doutrina Platónica , (co- 
mo traz Plotino em o livro de Sapiên- 
cia : ) que náo convém olhar fempre as 
coufas prefentes , mas a revolução que 
elias tem do pretérito pêra o futuro, 
porque o feu curfo natural he hum bem 
refponder ao outro , e hum mal ao ou- 
tro mal, por eftarem as coufas futuras 
fujeitas a terem as vezes que já tive- 
ram , quaíí como hum curfo circular. 
E como a Hiítoria he hum efpertador 
do entendimento pêra a eonfideração 
deite natural , e Chriftão curfo , a pri- 
meira lição , (depois da Divina , que 
fempre deve preceder a todas, ) em que 
fe devem crear aquelies , que Deos ele- 
geo pêra o governo , e adminiítração 
pública, he emos Annaes, e Chronicas 
de feu próprio Reyno, e pátria, e em 
toda a outra eferitura, pela qual venha 

em 



Prologo. 

cm conhecimento dos homens antepaf- 
fados y e do que fizeram 5 e difleram. 
Cá deita tal lição , por ler própria de 
cafa, vem elles governar, c aconfelhar 
o Reyno per exemplos do mefmo Rey- 
no , que he a revolução que diíTemos. 
O qual Reyno em os negócios ? e or- 
dem do governo fegue oproceffo, que 
a Natureza leva na multiplicação das 
famílias ; que fe o filho não tem o pa- 
recer do pai , tem muita femelhança 
com o avô , ou de algum outro paren- 
te muito conjunto, porque a Natureza 
nunca pode tanto degenerar , que fique 
em monftro fora de lua efpecie. Aíli os 
negócios , e coufas , que fuecedem em 
vida de hum Rey 5 fe mo são femelhan- 
tes em tudo ás do paíTado , conformam- 
fe com as dos treípaíTados de manei- 
ra, que mais fe parecem noíTas coufas 
prefentes com as noífas paífadas , que 
com as eítranhas 7 e remotas da pátria. 
Por iífo não louvamos muito a homens , 
que dam razão de toda a hiftoria Gre- 
ga , e Romana j e fe lhe perguntais pe- 
lo 



Prolog o. 

lo Rey paíTadvO do Reyno , em que vi- 
vem y não lhe fabem o nome , ainda que 
coma os bens da Coroa , que o próprio 
Rey dá a feu avô. E não he muito , 
porque outro tanto fazem os taes ao 
nome do primeiro inftituidor do Mor- 
gado , ou Capella , que pofiiiem , no 
qual efquecimento parece que o tal 
inftituidor do Morgado o adquirio , e 
ajuntou per tal modo , que o conta 
Deos em numero daquelles per os 
quaes a Efcritura diz : E a lembrança 
ãelles fera deferia , quafi como fe nao 
foram no Mundo : por fer jufta coufa 
efquecerem aquelles , que por ferem 
lembrados na terra , fe efquecêram do 
Ceo. E ainda pêra adquirir eftes bens 
ila terra , a que os homens são tão fu- 
jeitos , fe bem olharem o diícuríb do 
Mundo j muito aproveita a lição da Hif- 
toria , pêra virem a grande eftado de 
honra , e fazenda , como Marco Tul- 
lio, que hutna das coufas, que o poz 
em a dignidade Conluiar , que era a 
maior, que naquelle tempo havia, foi 

ter 



Prologo. 

ter grande conhecimento das linhagens, 
famílias , das propriedades , e de outros 
negócios públicos . do povo Romano , 
fem as quaes coufas o feu orar fora 
muíica fem compaíTo. E não fomente 
elle y que trouxemos por exemplo , mas 
grande numero de homens creou o Mun- 
do , que por efta generalidade de noti- 
cia de coufas alcançaram em feu modo 
tanto , como o mcímo Tullio , porque 
nafcêram em tempo , ou terra , que fe 
lbube aproveitar delles. Pêro aos que 
faleceo alguma delias duas coufas , não 
fomente perderam o premio , que os 
outros houveram ., e ficou-lhe lua mer- 
cadoria em çafa fem abrir tenda; mas 
ainda os direitos delia \ que per obedi- 
ência pertencem ao Senhor da terra, 
lhe foram engeitados, como coufa que 
não fervia ante elle. Depois defta lição y 
que diíTemos fer mui proveitofa , por na- 
tural , e própria de cafa, deve-fe dar 
cfte tal Aprendiz á lição das Chronieas 
dos Reynos vizinhos ? com que commu- 
alçam , e tem conferencia de negócios 9 

e de 



Prologo. 

e de íí a toda outra hiftoria proveitofa. 
Não apontamos nas fciencias de profif- 
são, porque eítas são pêra homens par- 
ticulares, que as elegeram por género 
de divida , as quaes requerem outro 
ócio , outro juizo , e são caras de as 
perder , e por iílb os feus ProfeíTores 
as Tendem por mui caro preço. So- 
mente enculcamos lição commum a to- 
da qualidade, e idade, barata em pre- 
ço, leve de faber, proveitofa em uíò, 
e que ferve na paz , na guerra , no pra- 
zer, no pezar, na abaftança , e necef- 
iidade , por fer como huma medida Lés- 
bia , que fe accommoda a tudo o que 
com elía quizermos medir. Quem qui- 
zer pa/Tar dos exemplos de cafa , e dos 
vizinhos , tem a Hiftoria Romana , Gre- 
ga , e toda a outra , ainda que dos bár- 
baros feja, porque não reprovamos ef- 
tas em mais , que na precedência de as 
anteporem ás naturaes , e familiares de 
caía. E porque aqui eftá hum grande 
perigo, em que pode incorrer a gente 
de tenro juizo y que são os mancebos , 

po- 



Prologo. 

polo não corromperem com algum ve- 
neno de damnofa lição, diremos o que 
Platão diz em nome de Sócrates: Õue 
mais grave he o perigo no aceitar da 
âifciplina , ou lição de livros , que no 
comprar as coufas do mantimento , de 
que vivemos , porque ejie da praça não 
fe leva logo no eftomago , mas em cou- 
Ja , que fe nellas houver algum veneno , 
uão nos pode empecer ; e ainda fobre 
ijfo temos confelho do Medico , que nos 
enfina quaes podemos comer , e quaes 
não , o que fe não faz na compra dos 
livros. Donde vem, que primeiro lavra 
a peçonha da má doutrina , e leitura 
delles no animo, que affentamos no en- 
tendimento. Por acudir ao qual damno , 
c perigo apontaremos alguns vicies , e 
defeitos , em que cahíram alguns def- 
ta lição daHiítoria, que íirvam em lu- 
gar de balizas áqueiles , que tanto não 
alcançam no ler , e no compor delia , 
pois a todos podem fervi r. A primeira, 
e mais principal parte da Hiítoria he a 
verdade delia ; e porém em algumas 

coti- 



Prologo. 

coufas não ha de fer tanta , que fe di- 
ga por ella o dito da muita juftiça , 
que fica em crueldade , principalmente 
nas coufas , que tratam de infâmia de 
alguém , ainda que verdade fejam. E 
certo que nefta parte mais ganhou no 
juizo de homens juftos, e doutos Thu- 
cydides, fendo Gentio, o qual contan- 
do o que commetteo contra os Atheni- 
enfes o Rhetor Antifonte, por reveren- 
cia de tão douta peííba , e de fer fen 
meftre , calou o modo , e género de 
morte, que lhe foi dada per mui infa- 
me ; do que ganhou Suetonio, Paulo 
Jovio em os feus elogios , que tendo 
dignidade Epifcopal , defcubrio vícios 
alheios , de que muitos nao fabiam par- 
te, com que infamou as almas dos de- 
funtos , de quem os elie efcreve. Cá 
deftes taes exemplos mais procede li- 
cença de vícios , que ahftinencia delles ; 
porque como evitara a hum homem o 
ímpeto de má inclinação, quando Sue- 
tonio lhe poe exemplo de muitos em 
Príncipes illuftres , como foram os Em- 
pe- 



Prologo. 

peradores ; e tacs vicios , que a mefma 
Natureza fecha os olhos , efconde o rof- 
to , e tapa os ouvidos por não ouvir 
taes torpezas de íi. E verdadeiramente 
nunca alguém efcreveo eítas abomina- 
ções , e abufos , que ante meu juizo 
não tenha por culpado nelles , como fe 
vê nas más mulheres , que fe gloriam 
em haver muitas, porque ficam menos 
culpadas. Também calar os louvores 
de alguém , ou notar íuas taxas por 
ódio y ou por comprazer a outrem , 
quanta Saluftio perdeo na primeira par- 
te , tanta culpa tem António de Ne- 
brhTa : na fegunda Saluftio calando na 
fua hiftoria algumas coufas , que da- 
vam louvor a Trellio , polo ódio que 
lhe tinha , pofto que muitos não pôde 
encubrir , em que foi louvado : e An- 
tónio de NebrilTa por comprazer na 
Chronica, que compoz d'ElRey Dom 
Fernando de Caftella , diíTe taes abo- 
minações d'ElRey D. Henrique , e da 
Rainha D. Joanna fua mulher, que pê- 
ra tão douto Barão fora mais feguro a 

íua 



Prologo. 

lua confciencia , e nome por dizer , que 
ditas, Eperdoe-me a fua alma, porque 
melhor he que fique elle com efta nota 
de paixão , ou complacência , que taes 
Príncipes infamados per fua eícritura. 
E fe não fora porque nas coufas dos 
P\eys , e Príncipes fe deve fallar com 
toda reverencia , por a dignidade Real , 
que lhes Deos deo , ainda noíTa penna 
pudera manifeftar coufa , não de fufpei- 
ta, como elle António deNebriíTa fez, 
mas de feito , em cafo , que per via de 
cafamento fe moveo, em que o mefmo 
Rey D. Fernando approvou o contra- 
rio do que elle diz. Quanto a encubrir 
os cafos , e infortúnios aquecidos ao 
Príncipe , ou povo y em cujo louvor fc 
efcreve, por lhe não derogar o poder, 
e retorcer as coufas do tal damno era 
outfem com infâmia de nome , e não 
de feitos. Se na primeira Tito Livio he 
louvado na relação , que fez como os 
Francezes tomaram Roma y na fegunda 
não ganhou muito em dizer delles.. r 
que por caufa, do vinho , que havia em 

Ira- 



Prologo. 

Itália , entraram nella , e ifto em modo 
de infâmia. Pois contar prodígios tacs , 
.que o mefmo Tito Livio , que os ef- 
creveo na íua hiftoria , os não cria , em 
o qual vicio também Cefar cahio por 
abonar feus propofitos , ifto he tão ef- 
tranhado na Hiftoria , que melhor fof- 
fre hum hyperbole, dizendo era tama- 
nha a grita da gente , rugido das ar- 
mas , quebrar das lanças , que chegava 
o eftrondo até o Ceo. Nem menos con- 
vém á fé da Hiftoria dizer, que dos 
imigos morreram tantos mil , feridos 
fem conto , e dos noíTos mortos foram 
dons, ou três, e feridos doze. Já no- 
mes torpes , cruéis , e de vitupério, 
como níàm alguns nefté noflb tempo, 
chamando aos Reys de França , e In- 
glaterra , o Francez, o Ingrez , e per 
efte modo os da parte contraria outros 
taes ao Emperador, mais vituperam a 
quem os diz , que por quem fe dizem. 
E quanto os taes Efcritores são taxa- 
dos por notar no Príncipe defeitos, em 
que a Natureza he culpada , e não o 

ani- 



Prologo. 

animo delle ; tanto louvor fe dá áquel- 
le Pintor, que tirando a EIRey Filip- 
pe pai de Alexandre per natural , to- 
mou-lhe a poftura do roftro de manei- 
ra , que lhe encubrifle o defeito que ti- 
nha , que era hum olho menos. E me- 
lhor ellá a hum Author per efte modo 
diííimular os taes defeitos , que louvar 
os Príncipes de maneira f que vendo 
elles tanta lifonjaria , façam o que fèz 
Alexandre; o qual oíFe recendo- lhe Arif- 
toholo hum livro de muitos louvores, 
deo com elle em hum rio y dizendo , que 
defejava depois de morto tornar ao Mun- 
do , pêra ver fe o louvavam tanto. E 
não fe efcandalizem de nós , fe no ef- 
pertar deitas couías apontamos em tão 
graves , e doutos Barões , parecendo 
que nos queremos gloriar das taes cen- 
iuras como de couia própria, pois en- 
tre homens de boa lição são mui com- 
muas. Somente as notamos por ferem 
nelles culpas de animo apàííionado , e 
não dignas de perdão : como os defcui- 
dos de animo canfado do eíludo , e da- 

quel- 



Prologo. 

quelle género das de Homero , de que 
dizia Horácio : Ás vezes dormia o bom 
Homero. Pois íê eftcs , e outros taes 
perigos eítam em homens de tanta eru- 
dição , e doutrina , que fera no enxurro 
de tantos Efcritorcs , como o ganho, e 
trato da imprefsão trouxe á praça def- 
te noílb tempo ? Se não tapar os nari- 
zes , como quem pafla per monturo, 
onde, ainda que fe acha hum retalho de 
panno de boa cor , e fino , a compa- 
nhia, em que eftá, faz que fe haja no- 
jo delle. Verdade he , que fe o mon- 
turo deites foífe como o de Ennio, no 
qual dizia Virgílio , que achava pedras 
preciofas , ainda fe foíFrêra o feu máa 
cheiro; mas ver as quimeras de tanta, 
e tal efcritura, a que fe não pode dar 
nome , pofto que feus donos ihe dem 
grande titulo, não caufa o zelo, e in- 
dignação de ver eílas coufas fazer ver- 
fos , como diz Juvenal , mas rifo , co- 
mo diz Horácio , por outras taes. E 
certo, que coníiderando no fruto, que 
fe pode tirar das taes efcrituras , pare- 
ce 



Prologo, 

ce que mais erudição dará a lição das 
fabulas j ifto não porcaufa da matéria, 
mas da torpeza da forma ; porque quan- 
to á matéria , certo he fer mui diffe- 
rente tratar de hiftoria verdadeira , ao 
argumento de huma fabula , peto tem 
tanta potencia a forma de qualquer cou- 
fa , que em muitas vence a matéria 
por excel lente que feja. Em tanto , que 
íe hum valo de ouro tiver a forma de 
algum, que ferve emcoufas vis, e tor- 
pes , ante quererão beber per outro de 
barro de forma natural defte ufo , que 
pelo outro , porque naturalmente abor- 
recemos as coufas disformes, e as for- 
madas com as leis naturaes , fegundo 
o género de cada huma , de nós são 
mui aceptas. Donde Alexandre, fendo 
tão cubiçofo de gloria que o fez pró- 
digo de fazenda , veio defejar ter por 
Efcritor o pai de todalas fabulas em 
nome , que foi Homero ; ( que pudera 
fazer fufpeita toda fua hiftoria , ) não 
porque quizeíTe que com palavras fup* 
priíTe o que a elie falecia em feitos ; 
Tom. III. PJ 9 *** pois 



Prologo. 

pois os feus foram tantos , e taes, que 
occn param trinta , c tantos Efcritorcs 
Gregos , e Latinos ; mas porque tem 
tanto poder a força da eloquência , que 
mais doce , e acepta he na orelha , e 
no animo huma fabula compofta com 
o decoro, que lhe convém, que huma 
verdade fem ordem , efem ornato, que 
he a forma natural delia. E efta acep- 
taçao não he em orelhas de homens 
gentios , ou profanos , mas de graves , 
e doutos Barões da Religião Chrifta, 
como fe vê na lição Grega , e Latina , 
tantas vezes recitada > e repetida nas; 
luas efeolas ; porque como todolos ho- 
mens graves, principalmente nasefeti- 
turas moraes, a fim de doutrinar vam 
ordenadas, mais refpeito tem a mover 
por exemplo , e ihduzimento de vivas 
razões, (pêro que o argumento fejãfa*- 
bulofo) que a fé da Coufa , porque a 
fé fem imitação de obras figura pin- 
tada he , e não viva. E cotlio ^ a fim dê 
bem obrar > os Efcritorês ordenaram, 
íuas eferituras , aqiiêllaS são ffiais uti- 

les, 



Prologo. 

ies , e proveitofas pêra ler, que mais 
movem pêra bem obrar, (nas profanas 
falíamos,) cá em as da Lei de Deos, 
que profeííamos , Paulo deo avifo , que 
por não de rogar a Fé da Cruz de Ghri- 
fto , não as pregava com eloquência. 
Pêro aquelías y cuja doutrina eftá em 
força de palavras, e não em fé de Lei, 
ufaremos delias como Agoftinho na fua 
Doutrina ChriM aconfelha , dizendo : 
Qiie fe os Filofofos dijferam algumas 
coifas proveitofas d nojfa Fé y não fo- 
mente as não devemos recear , e temer , 
mas ainda as devemos pêra nojfo ufa 
tomar delles como de injuftos pojfuido- 
res. E fe eftas fervem ao bem da Fé, 
que fera naquellas , que tratam fomen- 
te pêra ufo da boa policia; poriíTo não 
fe pode chamar efcritura fem fruto a 
que tem doutrina de imitação. Fabulas 
são as de Homero em nome , e argu- 
mento; mas neilas vai elle enxertando 
o difcurfo da vida aftiva , e contempla- 
tiva , q por ifíb noproemio das Pande- 
gas do Direito Civil lhe chama o Em- 
pe- 



Prologo. 

perador Juftiniano pai de toda virtude. 
E Macrobio diz dellc 5 que he fonte } 
c origem de rodalas divinas invenções , 
porque dco a entender a verdade aos 
fapientes debaixo de huma nuvem de 
ficção poética. Fabula he a Cyripedia 
de Xenofon } mas nella quiz elle de- 
buxar, que tal havia de fer hum Rey 
em o governo der feu Reyno , e por 
iílb era efte livro o familiar per que 
eftudava Scipião , e Cícero andando na 
guerra. Fabula moderna he a Utopia 
de ThomazMoro; mas nella quiz elle 
doutrinar os Inglezes como fe haviam 
de governar. Fabula he o Afno de ouro 
deApuleio; mas nodifcurfo dclle mof- 
tra quão brutos animaes são os homens , 
que andam occupados y e envoltos em 
vicios , e fora delles ficam racionaes em 
vida. Fabula he a multidão das que ef- 
creveo o Filofofo Efopo ; mas nellas 
eftam pintados todolos aífecfcos huma- 
nos , e eomo nos havemos de haver 
nelles. Fabula he a Taboa do Filofo- 
fo Cebes ; mas neíta pintura eitá todo 

o 



Prologo. 

o proceífo da vida jufta , e perfeita. To- 
das eftas, e outras efcrituras, ainda que 
fejam profanas , e de argumento fingi- 
do , quando vam verdadeiras em toda- 
las partes, e afFe&os, que lhe convém, 
são mui aceptadas , e recebidas de to- 
dolos doutos Barões ; porque vendo el- 
les com quanto faftio das gentes fe re- 
cebiam a moral doutrina em argumen- 
to defcuberto , e grave , ao modo de 
Platão , e Ariftoteles , entenderam que 
os Efcritores , que feguíram efte géne- 
ro de efcritura , tiveram por fim dar na 
doçura da fabula o leite da doutrina; 
e por iflb quando liam as taes efcritu- 
ras , lançavam a cafca do argumento 
fora , e goftavam o fruto da interior 
erudição. Mas efcrituras , que não tem 
efta utilidade de lição, além de fe nel- 
las perder o tempo, que he amaispre- 
ciofa coufa da vida, barbarizam o en- 
genho , e enchem o entendimento de 
ciíco com a enxurrada dos feitos , e di- 
tos que trazem. E o que he mais pê- 
ra temer, efcandalizam a alma, conce- 

ben- 



Prologo. 

bendo ódio , e má opinião das partes 
infamadas per elles. Por caufa de evi- 
tar os quaes damnos , parece que feria 
coufa mui juíta , per edito público , a 
papelada das taes efcrituras fer entre- 
gue ás tendeiras pêra embrulhar comi- 
nhos j como dizia Períio poios verfos 
de alguns fracos Poetas do feu tempo. 



DÉ- 



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DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO I. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fize- 
ram no deícubrimento , e conquifta 
dos mares , e terras do Oriente. 



CAPITULO L 

Como ElRey D. Manuel mandou por Ca- 
pitão geral, e Governador da índia Lopo 
Soares d* Albergaria em hum a Armada de 
treze nãos , o qual partio defte Reyno o an- 
m de quinhentos e quinze : e do que fez, 
depois que partio , e ajji na índia com fua 
chegada. 




«TElRey D. 
Tom. III. 



Omo o coração dosReys, (fc- 

gundo diz a Eícritura , ) eíiá 
em a mão de Deos , por ferem 
na terra feus Miniftros no go- 
verno delia , moveo o animo 
Manuel a que efte anno de 
P.L A qui- 



n ÁSIA de João de Barbos 

quinhentos e quinze mandaíle Governador 
á índia , pola neccílidade que havia de ter 
de quem a govemafle , por eaufa do fale- 
cimento de AíFonfo d'Alboqucrque , fegun- 
do elle mefmo dizia , eftando na agonia da 
morte ; pofto que a tenção d ? ElRey em o 
mandar vir era pêra lhe dar galardão do 
trabalho das armas , que pereípaço de dez 
annos tinha pa fiado. E porque Lopo Soa- 
res d' Albergaria , filho do Chanceller mor 
Ruy Gomes d' Alvarenga , era neíle Reyno 
eftimado porhuma peflba de muita prudên- 
cia ; e na Armada que o anno de quinhen- 
tos e quatro EIRey mandou á índia, de que 
elle foi por Capitão mor, femoftrou poder 
fervir eíle cargo de Governador , e Capi- 
tão geral da índia , ordenou de o mandar 
na Armada deíle anno de quinze , em que 
AíFonfo d'Alboquerque fe havia devir. No 
qual anno EIRey tomou outro termo acer- 
ca do governo das coufas da índia , afli na- 
quellas que tocavam á conquifra , e guerra 
delia 5 como das ordenadas ao commercio , 
e vencimento de ordenados de Capitães , 
Officiaes , e homens d'armas. Porque como 
com AíFonfo d'Alboquerque acabavam mui- 
tos Capitães , e Officiaes o termo de três 
annos , que eram obrigados a fervir , em 
nenhum tempo mais fem efcandalo podia or- 
denar eítas coufas ; pêra as quaes fez mui- 
tos 



Década III. Liv. I. Cap. L 3 

tos Regimentos , limitando o que cada pef- 
íòa podia trazer daquellas partes , e os di- 
reitos que delias havia de pagar, dosquaes 
Regimentos fe ora ufa. Pêra a qual ida El- 
Rey mandou aperceber treze náos , em que 
haviam de ir mil e quinhentos homens der- 
mas , além dos mareantes , muita parte da qual 
gente eram Fidalgos , e cavalleiros , e outra 
homens de boa creaçao. Os Capitães da qual 
freta eram , Simão da Silveira filho de Nu- 
no Martins da Silveira fenhor de Góes, 
D. Goterre de Monroy filho de D, AíFon- 
fo de Monroy , Cavalleiro que fora da Or- 
dem de Alcântara em Caítella , Chriílovão 
de Távora filho de Lourenço Pires de Tá- 
vora , Álvaro Telles Barreto filho de João 
Telles , Francifco de Távora filho de Pêro 
Lourenço de Távora fenhor do Mogadoi- 
ro , D. João da Silveira filho de D. Mar- 
tinho da Silveira , Jorge de Brito Copeiro 
mór d'E!Rey D. Manuel , e filho de Artur 
de Brito Alcaide mór da Villa de Beja , Ál- 
varo Barreto de Montemor o novo , e Si- 
mão d' Alcáçova filho de Pêro d'Alcaçova 
em huma náo de armadores pêra a China, 
de que Fernão Peres d 5 Andrade , que hia com 
Lopo Soares, havia de ir por Capitão mór 
deita viagem da China , e com elle Jorge 
Mafcarenhas filho de João Gonçalves Mon* 
tans, ejoanneslmpole hum mercador. Aos 
A ii quaes 



4 ÁSIA de JoÃo de Bakros 

quacs na índia Lopo Soares havia de dar 
navios pêra Fernão Peres fazer eíte dcicu- 
brimento da terra da China. E porque EÍ- 
Rey mandava a Lopo Soares que entraífe 
no mar Roxo, quiz enviar com eile o Em- 
baixador do Preííejoao , que.Affònlò d'Al- 
boquerque (como atrás fica) tinha manda- 
do a eíte Reyno ; porque nefta entrada ei- 
le Lopo Soares o podia entregar no porto 
de Arquico , que eíxÁ dentro das portas do 
eftreito , que , fegundo eJle Mattheus Embai- 
xador dizia , era do Prefle. E aífi ordenou 
de ir com elle Mattheus , Duarte Galvão 
Fidalgo de fua caía filho de Ruy Galvão 
Secretario que fora d'ElRey D. Aífonfo o 
Quinto , o qual por fer homem de muita 
prudência, e que já fora enviado a negócios 
de importância a Reys , e Príncipes deita 
Europa , poderia mui bem fazer eíte tão 
novo , e eftranho. Como era tratar amiza- 
de , e communicação com hum Príncipe 
Chriftão , fenhor de mui grande eílado , e 
mettido no interior da Ethiopia , cercado 
de Pagãos , e Mouros , e que defejava met- 
ter-fe no grémio da Igreja Romana , de cu- 
ja doutrina eílava mui desfalecido, por não 
ter communicação com ella por os barbares 
que entre elle, e ella fe mettiam. Da qual 
obra eile Rey D. Manuel recebia grande 
louvor em toda a Europa 7 e mais outros 

pro- 



Década III. Li v. L Gap. í; £ 

proveitos , e benefícios , tendo com elle pfef- 
rança , como per eíle feu Embaixador lhe 
mandava oíFerecer , em deftruiçao da cafa 
da abominação dos Mouros íituada na Ará- 
bia tão vizinha a eíle Frefte. Com o qual 
Duarte Galvão mandava EIRey Sacerdotes, 
ornamentos, e coufas cio ufo Romano , pê- 
ra que os daquellas partes pudeílem tomar 
doutrina : e affi mandava muitas coufas pê- 
ra ferviço da peffoa do Prefte , por mpftra 
das que havia neiías partes. Acabadas de 
prover todalas coufas necefíarias pêra efta 
viagem , partio Lopo Soares do porto de 
Lisboa a íete de Abril \ e com bons tem-' 
pos que lhe curfáram chegou a Moçam- 
bique , onde achou dons navios , de hum 
dos quaes era Capitão Luiz Figueira Cavai- 
leiro da caia d'ElRíey 5 e do outro Pedrea- 
nes de alcunha Francez , que fervia também 
de Piloto , os quaes o anno paíTado parti- 
ram defte Reyno a onze de Junho per man- 
dado d'E!Rey a irem defeubrir a Ilha de 
S. Lourenço , c affentar nella Feitoria pê- 
ra commercio dç gengivre , cm hum porto 
chamado Matatána , onde havia huma gran- 
de povoação de gente da terra , e alguns 
Mouros da cofia de Melinde. Porém Luiz 
Figueira não fez na terra mais que huma 
força , em que fe recolheo per tempo de 
féis mezes , que o alli detiveram os mora- 
do- 



6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

dores , dizendo que efperaíTe vir a novida- 
de do gengivre ; e per derradeiro levantá- 
ram-fe contra elle polo roubar, quecaufou 
vir-fe a Moçambique , onde achou Pcdrea- 
nes , que havia poucos dias que era chega- 
go. O qual elle Luiz Figueira, em quanto 
efteve em Matatána , tinha enviado a def- 
cubrir a coita da Ilha; e entre alguns por- 
tos que defeubrio , foi huma bahia , a que 
ora chamam de Santo António , por aíli ha- 
ver nome o navio que levava. No cabo da 
qual Ilha contra Lcfte defeubrio o porto , 
a que os naturaes chamam Bemaró , onde 
fez refgate de muita quantidade de ambre. 
E por lhe o tempo não fervir pêra fe tor- 
nar onde íeixou Luiz Figueira , arribou a 
Moçambique. Lopo Soares , recolhidos e£ 
tes dous navios , e efpedido Chriftovão de 
Távora , que hia por Capitão pêra a forta- 
leza de Çofala , na vagante de Sancho de 
Toar , que lá eftava 5 partio-fe pêra a ín- 
dia ; e chegou a Goa a oito de Setembro. 
E a primeira coufa que fez foi metter de 
poííe da capitania da Cidade a D. Goterre 
de Monroy , que a levava por EiRey na 
vagante de D. João d'Eça, que a fervia. E 
aíli efpedio Jorge de Brito , que levava a 
capitania da Cidade Malaca , em lugar de 
Jorge d 5 Alboqucrque , que lá eftava, eman- 
<3qu com elle Diogo Mendes de Vafçoncel- 



Década III. Liv. I. Cap. I. ? 

los , que levava a capitania , e feitoria de 
Cochij , pêra lhe logo dar aviamento , por 
não perder aquella monção de Setembro. E 
fez-íe todo o feu defpacho tão brevemente , 
e teve Jorge de Brito tal viagem, que che- 
gou a Malaca no fim de Outubro 5 coufa 
que té hoje não aconteceo a Capitão algum , 
partir daqui a oito de Abril , e chegar lá 
no Outubro daquelle anno , em companhia 
do qual Lopo Soares mandou António Pa- 
checo , que havia de fervir de Capitão mor 
do mar. Paliados doze dias , em que Lopo 
Soares fe deteve em Goa provendo algumas 
coufas , fem efperar a vinda de Affonfo d'Al- 
boquerque , de que tinha nova eftar em Or- 
muz mui profpero com a tomada da Cida- 
de , partio-fe pêra Cochij a ordenar a car- 
ga ás náos , que haviam de tornar a efte 
Reyno com eípeciaria. E de caminho foi 
vifitando as fortalezas, deixando nellas os 
Capitães que de cá levava: em Cananor Si- 
mão da Siíveira , em lugar de Jorge de Mel- 
lo , que acabava feu tempo ; e em Calecut 
Álvaro Telles , onde eftava Francifco No- 
gueira. Os officiaes de Cochij , chegado el- 
le ao porto , como era Governador novo , 
a que todos queriam comprazer , o re- 
ceberam corn grande fefta, fomente EIRey 
de Cochij , que lhe não fez muita , quando 
fe vio com elle. A caufa foi por não fer 

mui 



8 ÁSIA de JoÃo de Barros 

mui contente da vinda d'outro Governador , 
e ida de Affoníb d' Alboquerquc , por lhe 
ter dado o fer deRey, (como atrás efe re- 
vemos ; ) e mais deteve-fe elle tantos dias 
em fe ir ver com Lopo Soares , moítrando 
não ferem todos infeiices pêra as taes vif- 
tas , fegundo lhe diziam feus agoureiros , 
que enfadado Lopo Soares de efperar por 
elle, quando fe viram, não lhe moftrou o 
gazalhado, nem fez aquellas ceremonias de 
cortezias , que lhe Affoníb d'Alboquerque 
coftumava fazer. Porque alam de Affonfo 
d'Alboquerque ter per condição huma fa- 
cilidade no agazalhar , e tratar as peíToas 
per artificio de negocio , íabia contentar 
aqueiles , de que tinha neceífidade, princi- 
palmente BIRey de Cochij , que havia mif- 
ter ter contente pêra bom , e breve defpa- 
cho da carga da efpeciaria. A qual condi- 
ção era pelo contrario em Lopo Soares, 
por fer hum homem grave , e fevero , que 
fe dobrava mal a eftes artifícios de compra- 
zer. E he tão prejudicial , e cuftofa efta íè- 
veridade , e feccura naquelles que hão de 
governar, que mais perdem em feus negó- 
cios , do que ganham de authoridade em 
fuás peíToas ; porque a facilidade , ainda que 
feja pródiga no acolhimento das partes , fem- 
pre ganhou o animo de muitos ; e a feve- 
ridade avara de autos , e palavras fempre 

per- 



Década III. Liv. L Cap. I. 9 

perdeo com todos. Do modo do qual tra- 
tamento , aíli nefta , como em outras vezes 
que EIRey de Cochij íe vio com Lopo 
Soares , dizia entre os feus , e aíli a alguns 
officiaes da Feitoria d'ElRey , de que íè 
elle moítrava amigo : Lopo Soares trata- 
nte d fua vontade , e por ijjb eu farei a 
minha na Feitoria d* EIRey de Portugal y 
e Affonfo d?Alboquerque tratava-me d mi- 
nha , e por ijjb fazia quanto queria em 
meu Reyno. PaíTados os primeiros dias da 
chegada de Lopo Soares , veio D. Garcia 
de Noronha ? que (como atrás efcrevemos ) 
Affonfo d'Alboquerque efpedíra de Ormuz 
com poderes de Governador , pêra fazer a 
carga das náos , e fe vir pêra efte Reyno 
com ella. Por razão dos quaes poderes 9 e 
qualidades de fua peflba , não fabendo ain- 
da a nova da morte de feu tio Affonfo d' Al- 
boquerque , querendo elle ordenar , e man- 
dar nas coufas da carga , houve entre elle , 
je Lopo Soares alguns defgoílos , e muito 
maiores com a nova 3 que Simão d' Andra- 
de levou do falecimento de Affonfo d 5 Al- 
boquerque , que não tardou muitos dias. 
Porque chegando Simão d' Andrade mais em- 
bandeirado , do que convinha a hum ho- 
mem , que leixava feu Capitão morto , Lo- 
po Soares orecebeo com tanto prazer, co- 
mo elle trazia nas bandeiras > e artilheria que 

ti- 



io ÁSIA de João de Barros 

tirou, que não pareceo bem a muitos. Pê- 
ro que alguns, que iílo não louvaram a Si- 
mão (TAndrade , por lua parte depois odef- 
culpavam , dizendo 5 que tinha razão de pa- 
rentefeo com Lopo Soares , e de AíFonfo 
dWlboquerque muitos aggravos. Das quaes 
coufas, e d'outras deita qualidade fe cau- 
fou , que confiado D. Garcia nos méritos 
de lua peífoa, e aborrecido do modo que 
Lopo Soares tinha no feu defpacho , por 
não haver mais deígoftos , fe partio pêra 
eííe Reyno , trazendo ainda paioes vazios 
de pimenta na fua náo. E em fua compa- 
nhia vieram por Capitães das outras Pêro 
Mafcarenhas , D. João d'Eça , Jorge de 
Mello Pereira, Franciíco Nogueira; e aíll 
veio huma grande camada de Fidalgos , e 
cavalleiros , que naquelle tempo eram a flor 
da índia , creados na efeola do Vifo-Rey 
D. Franciíco d' Almeida , e de AíFonfo d' Al- 
boquerque, em cujo tempo os homens ti- 
nham por honra os meios per que fe ella 
ganha , e não tratos per que fe adquire 
fazenda , que dalli por diante fe começaram 
níar mui foltamente : com que as coufas do 
cftado da InJia tomaram hum termo, de- 
clinando mais em cubica de huma coufa , 
que da outra , com que eílam poftas no que 
ora vemos. Defpachadas eftas náos pêra ef- 
te Reyno > onde chegaram a falvamento, 

tor- 



Década III. Liv. L Cap. I. ri 

tornou-fe Lopo Soares pêra Goa , e de ca- 
minho paíTando per Calecut , fe vio com o 
Çamorij ; nas quaes viftas que foram fora 
da fortaleza , houve pouca detença poios 
agouros d'E!Rey , de que fe elles ás vezes 
fervem por defculpa de fuás defconfianças. 
Do qual porto Lopo Soares efpedio Simão 
d 5 Andrade em hurna náo groíTa , que foffe 
a Baticalá carregar de mantimentos , e os 
levaífe á Cidade Ormuz , por eftar desfale- 
cida delles ; e em o modo de contratar com 
a gente da terra , eftando Simão d 5 Andra- 
de recolhendo eftes mantimentos , fe levan- 
tou hum arroido , em que foram mortos 
dos noííos obra de vinte e quatro peíToas. 
Lopo Soares vindo feu caminho pêra Goa , 
e fendo fabedor deíle calo per Jorge Maf- 
carenhas , que dle topou ao monte Delij , 
chegado a Baticalá , tomou por fatisfação 
delíe entregarem-lhe os da terra dous Mou- 
ros velhos , dizendo ferem elles authores do 
arroido , que caufou aquellas mortes. E por- 
que AíFonfo d 5 Alboquerque trazia a mão 
fobre a cabeça dos Mouros mais afpera em 
fatisfação de qualquer fangue que derrama- 
vam noífo , não recebeo a gente bem efta 
diílimulação de Lopo Soares ; porque co- 
mo os Mouros são manhofos , algumas ve- 
zes commett.efn eftes crimes por tomarem 
experiência &a condição do novo Capitão j 

e quan- 



12 ÁSIA de João de Barros 

e quando vem que não acode com ferro a 
cites primeiros deímandos, tomam licença 
pêra commetter maiores iníultos. Chegado 
Lopo Soares tanto avante como Anquedi- 
va já no mez de Fevereiro , onde fe aco- 
lheo com hum tempo que lhe deo , palia- 
do elle , eípedio dalli D. Aleixo de Mene- 
zes filho do Conde de Cantanhede por Ca- 
pitão mor de cercas velas , mandando-lhe 
que déiTe huma vifta á cofta de Arábia , e 
íòubeíTe alguma nova da Armada dos Ru- 
mes, edahi fe folie invernar a Ormuz. Em 
companhia do qual foram eftes Capitães , 
Chriítovão de Brito, Francifco de Távora, 
D. Álvaro da Silveira , D. Diogo leu ir- 
mão , Nuno Fernandes de Macedo , Álva- 
ro Barreto , João Gomes Cheira-dinheiro.- 
O qual D, Aleixo por achar os tempos con- 
trários por ir já hum pouco tarde, não po- 
de andar naquella coita da Arábia , e foi 
invernar a Ormuz , onde aíTentou algumas, 
coufas da terra , e aííocegou o animo dos 
Mouros , vendo a gente que levava ; por-* 
que pela morte de Aífonfo cPAlboquerque , 
que os mettêra debaixo do noíTo jugo, or- 
denavam de fe livrar delle . como fizeram , 
fegundo veremos a feti tempo. Affi que nef- 
ta viagem não fez D. Aleixo mais , que fe- 
gurar as coufas da Cidade , e fortaleza nof- 
fa y e trabalhar affi per terra. , como per mar , 

(per 



Década IÍL Liv. I. Cap. L e II. 13 

(per meio de alguns Mouros que ElFvey 
de Ormuz a iffo mandou) faber o eítado 
da Armada , que o Soldão mandava á ín- 
dia , de que havia differentes novas ; e com 
as mais certas que per eíte modo pode ha- 
ver, tanto que o tempo deo lugar, íe par- 
tio pêra a índia. 

CAPITULO II. 

Como Lopo Soares , ãefpackado Fernão 
Peres com huma Armada pêra a China , 
pelo recado que lhe EIRey D. Manuel man- 
dou dejle Reyno da Armada que o Soldao 
do Cairo fazia pêra a índia , elle Lopo 
Soares partio com huma grojja frota pêra 
o mar Roxo em biifca dejia Armada. 

DEpois que Lopo Soares deo aquella 
vifta ás fortalezas da coíla Malabar, 
e mandou prover a de Ormuz , aííi per Si- 
mão d' Andrade , como per as náos de Dom 
Aleixo , deteve-fe ern Goa os dias necefía- 
rios , em quanto deo ordem ao governo da 
Cidade , e de il tornou-fe a Cochij ter o 
inverno , no qual tempo defpachou Fernão 
Peres d'Andrade pêra fazer fua viagem á 
China , da qual adiante faremos relação. E 
em todo aquelle inverno , aííi em Cochij , 
como nas outras fortalezas , mandou fazer 
grandes apercebimentos pêra como vieííe o 



14 ÁSIA de JoXo de Barros 

verão partir pêra o mar Roxo, por cita fer 
a coufa em que lhe EiRey mandava primei- 
ro entender. E a mais principal obra que 
mandou fazer foi acabar certas galés , e 
navios de remo , que AfFonfo d'Alboquer- 
que já tinha principiado , aífi em Calecut , 
como em Cochij , por ferem os mais pro- 
veitofos navios pêra navegação do eítreito 
do mar Roxo , onde elle elperava tornar. 
Andando no qual apercebimento , fobreveio 
chegar huma náo deite Reyno , Capitão , e 
Meítre hum Diogo d 5 Unhos, homem dili- 
gente nas coufas do mar , o qual partira 
deite Reyno a vinte e quatro de Abril do 
anno de quinhentos e dezefeis ,. depois de fer 
partida a Armada que aquelle anno EIRey 
defpachou pêra a índia. E teve tanta dili- 
gencia , e dita em fua navegação , que che- 
gou primeiro hum mez que as náos que 
partiram ante delle. A caufa da qual parti- 
da foi por vir recado a EiRey per via de 
Rodes , como o Soldão do Cairo tinha fei- 
to huma groíTa Armada em o porto de Suez 
do mar Roxo, a qual eítava de todo pref- 
íes pêra partir pêra a índia. E poíto que ao 
tempo que elle Lopo Soares partio deite 
Reyno , fe dizia deita Armada , e EIRey 
lhe mandava que entraífe no mar Roxo , não 
fe havia a nova por tão certa , nem fe fa- 
bia o número de vélas^ e outras particula- 

ri- 



Década III. Liv. I. Cap. II. t? 

ridades que per efte Diogo d 5 Unhos EIRey 
mandava dizer a Lcpo Soares , e o que íb- 
bre ilío logo fizeííe. Per o qual Diogo d'U- 
nhos foube , que ante delle eram partidas cin- 
co náos , de que era Capitão mor João da 
Silveira , Trinchante d'ElRey D. Xvlanuel , fi- 
lho de Fernão da Silveira , e os Capitães 
das outras eram Affoníb Lopes d'Acofla fi- 
lho de Pêro d'Acofta de Tomar, e Garcia 
d 5 Acoita feu irmão , e António de Lima fi- 
lho de Francifco Ferreira , e Francifco de 
Soufa Maneias de alcunha , filho de Jorge 
de Soufa. Dos quaes os primeiros dous che- 
garam á índia hum mez depois de Diogo 
d'Unhos , c os outros fe perderam nos bai- 
xos de S. Lazaro , de que fomente efeapou 
Francifco de Soufa , e a fua gente. E João 
da Silveira com maftos quebrados efeapou 
milagrofamente daquelle temporal , que cau- 
fou invernar aquelle anno ern Quiloa. Lo- 
po Soares como vio o tempo paliado em 
que eítas três náos que faleciam podiam ir 
á índia , parecendo-lhe que invernavam em 
Moçambique , fem faber a fortuna que paf- 
fáram , enviou a Rodrigo Eanas em hum 
navio que as vieflè bufear 5 mandando dizer 
aos Capitães que o foíTem efperar á Ilha 
Çocotorá , por quanto elle feria com elles 
em tal tempo , dando-Ihe conta do que lhe 
£lRey mandava fazer por razão da Arma- 
da 



i6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

da do Soldao. Eípedido cílc navio a grão 
prcfla , deo carga a quatro náos que cite 
anuo vieram com especiaria , que lhe deram 
algum trabalho , por falecer neíie tempo 
Diogo Mendes de Vafconcellos , que fervia 
de Feitor , e Capitão de Cochij , dos quaes 
cargos proveo a Lourenço Moreno de Fei- 
tor , por o fervir dantes , e de Capitão a 
Aires da Silva. Ficando Lopo Soares des- 
pejado do defpacho deitas náos , fendo já 
a efte tempo chegado D. Aleixo de Ormuz , 
onde invernou , per o qual foube mais par- 
ticularmente da Armada do Soidão fer par- 
tida do porto de Suez , fe partio de Cochij 
pêra Goa. Onde por já ter providas todalas 
coufas i aíll as neceflarias pêra fua viagem , 
como pêra guarda das fortalezas da índia , 
fe deteve oito dias fomente, e partio daíli 
aos oito de Fevereiro do anno de quinhen- 
tos e.dezefeis, levando huma frota de trin- 
ta e fete velas entre náos de alto bordo , 
galés , e galeotas , navios latinos, e outros 
de. remo. Os Capitães das quaes eram Dom 
Aleixo de Menezes, D. João da Silveira, 
e D. Álvaro feu irmão , Jorge de Brito , e 
Lopo de Brito feu irmão , AíFonfo Lopes 
jd 5 Acoita , e Garcia d'Acoíla feu irmão , Dom 
Gonçalo Coutinho , Francifco de Távora , 
<íaípar da Silva, Antão Nogueira, Álvaro 
Barreto , Aires da Silva , Gonçalo da Sil- 
vei- 



Década III. Liv. I. Cap. II. 17 

veira 5 Pêro Lopes de Sampayo , Duarte de 
Mello , António Ferreira , Jeronymo de 
Soufa , Pêro Ferreira , António de Miran- 
da d' Azevedo , António d'Azevedo , Fer- 
não Gomes de Lemos , Chriftovão de Sou- 
fa , João de Mello 3 D. Álvaro de Caítro , 
Diniz Fernandes de Mello , Lopo de Vil- 
la-lobos , Francifco de Gá , Lourenço de 
Coime , João d\Ataide , Gomes de Souto- 
maior, Lourenço Godinho, Baílião Rodri- 
gues , Fernão de Rezende , António Rapo- 
10 , Diogo Pereira , João Fernandes Mala- 
bar , e João Gomes Cheira-dinheiro. Na 
qual frota levaria mil e duzentos homens 
Portuguezes , e oitocentos Malabares , a 
fora a gente do mar que feriam outros oi- 
tocentos. Chegado Lopo Soares á Ilha Ço- 
cotorá , do dia de fua partida a vinte dias 
não fez mais detença que em quanto tomou 
agua , e lenha , fem nella achar recado das 
náos que mandara bufear, e dahi fe partio 
pêra a Cidade Adem , onde o Capitão Mi- 
ramirzam , que a defendeo a AíFonfo d'Al- 
boquerque , (como atrás eferevemos , ) o re- 
cebeo com muita fefta , mandando-lhe logo 
entregar as chaves delia , e dizendo que a 
queria ter em nome d'EÍRey de Portugal ; 
eque outro tanto fizera elle a Affonío d\Al- 
boquerque , fe fora homem de alguma boa 
conclusão \ mas como era mais amigo da 
Tom.ULP.L B guer- 



18 ÁSIA de João de Barros 

guerra que da paz , não quizera acceitar 
nenhuma de quantas coufas lhe offereceo , 
e por iflb determinou de fe defender delle ; 
c outro tanto fizera dos Rumes , que pou- 
cos dias havia que eram partidos dalli bem 
efcalavrados. A caufa deite Mouro tão le- 
vemente fazer eíla offerta a Lopo Soares , 
foi temendo tão grande frota , e não fe atre- 
via a defender a Cidade com hum pedaço 
do lanço do muro em terra , que lhe der- 
ribou Raez Soleimão Capitão mor da Ar- 
mada doSoldao, que Lopo Soares hia buf- 
car, o qual havia pouco que fe dalli fora, 
edera huma bateria á Cidade , com que lhe 
derribou aquelle lanço do muro, e recebido 
muito damno fe tornou recolher pêra den- 
tro das portas do eftreito 3 do qual logo da- 
remos razão, Lopo Soares vendo a facili- 
dade com que eíte Mouro lhe entregava a 
Cidade , fez fundamento de á tornada tomar 
pofle delia , por lhe parecer que leixando 
logo aíli alguma gente , ficava com mais 
pouca pêra comrhetter a Armada do Sol- 
dão : cá repartindo-fe em duas partes , fica- 
ria fem forças pêra cada huma delias, e po- 
dia perder ambas cilas emprezas. Finalmen- 
te por nao dar lugar a que a Armada do 
Soldão foíTe aviíada de fua ida , não fe de- 
teve mais que em quanto o Capitão da Ci- 
dade lhe mandou re|relco de mantimentos 

da 



Década III. Liv. I. Cap. II. 19 

da terra , e lhe deo quatro Pilotos pêra" a 
navegação daquelle eftreito. E efpedido del- 
le fe partio pêra o eftreito, mandando dian- 
te alguns navios de remo , que lhe foíTern 
Tomar qualquer vela que achaílem nas por- 
tas do eftreito , por não fer fabida fua ida ; 
os quaes navios , quando elle chegou , ti- 
nham tomado três velas 5 a que chamam mar- 
ruazes. E parece que D. Álvaro de Caftro 
filho de Eftevao de Caftro Capitão de hu- 
ma galeota que tomou hum deites , carre- 
gou-íe tanto de roupa que achou nelle , que 
com hum pouco de vento que fe aquella 
noite levantou, a fez foçobrar fem fe fai- 
var peífoa alguma. E entre as denorne que 
fe alli perderam com D. Álvaro, (que per 
todos feriam quarenta.) foi Jorge Galvão 
filho de Duarte Galvão , que hia alli por 
Embaixador pêra o Prefte João. E aíli fe 
perdeo a náo , Capitão António Rapofo , em 
que hiam trezentos e tantos Malabares , e 
fete, ou oito Portuguezes com toda a pe- 
dra , e cal que levavam pêra a fortaleza , 
que Lopo Soares mandava fazer em a Ilha 
Camaram , ou onde lhe melhor pareceífe , 
conforme a tenção d'E!Rey D. Manuel. Ao 
feguinte dia , que eram dez de Março , paf- 
fada a noite , em que fe perderam eftas duas 
velas , foi o vento tão furiofo , que defap- 
parecêram a náo S.Pedro, Capitão D. João 

B ii da 



20 ÁSIA de João de Barros 

da Silveira, em que hia o Embaixador Mat- 
theus , e a do Capitão Diogo Pereira , em 
que hiam trezentos Malabares , e muitas 
munições , da fortuna dos quaes veremos 
adiante. Lopo Soares , paliada a fúria do 
vento , mandou tomar as velas , por eípe- 
rar eftas quatro peças que achava menos da 
fua frota ; e quando vio que tardavam fem 
faber de fua fortuna ; pareccndo-lhe que to- 
das quatro feguiriam huma conferva , por 
ter dado regimento geral do que cada hum 
havia de fazer apartando-fe delle ; feguio 
fua derrota via da Ilha Gamaram , peró que 
tiveiTe já nova em Adem ferem os Rumes 
partidos dalli , temendo que como os Mou- 
ros fempre faliam pouca verdade , podia ain- 
da alli eftar alguma parte da Armada dei- 
les. E chegando na paragem da Ilha á vif- 
ta delia , mandou duas caravelas que lhe 
foffem faber feeftavam alli, as quaes trou- 
xeram recado não haver já rafiro delles-, 
com a qual nova poz o roílro no caminho 
da Cidade Judá , em que teve afias traba- 
lho ; porque faltaram os ventos por davan- 
te que o detiveram doze dias por entre mui- 
tos baixos de Ilhas > que traziam os Pilo- 
tos aflbmbrados , e canfados de andarem 
todo o dia com a fonda na mão , por fe 
não fiarem muito na pilotagem dos Mou- 
ros que levavam. Andando no qual traba- 
lho, 



Década IIL Liv. I. Cap. II. if 

lho , veio dar na Armada hum barco pe- 
queno , a que os Mouros dahi chamam ge- 
]ua , em que vinham certos homens Chri- 
ftãos , os mais delles Venezeanos , e os ou- 
tros daquellas partes de Itália todos Offi- 
ciaes mecânicos da obra do mar, os quaes 
vinham fugidos de Judá da Armada dos 
Rumes 5 e deram novas do eftado em que 
ficavam , " e que elles foram tomados per 
mandado do Soldao em o porto de Alexan- 
dria de algumas náos que alli eftavam fa- 
zendo fua mercadoria. Lopo Soares depois 
que foube delles o que defejava faber do 
fitio , e porto da Cidade , e eftado em que 
ficava a Armada delles , os mandou repartir 
per as náos da frota , os quaes alvoroçaram 
tanto aos noffos com o que contavam da 
pouca força dos Mouros , que com efte pra- 
zer fobreveio bom tempo , que poz a noíTa 
frota em poucos dias no porto de Judá. Do 
íitio da qual , e affi do principio , e funda- 
mento defta Armada do Soldao , e do que 
paliou depois que fe armou , e partio do 
porto de Suez té fe pôr no eftado em que 
eftava , faremos relação nefte feguinte Capi- 
tulo. 



CA- 



22 ASIÀ DE JoÂO DE BARROS 

CAPITULO III. 

Em que fe defcreve o Jitio da Cidade Ju- 

dá : e o fundamento de huma Armada , 

que o Soldã.o tinha enviado por Raez 

Soleimao feu Capitão mor , que ef- 

tava naquella Cidade Judd. 

A Cidade Judá , ( ou Gidá , como lhe al- 
guns Arábios chamam , ) eftá fituada 
na terra de Arábia Félix , em altura do Nor- 
te de vinte e hum gráos e meio , o qual 
imo he mui eíleril , fem ter em íi hum ra- 
mo verde, por toda a fua ribeira fer hum 
trifte areal 5 e a. terra efcampada fem ampa- 
ro dos ventos Nortes , e Nordeftes , que a 
efcaldam. E pêro que a terra per natureza 
feja tão eíleril depois da morte de Maha- 
med, que Meca ficou por cafa de fua abo- 
minação , que fera deite lugar té doze lé- 
guas , povoaram os Mouros efta Cidade , 
por fer porto conveniente pêra os feus fe- 
cazes , que habitaram todas aqueilas partes 
da entrada , e fahida daquelle mar Roxo; 
e afíi por caufa do commercio da efpecia- 
ria, que por fer a meio caminho daquelle 
eílreito , fizeram a tal efcala. Verdade he que 
dizem os Couros , que no próprio lugar 
houve já huma Cidade nobre , donde^lguns 
dos noflbsj que entendem em as cotifas de 

Geo- 



Década III. Lrv. I. Cap. III. 23 

Geografia , querem dizer que eíia Cidade fera 
aqueila a que Ptolomeu chama Badeo regia , 
a qual opinião nós não approvamos. Por- 
que a terra he tão efteril , e fecca ? quea agua 
que bebem de huns poços lhe vem dahi a 
fete léguas de hum lugar chamado Beni- 
haçan , e he tão cara na Cidade , que euf- 
ta huma carrega de camelo delia hum quar- 
to de cruzado ; e fe acerta de concorrer 
muita gente no tempo que peralli paíía al- 
guma Armada do Soldão , vai huma carre- 
ga hum cruzado. E mais toda aqueila Co- 
marca he meia deíèrta , donde parece ler 
coufa novamente povoada dos Mouros 5 por 
fer tão vizinha á íua caía de Meca ; e por 
authorizarem mais o lugar 5 dizem fer cou- 
fa mui antiga , e moílram fora da Cidade 
hum monte , em que dizem eftarem fepul- 
tados Adão , e Eva. A Cidade Badeo , de 
que Ptolomeu falia , a noíTo parecer , he hu- 
ma povoação que eftá mais a baixo em al- 
tura de vinte gráos , em que elíe íitua Ba- 
deo , ao qual lugar chamam os Mouros Xe- 
refem , onde ha muita cópia de agua , e ain- 
da hoje apparecem duas torres antigas da 
grande povoação que alli foi. Elogo mais 
adiante eftá outra Cidade chamada Confutá , 
coufa mui antiquiífima , e em que appare- 
cem letreiros , que ninguém fabe ler , e ora 
he mui célebre por o fertad delia come- 
çar 



24 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

?:ar dalli por diante a fer mui povoado de 
ligares, o que aterra atrás não tem. E tor- 
nando á efteriljudá, o porto delia he hum 
pouco brigofo pêra quem a quizer deman- 
dar com mão armada , por não poderem 
chegar a elle per efpaço de huma grande 
légua com baixos , e reítingas que tem , per 
os quaes não pode andar em muitas partes 
hum batel , e de maré vazia fica huma praia 
de arêa , per que podem paflear. Somente 
tem hum canal per que a Cidade fe fer- 
ve , da figura defta letra S , ficando a po- 
voação no fim da ponta de cima , e á en- 
trada do canal em a de baixo 3 e todo o 
outro circuito he cheio dos baixos que dif- 
femos. A Cidade parte delia he de boas 
cafas de pedra , e cal , e o demais de tai- 
pa , e barro ; e havia pouco tempo que com 
temor noíFo da parte do mar tinha come- 
çada huma cerca do muro. E no principio 
delle y quando entram por o fegundo coto- 
velo , que a terra faz , tinham feito á ma- 
neira de baluarte , em que eílava affentada 
alguma artiíheria pêra oíFender a quem qui- 
zefie ir avante. A maior parte dos mora- 
dores da qual Cidade eram mercadores , por 
razão das mercadorias que alli concorriam , 
aílí per entrada , como fahida , e a outra 
gente era dos Alarves da terra , e todos vi- 
viam atemorizados dos Baduijs do campo , 

que 



Década III. £iv. I. Cap. III. 2? 

que ás vezes de fobrefalto entravam a Ci- 
dade , e faziam damno por a roubar ante 
que ella foffe cercada. A qual cerca do mu- 
ro fez MirHocem, o Capitão do Soldão, 
que D. Francifco cPAlmeida Vifo-Rey da 
índia desbaratou em Dio, (como atrás el- 
crevemos.) E porque efte feu desbarato não 
fomente cauibu cercar elle eíla Cidade , mas 
ainda fazer o Soldão outra Armada contra 
nós , que era aquella que alli eftava , fera 
neceflario fazer relação de tudo pêra melhor 
entendimento da hiftoria. Mir Hocem ven- 
do-fe que com aquelle desbarato de Dio fi- 
cava fora do eílado , e poder com que en- 
trou na índia 3 poílo que na morte de Dom 
Lourenço , e feito de Dabul tinha bem fer- 
vido ao Soldão , e na boca dos Mouros da 
índia , e Cairo era louvado de cavalleiro , 
e Capitão , não oufou de tornar naquelle 
eílado ante a prefença do Soldão. E como 
era homem prudente , cuidando no modo 
que teria pêra fe reftituir na graça delle , 
achou que nenhum Hie feria mais leve , e 
fácil que eíle , fimular zelo de virtude, ca- 
pa que cobre interefles próprios ; e foi def- 
ta maneira. Per algumas vezes que teve prá- 
tica com Melique Az Capitão de Dio , e 
aíli com EIRey de Cambaya , e outros feus 
Capitães , fez-lhes crer , que fegundo noíTas 
Armadas andavam fenhoras daquelles ma- 
res. 



26 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

res , nao feria muito commettermos a en- 
trada do mar Roxo, e tomarmos a Cida- 
de Judá, porto muito perto per que podía- 
mos ir a Meca , e dahi a Medina roubar 
o corpo do fcu profeta, e o termos em nof- 
io poder ao modo que elles tinham a Ci- 
dade Jerufalem, que era acafa detodanoífa 
crença , cuja romagem era hum dos maiores 
rendimentos que o Soldão tinha. E porque 
elle fentia que por feus peccados Deos lhe 
dera aquelle caíligo em o desbaratarmos, 
por feu ferviço , e de feu profeta Mahamed , 
elle fe queria difpôr a cercar de muro a Ci^ 
dade Judá, e fe pôr nella té acabar aquel- 
la obra , e a defender , fe lá quizeffemos 
entrar , e pêra iífo havia logo de mandar 
recado ao Soldão que lhe mandaífe ofFiciaes , 
que lhe ajuda ífem fazer eíla obra. Pêra a 
qual , per via de petitorios aíli d'ElRey de 
Cambaya , como de Melique Az , e de mui- 
tos nobres , ajuntou tanta efpeeiaria , rou- 
pas , e outras mercadorias de Cambaya , 
que carregou três náos, dando todos como 
quem fazia efmoia muiacceita a Deos , por 
fer em defensão do corpo do feu Maha- 
med.- Finalmente chegado Mir Hocem com 
eílas três náos a Judá em companhia dou^ 
trás náos de mercadores , foi recebido com 
grande feita , e prazer de todos, fabendo 
o propofito que levava ; porque cercando 

el- 



Década "III. Liv. L Cap. III. 27 

elle a Cidade , não fomente ficava fegura 
de noíías Armadas , mas do concurlò dos 
Mouros Baduijs do campo , que os avexa- 
vam. E por fe reconciliar com o Soldão , 
eícreveo-lhe logo corno começava pôr mãos 
á obra , na qual não fomente tivera refpei- 
to ao ferviço de Deos , mas ainda ao feu ; 
porque com cercar aquella Cidade , elle a 
legara va de nós , por andarmos mui fenho» 
res de todos aquelles mares , e portos da 
índia , e mais dos alarves do campo ; e fo- 
bre tudo ficava ella com hum jugo pêra fe 
não rebelar mais contra elle , como muitas 
vezes tinha feito. Cá fua tenção era , tanto 
que cercaíTe a Cidade, fazer huma fortale- 
za pêra a fojugar ; e não começava logo 
nelia , por não dar fufpeita de fua tenção 
aos moradores , e poder-lhe-hiam ir á mão 
a iílò em quanto elle não tinha mais gen- 
te comfigo : por tanto lhe pedia que o pro- 
ve ÍTe com officiaes , e gente , que dinheiro , 
e cabedal elle vinha provido pêra toda obra , 
e os mercadores da Cidade queriam contri- 
buir té fe de todo acabar. Finalmente com 
eíles , e outros enganos tanto adoçou o ani- 
mo do Soldão , que o provêo logo ; e mais 
mandou com muita diligencia fazer outra 
Armada no porto de Suez , pêra nella tor- 
nar a mandar elle Mir Hocem á índia. Acon- 
tecea, que andando efte .Mir Hocem na obra 

dos 



28 ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

dos muros da Cidade , que era no tempo 
que Affonfo d'Alboquerque fazia a fortale- 
za de Calecut , veio ter ao porto de Judá 
huma náo de Mouros carregada de merca- 
dorias , a qual partira de Calecut. E por 
razão das noflas pazes , per licença de Af- 
fonfo d'Alboquerque vinham muitos Mou- 
ros nellas pêra aflen tarem alli vivenda , os 
quaes viviam em Calecut ; e Aífonfo d 5 Al- 
boquerque por elles defpejarem a terra , lhes 
dava algumas franquezas , principalmente 
aos que levavam mulher, e filhos. Calif, 
que aífi havia nome o Capitão daquella náo , 
como era cofiumado vir da índia áquella 
Cidade com mercadorias , quando vio que 
a cercavam , por ver a obra , foi lá hum 
dia onde os officiaes andavam lavrando 
no muro , e acertou de fer em tempo que 
eftava Mir Hocem prefente ; o qual vendo 
o Mouro Calif , e Cabendo deile fer Capi- 
tão daquella náo que chegara , perguntou- 
lhe pelo noífo Capitão mor ; ao que elle 
refpondeo , que o leixava em Calecut fazen- 
do huma fortaleza. E porque elle a gabou 
de muito forte , tomou Mir Hocem diíTo 
tanto defprazer , por fer em prefença dos 
pedreiros , que lavravam no muro , que dif- 
lè contra o Mouro Calif: Porque hajas ef- 
ta por mais forte que ejja que dizes , tu , 
e os de tua náo trabalhareis aqui hum pou- 
co. 



Década III. Liv. L Cap. III. 29 

co. Eaffi como o Mouro eflava veítido bem 
tratado , e os que com elle vinham , man- 
dou acarretar pedra , e cal , e fervíram na 
obra té noite , fegundo elle depois contou 
aos noííbs quando tornou a Calecut , di- 
zendo padecer aquelle trabalho por louvar 
as couíàs dos Portuguezes. O Soldão por- 
que pêra a Armada que ordenava fazer não 
tinha madeira , por a não haver naquellas 
partes do Egypto 5 per meio (iegundo fe 
diííe) dos Venezeanos houve a das monta- 
nhas de Eícandalor , que eram do eílado 
do Turco 5 com quem elle então eílava em 
rompimento de guerra. Da paiTagem da qual 
madeira pêra Egypto foi EIRey D. Manuel 
avifado ante da partida de Lopo Soares pê- 
ra a índia ; porque hum Fr. André Cavala 
leiro da Ordem de S. João de Rodes de 
nação Portuguez, que era Confervador da 
mefma Ordem , que por parte d'ElRey 
D. Manuel fazia lá as couías deite Reyno , 
lhe mandou efta nova. E mais que o Sol- 
dão indinado de quão mal fuecedeo á fua 
Armada na índia , fazia grandes tyrannias , 
e males aos Chriftãos da Europa , que an- 
davam naquellas partes, quaíí como quem 
queria fazer verdadeiro o que tinha eícrito 
ao Papa per o Padre Fr. Mauros , que veio 
aeíteReyno, (como atrás eferevemos.) So- 
bre o qual negocio EIRey D.Fernando de 

Caf- 



30 ÁSIA de João de Barros 

Caftella mandou a eíle Soldao Pedro Mar- 
tyr , fegundo cllc conta em hum tratado 
que fez deita íua peregrinação , que anda 
impreiTo com fuás obras , e eftas mefmas 
coufas eicreveo á Religião de Rodes hum 
Cavalleiro da Ordem, Chipriano de nação , 
que também andava no Cairo; e aífi os Pa- 
dres do Mofteiro de Santa Catharina de 
Monte Sinay. As quaes novas vindas per 
tantas mãos , não fomente deram avifo a 
EIRey D. Manuel pêra melhor prover nas 
coufas da índia , mas ainda foram caufa que 
a mefma Religião de Rodes fez huma Ar- 
mada maior das que ordinariamente fazia 
cada anno , a capitania da qual deo ao di- 
to Fr. André Confervador , que depois foi 
Bailio da Ordem nefte Reyno , dignidade 
principal entre elles. Em a qual Armada en- 
travam leis náos , quatro galés , e feiscen- 
tos homens de peleja , e na paífagem da ma- 
deira da Grécia pêra Egypto deo-lhe tal vi- 
toria contra a Armada do Soldão , que fen- 
do vinte e cinco veias, em que hiam oito- 
centos Mamelucos , e outros mil homens 
de peleja , lhe metteo cinco no fundo do 
mar , e tomou féis , em que lhe matou tre- 
zentos Zvlamelucos. E a fora eíla obra , que 
Fr. André fez per íi , hum temporal que 
depois deo em as náos que ficaram, foi tal, 
que fomente eícapáram dez : parece que co- 
mo 



Década III. Liv. I. Cap. IJI. 31 

mo eíla Armada era contra Portuguezes, 
quiz Deos que hum Capitão Portuguez cc- 
meçaffe a primeira deftruição delia. Pofta a 
madeira que fe falvou defte damno em o 
porto de Suez , já lavrada no Cairo , por 
ler menos cuftofa de levar em camelos , per 
efpaço de vinte léguas , com alguns oíEciacs 
Levantiícos , que tomou das náos de toda 
Itália , que eftavam em Alexandria 3 em bre- 
ve acabou vinte e fete velas. No qual tem- 
po com fama deita Armada 3 que o Soldão 
queria mandar á índia , fe veio a feu fer- 
viço hum coífairo , que tinha grande nome 
naquelle arcipelago das Ilhas de Grécia, 
do qual queremos fazer particular -relação , 
por fer o que eftava enijudá, quando Lo- 
po Soares chegou. E também por caufa 
d'outro que andava com elle , com o qual 
havemos de continuar parte deíla nofia his- 
toria , por fer aquelle Coge Sofar o da Ci- 
dade Dio , peífoa principal na morte d' El- 
Rey de Cambaya em tempo do Governa- 
dor Nuno da Cunha , como fe verá em feu 
lugar, porque fe veja de quão pequena for- 
tuna os homens vem a grandes eftados. Se- 
gundo foubemos per peífoas , que andaram 
em companhia defte Capitão Raez Solei- 
mao , de que queremos falíar , elle era na- 
tural de huma Ilha do arcipelago chamada 
Mitylcne , homem de baixa forte , Turco 

de 



32 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

de nação , cujo officio era carpinteiro de 
navios , e fuílas , o qual por fer homem de 
efpirito quiz tentar a fortuna, mettendo-fe 
a furtar em huma fulla que fez per fuás 
mãos ; e deo-íè-lhe tão bem o officio , que 
veio ter nome de coífairo entre os feus , já 
com numero de oito fuílas , féis próprias , 
e duas d'outros que fe chegaram a eJle. Lan- 
çado daquellas partes da Turquia , corno 
encartado , poios queixumes que delle fa- 
ziam ao Turco , veio ter á cofta da Ilha 
de Sicilia , onde tomou huma galeota que 
logo efquipou. PaíTado daqui a coita de Ná- 
poles , topou féis galés , quatro do mefmo 
Keyno , de que era Capitão hum Bifcainho 
de alcunha Villamarim , que alli andava a 
foldo , e duas de Genoezes , Capitães dous 
irmãos , cujo appellido era Gobo ; das quaes 
galés havendo elle viíla , poz-fè em fogida 
á força de remo. Villamarim tanto que lhe 
vio fazer volta , começou de o feguir com 
fuás quatro galés, e adiantáram-fc nefte al- 
canço duas delias tanto, que veio Soleimao 
a fazer volta fobre elles , e as tomou , e 
com ellas as outras duas , onde Villamarim 
foi prezo j e as dos Genoezes por ferem 
mais vagarofas neíla feguida , fe falvãram. 
Havida efta vitoria , ficou Soleimao tão po- 
derofo, que andou naquella coita d 5 Apulia 
fazendo muito damno. No qual tempo en- 
tre 



Década III. Liv. I. Cap. IIL 33 

ire alguns cativos houve hum moço natural 
da Cidade Brinde , filho de hum António 
Britime Albanês de nação , e de huma Ma- 
ria Afria natural da me ima Cidade , o qual 
depois houve nome Coge Sofar , aquelle que 
diífemos. Finalmente cem as tomadias elle 
Soleimao ficou tão poderoíb , que determi- 
nou de fe ir pêra o Soldão em ódio do Tur- 
co , com fundamento de o fervir naquella 
empreza da índia. E com efte apparato de 
velas fe foi ao porto de Alexandria , e dal- 
li aíTentou fuás coufas com o Soldão , dan- 
do-lhe a capitania mor da Armada que ti- 
nha feito em Suez ; poílo que té fua che- 
gada fempre fe fez com voz que Mir Ho- 
cem havia de tornar á índia nella. Leixan- 
do elle Soleimao todalas fuás velas reparti- 
das per os Capitães , que lhe ajudaram ga- 
nhar aquella honra , fe metteo em duas ga- 
lés fomente , mui bem efquipadas , levando 
mais de cincoenta cativos ? todos officiaes de 
obra do mar , ao qual o Soldão recebeo 
com honra 5 e oefpedio logo que foííe to- 
mar poííe da Armada 5 que eram vinte e 
fete velas , entre galés , galeotas 5 e náos de 
alto bordo pêra mantimentos , e munições % 
em que iriam té três mil homens , muita 
parte delles Mamelucos , Arábios, e alguns 
arrenegados artilheiros. Com a qual frota 
elle partio do porto de Suez, e foi fazeis 
Tom. III. P.L C do 



34 ÁSIA de JoÃo de Barbos 

do fuás efcalas té chegar a Adem , levando 
de Judá em lua companhia Mir Hocem , 
como fegunda peííoa da frota per ordenan- 
ça do Soldão. O Rey de Adem' tanto que 
íòube per o feu Capitão Miramirjao , que 
tinha na Cidade , a vinda defta Armada, 
partio a grão prefla da Cidade Elhach , que 
he a cabeça do feu Reyno ; e com grande 
número de Arábios que trouxe , fe metteo 
nella pêra a defender. E peró que Raez 
Soleimão lhe deo bateria de maneira que 
derribou o lanço do muro que os noílos 
viram , quando per alli paliaram , queren- 
do os Mamelucos entrar per combate , foi 
tanta a mortandade nelles , que conveio a 
Raez Soleimão apartar-le daquelle commet- 
timento , e meio desbaratado fe tornou re- 
colher pêra dentro do eftreito á Ilha Gama- 
ram. Na qual o Soldão lhe mandava que 
fizeíTe huma fortaleza , quando não tomaífe 
Adem , porque dalli poderia fazer a guer- 
ra á índia té que lá houveíTe outra coufa , 
em que pudeííe eftar feguro de noíías Ar- 
madas. Foftos na obra da fortaleza , cujo 
muro tinha vinte e oito pés de largo , em 
quanto nella trabalhava a gente commum , 
ordenou Raez Soleimão de entrar dentro 
na terra firme , e tomar huma Cidade cha- 
mada Zeibid 5 porque a gente que alli ti- 
nha era muita > e gaftava-lhe os mantimen- 
tos j 



Década III. Liv. I. Cap. III. 3? 

tos ; e quando nefte caminho não fizefle mais 
que trazer alguns , ifto tomaria polo traba- 
lho delle. Finalmente ficando Mir Hocem 
com toda a Armada fazendo, a obra da for- 
taleza , Raez Soleimao entrou pola terra 
dentro com a melhor gente que tinha , e 
tomou a Cidade , que era dalli obra de doze 
léguas , na qual fe leixou eftar alguns dias , 
por achar nella muito esbulho , e por fer 
viçofa , e abaftada , era a gente má de fa- 
hir delia. Nefte tempo veio nova da Cida- 
de Judá , que o Turco em huma batalha 
que deo ao Soldao, desbaratara, e mata- 
ra ; a qual nova ainda que não fe havia por 
mui certa , folgou Mir Hocem com ella , 
por favorecer a feu propoííto. Porque co- 
mo tinha mortal ódio a Raez Soleimao , 
por lhe tirar a capitania mor daquella Ar- 
mada , e mais era Turco , e elle Cordij , 
nações que fempre eftam em ódio mortal , 
e mais no modo de mandar a frota , tinha 
recebido delle alguns defgoftos , amotinou 
a gente , dizendo : Amigos , o Soldao nojjb 
fenhor he morto , e a nós os feus vajjallos y 
que vimos nefta fua Armada , convém de- 
fendermos fua terra \ e ainda que a nova 
de fua morte naofeja mui certa 5 bajia ter- 
mos por certo as batalhas que já per ve- 
zes houve entre o Turco , e elle. E porque 
Raez Soleimao he Turco , e veio ao fervi- 

C ii £0 



36 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

ç o do Soldão fugido do Turco pelos inful- 
tos , e roubos que tem feito em fua pro- 
cria pátria , e ora com efia nova quererá 
tomar voz por elle , pêra fe reftituir na 
fua graça , em quanto fe elle anda enchen- 
do de dinheiro , c riquezas , que houve na 
tomada de Zeibid , onde elle , e os outros 
que o feguirani eftam mimofos da fertili- 
dade da terra , meu parecer he que nos va- 
mos pêra Judá , té fefaber o certo em que 
termo eftam as coufas do Soldao nofjo fe- 
nhor ; porque mrrlto mais importa ajeu fer- 
vi cofcgurar-lhe aquella Cidade , que eu 
per feu mandado cerquei com tanto traba- 
lho , e ajji fegurar ejla fua Armada , que 
euftou hum grande número de dinheiro , que 
eftarmos nefta Ilha morrendo com a pedra 
ás cofias nefta obra , que eu não hei por 
coufa importante a feu fervi ço. A gente 
como andava canfada da obra , e muita adoe- 
cia do trabalho , e roins ares da terra > e 
fobre tudo mui indinada de Soleimão , e 
dos de fua companhia , por lhe dizerem 
quanto deípojo houveram na tomada da Ci- 
dade 5 facilmente foram na opinião de Mir 
Hocem. Finalmente elle fe partio com a 
melhor parte da frota , leixando algumas 
pêra quando Raez Soleimão tornaííe ter 
embarcação , e iílo não por amor de fua 
peílba, fomente por Mamelucos que anda- 
vam 



Década III. Liv. I. Cap. III. 37 

vam com elle por ferem naturaes do Cairo. 
Raez Soleimao tanto que foube eíta parti- 
da de Mir Hocem , provida a Cidade de 
gente que alli leixou em guarnição , tornou- 
íe a Camaram , e embarcado nas velas que 
achou , foi-fe a Judá , onde Mir Hocem o 
não quiz recolher , dando por efcufa a no- 
va do desbarato do Soldão ; e que em quan- 
to não foubeffe outra coufa em contrario , 
elle o não leixaria entrar , por fer homem 
lufpeitoíb ao eftado do Soldão , poílo que 
emfeu feryiço andaífe, dando pêra iíío to- 
daías razoes que approvavam ília opinião. 
Sobre o qual negocio vieram ás armas , ao 
que acudio o Xerife Paracate , que eftava 
na cafa de Meca , que eram dalli doze lé- 
guas , o qual como homem religiofo met- 
teo a mão entre elles , e os concertou por 
efta maneira : que Mir Hocem recolheííe a 
Raez Soleimao na Cidade , e cada hum ef- 
tiveíle por Capitão da gente que tinha em 
quanto mandaflem recado ao Soldão que 
determinafle efte caio entre elles , por fe 
não ter por mui certo feu desbarato. Peró 
Raez Soleimao , depois que foi recolhido 
na Cidade , não guardou que vieíTe o tal 
recado , podo que logo defpachaffem cartas 
pêra o Soldão , porque ante de poucos dias 
manhofamente prendeo Mir Hocem com 
quanta vigia tinha fobre fi. E não oufando 

de 



3$ ÁSIA de JoAo de Barros 

de o matar , nem ter prezo , o mandou met- 
ter em huma galé 5 dizendo que o manda- 
va ao Soldão que o caftigaíTe daquelia união 
que fizera 5 e fecretamente diíTe ao Capitão 
da galé , que como foííe no mar largo que 
o JançaíTe nelle com huma pedra ao pefeo- 
ço , e aífi acabou. E porque a nova da mor- 
te do Soldao dobrou com huma batalha que 
Jhe deo o Turco ; Raez Soleimao em leu 
nome levantou bandeira per todalas tor- 
res do muro da Cidade , pofto que em ver- 
dade o Soldão não era morto nefte tempo , 
fomente tinha perdido algumas batalhas. Po- 
rém quando veio o anno de dezoito , a vin- 
te e quatro de Agoílo , o Turco lhe deo 
outra em que elíe morreo ; o qual entre os 
Mouros per excellencia fe chamava oRey, 
per efte vocábulo Soltão , que nós corrom- 
pemos em Soldão , chamado per próprio 
nome Canfor Algavri , em quem acabou 
o nome do Soldão do Cairo cabeça de to- 
do o Reyno do Egypto , o qual eftado fi- 
cou mettido na coroa da cafa Otthomana 
dos Turcos. Eílas differenças entre eftes dous** 
Capitães havia poucos dias que pairaram , 
quando Lopo Soares chegou ao porto de 
Judá; e com efta voz que Raez Soleimao 
tomou pelo Turco naquella Cidade , e pre- 
íentes que lhe mandou do defpojo de Zeibid , 
fe tornou reconciliar com elle ; e depois pa- 
gou 



Dec, IIL Liv. L Cap. III. e IV. 39 

gou a morte de Mir Hocem , como adian- 
te fe verá. 

CAPITULO IV. 

Do que Lopo Soares pajjòu no porto de 
Judd , e depois que fe dalli partio té che- 
gar a Gamaram , onde invernou , onde veio 
ter D. João da Silveira , ao qual elle Lo- 
po Soares mandou hufcar d cofia do AbaJJi. 

SUrta a nofía frota no porto da Cidade 
Judá , mandou Lopo Soares por razão 
do canal per que fe ella fervia , que era 
retorcido da maneira que diíTemos com o 
banco de arêa que tinha , que as velas de 
remo fe puzeífem diante , e as náos groflas 
na boca do canal , ficando com toda a Ar- 
mada quaíi de roftro com a Cidade j e ain- 
da que feria efpaço dehuma légua, os pe- 
louros de ferro coado , com que tiravam 
dous bafalifcos , vinham faltar entre as náos. 
E era efte banco de arêa tão baixo , que 
na vafante da maré ficava hum a praia , per 
a qual ao terceiro dia da chegada de Lopo 
Soares veio hum homem , e acenando dalli 
ás náos , mandou elle a Baílião Rodrigues 
Lagues de alcunha que em hum batel foífe 
ver o que queria. O qual era hum arrene- 
gado que failava mui bem o Hefpanhol , e 
trazia huma carta de defafio a Lopo Soares 

de 



4o ASIA de João de Barros 

de Raez Soleimão , chea de todalas rebola- 
rias que os Turcos coílumam , commetten- 
do batalha por mar , ou por terra , hum 
por hum, ou tantos por tantos, por evitar 
morte de gente. E pofto que Gafpar da Sil- 
va , e D. Affoníb de Menezes pediram a 
Lopo Soares que lhe concedeíTe a cada hum 
delles efta mercê , foi a refpofta levada ao 
Mouro , que diíTeíTe a Raez Soleimão , que 
a refpofta elle efperava de lha ir dar em 
terra. E quando veio aofeguintc dia, quaíl 
como em fatisfação de feu requerimento , 
mandou Lopo Soares a D. Affonfo de Me- 
nezes , e com elle Diniz Fernandes de Mel- 
lo em a fua galé que lhe fofle fondar todo 
o canal ; e em quanto elles ifto faziam , fo- 
ram outros Capitães com alguns bateis poer 
fogo a humas nãos , que eílavam no meio 
do canal. O qual depois de fer pofto, afli 
tomou poíTe de hum galeão , fazendo-o to- 
do em huma labareda, que parecia aos da 
Cidade que ardiam já nelle , e começaram 
de a defpejar. Raez Soleimão quando vio 
o alvoroço da gente , começou dizer : Senho- 
res , e amigos , onde vos quereis ir ? que 
temeis ? Não vedes vós que aquella gente 
ha três dias que veio , e não fez mais que 
queimar aquelle galeão que achou de [ampa- 
rado de defensão ? Se credes que ha de fa- 
hir em terra ^ ejiais enganados , porque 

quem 



Década III. Liv. I. Cap. IV. 41 

quem quer fahir em terra 5 não ha ãe quei~ 
mar o galeão , mas vir a elle ? e tomallo ; 
por tanto tomai-vos a vojjas cafas , que não 
' he aquella a gente que fe ha de pôr nejje 
trabalho. E porque os ajjombremos de cá , 
tanto quanto os ajjombram os pelouros dos 
bafalifcos que lhes lá vam fazer damno , de* 
mos-lhes huma mofira por fora dos muros , 
porque vejam que efla Cidade não efiá tão 
de f amparada como elles cuidam. Finalmen- 
te com eítas , e outras amoetfeções , eJJe poz 
toda a gente em ordenança com grande eí- 
trondo de feus tangeres , e bandeiras , e deo 
de íi moítra ao longo da ribeira ? fahindo 
por huma porta , e entrando por outra ; e 
de cima dos muros , onde todo o povo cita- 
va pofto , eram tamanhos os alaridos , que 
fendo huma légua donde os noífos citavam , 
lhes vinham eítrugir as orelhas, E de quan- 
do em quando tiravam três , ou quatro ba- 
falifcos de trinta palmos de comprido , cujo 
pelouro era de tamanho da cabeça de hum 
homem , alguns dos quaes andavam pulan- 
do entre as náos ; mas aprouve a Deos que 
andando neftes faltos como huma péla de 
vento , náo fizeram damno algum. Lopo 
Soares fabendo de D. ÀfFonfo , e de Diniz 
Fernandes como pelo canal não fe podia en- 
trar fenao com muitas voltas , e ainda que 
foíTem cm navios de remo razos corriam 

mui- 



42 ÁSIA de João de Barros 

muito rifeo , por os Mouros terem pofta a 
fua artilheria em parte que lhes faria muito 
damno ; aíTentou com alguns Capitães em 
fegredo de mandar dous , ou três dosChri-- 
ílâos cativos dos que fugiram na gelua 5 que 
foflem de noite em hum batel encravar efta 
artilheria , nas coitas dos quaes iriam outros 
bateis pêra porem entretanto fogo ás galés 
que eftavam no eftaleiro. Peró nenhuma cou- 
fa deitas houve eífeito , porque os cativos 
depois que lhes foi communicado eíte nego- 
cio 5 promettendo-lhes Lopo Soares grande 
premio fe o fizeíTem , refpondêram que 
aquillo era irem elles morrer fem fruto al- 
gum , porque a artilheria , e galés tudo fe 
velava de noite com muita gente : que feu 
parecer era pôr o peito em terra ; por ven- 
tura quando viflem os Mouros efta fua de- 
terminação 3 defpejariam a Cidade , como 
já o começavam fazer de temor fem ver 
mais que o corpo de tão formofa frota. Lo- 
po Soares com eítas coufas diílimulou per 
efpaço de dous dias 5 parecendo-lhe que o 
tempo , e o cuidado nellas lhe dariam al- 
gum modo com que cumpriíTe com a von- 
tade d'ElRey D. Manuel , fegundo o regi- 
mento que pêra efta entrada do eítreito lhe 
tinha dado. E quando foube que per toda 
a frota havia grande murmuração porque 
jiao fahia em terra, chamou a confelho to- 
do- 



Década III. Liv. I. Cap. IV. 43 

dolos Capitães , e peflbas notáveis ; e por 
fua juftificação , depois que lhes fez relação do 
que tinha feito , e confultado com alguns 
delles nos dias que eram paliados depois de 
fua chegada , mandou-lhes ler pelo Secreta- 
rio o Regimento que lheElRey dera fobre 
a entrada daquelle eftreito. ' No qual lhe 
mandava, que em nenhuma maneira com- 
metteíTe cafo onde manifeílamente a gente 
correfle perigo da vida , e outras muitas cau- 
telas , de que devia ufar , tudo por refguar- 
do da vida dos homens , e também por não 
aventurar o eílado da índia em hum feito , 
em que fe não ganhava muito pêra a fegu- 
rança delle , falecendo-lhe já. quatro velas 
que eram defapparecidas , que levavam a 
quarta parte da gente da frota , e a maior 
das munições que havia miíler. E porque 
elle Lopo Soares fempre tinha mais refpei- 
to ao que lhe EIRey mandava , que a quan- 
tas murmurações podia haver naquella fro- 
ta em gente de pouca coníideração , não 
cumpria com feus appetites , que era fahirem 
todos em terra. E que verdadeiramente elle 
não tinha efcandalo de quem iílo dizia , an- 
te os julgava por cavalleiros , e homens de 
generofo animo , pois eíKmavam pouco a 
vida por ferviço de feu Rey ; porém tam- 
bém deviam de crer que elle era tão ami- 
go de ganhar honra, como cada hum del- 
les j 



44 ÁSIA de João de Barros 

les , e que deter- fe na determinação deíte 
feito não era a outro fim fenão eíperar fe 
viriam as outras velas , e também ver fe 
achava algum caminho como pudeífe cum- 
prir com o que IheElRey mandava, c el- 
les defejavam ; e porque té então nenhuma 
coufa deitas íuceedêra , elle os ajuntara pê- 
ra cada hum dizer o que lhe nilfo parecia. 
Leixando Lopo Soares eíte negocio nos vo- 
tos dos Capitães , foram elles tão differen- 
tes , e apaixonados na maneira de fe con- 
trariar huns aos outros , que tomou elle por 
conclusão eíta , que lhe EIRey encommen- 
dava j não aventurar a gente em cafos de 
tão manifeíto perigo. Dando por razão , que 
elles não eram vindos alli amais que a pe- 
lejar com aquelia Armada do Soldão , a 
qual fe acharam no mar , per qualquer mo- 
do que fora a commettêram té a metter no 
fundo , porque a tenção d'EIRey era fomen- 
te tirar aquelles Mouros do Cairo navega- 
rem pêra a índia per via de commercio , 
quanto mais com mão armada. Porem co- 
mo as galés que alli citavam varadas já não 
eram pêra navegar 5 (fegundo os cativos di- 
ziam ,) por eítarem já gaitadas do Sol , e 
mais com as efcalas que Raez Soleimão an- 
dou fazendo , e diíferenças d'ante elle , e 
Mir Hocem fe desbaratou a gente , a elle 
íhe parecia que com a nova que fe alli ha* 

via 



Década III. Liv. I. Cap. IV. 4? 

via por certa da morte do Soldao > todalas 
Armadas contra a índia acabariam. Porque 
primeiro que o Turco acabaííe de tomar 
aquelle grande eílado do Cairo , e pacificar 
os Mouros da Arábia , que naturalmente 
tem ódio aos Turcos , paliariam muitos an- 
nos. E quando o Turco foííe fenhor pací- 
fico de todo \ não em conquiftar a índia , 
mas defender-fe da Chriftandade , e do Xe- 
que Ifmael Rey da Períía , que tinha da ou- 
tra ilharga , havia miíter feu poder por fe- 
rem vizinhos de ante a porta. Aífi que per 
qualquer via deitas elie havia aqueilas ga- 
lés por desbaratadas , e elle fe haveria por 
mais desbaratado no juizo aventurar con- 
tra o mandado d 5 EiRey a fíor de toda a 
índia j por queimar hum pouco de páo que 
já nao fervia, nem lhe pedia fazer damno» 
E fe o haviam por razão de tomar a Cida- 
de 5 elle nao comprava com tão grande pre- 
ço , como era, vidas de muita nobreza que 
nella podiam perecer , tão vil couía como 
ellaera, pois fegundo diziam os cativos que 
delia fahíram , todolos feus moradores efta- 
vam de maneira apercebidos na falvaçao de 
faas fazendas , que quando a leixaffem ha- 
via de fer com as paredes vaíias. Finalmen- 
te examinadas eftas , e outras razoes por 
parte defte negocio , ficou affentado fer fer- 
vido d'ElRey leixar o commettimento de 

ca- 



46 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

cada huma das ditas coufas por o pouco 
que importavam , c muito que fe nellas 
aventurava , e determinou Lopo Soares de 
fe partir dahi a dous dias , havendo onze 
que alli efiava. E quando veio á fahida da 
frota , como eram muitas velas 5 e o lugar 
eílreito , não puderam fahir naquella maré 
huma náo, Capitão AíFonfo Lopes d^Acof- 
ta , e duas galés , Capitães Lopo de Brito , 
e Fernão Gomes de Lemos 3 íbbre as quaes 
mandou logo Lopo Soares a D. Aleixo que 
fe metteffe na caravela deFrancifco de Gá , 
e que lhas recolheiTe. Quando na maré do 
outro dia pela manhã que D. Aleixo deo 
íínal com huma bombarda que levaíTem to- 
dos ancora 5 fahio de dentro do porto de 
Judá huma galé mui bem efquipada ; e em 
chegando junto de Fernão Gomes de Le- 
mos , que era o que eílava mais dentro do 
canal , tirou-lhe com hum bafaíifco , a for- 
ça do repuxo do qual foi tão grande , que 
fez dar á galé huma volta em redondo de 
maneira ? que lhe viram os nolTos a quilha. 
E ou que ella não vinha a mais que a fa- 
zer aquelle tiro , que foi em vão , ou que 
elle lhe fez algum damno , tornou-fe mais 
teza pêra dentro do que vinha , e na con- 
junção da fua chegada Diniz Fernandes de 
Mello como tinha huma galé bem efquipa- 
da ,< arrancou rijo, e foi dar hum cabo á 

ga- 



Década III. Liv. L Cap. IV. 47 

galé de Lopo de Brito, que era mui peza- 
da no remo , por fer a maior de toda a fro- 
ta. E porque a gente Portuguez quando 
olha de fora 3 muitas vezes fe não contenta 
do que os outros fazem , quizeram alguns 
taxar a Fernão Gomes no modo que teve 
de fe recolher, fazendo elle niífo o que de- 
via , como Cavalleiro que era , e procedeo 
daqui o que adiante diremos. Lopo Soa- 
res 5 recolhida toda ília frota , fez feu cami- 
nho pêra a Ilha Camaram , com fundamen- 
to de desfazer a fortaleza que Raez Solei- 
mao alli tinha começada. E a primeira cou- 
fa que fez em chegando , foi mandar duas 
caravelas , Capitães Francifco de Gá , e 
Lourenço de Cofme , que foíTem á outra 
coita do Abexij bufcar D. João da Silvei- 
ra , e as outras velas que fe apartaram da 
frota , por não ter fabido o que era feito 
delias. E também trabalhaílem muito por 
tomar o porto da Ilha Maçuá , e do lugar 
Arquico , que era na terra firme , os quaes 
diziam fer do Prefte João , e foubeílem fc 
era verdade ter elle mandado Mattheus por 
feu Embaixador a EIRey de Portugal pola 
dúvida que havia niíío , e tudo folie o mais 
diíTimuladamente que fer pudeíTe , e fe in~ 
formaííem bem das coufas do Prefte. Com 
os quaes mandou ir o bacharel Juzarte Vie- 
gas ; e dous Línguas ; hum chamado Antó- 
nio 



48 ÁSIA de J0X0 de Barros 

1110 Fernandes , e outro Ajamet Mouro Gra- 
jiadil, que jáeítivera naquella terra doPreí- 
te. Partidos eíles navios , foram ter á Ilha 
Dalaca , e defronte delia em outra chamada 
Da rua acharam D. João da Silveira , que 
aportou alli com afias fortuna , e lhe deo 
nova que no dia do temporal que o fez 
apartar da frota , fe perdeo o junco , Capi- 
tão Diogo Pereira , faivando-fe todolos Ma- 
labares que hiam nelle , fomente três , ou 
quatro. E que da Ilha Dalaca , cujo porto 
eíle primeiro tomara , fe pafiara áquella 
ilheta , por citar mais feguro dos Mouros 
deJIa , por lhe dizer Mattheus Embaixador 
do Prefte que com elle vinha , fer mui po- 
voada delles y e o Rey fenhor delia mui 
máo homem , de quem fe não havia de fiar 5 
principalmente depois que elle D. João to- 
mara duas geluas carregadas de mantimen- 
tos , por neceílidade que tinha delle. Paífa- 
do o primeiro dia da chegada deites dous 
Capitães, teve D.João confelho com elles-, 
e com o Bacharel Juzarte Viegas fobre o 
que Lopo Soares mandava que elles fizef- 
fem pêra fer certo das coufas de Mattheus , 
e aííentáram o mais diílimuladamente que 
puderam , ( dando-lhe entender kv a outro 
fim , ) que em aquelles dous navios o levaf- 
fem á Ilha Dalaca , porque como elle fabia 
tanto do Rey delia, poderia fer que have- 
ria 



Década III. Liv. I. Cap. IV. 49 

ria alli quem o concedefle. Peró Mattheus 
quando lhe foram com eíte negocio , em 
nenhuma maneira puderam comelle quefa- 
hiífe da náo , e fez grandes exclamações , e 
requerimentos da parte d'E!Rey D. Manuel , 
que em nenhum modo navio algum foííe 
áquella Ilha por a maldade d 5 EIRey del- 
ia j como já muitas vezes tinha dito ; e de 
como elle fazia efte requerimento , pedia ao 
Efcrivão da náo que lhe déífe hum allinado 
pêra aprefentar ao Capitão mor. D. João , 
e os Capitães, quando viram tantas excla- 
mações delle , tiveram pêra íi que tudo eram 
cautelas por não fer conhecido da gente 
da Ilha , de quem íè podia faber fer elle 
quem cuidavam algum Mouro do Cairo 
enviado a Portugal porefpia das coufas del- 
le ; e leixando-o em fua contumácia , efpe- 
dio D. João as duas caravellas que foíTem 
fazer o que lhe Lopo Soares mandava , e 
elle partio pêra Gamaram, onde chegou a 
falvamento. E ao tempo de fua chegada , 
que foi a primeira oitava de Pafcoa do Ef- 
pi rito Santo , hum Clérigo per nome Fran- 
cifeo Alvares , que vinha em efta náo em 
companhia de Mattheus , foi ver Duarte 
Galvão que eftava em eftado da morte , não 
de enfermidade ,. mas de velhice, e nojo. 
Ao qual Fráncifco Alvares, por fer da fua 
creação , elle Duarte Galvão diífe : Padre ^ 
Tom. III. P.L D fer- 



ço ÁSIA de JoJ\o de Barbos 

-perguntais -me como ejlou , e não me dais 
nova da morte de meu filho Jorge Galvão? 
Senhor (refpondeo Francifco Alvares) ef- 
t ar á prazendo a Dcos cm algum porto da 
terra donde nós vimos. Por mais certo (dif- 
íe Duarte Galvão) tenho eu que elle , e meu 
Jòbrinbo D. Álvaro com quantos hiam na 
fua fujia , efiam no Parai/o , onde N. Se- 
nhor os levaria por fua mifericordia , pois 
morreram em feu fervi ço , e de feu Rey. 
Cd podeis ter por certo que todos fe ala- 
garam no mar ; e Lourenço de Cojme , e 
alguns do feu navio , os Mouros lhes cor- 
taram as cabeças na Ilha Dalaca , onde 
os vós leixafies. As quaes palavras fcram 
tão verdadeiras , como o meíinp caio : cá 
dahi a dous dias que Duarte Galvão falle- 
ceo , vieram as duas caravellas 5 e contaram 
como Lourenço de Coime , e o Efcrivão 
dp navio com alguns em fua companhia fa- 
híram na Ilha Dalaca , por faberem as cou- 
ícis de Mattheus , foram mortes pelos Mou- 
ros 3 e féis efeapáram mal feridos, e que 
ifto caufára o Mouro Ajamct língua que 
.levaram. O qual cafo não foi por culpa de 
Ajameí , ante elle foi o primeiro a que o 
Rey da terra mandou cortar a cabeça , di- 
zendo que elle trouxera alli os Portugue- 
zes ; eido fouberam depois os noflbs quan- 
do Diogo Lopes de Sequeira alli veio ter, 



Década III. Liv. L Caí\ IV. 5-1 

fendo Governador da índia , e mandou Dom 
Rodrigo de Lima por Embaixador ao Pref- 
te em companhia de Mattheus , como em 
feu lugar fera efcrito. Parece que não quiz 
Deos que foífe levada eíta embaixada per 
Duarte Galvão , como levou outras aReys, 
e Príncipes da Chriítandade ; e permittio que 
acabafle feus dias a nove de Junho de qui- 
nhentos e dezefete , em idade de fetenta e 
tantos annos , e fofle enterrado naquelia Ilha 
Camaram , e feu filho no ventre dos peixes 
do mar Roxo , fem hum faber da morte do 
outro , fomente o pai que vio em efpirito 
a do filho. Parece que o animo do homem , 
quando já eílá de partida pêra o lugar dos 
efpiritos , quafi meio feparado da carne , vê 
em efpirito o que a nós não he manifeílo. 
Foi elle Duarte Galvão filho de Ruy Gal- 
vão Secretario d'EiRey D. AíFonfo o Quin- 
to : Era homem douto nas letras de Huma- 
nidade : Compoz per mandado d 5 EíRey 
D. Manuel a Chronica d'E!Rey D. Affon- 
fo Henriques primeiro Rcy defte Reyno de 
Portugal ? ou (por melhor dizer) apurou a 
linguagem antiga , em que eílava efcrita ; e 
quem quer que foi o primeiro compoedor 
delia , dará conta a Deos de macular a fa- 
ma de tão illuílres duas peífoas , como fo- 
ram a Raynha D. Tareija , e EIRey D. Af- 
fonfo Henriques feu filho nas diferenças , que 

D ii con- 



52 ÁSIA de JoÃo de Babros 

conta haver entre elles. Pois ao tempo que 
feu pai o Conde D. Henrique falleceo , elle 
Ptincipe D. Aífònfo ficou em idade de íeis 
annos debaixo da obediência , e tutoria de 
lua Madre , fem elJa lhe dar Padraílo , nem 
elle aprender, e outras fabulas que a Chro- 
níca conta. A verdade da vida, efeitos do 
qual Príncipe , fe a N. Senhor aprouver dar- 
iios vida , fe verá em noíTa Europa. Com- 
poz mais Duarte Galvão no tempo que EI- 
Rey o mandou com efta embaixada 9 huma 
exhortaçao íbbre a empreza daquella con- 
quifía 3 e defíruiçao da cala de Meca , tra- 
zendo pêra iíTo muitas authoridades , e al- 
gumas profecias , que denunciavam haver de 
íer feita per a Chriííandade defta noíía Eu- 
ropa. Concluindo , que per outro caminho 
fe não podia mais levemente fazer , que per 
aquelle eftreito do mar Roxo , ajuntando-fe 
as Armadas d'ElRey D. Manuel com as 
gentes do Rey dos Abexijs chamado Prcfte 
joao , e alguns Príncipes Chriftãos pela par- 
te de Soria , em hum mefmo tempo pode- 
riam tomar das mãos dos Mouros a Caia 
Santa de Jeru falem , onde eftam todos os 
paíTos dos Myílerios de noífa Redempçao. 
Sobre a qual exhortaçao EIRey D.Manuel 
oanno de quinhentos e cinco tinha manda- 
do fecretamente o mefmo Duarte Galvão 
ao Emperador Maximiliano , e a EIRey de 

Frán- 



Década IIL Liv. I. Cap. IV. 5*3 

França , e ao Papa Alexandre , como mais 
largamente efcrevemos em fua própria Chro- 
nica. E no fim deita exhortação elle Duar- 
te Galvão dá defculpa de íl , fendo homem 
de tanta idade, acceitar huma talempreza, 
com tantos ., e taes perigos de mar, e de 
terra. Fizemos efta digrefsão íbbre as cou- 
fas de Duarte Galvão , porque pois tomá- 
mos cuidado de efcrever os trabalhos , que 
os naturaes defte Reyno paíTáram naquella 
conquifta de Afia, convém que não negue- 
mos a cada hum, que á noíFa noticia vier, 
o premio defte lugar de memoria ; e tam- 
bém devemos ifto a Duarte Galvão por ra- 
zão das letras , pois per elias , quanto fua pof- 
fibilidade alcançou , deo nome a muitos. 
Os oífos do qual foram depois em tempo 
de D. Henrique levados daquelle lugar per 
Francifco Alvares Clérigo , e elle os man- 
dou á índia , e de lá os trouxe a eíle Rey- 
no António Galvão feu filho , vindo por 
Capitão de huma náo. E não fomente por 
caufa das vezes que noffas Armadas inver- 
náram naquella Ilha Camaram , fepultura 
de tanta gente , mas ainda com efta parti- 
cular de Duarte Galvão , e com hum cafo 
que fe commetteo junto delia , fica celebra- 
da em nome acerca de nós : o qual cafo 
procedeo da fahida da galé de Fernão Go- 
mes de Lemos per o canal de Judá , como 

atrás 



5*4 ÁSIA de João de Barros 

atrás apontámos. Cá ouvindo elle que fe 
diziam algumas coufas que tocavam em íua 
honra , no modo que teve em fe fahir do 
canal , defafiou por iíTo a Simão d^Andra- 
de pêra efta fepultura de Duarte Galvão : 
o fiicceflb do qual feito , por fer matéria 
de honra , ficará entre çlles , baila faber que 
cada hum fez o que cumpria á íua , e no 
fim ficaram amigos. 

CAPITULO V. 

Como partido Lopo Soares da Ilha Ca- 
maram , foi ter d Cidade Zeila , que efid 
fia cofia da terra Africa , principal porto 
do Reyno Adel , a qual tomou por armas 5 
e depois queimou. 

FAlIecido Duarte Galvão , que era a 
principal parte por cujo refpeito EIRey 
D, Manuel mandava a Lopo Soares que to- 
mafle a cofta da terra Abexij 5 e também 
com a morte de Lourenço de Cofme , e 
co ufas que paliaram em Dal a ca , em que 
Mattheus fe havia por falfo Embaixador, 
pofto que feus receios foram verdadeiros , 
hafcêram daqui entre elle , e Lopo Soares 
taes defgoftos , que nunca mais hum quiz 
ver o outro, com que elle Lopo Soares af- 
fentou de não ir a efte negocio , e fazer fua 
via caminho da índia 7 com fundamento de 



Década III. Liv. I. Cap. V. 57 

efcrever aElRey o que fentia de Mattheus , 
e era paíTado por fua caufa. Peró ante da 
fua partida , em quanto alli invernou , pal- 
iou trabalhos de fome , fede , e enfermida- 
des , que era coufa piedofa ver morrer a 
gente que alli ficou parte delia enterrada na 
terra , e outra lançada no mar. E o que tam- 
bém caufou parte deita morte foi o traba- 
lho que teve em derribar o que Raez So- 
leimão , e Mir Hocem. tinham feito na for- 
taleza. E porque na terra firme da Arábia , 
que tinham por vizinha , pouco mais de hu- 
ma légua junto de hum lugar chamado Cei- 
lif 3 começaram acudir alguns Mouros com 
mantimentos da terra , mandou Lopo Soa- 
res que nefte ir, e vir aos comprar, andaf- 
fc fomente hum bargantim , de que era Ca- 
pitão Baftiao Rodrigues. O qual havendo 
dias que fervia neítc cotnmercio , dando , e 
recebendo com es Mouros pacificamente 
lera muitas cautelas , vieram duas geluas > 
que são baixos leves, per mandado de Raez 
Soleimao , como defeubridores do que fa- 
zia noíía Armada ; e vendo a feguridade 
com que o noflò bargantim fazia feu ref- 
gate com os Mouros , aíTentáram eftes das 
geluas com os da terra , que os entretivelTem 
pêra hum tal dia , e que fahiriam de huma 
encuberta , e fariam féú feito. O qual nego- 
cio fuecedeo tanto em favor dos Mouros , 

por 



5*6 AS1A de João de Barros 

por o noíTo bargantim cílar quaíi em íèo 
co quando deram fobre elle , que foi to- 
mado com dezefete homens , e levados a 
Raez Soleimao , o qual os mandou de pre- 
fente ao Turco , e hum delles que fugic? 
de Conftantinopla , e veio ter a efte P^ey- 
jio, contou todo o caio. Lopo Soares agaf- 
tado deíle defaftre , e dos mais fuecedimen- 
tos da entrada daquelle eílreito , com os pri- 
meiros Ponentes que ventáram , fe fez á ve- 
la ? e foi furgir diante da Cidade Zeila , íi- 
tuada na terra Africa 9 em fahindo das por- 
tas do eílreito obra de vinte e féis léguas , 
em huma enfeada que a terra alli faz , a 
qual , ( fegundo fua íituação , ) parece fer 
aquella povoação a que Ptolomeu chama a 
Avalites emporium. Porque a Cidade em íi 
tem antiguidade de edifícios de pedra , ç 
cal ? ao modo da Cidade Adem , e a co- 
marca dentro no interior da terra , fértil , e 
per ella fahem quaíi a maior parte das cou- 
ias , que per via de çommercio fe tiram da 
terra do Rey dos Abexijs , e aíli entram as 
que fe lá defpendem. O fenhor da qual he 
ÉlRey do Ileyno Adel , cuja Metropoli fe 
chama Arar , que eílá dentro do fertao no 
principio da região , a que Ptolomeu cha- 
ma Tica , e diftará defta Cidade Zeila ef- 
paço de trinta e oito léguas contra o Su- 
dueíte, E a çaufa por cjue Lopo Soares quis 

dar 



Década III. Liv. I. Cap. V. 57 

dar ncfta Cidade Zeila foi por o favor que a 
Armada de Raez Soleimao achou neila de- 
pois do damno queleixava feito em Adem 9 
como quem os favorecia em ódio delia; 
porque ambos eftes Reys o de Adem , e o 
de Zeila , peró que não refidiflem nellas fo- 
mente os Governadores que tinham poílo , 
e elíes eílavam dentro no fertão , era efte 
ódio entre elles por caufa do rendimento 
da entrada , e fahida das mercadorias do ef- 
treito. Cá antigamente efta Zeila foi mais 
célebre empório , e efcala daquellas portas 
do eftreito , do que era Adem ; e depois 
que nós entrámos na índia , começou efta 
de fe nobrecer com diminuição de Zeila* 
E além deita caufa a principal, houve ou- 
tra , que era irem os homens tão quebrados 
no animo , e defgoftofos daquella jornada 
polo pouco que tinham feito , que pêra os 
iatisfazer em alguma maneira , quiz Lopo 
Soares fahir nefta Cidade , fazendo conta 
que Adem íeguro tinha leixaíla debaixo da 
noíTa obediência , poios oíFerecimentos , e 
modos com que o Capitão delia o recebeo. 
Aífi que com efte fundamento chegada a 
noíTa Armada ao porto , fem muita reliften? 
cia elía foi pofta em nofíb poder , á cufta 
das vidas de muitos Mouros que ficaram 
per eíTas ruas : a dianteira da qual entrada 
deo LopoSoarçs a D.João da Silveira per 

to* 



58 ÁSIA de João de Barros 

huma parte, e a Jorge de Brito, e D.Gar- 
cia Coutinho per outra. E não foi tão bre- 
vemente commettida , quão preíles foi def- 
pejada dos Mouros , e logo dos noíTos , por- 
que lhe mandou Lopo Soares pôr o fogo , 
edeo ás trombetas que fe recolheflem aluas 
embarcações com mui pouco defpojo , por 
elia o não ter em íi , e algum que havia, o 
fogo tomou poíTe delle. A caufa de os Mou- 
ros tão levemente defpejarem a Cidade, e 
nella acharem pouca fazenda foi , porque 
neíle tempo que Lopo Soares álli chegou , 
era ido o Capitão delia a chamado do feu 
Rey com a melhor , e mais gente que po- 
de levar , por razão de huma guerra que 
linha com o Prefte João , com quem eile 
vizinha. E temendo os Mouros que nella 
ficaram , que a íahida de noíía Armada fof- 
fe per aquella cofia , como a entrada do eí- 
treito fora pela outra da Arábia , da qual 
poderiam receber algum dam no , por fitar 
com pouca gente , tinham a Cidade defpe- 
jada de toda fua fazenda , e fomente ficou 
com a gente pêra pelejar. E entre alguns 
cativos, que fealíi tomaram , foi hum Por- 
tuguez chamado João Fernandes marinhei- 
ro , que dizia fer natural de Leça junto da 
Cidade do Porto , que fora aili ter do bar- 
ganrim de Gregório da Quadra da Armada 
de Duarte de Lemos, de que atrás efereve- 

mos. 



Década III. Liv. I. Cap. V. 59 

mos. O qual os Mouros prenderam , polo 
accufarem três Catelaes , que alli foram a 
vender armas , a quem fe elle defcubrio que 
era Portuguez 5 pareccndo-lhe que com efta 
accuíação podiam elies ter mais favor no 
vender fuás mercadorias. Da qual obra el- 
ies não efperáram o galardão dos nolfos y 
porque foram dos primeiros que fe puze- 
ram em falvo tanto que elles tomaram a 
praia , e naquelle defpojo foram achadas 
muitas folhas de efpadas largas , e compri- 
das, ainda em preto, que elles alli tinham 
vendido. E o cafo de maior contemplação 
acerca deftas armas levadas áquelles infiéis 
per eftes homens fem temor de Deos , .foi , 
que não fomente fe perderam as que tinham 
por vender , mas as vendidas , que o Capi- 
tão da Cidade levou , quando o ièu Rey o 
mandou chamar pêra a guerra , que diífe- 
mos ter com o Prefte João , e elle na con- 
fiança delias foi morto per efta maneira. 
Querendo EIRey de Adel fazer numa en- 
trada nas terras do Prefte com poder de 
gente , foi elle fabedor diífo , e o mais em 
breve que pode lhe fahio ao caminho , íen-r 
do naquelle tempo em idade de dezefete 
annos ; e per efpias fabendo que o Mouro 
tinha aífentado feu arraial em hum grande 
campo cercado de montes , mandou-lhe to- 
mar ,os paffos per onde podia fahir, e dep 

fo- 



6o ÁSIA de João de Barros 

fobre elle huma ante manhã. O Mouro 
quando vio fobre fi tão grande poder de 
gente , aconíèlhado per efte Capitão de Zei- 
la chamado Mahamed , poz-fe em falvo 
com finco de cavallo , e elle Capitão efpe- 
tou a batalha : e como homem animofo , e 
confiado nas boas armas , que houvera dos 
Catelaes , eftando as batalhas pêra romper , 
fahindo do corpo da gente, chegou-fe tan- 
to á do Prefte , que podia fer ouvido , e 
começou em voz alta chamar fe havia al- 
guém que fe quizeííe matar com elle , ante 
que as batalhas rompeflem. Ao qual defa- 
íio fahio hum Frade chamado Gabri An- 
dres , que como valente homem matou efte 
Capitão Mahamed , e foi aprefentar fua 
cabeça ao Prefte , como final da vitoria que 
havia de haver de feus imigos , pois o feu 
Capitão era morto , e aífi foi : cá com efta 
morte o exercito dos Mouros fe poz logo 
em fugida , na qual o Prefte ficou fenhor 
do campo > matando hum grande número 
delles. Do qual cafo fe fez huma cantiga 
ao modo como acerca de nós fe cantam os 
rimances de coufas acontecidas , que os nof- 
fos ouviram cantar na Corte do Prefte 
dahi a dous annos , quando Diogo Lopes 
de Sequeira ? que fuccedeo a Lopo Soares 
naquelia governança da índia , entrou na- 
quelle eftreito , e mandou a D. Rodrigo de 

Li- 



Década III. Liv. I. Cap. V. 61 

Lima por Embaixador ao Prefte , como íe 
verá em feu lugar. E hum Francifco Alva- 
res Sacerdote , que foi nefta companhia de 
D. Rodrigo , conta em hum Itinerário que 
fez deita ida , que elle vio efte Gabri An- 
dres andar na Corte do Prefte pofto em 
honra por razão deíle feiro ; e o Prefte 
gloriando-fe defta vitoria , mandara moftrar 
a D. Rodrigo cinco , ou féis feixes de ter- 
çados de cabos de prata , que houvera no 
defpojo defta batalha , tendo já dados ou- 
tros muitos. E que mandando-lhe dar huma 
tenda de brocadilho de Meca pêra elle Fran- 
cifco Alvares dizer MiíTa ao Embaixador, 
lhe mandara avifo que a defenviolaífe , e 
benzefle , por fer do ufo d 5 ElRey de Adel y 
tomada naquella batalha. Aífi que dous exér- 
citos da Chriílandade , hum da Igreja Ro- 
mana , e de Rey Occidental , e outro da 
Igreja Abadia de Príncipe Oriental , concor- 
reram ambos em hum dia em deftruiçao da- 
quelle bárbaro infiel , que he o mais pode- 
rçfo daquellas partes da Ethiopia. 



CA- 



02 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

CAPITULO VI. 

Como Lopo Soares fe par tio pêra a Ci- 
dade Adem : e do que alli paffou com o Ca- 
pitão delia j e querendo ir johre a Cidade 
Barbora , com hum temporal que lhe deo , 
arribou a Ormuz , e a maior parte de fua 
Armada per diverfas partes pajjòu gran- 
des naufrágios , e infortúnios. 

LOpo Soares , havida a vitoria deita Ci- 
dade , paííbu-fe a outra coita da Ará- 
bia com fundamento de fe ir prover de 
agua , e mantimentos á Cidade Adem , e a 
leixar tributaria noffa , como quem citava 
feguro no que tinha paflado com Miramir- 
zam. Peró como tudo o que elle fez foi por 
ter o muro da Cidade em terra, e ver que 
Lopo Soares naquelle tempo hia mui pode- 
rofo , e inteiro com fua gente , quando o 
vio ante o porto de Adem com a Armada 
mui desfalecida de fuás forcas , e defacre- 
ditada polo que paífára emjudá, das quaes 
couías era fabedor , e tinha o feu muro bem 
repairado , e a Cidade provida pêra fe de- 
fender , diííimulou com o provimento da 
agua, e mantimentos que lhe Lopo Soares 
pedio, e muito mais defcubertamente em fe 
fazer vafíallo d'ElRey de Portugal. Final- 
mente em mentiras , e em hoje lhe mandar 



Década III. Liv. I. Cap. VI. 63 

huma pipa de agua , e á manha outra , fin- 
gindo eícufas de fe não poder mais fazer, 
por a Cidade eftar mui nece (fitada y o dete- 
ve dez dias , té que Lopo Soares , por não 
perder tempo , e acabar de gaitar febre an- 
cora mais agua do que alii lhe davam, por 
a grão neceffidade que tinha delia , e de 
mantimentos , fe fez á vela pêra a outra, 
cofia de Africa , com fundamento de ir dar 
em huma Cidade chamada Baibora , que 
eítava abaixo deZeila contra o cabo Guar- 
dafu 5 e defronte da Cidade Adem. Mas co- 
mo era no fim de Agofto , em que alii cur- 
sao os ventos Levantes , e as aguas andam 
com elles , ambas cilas coufas abateram , e 
efpaldeáram tanto a Armada , que perdiam 
do caminho: té que havendo dias que an- 
davam neíle trabalho com affás clamor da 
gente , por perecer á fome, e feàe , veio 
huma trovoada 3 que durou per dias da par- 
te do Norte , com que fe ella efpalhou , 
tomando cada hum o porto que pode, Lo- 
po Soares com dez 5 ou doze navios tomou 
o porto de Calayate , já em dez de Setem- 
bro a Deos miíèricordia , e dalli efpedio o 
caravelao de Lourenço de Coime, que ma- 
taram os Mouros. No qual mandou por 
Capitão Lopo de Viila-lobos hum cavallei- 
ro natural da Viila de Eftremoz , e Pêro 
Vaz de Vera por Pilotp.com cartas a El- 

Rey 



64 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Rey D. Manuel , em que lhe dava conta 
do que paliara no eílreito , e íèntia das cou- 
ias de Mattheus , e ifto a fim que efte re- 
cado vieíTe a EIRey ante que a Armada do 
anno feguinte partiííe deite Rey no , pêra 
prover nelJa o que havia por leu íerviço 
que fe fizeíTe. O qual caravelao veio , e foi 
huma das coufas que té então fevio da ín- 
dia por milagrofa , por íer tão pequena va- 
filha , que como por coufa maravilhofa , nos 
templos íe põe huma pelle de lagarto chea 
de pai ha , por fe ver quão grandes os cria 
a terra de Africa ; aíli diziam todos que EI- 
Rey houvera de mandar dependurar aquel- 
le caravelao por memoria de quão peque- 
na coufa viera da índia. EfpedidoLopo de 
Vilía-Jobos , Lopo Soares fe foi pêra a Ci- 
dade Ormuz a prover algumas coufas , e 
principalmente por ter nova que os Rumes 
a queriam vir cercar ; e dahi mandou Dom 
Aleixo cm a náo Santa Catharina \ e outras 
velas com todolos doentes , pêra ir dar or- 
dem a carga das náos que fe efperavam def- 
te Rey no. E quanto á viagem, cafos que 
pairaram os Capitães que fe apartaram de 
Lopo Soares , certo que havendo-fe de e£ 
crever o curfo delles , era recitar huma trif- 
te, emíferavel tragedia, porque ante, nem 
depois fe vio tamanho corpo de Armada 
fem pelejar, desbaratar-fe per tantos defaP 

três. 



Década III. Liv. I. Cap. VI. 65 

ires. Porque entre mortos de fome , fede, 
doenças , naufrágios , differenças de alguns 
mal avindos , e outros defaftres em Melin- 
de , Moçambique , Çocotorá , e outras par- 
tes daquella cofta da entrada do mar Ro- 
xo , onde alguns Capitães foram ter primei- 
ro que tornaífem á índia , paffáram de oi- 
tocentos homens. Cá fomente em a náo de 
D. Álvaro da Silveira , de cento e trinta 
que levava , ficaram vinte e cinco j e ain- 
da eftes vendo lançar feus companheiros pou- 
cos , e poucos ao mar por mantimento aos 
peixes , e elles mui neceílitados do que ha- 
viam miíter pêra iuftentar a vida 5 hiam al- 
guns tão mal avindos por pontos da vai- 
dade de honra , (matéria de toda a paixão 
da nação Portuguez ) que eftando o feu Ca- 
pitão em terra , em huma aguada que fa- 
zia 5 dous delles , que fe leixáram ficar com 
elle detrás dos outros que hiam carregados 
dos barris de agua , o mataram á traição , 
fendo ambos os principaes que elle tinha 
por amigos , e a que mais honra fazia. Hum 
fe chamava Jeronymo d'01iveira filho de 
Antão d ? 01iveira , que depois por efte ca- 
fo per juíliça foi degollado em Cochij ; e 
o outro havia nome Mendafonfo , o qual 
era em mais obrigação a D. Álvaro , por- 
que fora criado de feu tio o Barão de Al- 
vito D. Diogo Lobo , e elle o tinha dado 
Tom.III.P.L E a El- 



66 ÁSIA de João de Bakros 

a EIRey. E efte , primeiro que fahiífe do 
porto do malefício , foi morto ás punhala- 
das per João Rodrigues Pao , hum cavallei- 
ro da Cidade Évora , o qual o matou , não 
tanto por vingar a mone de feu Capitão , 
quanto por fe íègurar delle , polo ter inju- 
riado ; e elle João Rodrigues primeiro que 
chegaíTe á índia , fe perdeo em hum navio. 
E aíli fe perdeo em outro João de Ataíde, 
e com elle entre algumas peífoas nobres fo- 
ram Ruy de Soufa , e Lopo Mendes de 
Vafconcellos , indo elle em companhia de 
Francifco de Távora , e Chriílovao de Sou- 
fa pêra invernar em Çocotorá, onde acha- 
ram D.Diogo da Silveira. E partindo dal- 
li todos pêra a índia , morreo no caminho 
D. Diogo de doença , e o feu corpo foi 
levado em hum batel per popa da não té 
Goa , onde o fepultáram. Deftoutros féis 
Capitães , Jorge de Brito , António d 5 Aze- 
vedo , Aires da Silva , Fernão de Rezen- 
de , Pêro Ferreira , e Antão Nogueira, 
liuns foram invernar a Melinde , outros a 
Moçambique , e delles os dous derradeiros 
faleceram de doença daquelles trabalhos > e 
feus navios foram dados a Lourenço Go- 
dinho , e Francifco Godiz ; e todos , tanto 
que tiveram tempo , foram com Lopo Soa- 
res a Ormuz. Fernão Gomes de Lemos na 
fua galé não fomente correo a tormenta dos 

ou- 



Década IIL Liv. I. Cap. VI. 67 ' 

outros, mas ainda teve novo trabalho, cá 
lhe fugio o feu Piloto por defavença que 
houve entre elles; e não tendo outra agu- 
lha , ou carta per que governaífe fua via- 
gem , poz a proa no nafcimento do Sol té 
dar de roílro em Chaul , onde eftava por 
Feitor nofíb hum João Fernandes criado 
de Triílão da Cunha , e por feu Eícrivão 
António Mendes com té vinte homens Por- 
tuguezes feitorizando algumas coufas pêra 
as feitorias de Goa , e Cochij , por aquella 
terra fer mui abadada de mantimentos , e 
d^outras provisões que não ha na cofta Ma- 
labar. O qual João Fernandes por fer ho- 
mem afpero , não eftava alli bem quifto de 
alguns Mouros ; e com a chegada de Fer- 
não Gomes dobrou o ódio que lhe tinha ; 
porque como elle vinha fem remeiros , pe- 
dio efte João Fernandes ao Tanadar Capi- 
tão da Cidade , que fe chamava Cide Ha- 
med, que governava a terra pelo Yzama- 
luco feu fenhor , que lhe mandaíTe dar al- 
guns remeiros da terra a foldo pêra efqui- 
par a galé. E como fe não achava gente 
que o quizefle fazer , temendo o trabalho do 
remo , e mais porque poucas vezes depois 
que entram os não leixam fahir ; \ r endo-íè 
Cide Hamed apreíTado de João Fernandes 
fobre o não fe acharem os remeiros > de 
importunado diffe-lhe : Não fei que vos 

E ii fa- 



68 ÁSIA de João de Barros 

faça : vedes ahi hum homem meu , andai 
por ejfa Cidade , e tomai os que achardes 
fera ijjò. O povo como vio tomar alguns , 
e que lhe não valia acolherem-fe á mefqui- 
ta de fua oração , porque dalli os hia tirar 
João Fernandes ás pancadas , e os levava , 
alvoroçou-fe contra elle em tanta união , 
que conveio a elle João Fernandes recolher- 
fe ás cafas onde poufava. Sabendo o Capi- 
tão Hamed p infulto do povo, e o citado 
em que João Fernandes eitava \ acudio rijo 
com alguns feus ; e chegando a elle , que 
citava mui furiofò , como lie coftume dos 
Mouros , quando querem aplacar alguém 
de fúria , abraçarem-o per modo de humil- 
dade quaíi por baixo pelas pernas , fazendo 
Hamed eíte officio , tirou elle João Fernan- 
des tão rijo per huma das pernas , por fe 
livrar do abraço do Mouro , que lhe deo 
com o pé nos narizes , que logo foram la- 
cados em fangue. Quando os criados de 
•Hamed o viram naquelle eítado , remettê- 
ram a João Fernandes , que logo a 11 i foi mor- 
to , e trás elle os que o acompanhavam, 
que feriam té vinte e dous homens , porque 
nnquella fúria a nenhum fe deo vida , fo- 
mente efcapou hum Lopo Dias criado de 
Fernão Camelo polo falvar hum Mouro feu 
amigo. O Mouro Cide Hamed como era 
homem prudente ; e mais lhe importava a 

nof- . 



Década III. Liv. L Cap. VI. 69 

noífa paz , que o fangue dos fcus narizes , por 
fer Capitão , e rendeiro da entrada , e fahida 
das mercadorias daquelle porto , cautelou-fe 
logo do que podia fucceder ao diante , man- 
dando fazer inventario de quanta fazenda alli 
achou nacafa da Feitoria, e a poz toda em 
boa recadaçao , da qual ao diante deo boa 
conta , como veremos. Fernão Gomes de 
Lemos não fomente teve bem que fazer em 
fe falvar dos da terra , e partir dalli , mas 
ainda fendo tanto avante como Dabul , vie- 
ram fobre elle cinco fuftas que o vinham 
bufcar ; e fenão acontecera pôr-fe o fogo na 
pólvora de huma delias , andando pelejando 
com elle , o qual cafo metteo as outras em 
preífa de falvar a gente que andava nadan- 
do , elle ficara alli. Mas efte damno dos 
Mouros , e huma fuíla noífa que fobreveio , 
a qual mandou D. Goterre Capitão de Goa, 
fabendo como elle Fernão Gomes chegara 
a Chaul desbaratado , foi caufa de fe fal- 
var , por não ter comíigo mais que dez ho- 
mens Portuguezes . e os outros eram remei- 
ros Malabares , e alguns dos que tomou em 
Chaul , caufa da morte de João Fernandes. 
Efte em fomma foiofucceífo daquella gran- 
de Armada, que Lopo Soares levou ao Ef- 
treito , ao qual nós leixaremos hum pouco , 
por dar razão do que fe paífou na índia , em 
quanto elle fez efte caminho. 

CA- 



jo ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIL 

Do que fizeram D. Fernando , e Dom 
João y que D. Goterre mandou de Arma- 
da \ e o que fuccedeo em huma entrada , 
que elle mandou fazer em as terras firmes 
de Goa , onde mataram João Machado , e 

Éuma gente da nojja , donde fe caufou o 
íalcao a mandar cercar , no qual tempo 
os nojjos padeceram muito trabalho té & 
chegada de António de Saldanha, 

PArtido Lopo Soares pêra as partes do 
mar Roxo , (de que té ora falíamos , ) 
leixou recado a D. Goterre de Monroy Ca~ 
pitão da Cidade Goa , que mandafíe duas 
Armadas , huma ás Ilhas de Maldiva a guar- 
dar as náos , que fugindo da coita da ín- 
dia per entre o canal delias faziam feu ca- 
minho , aífi de Cambaya 5 como do eílreito 
•de Meca , e hiam bufcar pimenta , e outras 
cfpeciarias á Ilha Çamatra ; e outra Arma- 
da andaíTe de Goa té Chaui, também por 
razão deitas náos de Mouros , que alli hiam 
carregar de alguma efpeciaria , que furtada- 
mente haviam da coita Malabar. Pêra o qual 
negocio D, Goterre ordenou leu irmão Dom 
Fernando em huma náo ? e em fua compa- 
nhia João Gonçalves de Caítello-branco em 
huma galé, o qual partio para as Ilhas de 

Mal- 



Década III. Liv. I. Cap. VIL ji 

Maldiva. E D.João de Monroy fcu fobri- 
nho ao longo da cofia té Chaul com cin- 
co velas : eJle em huma naveta , e das ou- 
tras , que eram fuílas , e catures , eram Ca- 
pitães Henrique de Touro , Pêro Jorge, 
Domingos de Xeixas , e Pálios Cerveira; 
o qual D. João feguio a coita , e andou 
nella todo o verão fem fazer coufa algu- 
ma , fomente chegou té o rio de Maim, 
onde achou huma náo , que vinha do mar 
Roxo carregada de mercadoria ; a gente da 
qual , porfalvarem aíi, e as fazendas, en- 
traram dentro no rio , e varando-a em ter- 
ra , falváram-fè com o melhor que puderam 
levar , e o mais houveram os noíTos , levan- 
do tudo a Chaul. Da tomada da qual o 
Capitão de Maim chamado Xequegij le hou- 
ve por mui offendido ; porque não fomen- 
te lhe foi tomada a náo quaíi á vifta delle , 
mas ainda lhe esbombardeáram a fortaleza. 
E partidos os noflbs , a grão preífa man- 
dou trás elles dez fuílas mui efquipadas , 
que os foífem atalhar á ponta de Chaul ; 
porque como era já no principio do inver- 
no , começavam de fe recolher pêra Goa , 
e podellos-hiam tomar defcuidados. Peró to- 
do efte feu penfamento lhe fundio pouco : 
cá pondo-fe no lugar ordenado 5 e commet- 
tendo os noífos , elles fe houveram de ma- 
neira com que as fuílas fe puzeram em fu- 
gi- 



72 ÁSIA de JoXo de Barros 

gida. Chegado D.João a Chaul com a vi- 
toria deitas fuftas , e esbulho da náo , foi 
provido de mantimentos pelo Feitor João 
Fernandes , que os Mouros mataram depois 
(como já atrás fica.) E na demora que Dom 
João alli fez > veio ter com ellc hum Álva- 
ro de Madureira cafado em Goa , o qual 
fe tinha lançado com os Mouros por ma- 
tar hum Lourenço Prego Tanadar da Cida- 
de 5 por caufa de huma mulher pública Por- 
tuguez : o qual do Hidalcão 3 com quem fe 
elle lançou , era paíTado áquellas partes. 
D. João porque levava poderes pêra iíío , 
o íègurou , e que fe foffe com elle , pro- 
mettendo-lhe perdão de Lopo Soares , o que 
elle acceítou. E por vir mal roupado , fe 
tirou per todolos noífos té quantia de duzen- 
tos pardaos que lhe deram j com o qual di- 
nheiro elle fe tornou a -terra, dizendo que 
hia comprar roupa pêra fe veflir 3 e prover 
do neceílario ; mas elle em lugar de fe vir 
falvar , tornou-fe ao eíhdo de Mouro em 
que andava. E por gratificar a boa obra 
que lhe os noífos fizeram , • foi-lhe ordenar 
huma traição , que logo veremos. Em quan- 
to D. João fe deteve no rio de Chaul , co- 
mo quinze fuftas de Melique Az fenhor de 
Dio traziam o olho nelle, tanto que o vi- 
ram dentro , parecendo-lhe que fe poderiam 
melhor ajudar delíe, por o lugar fer eílrei- 

to, 



Década III. Liv. I. Cap. VIL 73 

to, o foram efperar na boca do rio, onde 
os noílbs tiveram bem que fazer em quan- 
to fe não viram no largo. Porque como as 
fuftas andavam melhor remeiras , e tinham 
muita artilheria miúda, e trabalhavam- por 
fugir abalroarem os noílbs com ellas , era 
o leu modo de peleja huma cfcaramuça bem 
travada entre remo, fettas, efogo, té que 
fendo huma das fuás fuftas abalroada , fez. 
lançarem-íè os Mouros a nado , e fal varem- 
fe em terra , a qual deo avifo a que as ou- 
tras fe puzeram a balravento das noflas , e 
dahi em falvo. D. João como vio que lhe 
não podia fazer mais damno , por o tempo 
lhe não fervir , poz-fe em caminho via de 
Goa com fundamento de dar huma vifta 
a Dabul , e ir fempre á vifta da coíla , por 
caula de topar alguns navios de Mouros , 
que fahiam dos portos delia , furtados da 
nofla Armada. E indo bem feguro do que 
íhe eítava ordenado , e fendo já fobre o 
porto de Dabul , defcubrindo hum dos ca- 
tures que levava diante huma ponta , vio 
féis, ou fete velas, as quacs trazia Álvaro 
de Madureira , com fundamento de dar fo- 
bre elle de noite em o porto de Chaul , on- 
de o elle leixava , parecendo-lhe que o po- 
deria tomar defcuidado. Porque com a da- 
nada confciencia que trazia naquelle eftado 
de Mouro , em que andava , depois de re- 

ce- 



74 ÁSIA de JoÃo de Barros 

ccber os duzentos pardaos que lhe deram , 

Í>era fe repairar de quão desbaratado vinha , 
òi-fe a Dabul , e fez crer ao Capitão do 
Hidalcão que alli eftava , que poderia tomar 
os noííbs ás mãos , porque ficavam bem def- 
cuidados de haver per aquelles portos Ar- 
mada alguma , e mais que os noíTos navios , 
tirando a naveta do Capitão mor , tudo 
eram catures 5 navios que não vinham a con- 
to pêra os que elle tinha. Finalmente por 
elle já lá fer conhecido , tanto credito teve , 
que mandando o Capitão de Dabul por no- 
me Mirai Melique os feus navios de remo , 
e Capitães que leguiílem o modo do ardil 
que elle Álvaro de Madureira dava , vinham 
todos com propoíito de tomar os noflbs de 
lioire fbbre ancora. Peró quando houveram 
vifta do catur , que os defcubrio , affi como 
elle fez volta a dar avifo a D. João , aíli 
elles mudaram o propofito , e foram-fe to- 
dos metter no porto de Dabul , aos quaes 
D. João não feguio mais , que quanto os 
pode alcançar com artilheria. E tornando 
a feu caminho via de Goa , chegou a ella 
a tempo que D. Fernando feu irmão era 
vindo das Ilhas de Maldiva , e naquella via- 
gem tinha tomado duas náos de Mouros 
de Cambaya , de que era Capitão hum Mou- 
ro per nome Cogequi , homem de tanto 
animo } que fendo a maior parte da fazen- 
da 






Década III. Liv. I. Cap. VIL 7? 

da das náos fua , e vendo-fe cativo , elle 
mefrno fe confolava quando os noííbs o 
queriam confblar , dizendo que os bens def- 
ta vida não tinham próprio íenhor , porque 
Deos os dava , e tirava a quem lhe prazia. 
E ao tempo que D. Fernando chegou com 
efta boa preza , eílava D. Goterre pêra com- 
metter outro negocio per terra y em que da- 
hi a bem poucos dias o metteo , no qual el- 
le não teve tão boa fortuna como nos do 
mar, é caufou pôr a Cidade Goa em eftado 
de muito perigo , e os noííbs de grandes tra- 
balhos ; e pêra fe melhor entender o cafo , 
convém trazer o fundamento delle de lon- 
ge. Em tempo que Aífonfo d'Alboquerque 
governou a índia , hum Fernão Caldeira 
íèu pajé cafado em Goa , por algumas tra- 
vèíTuras que fazia ao modo de coflairo em 
Mouros que vinham ter a Goa , e paflavam 
pela fua coita , EIRey D. Manuel o man- 
dou vir a eíle Reyno , e depois o enviou 
folto com Lopo Soares , o qual depois de 
chegado a Goa , faltou com Henrique de 
Touro natural de Évora hum deftes Capi- 
tães , de que ora fizemos menção , e lhe de- 
cepou huma perna , e deo huma cutilada 
pelo rofto , pelo qual cafo ellç fe paífou 
pêra aterra firme. Outros dizem que a eíle 
crime fe accrefcentou aífombrarem-o alguns 
por parte de D, Goterre , que como Lopo 

Soa^ 



76 ASIÀ de João de Barros 

Soares tornafle de Cochij ; o havia de man- 
dar enforcar no lugar onde tinha feito o 
maior crime , e que ifto fizera D. Goterre , 
por fe ellc mais temer , que do crime ac- 
cidental , por razão de olhar pêra fua mu- 
lher , que elle Fernão Caldeira tinha em 
Goa , e também lhe ter má vontade por 
humas palavras que com elle paliara em 
Moçambique : feja como for , baila que el- 
le fe paíTou aterra firme dos Mouros , e fe 
foi pêra a tanadaria de Pondá , que fera de 
Goa duas léguas, onde eftava Ancoftao 
hum Capitão do Hidalcao. D. Goterre tan- 
to que foube que eftava com elle, mandou- 
Iho pedir , denunciando delle quantos ma- 
les tinha feito afli a Chriftãos , como a 
Mouros , e nefte requerimento andou per 
alguns dias com Ancoftao : a refpofta do 
qual fempre foi que não fabia parte delle, 
e que a terra era larga per onde fe podia 
efconder. Da qual efcufa D. Goterre ficou 
tão efcandalizado delle Ancoftao , que lhe 
mandou dizer algumas palavras em modo 
de defafio. Ao que o Mouro refpondeo , que 
elle D. Goterre nafcêra do ventre de fua 
mãi com o nome que tinha , e não lho via 
acerefeentado em outro de mais honra ; e 
elle fendo hum eferavo do Hidalcao leu fe* 
nhor, de homem de pouca forte per nafei- 
mento. per mérito de.feus feitos chegara a 

me- 



Década III. Liv. I. Cap. VIL 77 

merecer nome de Ancoítao , e de homem 
que per feu braço tinha ganhado tanta hon- 
ra , bem fe devia de crer delle que o não 
teria fraco pêra defender fua vida. Com a 
qual refpofta D. Goterre ficou mais indigna- 
do , vendo que o Mouro o motejava de 
fraco,. eelle glcriava-fe decavalleiro , don- 
de procedeo , que tornado Lopo Soares de 
Cochij pêra Goa , quando fe partio pêra o 
eftreito , D. Goterre lhe fez queixume defte 
Mouro , accrefcentando algumas outras cul- 
pas , per as quaes determinava de o cafti- 
gar per qualquer maneira que pudeífe. Lo- 
po Soares como D. Goterre era calado com 
D. Mariana fua fobrinha, e o leixava com 
os poderes de Governador em quanto fa- 
zia aquella viagem ao eftreito , refpondco- 
Ihe que fizeífe o que lhe niflb bem parecef- 
fe. Partido elle , no tempo que D. Fernan- 
do , e D.João fizeram as viagens, que ora 
contámos , per induftíia de D. Goterre lan- 
çou-íe na terra firme hum João Gomes va- 
lente homem de fua peífoa , com titulo de 
ir defavindo deile Capitão ; e a primeira 
coufa que fez , foi ir pouíar com Fernão 
Caldeira , como homem que já naquelle 
tempo tinha valia com Ancoftão. Finalmen- 
te tanto andou pêra o matar, té que hum 
dia no campo o fez , andando ambos a ca- 
vallo , fobre o qual calo acudio Ancoftão , 
/ e an- 



78 ÁSIA de JoÃo de Barros 

e ante que João Gomes fe falvafle , foi to-* 
mado , e morto. Do qual cafo procedeo 
mandar dar D. Goterre feu irmão D. Fer- 
nando que entraíTe nas terras firmes v ao qual 
aconteceo o que fe verá neíle feguinte Capi- 
tulo. 

CAPITULO VIIL 

Como D. Goterre mandou D. Fernando 
com gente de * c avalio , e de pé fobre o Capi- 
tão Âncofiao , na qual entrada morreo o 
Alcaide mor João Machado com muita gen- 
te nojfa , efoi caufa da Cidade Goa fer cer- 
cada té a vinda de António de Saldanha , 
que par tio dejle Reyno com huma Armada. 

DOm Goterre indignado mais com eíla 
morte de João Gomes, determinou de 
fe vingar; epera iíTo fer mais a feu propo- 
íito, diflimulou o cafo per alguns dias, nos 
quaes exercitava os moradores que tinham 
cavallos , irem ao campo efcaramuçar , tra- 
zendo-os. adeftrados pêra o que efperava 
fazer : do qual negocio deo conta a João 
Machado Alcaide mor de Goa, aquelle que 
a falvou no cerco grande que teve , (como 
atrás efcrevemos.) Ao qual João Machado 
EIRey D. Manuel , porelle fer homem que 
fabia bem as terras firmes de Goa , deo hum 
Alvará, que havendo gente decavallo, ou 
de pé fazer alguma entrada naquellas ter- 
ras , 



Década III. Liv. L Cap. VIII. 7$ 

ras , não indo o Capitão da Cidade em pek 
foa, que elle fofle Capitão deita gente. Por 
a qual razão D. Goterre quiz que aquella 
vez defiftiffe do Alvará , dizendo que elle 
queria mandar feu irmão D. Fernando com 
alguma gente a caítigar aquelle Mouro An- 
coílão , que tantas coufas lhe tinha feito, 
e que elle João Machado iria em fua com- 
panhia , como peííoa principal , por faber 
bem a terra , e o modo de pelejar daquel- 
les Mouros , o que João Machado conce- 
deo entre rogo , e força. Finalmente por 
fe tudo fazer per modo que o Mouro não 
tiveííe alguma fufpeita deite ajuntar gente 
de cavallo , metteo D. Goterre aos mora- 
dores que jogaííem as canas na feita de Es- 
pirito Santo , que elle elegeo pêra eíta ida ; 
e paliadas as canas , ao outro dia á tarde 
levou ao campo todolos encavalgados , e 
João Machado per outra parte levou a gen- 
te de pé, affi dos Portuguezes , como Ca- 
narijs da terra. Junta toda eíta gente , de- 
pois que D. Goterre lhe denunciou fua ten- 
ção, pedindo-lhe quizefiem acompanhar leu 
irmão naquella ida , que elle elperava fer 
de muita honra , e proveito pêra todos , 
paffáram pelo paíTo de Benaítarij , onde ek 
tava preítes fua embarcação. Seriam de ca- 
vallo oitenta , e efpingardeiros , e béíteiros 
de pé Portuguezes fetenta , e muitos Ca- 
na- 



8o ÁSIA DE JOÃO DE BaKROS 

narijs da terra. Poílos em caminho pêra Fon- 
dá , quando veio ao paliar de hum paíTo 
mui cítreito , como João Machado era ho- 
mem de guerra 3 e íàbia bem a terra , di-fle 
a D. Fernando que naquelle paflb leixaíTe 
alguma gente de cavallo 3 e de pé , porque 
como aqueíle lugar eíliveffe em poder del- 
les ? não lhe podia íòbrevir coufa que lhe 
fizeíTe damno ; e fe lho tomaílem , vindo 
gente groíla fobre elles , feriam perdidos ; 
ao que D. Fernando logo proveo. Peró tan- 
to que fe partio > os que alli leixou foram- 
fe trás elJe , não que os vifle , dizendo , que 
elles guardariam o palio 5 e os outros iriam 
encher-fe de muito defpojo. E porque quan- 
do chegaram ao lugar de Pondá era ainda 
de noite ., quizera João Machado que def- 
fem no lugar ante manha y pêra tomarem os 
Mouros na cama , o que D. Fernando não 
<]uiz , fenão que foíTe manhã clara. E pe- 
dindo elle que lhe deíTem a dianteira em 
modo do defcubridor , entre inveja , e ai* 
voroço que fe havia de achar muita rique- 
za, eque os primeiros fariam mais feu pro- 
veito ; tanto que João Machado partio , fo- 
ram- fe trás elle , e a todo correr dam Sant- 
iago no lugar , no qual impeto mettêram 
logo os Mouros em fugida , que já os ti- 
nham fentido , paíTando-fe além de hum rio 
per huma ponte. ; No alcanço dos quaes for 

ram 



Década III. Li v. L Cap. VIII. 81 

ram alguns dos noflbs , mas não muito ; por- 
que vendo os Mouros quão poucos eram, 
tornaram Íobre fi , e os fizeram voltar per 
onde vinham , e ifto já tão apertados , que 
como huns começaram virar as coílas , os 
mais fe puzeram em fugida defordenadamen- 
te. E chegando ao paflb onde D. Fernando 
cuidava que tinha algum refugio nos ho- 
mens que alii leixára , por vir já mui apref- 
fado de muitos Mouros que o perfeguiam, 
achou que era tomado per elles , os quaes 
como eram fenhores delle , e a feu falvo , 
polo lugar íèr azado , podiam ferir em os 
nolTos , e quantos vieram diante de D. Fer- 
nando , todos ficaram alli mortos. O qual , 
primeiro que chegaíTe áquelle palio , tinha 
feito duas , ou três voltas fobre os Mouros 
de cavallo ; mas iflb aproveitou pouco , 
porque quando fazia huma volta , achava 
menos dez , á fegunda vinte de maneira , 
que vendo João Machado que fe podiam 
perder todos , diíle a D. Fernando : Senhor , 
i tomar o pajfo , porque nelle eftd nqffa vi- 
da , em quanto eu faço huma volta com- 
prida com eftes Mouros ; e fe vos Deos le- 
var a Goa , direis a voffo irmão que efla 
era a honra pêra que vos elle cá mandou 9 
leixardes nefle lugar os principaes homens 
que tinha debaixo de fua capitania , por 
fatisfazer á fua indignação. Na qual vol- 
Tom.IILP.I. F ta 



82 ÁSIA de João de Barros 

ta que João Machado fez , entreteve algum 
tanto os Mouros , com que D. Fernando 
teve lugar pêra paíTar o paflb já per cima 
de corpos mortos da gente de pé nofla , e 
alguns de cavallo , que os Mouros que o 
guardavam , quaíi a mão tenente mataram. 
Finalmente João Machado ficou morto no 
campo , e com elle cincoenta entre de ca- 
vallo , e de pé ? e cativos vinte e fete, em 
que entraram criados d'E!Rey , e outros 
homens honrados , e dos Canarijs cento e 
tantos entre mortos , e cativos , e muito 
mais morreram delles fenao fe embrenha- 
ram , por faberem bem a terra. O qual ca- 
io foi mui fentido , e chorado em toda a 
Cidade , não fomente nefte dia , mas per mui- 
tos , polo que ao diante fuccedeo delle: cá 
fè levantou toda a terra contra nós , e o 
Hidalcao efcreveo a Sufo Larij feu Capitão 
mor daquellas terras, o qual reíidia emBil- 
gam obra de quinze léguas de Goa , que 
com Ancoftão que fez eíle feito , e outros 
Capitães daquellas tanadarias foíTe fobre Goa , 
e lhe puzeíte cerco , pois quebrara as pa- 
zes que com elle tinha. Sufo Larij , porque 
o Hidalcao IhQ dava a capitania de Goa fe 
a tomaffe , e muita parte das tanadarias da 
terra firme a elle , e aos Capitães que fof- 
fem nefte feito 5 não era páífado hum mez 
-da morte de João Machado , quando veio 

com 



\ 



Década III. Liv. L Cap. VIIL 83 

com trinta mil homens , em que entravam 
quatro mil de cavallo ; mas acharam já pe- 
jados os paíTos que elle vinha demandar 
pêra paíTar a Ilha. Porque D. Goterre com 
a nova de fua vinda tinha provido na de- 
fensão delles com obra de quatorze fuftas, 
e bateis , que repartio em duas capitanias , 
a D. Fernando feu irmão deo huma , e ou- 
tra a João Gonçalves de Caftello-branco , 
com os quaes andavam Henrique de Tou- 
ro ? Domingos de Seixas , Paulo Cerveira , 
Pêro Soares , Pêro Gomes , Pêro Jorge , e 
outros Capitães. E a Cidade repartio em 
eílancias , e vigias , derredor dos muros to- 
dolos Canarijs da terra que viviam pelas Al- 
deãs , temendo que commettefíem alguma 
traição 9 como aconteceo em tempo de Af- 
fonfo d'Alboquerque. Com o qual cerco , 
pofto que não foi derredor dos muros , fo- 
mente per os pafíbs da terra firme , que Su- 
fo Larij muitas vezes commetteo , fem po- 
der paliar a Ilha , porque a Cidade fe man- 
tinha do que cada dia lhe vinha de fora ; 
o tempo que alli eíteve a poz em muita ne- 
ceíTidade , e padeceo aíTás de trabalho en- 
tre temor , e vigia , por andarem aííi os do 
mar , como os da terra de dia , e de noite 
com as armas ás coitas , acudindo ora nu- 
ma parte , ora noutra , fem terem algum re- 
poufo. E o mais que Sufo Larij fez em et 

F ii ta 



#4 ÁSIA de João DE Bakros 

ta íua vinda foi no paíTo Beneftarij -hum 3 
força defronte da noífa fortaleza, onde aí- 
fenrou alguma artilheria , com que fez pou- 
co ; porque huma peça de metal \ com que 
nos fazia damno , lhe foi logo quebrada. 
Finalmente o cerco durou naquelle traba- 
lho, em que os noííbs fizeram honrados fei- 
tos , té Setembro , que João da Silveira , 
que invernou em Quiloa , chegou a Goa 
com quatrocentos homens , que era a gente 
da fua náo , e a que fe falvou da de Fran- 
cifco de Souía Maneias. E lobre elle veio 
Rafael Preftrelo em hum bargantim , o qual 
havia pouco tempo que chegara a Cochij 
em huma náo ; e como vinha rico da Chi- 
na onde fora , e era homem largo , e ca- 
ir alleiro , metteo-fe com elle muita gente* 
E dahi a vinte dias chegou António de Sal- 
danha com féis nãos , com que deite Reyno 
partira por Capitão mor ; com a chegada 
do qual não fomente Sufo Larij levantou o 
cerco , mas ainda per mandado do Hidal- 
cao affentou paz , vendo que mais lhe im- 
portava que a guerra , pois per tantas ve- 
zes eftava defenganado não fer poderofo 
pêra tirar de noflb poder aquella Cidade. 
E/ ficando de guerra, perdia o proveito que 
tinha com noíla communicação, e mais aven- 
turava perder as terras firmes , fe as quizef- 
femos conqyiftar : cá clh pola guerra que 

ti- 



Década III. Liv. I. Cap. VIII. 8? 

tinha com EIRey de Bifnaga , não podia 
efcufar Sufo Larij , e quantos com elle an- 
davam. E fe o mandou commetter Goa , 
não foi tanto pola entrada que D. Gcterre 
mandou fazer, quanto por lhe parecer que 
a podia levar na mão aquelles mezes do in- 
verno , por haver conjunção pêra iílb , com 
as tregoas que com EIRey de Bifnaga nef- 
te tempo tinha , que lhe efcufava parte da 
gente que veio áquelle cerco. E também 
teve grande efperança de lhe fucceder bem, 
por fe dizer que Lopo Soares era perdido 
com toda a Armada no mar Roxo , e por 
iílb tomou por caufa defte commettimento 
mandar D. Goterre fazer aquella entrada , 
tendo pazes com elle. E neíle concerto de 
paz fez Sufo Larij entrega dos cativos que 
tinha Ancoftão , e ainda D. Goterre , e An- 
tónio de Saldanha tomaram por cautela de 
honra que eílas pazes feriam té vir Lopo 
Soares pêra as confirmar , fe lhe bem pa- 
receíTem , as quaes confirmou depois que 
veio. E poílo que pareça , que neíle lugar 
convinha darmos razão da viagem de An- 
tónio de Saldanha , nós o leixamos pêra ou- 
tra parte , porque pêra fe melhor continuar 
o fio da hiíloria he neceílario efcrever pri- 
meiro as coufas que fe pairaram em Mala- 
ca , em quanto Lopo Soares foi ao eftrei- 
Ko , c^ue não foram de menos trabalho , e 



86 ÁSIA de João de Barros 

perigo , que as que elle palfou , e aífi Dom 
Goterre em o cerco de Goa. 

CAPITULO IX. 

Do que fuccedeo a Jorge de Brito depois 
que entrou na capitania de Malaca : e 
do que Je pajjòu nella depois de feu fa- 
lecimento fobre quem o fuccede- 
ria no cargo de Capitão. 

COmo atrás efcrevemos , na Armada 
que deite Reyno partio o anno de quin- 
ze , Capitão mór Lopo Soares , foi Jorge 
de Brito Copeiro mór d'ElRey D. Manuel, 
ao qual eíle fez mercê da capitania de Ma- 
laca em lugar de Jorge d'Alboquerque , que 
a fervia , e fora provido delia por AíFonfo 
d'Alboquerque. E de quão boa fortuna Jor- 
ge de Brito teve na brevidade de fba via- 
gem , (como efcrevemos ,) tão contrária lhe 
foi depois que tomou poííe delia. Cá ef- 
tando em muita neceííidade de mantimen- 
tos , e todo o povo da terra defcontente, 
e não mui feguro em fua vivenda alli, por 
caufa da morte d'ElRey de Campar , que 
Jorge d'Alboquerque mandou matar, com 
a vinda delíe Jorge de Brito fe acabou de 
desbaratar de todo ; e a caufa foi querer 
ufar de hum Regimento que levava d'El- 
Rey P fobre o qual cafo elle foi mal infor- 
ma- 



Década III. I/iv. I. Çap. IX. 87 

mado. E pofto qué Jorge d 5 Alboquerque , 
como experimentado niíto , aconfeihava Jor- 
ge de Brito , todavia quiz elle ante feguir 
o Regimento d'E!Rey , econfelho dalguns 
dos noíTos , que tiveram mais reípeito a íeus 
intereffes , que ao bem da Cidade , come- 
çando logo de pôr mãos á obra. Que era 
tomar todolos criados que foram d ? ElRey 
de Malaca , a que elles chamam Ambará- 
ges , e aíli as quintaas chamadas duções , 
que eram dos Malayos naturaes da terra , 
e repartir efta gente , e propriedades per os 
moradores Portuguezes que alli viviam ; e 
pêra fe melhor faber odamno que fe daqui 
feguio , repetiremos efte cafo de feu princi- 
pio. Quando AíFonfo dVAlboquerque tomou 
Malaca, o povo delia com temor da fúria 
da nofla entrada fugia pêra onde efperava 
ter falvaçao ; fobre o qual cafo ( como já 
efcrevemos ) elle mandou lançar pregoes , 
que todos fe recolheíTem á Cidade povoar 
fuás cafas , fegurando-lhes bom tratamento 
de fuás peífoas , e os manter em juftiça ao 
modo que dantes viviam. E quanto aos que 
fe chamavam criados d'ElRey per efte vo- 
cábulo Ambaráges, e aíli aos eícravos do 
mefmo Rey , que fora de Malaca, com- 
prados per dinheiro , a que elles chamam 
Ballátes , viviriam debaixo da obrigação de 
ferviço , e liberdade que tinham em poder 

dei- 



88 ÁSIA de JoXo de Barros 

delle; e não vindo ellcs té hum certo tem- 
po , todolos que foliem tomados , feriam 
prezos , e cativos. Com efte pregão , e ou- 
tros modos que Affbnfo d'Alboquerque te- 
ve com alguns principaes da Cidade , aíli 
como Utimutirája , Nina Chetú , toda a 
gente que andava pelos matos fugida fe tor- 
nou á Cidade de maneira ? que em pouco 
tempo elle fe tornou reformar de morado- 
res. Depois em tempo deRuy de Brito pri- 
meiro Capitão deita Cidade , e de Jorge 
d'Alboquerque , que foi o fegundo , per Re- 
gimento de Affonfo d\Aiboquerque , fem- 
pre eftes Ambaráges 5 e Ballates recebiam 
hum panno em dous tempos do anno pêra 
feu veftir, e certas medidas de arroz pêra 
ajuda de fe manterem. E a obrigação que 
tinham os eferavos era fervirem na ribei- 
ra em a varação das náos , e outros mifte- 
res defta qualidade > e os Ambaráges por 
terem gráo de honra , ferviam no maneio 
da feitoria , e todos eftavam em fuás cafas , 
e liberdade , creando feus filhos , e aprovei- 
tando luas fazendas ; fomente quando eram 
chamados , acudiam ao ferviço ; mas com 
a vinda de Jorge de Brito , todo efte ufo 
fe defordenou , lançando mão deftes Am- 
baráges com nome de eferavos d'E!Rey. E 
algumas quintaãs , e propriedades que ti- 
nham homens principaes da terra 7 lhes eram 

to- 



Década III. Liv. L Cap. IX. 89 

tomadas, dizendo não ferem íuas, mas de 
outros Malayos , que fugiram no tempo da 
entrada da Cidade , e elles as tomaram co- 
mo coufa devoluta. O qual negocio foi em 
tanta defordem feito , que muitos homens 
livres ficavam cativos ; porque como hum 
homem da terra queria mal a outro , hia 
ao Capitão , e denunciava delle fer eícravo 
d\ElRey , e com duas teftemunhas ficava 
condemnado , e outro tanto fe fazia das pro- 
priedades. Vendo o povo como muitos ho- 
mens livres eram cativos , com temor co- 
meçaram defpejar a Cidade , huns per mar , 
e outros per terra, o mais fecretamente que 
podiam , por não ferem reteudos. Accref- 
centou-fe mais a efte mal outra coufa que 
muito indinou a gente mais nobre da ter- 
ra; efoi, que eílando emeoftume, quando 
da Cidade Malaca partiam juncos pêra Ma- 
luco , Banda, Timor, Borneo, Patane , 
China , e outras partes , pofto que nelles fof- 
fe fazenda d'ElRey , ou do Capitão , e of- 
ficiaes da Feitoria , fempre a capitania do 
junco ficava com o fenhorio delle. O qual 
coílume Jorge de Brito mudou , mandando 
que o Capitão do tal junco foífe Portuguez , 
e comelle foíTem alguns homens Portugue- 
zes por maior fegurança da fazenda. Fi- 
nalmente eílas mudanças fizeram tanto es- 
cândalo nos Malayos, e afíi defpovoáram 

a Ci- 



90 ÁSIA de João de Barros 

a Cidade , que quando Jorge de Brito o 
quiz remediar, mandando lançar pregoes, 
que todos íe tornaíTem com grandes fegu- 
ros , e liberdades que promettia , aprovei- 
tou pouco. No qual tempo veio elle falle- 
cer de doença , leixando por Capitão da 
fortaleza a Nuno Vaz Pereira irmão de lua 
mulher, que fervia de Alcaide mor, e ef- 
te cargo deo a António de Brito feu fo- 
brinho filho de Lourenço de Brito , a qual 
mudança de officios também inquietou a ter- 
ra , e a metteo em grande confusão. Por- 
que dado que per Regimento d'ElRey os Al- 
caides mores fuccedem aos Capitães quan- 
do fallecem , nefte fuccedimento não conlen- 
tia António Pacheco Capitão mor do mar , 
dizendo pertencer a elle , por affi eftar or- 
denado per AíFonfo d'Alboquerque , quan- 
do leixou por Capitão da fortaleza a Ruy 
de Brito Patalim, ao qual havia de fucce- 
der Fernão Peres d 5 Andrade. Partida em 
duas partes eíla competência , Nuno Vaz 
com feus favorecedores eílava na fortaleza y 
e António Pacheco com fua Armada em 
huma ilheta defronte de Malaca , e hum fe 
vigiava do outro ; no qual tempo foi alli 
ter Fernão Peres d' Andrade, que hia pêra 
a China , ( da viagem do qual adiante fa- 
remos relação , ) e nunca os pode concertar, 
E partido elle, indo hum Domingo Anto* 

nio 



Década III. Liv. I. Cap. IX. 91 

nio Pacheco ouvir Mifla , e paíTando per 
ante a porta da fortaleza com gente que o 
acompanhava , fahio Nuno Vaz de dentro , 
e tendo-fe no lumiar da porta , diííe a An- 
tónio Pacheco , que lhe pedia , pois anda- 
vam em concerto de fe determinar o feu 
caio per juizes louvados , que oquizefle ou- 
vir perante aquelles homens que o acompa- 
nhavam. Chegado António Pacheco á por- 
ta a ouvir o que Nuno Vaz queria , fahio 
de dentro da fortaleza hum Thomaz Nu- 
nes homem de muita força , e levou Antó- 
nio Pacheco nos braços > e com ajuda de 
outros que eftavam pêra iíTo , deram den- 
tro com elie. E querendo os que o acom- 
panhavam fazer niíTo o que deviam á fua 
amizade , apagou Nuno Vaz toda a fúria 
delles com grandes requerimentos de parte 
d'ElRey , e perdimento de feus ordenados , 
e prendendo também Pêro de Faria, e ou- 
tros da parciliadade de António Pacheco. 
As quaes diíFerenças não fomente acabavam 
em o damno , que eíías duas partes fe fa- 
ziam , como gente mal avinda , mas ainda 
fe defcuidavam tanto em a defensão da Ci- 
dade , que puzeram a EIRey de Bintam 
cm grande efperança de fe tornar a reítituir 
ao eftado de Malaca. Porque depois que 
Jorge d'Alboquerque mandou degollar leu 
genro EiRey de Campar , pelo artificio que 



^2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

elle Rey de Bintam teve (como efcrevemos ) 
ficou táo gloriofo daquelle negocio fucce- 
der fegundo elie o ordenou , que com mais 
animo fez maiores Armadas pêra ialtear as 
imos que daqueilas partes do Oriente vinham 
com mantimentos , e mercadorias a Mala- 
ca. E iílo fazia elle em quanto a nova da 
morte de feu genro não foi fabida ; porque 
depois que a fama delia correo pelas terras 
vizinhas , e aífi per a Java 3 e Ilhas comar- 
cans , caufou tanto efcandalo , e principal- 
mente depois que Jorge de Brito começou 
o negocio dos Ambaráges , que quaíi toda- 
las nações eítavam indignadas contra nós , 
fem quererem acudir com os mantimentos 
que ordinariamente fó hiam trazer á Cida- 
de, que era a principal coufa que ella ha- 
via mifter. Afil que com noíTo máo gover- 
no viemos a lhe dar tantas armas , que já 
mui oufadamente , depois que foube a diífe- 
rença , que entre aquellas duas partes havia , 
mandava dar viíla com fuás Armadas á Ci- 
dade; porque os noífos polo cuidado que 
traziam em íi , fe defcuidavam deite imigo , 
que naoeftudava em outra coufa. Finalmen- 
te por os bons fucceíTos que neíle tempo 
teve , elle mandou a hum Capitão feu cha- 
mado Ciribiche de Raja , homem valente 
de fua peíToa , e prudente Capitão > o qual 
com huma Armada de lancharas , e calalu- 

zes. 



Década III. Lrv. L Cap. IX. 95 

2es, que são navios de remo, íèveio met- 
ter em o rio de Muar , que he cinco lé- 
guas de Malaca, onde fez huma fortaleza 
de madeira coufa tão defenfavel , que pare- 
cia impoílivel poder fer entrada - y porque 
além da força dos páos , e entulho de ter- 
ra , que da porta de dentro tinha , eítava 
nos lugares de fufpeita mui artilhada , que 
podia bem oíFender a quem a commettelfe. 
Da qual força , como de parte tão perto 
da Cidade , eíte Capitão todolos dias lhe 
vinha dar rebates , não fe contentando de 
defender que não vieíTem navios de fora ; 
mas tomando té hum pefcador , fe fahia 
pefcar, fem nefte tempo os noílbs lhe po- 
derem fazer algum damno , por a Cidade 
citar pobre de gente, e o Mouro dar eites 
rebates em modo de corredor , a fim de le- 
var os noíTos ao rio de Muar , onde tinha 
fuás ciladas de mais velas. A nova deitas 
coufas foram levadas á índia a Lopo Soa- 
res , depois que veio do eftreito , per Veriíli- 
mo Pacheco irmão de António Pacheco pre- 
zo , que andava em hum navio por Capi- 
tão ; o qual Lopo Soares vendo o rifco que 
Malaca corria , ordenou demandar D. Alei- 
xo de Menezes a prover nella , e a metter 
de poíTe da capitania da fortaleza a Affon- 
fo Lopes d'Acoíta , que deite Reynò fora 
provido por EiRey D. Manuel na vagan- 
te 



94 ÁSIA de JoÃo de Barros 

te de Jorge de Brito. E provido de toda- 
Ias coufas pêra defensão da Cidade , partio 
de Cochij em Abril do anno de quinhen- 
tos e dezoito em três navios , de que eram 
Capitães Jorge de Brito , D. Triítão de Me- 
nezes , e elle no terceiro , levando té tre- 
zentos homens que haviam de ficar na Ci- 
dade , por eítar mui desfalecida de gente , 
o qual aportou nella a falvamento ; e do 
que fez , tanto que chegou , diremos em ou- 
tra parte 5 porque convém tornarmos a dar 
conta do que António de Saldanha paíTou , 
que com a Armada em que foi por Capi- 
tão mor 5 e aífi de algumas coufas que íuc- 
cedêram com fua chegada á índia, depois 
que aíTentou as pazes de Goa , de qile atrás 
falíamos. 

CAPITULO X. 

Da viagem que António de Saldanha 
fez o anno de dezefete , que defte Reyno 
partio , e as coufas que pajfdram na ín- 
dia com fua chegada : e como Lopo Soares 
o mandou de Armada â cofta da Arábia , 
e ajfi enviou D. João da Silveira as Ilhas 
de Maldiva. 

ELRey D. Manuel pola experiência que 
tinha dos ferviços de António de Sal- 
danha nas partes da índia y ordenou de o 

man- 



Década III. Liy. L Cap. X. 95* 

mandar o anno de dezefete pêra andar de 
Armada # na coita de Arábia , e portas do 
mar Roxo em guarda das náos dos Mou- 
ros , que navegam aquellas partes , como já 
outra vez andara o anno de quinhentos 
e três > (fegundo efcrevemos.) E porque de 
cá do Reyno não podia levar navios de re- 
mo , fegundo convinha pêra aquellas par- 
tes 5 efcreveo a Lopo Soares que o provef- 
fé delles, conforme ás velas que elle man- 
dava que António de Saldanha trouxeífe de 
Armada. E além deita capitania mor, lhe 
deo mais a das náos da carreira , que aquel- 
le anno partiram pêra a índia a trazerem 
a efpeciaria : os Capitães das quaes eram 
D. Triítão de Menezes filho baítardo de 
D. Rodrigo de Menezes , Affonfo Henri- 
ques filho de Fernão de Sepúlveda , e Ma- 
nuel de la Cerda , que hia pêra fervir de 
Capitão na fortaleza de Calecut , e Fernão 
dAlcaçova de Veador da fazenda , e Pêro 
Quarefma de Feitor de Cochij. Partido An- 
tónio de Saldanha comeftas féis velas , che- 
gou á índia a dezefete de Setembro com 
menos duas que invernáram , e foi fua che- 
gada caufa da paz que fe aífentou com Su- 
fo Larij , como ora efcrevemos ; eneíte mef- 
mo tempo chegou também D. Aleixo de 
Menezes de Ormuz com os doentes , e trás 
elle veio Lopo Soares > que por ta' lá pou- 
co 



<?6 ÁSIA de João de Barros 

co que fazer , não fe deteve muito. O qual 
chegado a Goa , vendo Fernão d' Alcáçova 
com nome de Vcador da fazenda , e Regi- 
mento , e poderes d'E!Rey , que fe eíten- 
diam a todo o governo da fazenda , e que 
quafí não ficava a elle Lopo Soares mais 
que o cuidado das coufas da guerra , e 
adminiftraçao da juftiça , ( não porém que 
nas Provisões d'ElRey lhe foíTe a elle pof* 
ta efta limitação y ) ficou mui defeontente , 
por lhe dar elle coadjutor em feu officio , 
pois partira deite Reyno fem elle. E mais 
ler Fernão d ? Alcáçova homem , que além do 
Regimento que levava fe eílender a mui- 
to , per condição elle o fazia chegar a tu- 
do o que queria entender : donde nafceo , 
que primeiro que Lopo Soares chegaffe , 
lhe achou já feito muitas coufas em Goa , 
que o a elle defeontentáram. Finalmente 
aqui, e depois que as náos em Cochij ef- 
tiveram á carga da efpeciaria , fobre man- 
dar 3 que he o fermento de toda difeordia , 
houve entre elles tanta , que caufou vir-fe 
Fernão d 5 Alcáçova aquelle mefmo anno pê- 
ra efte Reyno em companhia das náos da 
carga da efpeciaria Capitão de huma del- 
ias. As quaes diíferenças não fomente lhe 
cuíláram honra , fazenda, e muito trabalho 
que tiveram lá , e cá no Reyno , mas ain- 
da a alguns Capitães das fortalezas: aífi co- 
mo 



Década III. Liv* I. Cap. X. 97 

mo D. Goterre Capitão de Goa > e Simão 
da Silveira de Cananor , e outros por im- 
pedirem a Fernão d'Alcaçova em algumas 
coufas ufar do regimento de feu officio , 
daqualjurdiçao elleseítavam em poífe. Por- 
que foram depois de fua chegada a efte Rey- 
no demandados polo Procurador da Fazen- 
da d'ElRcy , e perderam feus ordenados ; 
poílo que EIRey D. Manuel tornou boa 
parte a alguns poi* lhe fazer mercê , e prin- 
cipalmente EIRey D* João feu filho depois 
que reinou. E daqui começou eíle coftu- 
me 3 ferem todolos Governadores da ín- 
dia , depois de fua vinda a eíle Reyno , ac- 
cufados de culpas , e os que lá acabaram 
a morte foi caufa de não v procederem con- 
tra elles , por fer coufa geral fer ella o fim 
de todas j ou (por melhor dizer) ella tira 
a inveja , e competência entre os vivos > 
donde nafcem os ódios , que fazem muitas 
vezes culpas onde as não ha. E quanto nef- 
te Reyno reina eíla enfermidade, o difcur- 
íb de muitas coufas que vimos em noífos 
tempos , e outras que ante paliaram , são 
teftemunho defta verdade : coufa certo mui- 
to pêra condoer da nação Portuguez* Por- 
que no meio da fome , da fede , e de tan- 
tos mil géneros de trabalhos , e muito pe- 
rigo que paífam naquellas partes , e no fer- 
vor da occupação de adquirir fazenda , cau- 
Tom. III. P.L G ia 



98 ÁSIA de JoÃo de Barros 

fa principal que os lá leva , aífí eftam intei- 
ros , e promptos pêra efpreitar os feitos de 
quem os governa 5 e de feris naturaes com 
que communicam , como fe foíTem livres 
deitas coulas 5 e nelles não houveíTem as 
próprias culpas 5 e não pudeíTem fer cita- 
dos por maiores ante o juizo de Deos , 
é dos homens. E o que peior he acerca def- 
te modo de culpar , que são algumas ve- 
zes mais punidos vicios da peflba , que er- 
ros do officio : como fe não foífe mais dam- 
no huma culpa , que hum defeito ; por a 
culpa proceder de adio contra preceito , e 
o defeito da compleição natural de cada 
hum 5 coufa que mui trabalhofamente fe 
muda , ainda que o paciente mude o eíla- 
do. E por evitar eíle damno em coufa de 
tanta importância , como he o governo da- 
quellas partes do Oriente , primeiro que os 
homens fejam providos das capitanias , e 
officios principaes delle , fe devia ter res- 
peito mais aos coítumes. , e habilidade de 
cada hum , que á qualidade da peífoa , e 
fcrviços que tem feito ; porque eftas duas 
coufas quando obrigam , podem-fe pagar 
com mercê de fazenda , e não com gover- 
no de eílado , cá fazer habilidade pêra el- 
le , ainda que os principaes muito podem, 
nefta parte mais pode a natureza. Por tan- 
to nao fe aqueixem daquelies ? que são de- 

fei- 



Década III. Liv. I. Cap. X. 99 

feituofos em feus officios , mas de íi mef- 
mo ; pois ante que metteflem os taes nos 
cargos , de que os querem arguir de máo 
governo , já eram fabedores quão mal fe 
ellcs governavam ; e quem mal governa fua 
peííòa , e cafa , não fe deve cfperar delle 
que governe bem as alheas , que he já hu- 
ma policia , que requer grandes partes em 
hum homem. Tornando a Lopo Soares , 
como ficou defabafado dos requerimentos , 
c proteftos de Fernão d 5 Alcáçova , come- 
çou logo entender em mandar aquelle ve- 
rão alguns Capitães a diverías partes , e 
negócios : a D. João da Silveira ás Ilhas 
de Maldiva aflentar pazes com o Rcy de 
huma delias ; a D. Aleixo de Menezes af- 
fentar as coufas de Malaca , de que ora es- 
crevemos ; e Manuel de la Cerda , em quan- 
to não entrava a fervir a capitania de Ca- 
lecut , que tinha , mandou a Dio com dous 
navios a negocio , em que não fez coufa 
pêra nos determos na relação delia, e por 
iílb não tornaremos mais a q\\q , fomente 
aos outros , como fe verá adiante. E aífi 
mandou a António de Saldanha com huma 
Armada de féis velas á cofta de Arábia , co- 
mo EIRey D.Manuel mandava j e não le- 
vou os tantos navios de remo > como elle 
fazia fundamento levar , porque os havia 
miíter Lopo Soares pêra a ida de Ceilão , 

G ix co- 



ioo ÁSIA de Joio de Barros 

como fe adiante verá. Os Capitães das quaes 
féis velas eram elle António de Saldanha , 
Álvaro Barreto , Miguel de Moura , Fer- 
não Gomes de Lemos , x\ntonio de Lemos 
feu irmão , e Nuno Fernandes de Macedo. 
Na qual viagem indo António de Salda- 
nha tanto avante como o cabo de Guarda- 
fu, que he o fim mais Oriental de toda a 
terra de Africa , topou a háo Trindade, 
de que fora Capitão D. Álvaro da Silvei- 
ra , per cuja morte os da náo fizeram Ca- 
pitão Franciíco Marecos , ao qual António 
de Saldanha prendeo , por achar na inqui- 
rição que tirou da morte de D. Álvaro y 
que elle empreitara hum punhal a Menda- 
fonfo principal author delia ; e aílí prendeo 
Jeronymo cPOlivdra, que era o outro fe- 
gundo 3 que já efcrevemos. Partido deíle 
cabo , pola nova que lhe deram os da náo , 
foi bufcar hum Mouro chamado Suf , mo- 
rador em Cambaya , homem poderofo , que 
andava tratando per aquella coita com hu- 
ma náo groíía , e dous navios pequenos > 
em que trazia feiscentos homens , o qual 
per algumas vezes arribou fobre anoífa náo 
Trindade pêra a tomar , que per aquella 
coíla andava com vinte e cinco homens , 
que a mal podiam marear ; mas falvou-os 
Deos em o tempo fempre lhe fervir, com 
que o Mouro não pode chegar a dia. Pe- 

ró 






Década III. Liv. I. Cap. X, ior 

ró António de Saldanha , pofto que nifío fez 
diligencia per todos aquelles portos , nunca 
o pode achar, econverteo a indinaçao que 
trazia delle em dar na Cidade Barbora , que 
eftá naquella cofca de Africa. A qual Cida- 
de pêro que não he tão nobre como Zei- 
la , que eftá acima delia contra o Norte de- 
zoito léguas , quaíi a quer imitar em a ma- 
neira de feus edifícios , e viver da gente , 
e entrada , e fahida das coufas do Reyno 
Adel , cujoRey he fenhor delia, e fomen- 
te tem alii Governador , como em Zeila. 
E fegundo fua fituação parece fer aquella 5 
a que Ptolomeu chama Malaca , e faz em- 
pório , e efcala daquella cofta , tão notável 
como Zeila , peró que as ponha mais dile- 
tantes huma da outra , do que ellas eítam. 
Os Mouros moradores delia , depois que 
paíTou o feito da tomada de Zeila , que 
fora o anno atrás , fabendo que per aquel- 
la cofia andava huma Armada nofia , efta- 
vam tanto á lerta , e aííi tinham efpias no 
mar em quantas voltas cila dava , que quan- 
do António de Saldanha chegou , não teve 
mais que fazer , que entrar nella vazia de 
gente , e fazenda , fomente fe houve algu- 
ma miferia , e mantimento efcondido ; a tu- 
do o mais, e ao cafco da Cidade António 
de Saldanha mandou pôr o fogo, em quan- 
to fe deteve em fazer fua acuada. PaíTada 

da. 



102 ÁSIA de João de Barros 

daquella cofta á outra de Arábia , foi to- 
mar hum porto abaixo da Cidade Adem , 
onde mandou dar pendor á náo Trindade , 
que fe hia ao fundo com a agua que fazia , 
com fundamento de entrar no eftreito j o 
que leixou de fazer , por o tempo pêra en- 
trar , e fahir fer mui breve ; e temeo que 
invernando dentro, poderia receber a per- 
da de gente , como era morta a Affonfo 
d'Alboquerque , e Lopo Soares. Adi que 
com efte confelho fe fez á vela pêra ir in- 
vernar a Ormuz , e de paíTagem deo vifta 
á Cidade Adem, que o íervio com manti- 
mentos. Chegado a Ormuz , onde efteve 
com toda fua frota aquelle inverno , ante 
de fua partida , mandou Francifco de Ga , 
que alli ficara da Armada de Lopo Soares , 
que lhe foífe fazer preíles mantimentos a 
Calayate ; peró quando António de Salda- 
nha chegou , não os achou preíles. Porque 
rieíla cofta com hum tempo que teve , fe 
perdeo Francifco de Ga , com o qual fe 
também perdeo João Rodrigues do Pao , 
aquelle que matou Mendafonfo , matador 
de D. Álvaro Capitão da náo Trindade , 
que António de Saldanha trazia em fua com- 
panhia. O qual por razão deites mantimen- 
tos que lhe faleciam , fe deteve alli alguns 
dias , e dahi poz rofto na cofta do Reyno 
de Cambava áquem da Cidade Dio^ onde 

an- 



Década III. Liv. I. Cap. X. 105 

andou em quanto o tempo lhe deo lugar, 
cfperando as náos dos Mouros de Meca , 
em que fez algumas prezas , com que fe 
partio pêra a índia, e chegou a tempo que 
Lopo Soares era ido á Ilha Ceilão fazer 
huma fortaleza , que lhe EIRey D. Manuel 
mandava fazer. E por eíla Ilha fer couíli 
tão notável , e de que muitos tem efcrito 
algumas coufas não com verdadeira infor- 
mação , entraremos no fegundo Livro deita 
terceira Década , defere vendo o lítio , e 
coufas notáveis delia. 



DE- 



DÉCADA TERCEIRA. 
LIVROU. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defeubrimento , e conquifta dos ma- 
res , e terras do Oriente : em que fe 
contém o que fez Lopo Soares al- 
bergaria , que per EIRey D. Ma- 
nuel governou y e conquiftou 
aquellas partes por tem- 
po de três annos, 

* ■ - ■ • • ' T 

CAPITULO L 

Em que fe âefereve o fitio , e coufas ãa 
Ilha Ceilão , a que os antigos cha- 
mam Taprobana, 

A Ilha, a que geralmente chamamos 
Ceilão , cujo Rey Lopo Soares hia 
metter debaixo da obediência d'El* 
Rey D. Manuel , eftá fituada defronte do 
Cabo Comorij , que he a terra mais auftral 
de toda a índia , que jaz entre os dous ik 
luftres rios Indo , e Gange. A qual Ilha he 
quafi em figura oval , e o feu lançamento 
fica ao longo deíla cofta da índia per o ru^ 
mo , a que os mareantes chamam Ncrdefte , 
cuja ponta ^ a que jaz mais ao Sul P eftá em 



Década III. Liv. II. Cap. L io£ 

altura de féis gráos , e a do Norte quaíl em 
dez , com que o comprimento delia fera 
iètenta e oito léguas , e a largura té qua- 
renta e quatro ; e a ponta mais vizinha á 
terra firme diftará delia pouco mais ou 
menos dezefeis léguas. E efte tranfito , e ef- 
treito d'antre ambas as terras he tão cheio 
de ilhetas , baixos , e reítingas , que fe náo 
pode navegar -fenão per certos canacs ; efe 
Jie fora do feu tempo, com tanto perigo, 
que anda entre as gentes daquelle Oriente 
outra fabula , como a de Chaiybdes , e Scyl- 
la entre Sicília , e a terra de Itália. E tam- 
bém como cá fe tem por opinião , que am- 
bas eftas terras foram contínuas huma a ou- 
tra , affi naquellas partes tem outro tanto 
da Ilha Ceilão , e da terra do Cabo Co- 
morij ; e á moftra que ambas ellas fazem , 
parece fermais verdadeira afua, queanof- 
ía. Porque no tempo que o mar eftá quie- 
to , vam os homens que per alli navegam , 
vendo tudo o que jaz no fundo da agua , 
por o parceí fer baixo, e a agua mui cla- 
ra; e quem difto tem mais experiência são 
os que alli pefcam o aljofre. Da qual pef- 
caria , por eíla fer das mais principaes da- 
quellas partes , em os Livros do noííb Com- 
mercio no Capitulo das pérolas , e aljofre 
particularmente tratamos. Confirma também 
cita opinião de a terra da Ilha fer conjunta 

á cof- 



io6 ÁSIA de João de Babros 

á cofia da firme , o que dizem os povos 
delia , principalmente os de Choromandel , 
fàllando do tempo que o Bemaventurado 
Apoílolo S. Thomé converteo á Fé de Chri- 
ík> aquella região. Dizendo que ante que fe 
converteííe o Rey da Cidade Meliapor , on- 
de elle pregava , aconteceo que á coíla do 
mar veio ter hum páo de formofa grande- 
za 7 o qual defejando EIRey de aproveitar 
pêra madeira , e taboado de humas caías , 
mandou ajuntar muita gente , e Elefantes 
pêra o tirar a terra , peró nunca o pode fa- 
zer, por mais trabalho, einduílria que nif- 
íb poz. O Santo governado pelo efpirito 
de Deos , porque efte páo havia defer.hum 
meio de elle ler conhecido , e adorado na^ 
quella terra , pedio ao Rey que lhe déííe o 
páo , e lhe aprouveííe , que no lugar onde o 
elle levaíTe y de fua madeira edificaria huma 
cafa de oração dedicada ao Senhor , que 
elle pregava. Concedido pelo Rey efte pe- 
titório do Santo , quafi como coufa impof- 
íivel , elle , (tirada a cinta , com que andava 
cingido , ) a atou em hum efgalho da ponta 
delle , e fazendo o finai da Cruz , a arro- 
jões o levou á Cidade Meliapor , que eram 
dalii féis léguas das fiaas, e das noiTas do- 
ze, onde fundou a cafa: e o que fobre efte 
cafo mais fuccedeo contamos adiante , fàl- 
lando particularmente da conversão da geri* 

te, 



Década III. Liv. II. Cap. I. 107 

te , que eíle Santo Apoílolo alli fez. Troid 
xemos aqui eíla memoria fua , porque íe 
faiba , que eílando a Cidade Meliapor doze 
léguas ha mil c quinhentos e tantos annos 
afFaílada do mar , comeo elle tanto da ter- 
ra , que ao prefente eíla hum tiro de pedra 
deíla povoação ; e fegundo affirmam os na- 
turaes , o mefmo Santo profetou haver de 
fer afll ; dizendo , que ao tempo que o mar 
chegafle áquella Cidade, huma gente bran- 
ca do Ponente , que crefle no Senhor que 
elle denunciava , viria ter áquellas partes , 
e faria nella habitação. E peró que da gran- 
deza que a Cidade Meliapor teve naquelle 
tempo , quando os noífos alli foram ter , 
quaíi toda era aíTolada com guerras do tem- 
po dos Chijs , por alli terem a maior habi- 
tação fua., (de que hoje parecem grandes 
edifícios feus , ) os noífos em memoria deite 
Apoílolo Santo , reformaram eíla povoação 
com muitas cafas de pedra , e cal , que nel- 
la são feitas ; e em reverencia da Cafa do 
Apoílolo , que hoje alli eítá 3 mudaram no- 
me de Meliapor , e lhe chamam S. Thomé. 
E quando alguns dos noífos fe acham can- 
fados do trabalho das guerras da índia , e 
principalmente tomados da pobreza , a eíla 
Cidade do Santo vam repoufar , e he feita 
huma Colónia de Cavalleiros Veteranos , co- 
mo tinham ordenado os Romanos áquelles ^ 

que 



io8 AS1A de João de Barros 

que per decuríb deannos jubilavam na guer- 
ra. Anda também na lembrança dos natu- 
raes da Ilha Ceilão efte nome não fer pró- 
prio delia , mas impoílo acafo : cá o feu 
nome antigo he Ilanáre , ouTranate, como 
outros dizem , e entre os letrados aíli he 
chamada, poílo queoufo commum , e tem- 
po tem já tomado tanta pofle , que geral- 
mente íe chama Ceilão ; e o cafo donde 
jhc ficou efte nome , fegundo contam os íeus 
letrados , que alguma memoria tem das cou- 
fas antigas , foi efte. No tempo que os Chijs 
conquiftáram aquellas partes por razão da 
eípeciaria , entre o tranfito deita Ilha , e a 
terra firme , com hum tempo , a que elles 
chamam vara , que he o que faz as mara- 
vilhas do feu Scylla , e Chaiybdes : em hum 
dia perderam oitenta velas , donde aquelle 
lugar fe chama Chilão , e nós os baixos de 
Chilao , que acerca delles quer dizer os pe- 
rigos , ou perdição dos Chijs. E como nas 
terras novamente defcubertas primeiro fe 
nota per os mareantes , que as defcobrem , os 
perigos do mar , onde podem receber da- 
mno pêra avifo dos vindouros , que o pró- 
prio nome da terra : quando os Arábios , e 
Paríèos , que depois dos Chijs per cornmer- 
cio entraram em a navegação daqueiías par- 
tes , do Cabo Comorij por diante ? como 
çoufa em que deviam ter tento em feu na- 
ve- 



Década III. Liv. II. Cap. I. 10? 

vegar , traziam muito na boca eftes baixos 
de Chilao , e por não labercm o próprio 
nome da Ilha , que era Uanáre ^ deram-ihe 
efte dos feus baixos. E porque efta fyllaba 
Chij não corre muito na boca dos Ará- 
bios , e Paríèos , e he-lhe mais corrente na 
fua lingua eftoutra Ci , por terem duas le- 
tras no feu alfabeto , que querem imitar a 
ella na prolação , as quaes são , Cim , e 
Xim , mudando Chi em Ci 7 chamaram á 
Ilha Ceilão , ou ( por fallar mais confor- 
me a eíles) Cilan , e nós lhe chamamos Cei- 
lão. Efte nome he fegundo a gente popu- 
lar , que os letrados Arábios , e Parfeos em 
fuás Geografias per nome antigo lhe chamam 
Serandib, dos quaes nós temos alguns vo- 
lumes em fua própria lingua , onde o vi- 
mos y e a califa porque lhe deram efte no- 
me, em a noífa Geografia a eferevemos. E 
parece que naquelle antiquiflirno tempo , de 
que os Geógrafos delia eferevêram , era da 
grandeza que afazem os feus naturaes, di^ 
zendo que tinha em roda mais de fetecen- 
tas léguas , e que o mar a foi comendo , e 
daqui viria , ( fe queremos falvar Ptholo- 
meu , ) dar-lhe elle tanto comprimento , que 
paíTa além da linha Equinocial contra o Sul 
dous gráos e meio. E fendo ifto aíli , pôde 
ficar verdadeiro o que conta Plinio , que no 
tempo de Cláudio vieram quatro Embaixa- 

do- 



no ÁSIA de João de Barros 

dores a Roma do Rey deíla Ilha Tapro- 
bana , e que fe efpantavam verem cahir as 
íombras que o Sol fazia pêra a parte deíla 
noíTa habitação «, e não pêra a fua , que era 
contra o Sul , por habitarem além da linha 
Equinocial. E que parece também no tem- 
po de Ptholomeu já havia alguma noticia 
deííe nome Ceilão ; porque fallando elle del- 
ia , diz que antigamente lhe chamavam Sa- 
lica , e aos naturaes Sali. O nome Simon- 
di feria no tempo que os Chijs a fenho- 
rcavam , e que por fua caufa acerca daquel- 
les , que navegavam para ella deílas partes 
do mar Roxo , lhe dariam aquelle nome, 
porque aos meímos Chijs , fallando Ptholo- 
meu da própria região delíes , chama elle 
Sine. E depois , pola caufa que difiemos 
que procedeo delles , perdendo a poífe da- 
quella Ilha, foi chamada Ceilão, que cor- 
refponde ao nome corrupto de Salica, ou 
Sali, que lhe dle chama. E os povos do 
Reyno de Sião , fallando delia , lhe chamam 
Lancá , e tem por memoria de fuás efcriíu- 
ras que foi já conjunta com a outra terra 
firme do Cabo Comorij , e iílo no tempo 
que a veio habitar Adam, que aíli chamam 
elles per nome próprio ao primeiro homem , 
e por outro nome lhe chamam Po , Con , 
que quer dizer primeiro pai , do qual ho- 
mem veremos logo o que a mefma gente 

da 



Década III. Liv. II. Ca?. L iii 

da Ilha fente. Serem os Chijs íènhores da 
cofta Choromandel > parte do Malabar , e 
deita Ilha Ceilão , e das chamadas Maldi- 
va 5 além de o affirmarem os naturaes del- 
ia , são difíb teftemunho edifícios , nomes , 
e lingua que nella leixáram , como fizeram 
os Romanos , acerca de nós os Heípanhoes , 
com que não pudemos negar lermos já con- 
quiftados per elles. Na qual Ilha leixáram , 
( fegundo os naturaes dizem , ) huma lin- 
gua , a que elles chamam Chingálla , e aos 
próprios povos Chingállas , principalmente 
os que vivem da ponta de Gálle por dian- 
te na face da terra contra o Sul , e Orien- 
te. Porque junta a efta ponta fundaram hu- 
ma Cidade per nome Tanabaré , de que 
hoje muita parte eftá em pé ; e por íer pe- 
gada neíle Cabo Gálle , chamou á outra gen- 
te , que vivia do meio da Ilha pêra cima , aos 
que aqui habitavam, Chingálla v e á lingua 
deiles também , quaíi como fe diíleííem lin- 
gua , ou gente dos Chijs de Gálle. Os quaes 
Chijs deíiítíram da navegação da índia por 
lhe confumir muita gente , náos , e íiibftan- 
cia ; e os povos que ficaram deiles , por fer 
gente miftiça de muitas , e diverfas regiões , 
aborrecida aos moradores do marítimo da 
outra parte da Ilha contra a terra do Cabo 
Comorij , leixáram os portos de mar , e re- 
colhendo-fe ás ferranias , onde lèmpre ha- 

bi- 



ii2 ÁSIA de João £>e Bakbos 

bitáram. E defta gente he a montanhez * 
cofti que elles ao prefente tem guerra , e 
outros fe foram á Comarca de Choroman- 
del , que he na terra firme , onde havia mui- 
tas colónias , e povoações dos mefmos Chijs \ 
donde a gente defta terra também hoje tem 
a lingua Chingálla, que diíTemos. Os ou- 
tros nomes , e coufas que os Geógrafos dam 
a efta Ilha , leixamos pêra os Commentarios 
das Taboas da noíía Geografia , por fer ma- 
téria própria daquelle lugar , onde fe verá 
o engano que alguns prefentes recebem em 
dizer que a Áurea Cherfonezo , a que nós 
chamamos Çamatra , he a Taprobana , e o 
mais que a antiguidade fabulou deftas duas 
Ilhas. O que nos ora convém he faber fer 
ella de mui excellentes , e puros ares, e po- 
la maior parte fértil , viçofa , principalmen- 
te de oito gráos pêra baixo do maritimo 
té o Cabo de Gálie , e a ferra. E nefta dif- 
tancia , que fera huma faixa de té vinte lé- 
guas de comprimento , e dez de largo , he 
a maior povoação , e os mais portos de 
mar , e onde a natureza produzio toda a 
canella , de que naquellas , e neftas partes fe 
tem ufo. Verdade he que em muitas das 
regiões do Oriente fe acha alguma , mas he 
agrefte , e brava, como em os Livros do 
noífo Commercio fe verá no Capitulo del- 
ia, eaífi dosrubijs, olhos de gato, çafiras, 

e ou- 



Década III. Liv. II. Cap. I. 113 

e outro género de pedraria, que nella ha; 
peró nenhuma chega em fineza em fua pró- 
pria efpecie ás três que nomeámos : cá efi 
tas três fortes , as finas delias , são as mais 
perfeitas de todas aquellas partes. Dos me- 
taes tem ferro fomente , que fe tira em duas 
partes , a que chamam Cande , e Tanavaca - y 
e fe nella houvera tanto ouro , como dizem 
os antigos , os naturaes são tão amigos dei- 
le, e tão diligentes de pedir á terra o me- 
tal , e pedraria que tem dentro em íi , que 
já deram nelle. Da efpeciaria, além da ca- 
nella, de que ella he madre, (como diífe- 
mos , ) tem pimenta , cardamomo , brafil , 
e algumas tintas , de que os naturaes fe fer- 
vem pêra tintura de feus pannos ; delias são 
raízes , outras páo , e outras folhas , e flor. 
Tem grandes palmares , que he a melhor 
herança daquellas partes ; porque além do 
fruto delle fer mantimento commum , são 
eílas palmeiras proveitofas pêra diverfos ufos , 
do qual mantimento , chamado coco , ha aqui 
grande carregação pêra muitas partes. Os 
Elefantes delia, de que ha boa criação, são 
os de melhor diftinto de toda a índia ; e 
porque notavelmente são mais domáveis , e 
formoíòs , valem muito , e tem muita cria- 
ção de gado vacum , e bufaras , de que fe 
faz grande cópia de manteiga , que fe leva 
de carregação pêra muitas partes. Temmui- 
Tom.IILP.1 H to 



ii4 ÁSIA de JoXo de Barros 

to arroz , principalmente em huma Comar- 
ca , que jaz na face da Ilha , que eftá ao 
Oriente chamada Calou 5 que he Reyno , 

Sor razão do qual arroz , que elles chamam 
ate , íe chama o Reyno Batecalou , que 
interpretam o Reyno do arroz. Finalmente 
alTi dos frutos , e fementes naturaes , como 
das eftranhas , que nella plantam , c femeam , 
he tão fértil , por fer a terra em íi apta pê- 
ra tudo , que parece que fez delia a Natu- 
reza hum pomar regado , porque não ha 
mez do anno que não chova nella , e o ma- 
rítimo he quafi alagadiço, e retalhado com 
rios , huns delles de agua doce , que defcem 
do meio do fertão das ferranias , e outros á 
maneira de eíleiros , que faz o mar. As quaes 
ferranias eftam quaíi á feição oval da me£ 
ma Ilha , lançadas de maneira , que parecem 
hum curral de pedra ençoíTa , porque no 
meio leixam aterra chã lèm aquelles picos, 
e afpereza que tem eíle circuito de ferras. 
Não que ellas fejam tão efcalvadas , que em 
li não tenham arvoredo , porque per antre 
aquellas pedras , e picos tudo he entulhado 
de arvores de muitos géneros , e per três , 
ou quatro partes , á maneira de paífos dos 
Alpes de Itália , fe entra dentro nefte cir- 
cuito , que he hum Reyno chamado Can- 
de. E fe os Reys delia fe não fizeram her- 
deiros de feus vafíallos, tomando-lhes toda 

a fa- 



Década III. Liv. II. Cap. I. 115: 

a fazenda , que acham á hora da morte, 
de que dam aos filhos algumas coufas fe 
querem , fora muito mais fruétifera , e abae- 
tada ; mas com efte temor não querem agri- 
cultar coufa alguma. Tem quaíi na ponta 
defta ferrania , obra de vinte léguas da coita 
do mar , huma ferra tão alta, e íngreme, 
que fóbe em altura de fete léguas j e em o 
cume delia faz huma planice em redondo 
de tão pequena quantidade , que fera pou- 
co mais de trinta paflbs de diâmetro. Em 
meio da qual eílá huma pedra de dous co- 
vados mais alta que a outra planice ao mo- 
do de meza , e no meio delia eílá figurada 
huma pegada de homem , que terá de com- 
prido dous palmos , a qual pegada he havi- 
da em grande religião , por a opinião que 
anda entre os naturaes : cá dizem clles fer 
de hum homem fanto natural do Reyno 
Deíij , que he abaixo das fontes dos rios 
Indo , e Gange : O qual veio ter a eíla Ilha , 
onde eíieve per efpaço de muitos annos , 
mettendo os homens em ufo de crerem , e 
adorarem hum fó Deos Creador do Ceo , 
e da terra , a que elles chamam Deunú, e 
depois fe tornou ao Reyno Delij , onde ti- 
nha mulher , e filhos. E paíTados muitos 
annos de fua vida , á hora da morte tirou 
hum dente , e mandou que foífe trazido a 
efta Ilha, edado aoRey da terra, pêra fer 

Hii ti- 



nó ÁSIA de JoÃo de Barros 

tido em memoria fua , além da pegada do 
pico , o qual dente hoje em dia os Reys 
tem como Relíquia Santa , a que encom- 
mendam todas fuás neceílidades. E deita opi- 
nião gentia vieram os noííbs chamar a eíle 
monte o Pico de Adam , ao que elles per 
nome próprio chamam Budo. Do qual mon- 
te nafcern ;res, ou quatro rios, que são os 
principaes que regam a maior parte da Ilha ; 
e em alguns lugares he tão Íngreme eíla 
ferrania do monte , que per efpaço de trin- 
ta braças fe fóbe a elle per cadeas de fer- 
ro 5 em que fe os homens pegam , por fa- 
zerem fua romaria a eíla pegada. A qual 
coufa he tão celebrada de toda a gentilida- 
de daquelle Oriente , que de mais de mil 
léguas concorrem alli peregrinos , principal- 
mente aquelles a que chamam Jogues , que 
são como homens 5 que leixando o Mun- 
do 3 fe dedicaram todos a Deos , e fazem 
grandes peregrinações porviíitarem os tem- 
plos dedicados a elle. Muitas coufas con- 
tam os naturaes deita Ilha da fua fantidade , 
e da dos feus Sacerdotes , e Brâmanes , que 
leixamos pêra quando tratarmos delia em a 
noíTa Geografia , e aífi dos coílumes da gen- 
te , e eítado dos feus Reys , e ceremonias 
com que fe fervem , e guardam entre li; 
Ao prefente o que convém pêra noíTa his- 
toria he faber que ella efU dividida em 



Década III. Liv. II. Cap. I. 117 

nove eftados, e cada hum deites fe chama 
Reyno. O primeiro , e mais notável he fe- 
nhor quaíl daquella faixa de terra , em que 
diflemos orear-fe toda acanella, o qual jaz 
da parte do Ponente da Ilha , e tem os mais , 
e melhores portos do mar que ha nella y cu- 
ja principal Cidade fe chama Columbo. Af- 
faílada do qual eílá huma força , em que 
fe o Rey recolhe , chamada Cota , como 
nós cá dizemos fortaleza , por fe apartar do 
concurfo dos mercadores que concorrem 
áquelle porto de Columbo , e efte era o que 
Lopo Soares hia bufcar. Outro Reyno jaz 
a Sul deíle na ponta defta Ilha K ao qual 
chamam Gálle, e pela parte do Oriente con- 
fina com o Reyno de Jaula , e do Norte 
com outro chamado Tanaváca ; e o que ef- 
tá no meio do fertao defta Ilha todo cer- 
cado de ferrania , que tem em lugar de mu- 
ro, he o Reyno Cande. E pelo marítimo 
defta Ilha ficam eftes Reynos y Batecalou , 
que he o mais Oriental delia ; e entre elle , 
e o de Cande •, que lhe fica ao Ponente > 
eftá outro chamado Vilacem ; e indo pela 
cofta da Ilha contra o Norte arriba de Ba- 
tecalou eftá o Reyno Triquinamalé , que 
pela cofta acima vai vizinhar com outro 
chamado Jafanapatam 5 que eftá na ponta da 
Ilha contra o Norte , os quaes Reynos per 
dentro do fertao fe yam vizinhar huns com 

os 



nS ÁSIA de JoÁo de Barros 

os outros, Esão tão grandes entre li, quan- 
to maior poder tem os Gentios , e infiéis 
que os poííuem : cá não tem outras demar- 
cações fenão apofle década hum, por iflb 
não lhas podemos dar com verdade , pois 
a cubica dos homens não tem certos limi- 
tes , ainda que tenham leis Divinas , e Hu- 
manas té onde fe eílende o que podem ter. 

CAPITULO II. 

Como Lopo Soares , per mandado d^ElRey 

D. Manuel , foi d Ilha Ceilão fazer huma 

fortaleza : e o que pajjbu ante de fer 

feita com o Rey da terra , o qual 

ficou tributário defte Reyno. 

ELRey D. Manuel , porque tinha mui- 
ta informação da fertilidade defta Ilha , 
e fabia delia proceder toda a canella da- 
quellas partes , e que o fenhor de Gálle pe- 
lo modo que fe teve com D. Lourenço , 
(como atrás contámos,) lhe queria pagar 
páreas , por eftar em fua amizade ; e que 
depois per meio deAífònfo d'Alboquerque 
o Rey de Columbo , que era o verdadei- 
ro fenhor da canella , queria ter eíTa paz , 
e amizade , efereveo a elle AíFonfo d'Al- 
boquerque , que em peíToa foífe a efta Ilha , 
fe lhe bem pareceííe , fízeífe nefte porto 
de Columbo huma fortaleza , por fegurar 

com 



Década III. Liv. II. Cap. II. 119 

com ella as offertas deíle Rey. Peró como 
Affonfo d'Alboquerque fe , em quanto rir 
veo , teve outros negócios mais importan- 
tes ao eftado da índia , e que primeiro con- 
vinha ferem feguros , que eíla Ilha Ceilão y 
e mais como o Rey acudia mui bem com 
toda a canella que nos era neceííaria , dif- 
íímulou com as lembranças , que lheElRey 
cada anno fobre eíte calo fazia , dando-lhe 
eítas , e outras razoes porque leixava de o 
fazer. Vindo Lopo Soares á índia , também 
trouxe eíla lembrança ; e porém primeiro 
acudio ao eílreito do mar Roxo , que pe- 
las razões de Affonfo d 5 Alboquerque era 
mais importante ; e vendo quão pouco ti- 
nha feito neíle caminho , por quão mal as 
coufas fuccedêram , e que aquelle anno de 
dezoito podia vir outro Capitão mór , e 
Governador , quiz primeiro que fe foííe 
leixar feita eíla obra de fuás mãos. E pof- 
to que tinha efte anno mandado muita gen- 
te , e náos a diverfas partes , aíli como An- 
tónio de Saldanha ao eftreito , D. Aleixo 
a Malaca , D. João da Silveira ás Ilhas de 
Maldiva , que lhe minguavam pêra fazer 
eíla obra , e era honeíla efcufa pêra a não 
commetter , com tudo fe determinou a iífo ; 
porque fegundo a informação que teve da 
navegação da Ilha por razão dos baixos que 
tem > bailavam galés, e outros navios de 

re- 



120 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

remo , e alguns navios de alto bordo pêra 
levar munições pêra a obra da fortaleza. E 
quanto ao número da gente de peleja , el- 
le tinha por certo , fegundo o que era paf- 
fado da vontade que o Rey moílrava , não 
haver algum impedimento no fazer da for- 
taleza. Affi que com eíle fundamento , no 
Setembro daquelle anno , de dezoito partio 
de Cochij , levando huma frota de dezefe- 
te velas , de que as fete eram galés , Capi- 
tães Manuel de la Cerda , Lopo de Brito , 
António de Miranda d 5 Azevedo , João de 
Mello , Gafpar da Silva , Chriftovao de 
Soufa , Diniz Fernandes de Mello , na qual 
hia Lopo Soares. E eram mais oito fuftas , 
que D. Fernando de Monroy trouxera de 
Goa , que aquelle inverno elle Lopo Soa- 
res mandara concertar pêra efta viagem, e 
affi levou duas náos com munições , na qual 
frota iriam té fetecentos homens de armas 
Portuguezes. Seguindo Lopo Soares fua via- 
gem , fendo já quaíi abarcado com o por- 
to de Columbo , que elle hia demandar, 
foram-lhe os ventos tão ponteiros , que as 
aguas que corriam com elles ao longo da 
coita , lhe abateram o caminho , e deram 
com elle no fim da Ilha no porto de Gál- 
le , que fera de Columbo vinte léguas 5 on- 
de fe deteve mais de hum mez , té que o 
tempo lhe deo lugar pêra ir a Columbo , 

e che- 



Década III. Liv. II. Cap. H. 121 

e chegou com toda ília frota. Efte porto 
de Columbo quaíí quer imitar hum anzolo , 
porque tem aquella entrada efpaçofa , per 
meio do qual corta hum rio i e a ponta on- 
de efte anzolo faz a farpa com que prende , 
he tão aguda , e aífí fe afafta do corpo grof- 
fo da outra terra , que com huma pedra íe 
pode paliar a grofTura delia , e cortada com 
huma cava , fica quaíí em Ilha , fem ter 
outra entrada fenão pela cava. Lopo Soa- 
res como vio a figura do porto , e quão 
proveitoíb era o agudo daquella ponta pê- 
ra fazer a fortaleza , aíTentou logo com os 
Capitães de fer naquelle lugar. Porém pri- 
meiro que fahiíTe em terra , mandou recado 
a EIRey per João Flores , notificando-lhe 
a caufa de fua vinda áquelle porto , dando 
algumas razões porque EIRey feu Senhor 
defejava ter alli huma fortaleza , referindo 
todo eílecafo á infidelidade dos Mouros que 
alli vinham ter , e ao antigo ódio que ti- 
nham com os Portuguezes , e principalmen- 
te ao muito que elle Rey ganhava , fazen-' 
do-fe alli aquella fortaleza ; aíli por razão 
d ? ElRey D. Manuel feu Senhor com ella 
ficar obrigado á defensão delle Rey contra 
feus imigos , como porque tendo commer- 
cio com os Portuguezes, todo feu Reyno 
feria mui rico , e abaftado das coufas do 
Poneute, EIRey como havia dias que com 

Af- 



122 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Affonfo d'Alboauerque andava neíle trato, 
e era mui defejoio deite commercio , vendo 
quão rico fe fizera EIRey de Cochij com 
elle , e que depois que entráramos na ín- 
dia , elle mefmo Rey começava fentir em 
lua fazenda o proveito que havia de ter ; 
tanto que vio o recado de Lopo Soares , 
lhe concedeo a fortaleza , mandando-o viíi- 
tar com palavras , que moítravam ette con- 
tentamento. Os Mouros de Calecut , e de 
toda aquella cofta do Malabar , como de- 
pois de noíTa entrada na índia de todalas 
partes andavam enxotados de nós , e nefta 
ilha Ceilão tinham algum refugio , por nof- 
fas Armadas não irem a ella ; alguns que 
fe alli acharam na chegada de Lopo Soa- 
res , peró que fe aíTornbráram em o verem 
no porto , quando fouberam que EIRey lhe 
concedia fortaleza , ficaram de todo mortos. 
Finalmente á força de peitas , que em toda 
parte podem mais , que vivas razões , aífi 
tranftornáram o animo dos acceitos d'E!Rey , 
e o feu com o confelho delles , reprefen- 
tando-lhe perigos de fua vida , e perda de 
feu citado fe alli nos défle lugar pêra for- 
taleza : que querendo Lopo Soares huma 
manhã fahir em terra a abrir a cava naquel- 
la ponta , que elegeo pêra a fortaleza , achou 
que per induítria dos Mouros eítavam alli 
huns cavallos á maneira de trincheiras com 

re- 



Década III. Liv. II. Cap. II. 123 

repairos de madeira , em que puzeram cer- 
tas bombardas de ferro com gente frechei- 
ra poíla em defender a terra. E não abae- 
tou iílo , mas ainda foram alguns homens 
dos noíTos prezes , que como em parte fe- 
gura eram fahidos em terra , dos que an- 
davam ncíies recados entre elle Lopo Soa- 
res , e EIRey , quaíi em modo de reféns 
pêra depois per meio delies fe valerem 5 le 
o cafo não fuccedeííe bem. Lopo Soares 
quando foube o gazalhado com que o que- 
riam receber em terra , havido confelho com 
os Capitães , mudou o modo da fahida , 
fazendo fundamento que a poder de ferro 
havia de lançar aquelle impedimento , que 
lhe tolhia o fazer da fortaleza ; o qual en- 
tendeo fer induítriado pelos Mouros , prin- 
cipalmente depois que mandou de perto ver 
as eftancias 3 e que gente era a que eftava 
em defensão delias. A qual determinação 
fez em toda a gente de armas tanto alvo- 
roço de prazer, quão trifte eftava d'antes, 
vendo que EIRey dava de boa vontade lu- 
gar pêra fe fazer a fortaleza ; e que naquel- 
le negocio haviam de exercitar mais a for- 
ça de feus braços , como mecânicos com 
pedra , e cal ás coitas , fem premio de fa- 
zenda , e honra ? que com a efpada na mão 
como cavalleiros , com a qual elles confe- 
guiam cilas duas coufas. Lopo Soares ppf- 

to 



124 ÁSIA de JoXo de Barros 

to que vio efte alvoroço na gente , depois 
que foi notificado o que tinha aíTentado com 
os Capitães , não quiz fahir aquelle dia , 
leixando pcra o feguinte ante manhã pêra 
ir melhor provido ; e affi fe fez , tomando 
terra fem os imigos lha impedirem. Porque 
como elles tinham as forças mais nas bom- 
bardas , e tranqueira , que no animo , não 
oufáram de fe defapegar delias , e eftavam 
naquelle lugar como homens, que fe que- 
riam mais defender, que ofFender. Os nof- 
fos tanto que Lopo Soares deo Sant-Iago , 
fem ter conta com a fumaça das fuás bom- 
bardas , nem olhar onde apontavam, era 
a competência entre elles a quem primeiro 
treparia per as eftancias acima , como que 
no alto delias citava o premio da vitoria 
particular de cada hum. Peró a alguns cuf- 
tou efte animo fangue , e vida : cá não fo- 
mente de fettas , e efpingardões foram al- 
guns feridos , mas ainda mortos das bom- 
bardas , o principal dos quaes foi Veriífi- 
mo Pacheco , que (como diífemos ) era vin- 
do de Malaca com a nova da prizão de 
feu irmão António Pacheco. Andando efte 
conflito ás efcuras da fumaça da artilheria 
hum pequeno efpaço , em quanto os noíTos 
fe detinham no fubir daeftancia; tanto que 
hum golpe delles fe fizeram fenhores delia , 
aíli defcozêram na carne dos imigos, que 

os 



Década III. Liv. II. Cap. II. 125* 

os mettêram a todos em fugida , não lei- 
xando de os feguir com os pés , e perfe- 
guindo a ferro. Lopo Soares porque via 
alguns Capitães que fe mettiam hum pouco 
contra onde havia arvoredo , de que podiam 
receber algum damno , principalmente Chri- 
ftovão de Soufa, que paíTava hum ribeiro 
longe da eftancia , mandou dar ás trombe- 
tas que fe recolheífem , pois já era fenhor 
da força de feus imigos , e recolher aquel- 
]as peças da artilheria que alli achou ; e 
fem fazer mais detença , por dar hum fô- 
lego aos homens , fe tornou a embarcar. 
Quando veio ao feguinte dia , por ter já 
preíles todalas coufas pêra feu intento , fa- 
hio em terra *, e a primeira coufa em que 
entendeo , foi em fe fortificar , ficando fe- 
nhor da ponta , que elle defejava pêra fun- 
dar a fortaleza , a qual força não foi mais 
que cava , e repairo de madeira , em que 
aífentou muita artilheria , na parte que hia 
contra a terra , per onde os imigos o po- 
diam commetter. E huma das coufas que o 
mais metteo em confusão , depois que fe 
vio fenhor daquelle lugar , foi não achar 
nelle pedra 5 ou oílra pêra fazer cal ; por- 
que ante que partiíFe de Cochij , tomando 
informação deílas coufas de alguns homens 
dos noílbs , que já alli foram , fizeram-ihe 
crer que havia pedra , de que fe poderia 

fa- 



I2Ô ÁSIA de Joà o de Barros 

fazer cal ; e quando eíta não fervifle , havia 
muito marifco , da oftra do qual fe pode- 
ria fazer muita quantidade. E vendo- elle 
que nenhuma coufa deitas havia pêra cal , 
fomente a oítra que era neceíTario trazer-fe 
de longe , que o podia deter mais tempo 
do que elle tinha , por eftar já em Outu- 
bro , e convinha-lhe fer na índia , por ra- 
zão da carga das náos que fe efperava do 
Reyno , em que lhe parecia que podia ir 
Governador que o fuccedeíTe , aflentou com 
parecer de todolos Capitães , que pois em 
breve fe não podia fazer cal , que fizeflem 
a fortaleza de pedra , e barro. Porque co- 
mo atalhaíTe a terra da ponta de mar a mar , 
ifto bailava por então pêra recolhimento 
feguro dos que alli houveífem de ficar, té 
que da índia fe proveífe , fegundo a necef» 
íidade foíTe. AíTentado neíle parecer de to- 
dos ,. mandou Lopo Soares a grão preífa 
abrir os alicerces , e trazer pedra pêra poer 
mão á parede , repartindo o trabalho de 
cada coufa per os Capitães. EIRey de Cei- 
lão quando vio muita da fua gente ferida , 
e morta daquella fahida dos noíTos em ter- 
ra , e que com pouco trabalho fe fizeram 
fenhores da força , que os Mouros tinham 
feita , e fobre ifib começaram a obra da 
fortaleza contra íua vontade, havido con- 
íelho com os feiís naturaes > fem dar cre- 

di- 



Década III. Liv. II. Cap. II. 127 

dito aos Mouros , quiz ante a paz , que 
com Lopo Soares aflentára, que o rompi- 
mento delia , que elles lhe aconfelháram. 
Sobre o qual calo mandou a elle o feu Go- 
vernador , dando algumas defculpas do paf- 
fado , attribuindo tudo a máos confelhos de 
homens , que lhe fizeram crer coufas contra 
o que elle Lopo Soares promettia da paz , 
e amizade, que per meio da fortaleza po- 
dia ter com EIRey de Portugal. E pois 
elle com morte , e damno dos feus tinha 
pago acceitar confelho de máos homens, 
que caufáram aquclle rompimento, lhe pe- 
dia que tornaíTem a ficar no eftado da paz , 
que com fua chegada logo acceitou, con- 
fentindo que fe fizeiTe a fortaleza onde el- 
le pedia. Lopo Soares peró que em fua re- 
fpofta femortrou oífendido delRey da pou- 
ca verdade , que lhe tratara , e traição que 
elle Rey commettêra , afíi nos homens que 
lhe mandara prender, como no que fizera 
fobre aflento de paz , concluio fua refpof- 
ta niílo : Que elle era contente de tornar a 
paz , em que diante eílavam ; porém por a 
oíFenfa que tinha feita á bandeira real del- 
Rey Me Portugal feu Senhor em permittir 
que os Mouros , e os naturaes vieílem con- 
tra ella com mão armada , no qual cafo 
alguns Portuguezes foram feridos , e mor- 
tos , elle Rey havia de foldar cite damno 

com 



128 ÁSIA DE JOÃO DE BaKROS 

com fe fometter com titulo de vaífallo dei- 
Rey D.Manuel feu Senhor, cujas iníígnias 
eram as da bandeira do feu Rey , que te- 
prefenta fua peflba ; a qual quando folie of- 
fendida , ou alguém defprezaífe fua paz , 
os feus vaíTallos perdiam a vida , té metter 
feu imigo debaixo do jugo delia. Partido 
o Governador delRey com efte recado , tor- 
nou , e foi tantas vezes , té que per derra- 
deiro affentou com Lopo Soares , que El- 
Rey era contente de fe fazer valTallo del- 
Rey D. Manuel , com tributo em cada hum 
anno de trezentos bahares de canella , que 
do noílb pezo são mil e duzentos quintaes y 
e mais doze anneis de rubins , e çafiras das 
que fe tiram nas pedreiras de Ceilão , e féis 
Elefantes para o ferviço da feitoria de Co- 
chij 5 tudo pago ao Capitão da fortaleza que 
alli eítiveííe , ou a quem o Governador da 
índia mandaífe. E que EIRey D. Manuel y 
e feus fucceífores foífem obrigados de am- 
parar, e defender a elle Rey de feus imi- 
gos , como a vaífallo feu : com outras mais 
condições , que no aíTento deíle adio são de- 
claradas , de que Lopo Soares houve hum , 
e a EIRey ficou outro , efcrito em folhas 
de ouro batido , ( fegundo feu ufo , ) e o 
noífo em pergaminho. Feito eíle aíTento, 
mandou EIRey efcufar-fe a Lopo Soares 
de o não ir ver ; por eílar mal difpofto , e 

cou- 



Década IIL Liv. II. Cap. II. 129 

■coufas da fua religião de Brammane que era j 
porque acerca do Gentio daquellas partes , 
eftas duas coufas andam juntas r o facerdo- 
cio , e governo dos homens. E peró que 
òs Reys tenham grande acatamento aos íeus 
Sacerdotes , e muito maior ás cabeças del- 
les , as quaes temaquella jurdição que acer- 
ca da Clerizia entre nós tem os Bilpos , os 
mefmos Reys são Brammanes , e são fupe- 
riores de todos em feu Reyno. Tanto po- 
de a ambição de fenhorear , que não fe con- 
tentaram os Príncipes da terra em terem fub- 
ditos feus vaflallos per via da adminiftração 
do governo fecular que lhe Deos deo , pe- 
la qual fe fizeram fenhores dos corpos , e. 
aétos exteriores das obras , que cada hum 
faz pêra executar nelle as leis da juíliça , 
fegundo as que pêra iífo deram j mas ain- 
da quizeram fer fenhores das almas , e au- 
thores interiores do animo , que fomente 
pertencem a Dcos , ou áquelles que, (fe- 
gundo o noífo Evangelho , ) são herdeiros 
defte myfteiio. Lopo Soares feito eíle af- 
fento, aíli com a ajuda queElRey pêra if- 
fo mandou dar com a gente da terra , co- 
mo pela gente da Armada , em poucos dias 
acabou a fortaleza quaíi no fim de Novem- 
bro , á qual poz nome N. Senhora das 
Virtudes. E neíle tempo chegou a ella Dom 
João da Silveira 3 que (como atrás diífemos ) 
Tom. HL P.L I com 



130 ÁSIA de João de Barros 

com certos navios fora enviado ás Ilhas de 
Maldiva ; ao qual Lopo Soares , por elle 
fer peflba que tinha qualidades pêra iflb , 
e mais feu íbbrinho , proveo da capitania 
delia , leixando-lhe a gente neceífaria pêra 
fua defensão , e aífi officiaes pêra feitoriza- 
rem as coufas do commercio. E porque os 
Mouros eram coflumados ir áquella Ilha 
enxotados das noflas Armadas , que anda- 
vam no Malabar (como diíTemos ? ) quiz Lo- 
po Soares tirár-lhe efta acolheita, leixando 
por Capitão mor do mar com quatro ve- 
las , pêra guarda daquelle porto Columbo , 
a António de Miranda d'Azevedo. Provi- 
das as quaes coufas, Lopo Soares fe partio 
pêra Cochij , e á fahida do porto per defaf- 
tre feperdeo a galé de João de Mello 5 mas 
faivou-fe a gente. E levando Lopo Soares 
em propoíito paííar per Coulão , onde efta- 
va Heitor Rodrigues , hum cavalleiro de 
Coimbra, por Feitor, e Capitão da carga 
da pimenta , não o pode fazer polo que 
logo veremos. No qual lugar de Coulão 
quizera tambern fazer outra fortaleza; e a 
caufa era , porque depois que António de 
Sá , ( como atrás efcrevemos , ) foi morto , 
nunca mais os noílbs , que alli reíidiam por 
razão de recolher a pimenta , eítiverarn fe- 
guros. E pofto que em tempo de Affonfo 
cTAiboquerque fempre acudiam osRegedo-, 

res 



Década III. Liv. II. Cap. II. 131 

res de Coulão com a pimenta pêra carga 
de huma , e ás vezes de duas náos , e a 
Rainha que governava aquelle eftado favo- 
recia muito noíTas coufas , e em tempo del- 
le Lopo Soares Heitor Rodrigues como 
homem prudente acabava com ella , e dos 
feus officiaes muitas coufas em noflb favor , 
té lhe confentir que fizeífe huma cafa forte 
pêra recolhimento da fazenda , que elle Fei- 
tor tinha , teve fobre iíTo tantos contraíles y 
e impedimento por parte do induzimento 
dos Mouros mercadores , que alli reíidiam , 
peitando groífamente aos Governadores da 
terra , que não podia ir avante com a obra , 
té que depois acabou de a fazer, fendo já 
Lopo Soares vindo pêra efte Reyno , e go- 
vernando Diogo Lopes de Sequeira , que 
pêra iíTo o mandou favorecer com a gente 
que Garcia d'Acoíla Capitão de huma galé 
levou. E a caufa porque Lopo Soares não 
acabou efta obra , vindo de Coulão com ef- 
te propoíito , foi , porque fendo tanto avan- 
te como efte lugar , foi-lhe recado que Dio- 
go Lopes de Sequeira era chegado a Co- 
chij j e vinha pêra o fueceder na governan- 
ça da índia ; e era já tão tarde pêra elle 
Lopo Soares fe defpachar em fua vinda , 
que paíTòu per Coulão , e chegou a Cochij 
a vinte de Dezembro. Peró ante de fua par- 
tida 7 convém darmos razão de algumas cou- 
I ii fas y 



i^i ÁSIA de JoÃo de Barros 

fas , que elle mandou em feu tempo , por 
não confundirmos a ordem da hiíloria , e 
começaremos logo em D. João da Silvei- 
ra feu fobrinho , que ficava por Capitão em 
Ceilão 3 dando conta do que paliou na via- 
gem que fez as Ilhas de Maldiva. 

CAPITULO III. 

Do que pâljbu D. João da Silveira nas 
Ilhas de Maldiva , onde o enviou Lopo Soa- 
res , e ajji em Bengala , onde elle foi ter , 
té chegar a Ceilão a Jer mettido de pojfe 
da capitania da fortaleza de Columbo. 

COmo já atrás fizemos menção , huma 
das principaes coufas que havia nas 
Ilhas de Maldiva era o cairo , matéria de 
que fe fazem todalas amarras , e enxarcea , 
com que as náos daqueílas partes navega- 
vam , e muitas delias não tem outra prega- 
dura , fomente eíle fio com que o cofiado 
delias he cofeito ; do qual cairo 7 e aífi do 
grande número deíias Ilhas em feu lugar par- 
ticularmente efcrevemos. E como eíle cairo 
foffe coufa tão importante a noíTàs navega- 
ções 5 pola informação que EIRey D. Ma- 
nuel tinha que eftas Ilhas eram huma efca- 
la que es Mouros faziam em a navegação 
daquelle Oriente , e outras coufas que lhe 
AíFonfo d'Alboquerque delias tinha eferito > 

que 



Década III. Liv. II. Cap. III. 133 

que convinham ao eílado da índia , defe- 
java elle ter alli huma fortaleza. Sobre o 
qual cafo cfcreveo a Lopo Soares, encom- 
mendando-lhe, que mandaíTe á principal cha- 
mada Maldiva, em que eílava o Rey que 
fenhoreava a corda delias, que jaz vizinha 
á coíla Malabar ; e fofle peííoa que foubef- 
fe notar as coufas , e pudeíTe aífentar paz 
com o Rey, e o tentaíTe pêra eíla fortale- 
za , que defejava fer alli feita ; e eíle foi o 
fundamento com que elle Lopo Soares man- 
dou D.João da Silveira. E também a buf- 
car hum Mouro de Cambaya chamado Al- 
ie Can , o qual andava de Armada com fe- 
te navios de remo em guarda de féis náos 
de Cambaya , que naquella monção haviam 
de vir das partes de Malaca , aonde eram 
idas a tratar; o qual defendia que daquei- 
la parte onde elle andava não viefle pêra as 
noifas fortalezas provisão de cairo , e de 
outras coufas que os Malabares de lá cof- 
tumavam trazer. Partido D.João a eíle ef- 
feito com quatro velas , a em que eíle hia , 
e três de que eram Capitães Trilião Barbu- 
do , João Fidalgo , e João Moreno ; e ante 
de chegar á Ilha Maldiva , onde ElRey ef- 
ta va , tomou duas náos que vinham de Ben- 
galla pcra Cambaya carregadas de roupa, 
de que a maior delias era de hum Mouro 
chamado Gromálle , parente de outro que 

et 



J34 ÁSIA de João de Barros 

eílava por Governador em Chatigam , hu- 
ma Cidade principal do Reyno Bengala , 
por fer porto de mar , a que concorrem 
quall todalas coufas que entram , e fahem 
daquelle Reyno. As quaes náos elle man- 
dou a Cochij , onde então eílava Lopo Soa- 
res , e tornou a íba viagem caminho da Ilha 
Maídiva , onde foi recebido do Rey com 
muito gazalhado 5 moílrando ter grande con- 
tentamento da paz , e amizade , que EIRey 
D. Manuel, e feus Governadores com elle 
queriam ter; e prômettendo que em qual- 
quer tempo que em fua terra quizeUe fazer 
cafa de Feitoria pêra trato de commercio , 
elle daria lugar, e ajuda pêra ifTo. Final- 
mente dados , e recebidos alguns prefentes 
entre íi , EIRey ficou mui contente de Dom 
João , e elle fe partio muito mais delie por 
a facilidade com que acabou ao que hia ; 
e foi-fe dalli em bufca do Mouro Alie Can , 
por achar nova que andava mais adiante 
em outras Ilhas. Peró neíla ida fez pouco, 
porque o Mouro tanto que houve viíla del- 
ie, como aquellas Ilhas são hum labyrin- 
tho de navegar per entre ellas , e elle era 
mui coílumado áquella navegação , e os nof- 
fos mui novos nella, andou-lhe furtando as 
voltas té que enfadado D.João, e mais ne- 
ceffitado de mantimentos , havendo já três 
mezes que lá andava > fe foi pêra Cochij 3 



Década III. Liv. II. Cap. III. 135- 

onde fe deteve fomente o tempo em que 
fe proveo do que lhe falecia , e dahi o man- 
dou Lopo Soares que foífe a Bengala ao 
porto Chatigam com o mefmo requerimen- 
to ao Rey da terra pêra alli fazer huma 
cafa de Feitoria , pêra que os noíFos pudef- 
fem ter hum recolhimento de fuás merca- 
dorias j e feguramente fazer commutaçao 
delias com outras da terra. E que de ca- 
minho paílaífe pela Ilha Ceilão , e do por- 
to Columbo , onde os noíTos coílumavam 
ir bufcar canella , tomaífe Pilotos pêra o le- 
varem a Bengala ; e também que diífimu- 
ladamente viífe , e fondaíTe eíle porto Co- 
lumbo , e o fitio da tçrra pêra com feu pa- 
recer fe determinar no que tinha pêra fazer 
per mandado d'ElRey, que era huma for- 
taleza naquelle lugar , a capitania da qual 
havia de fer delle D. João. O qual parti- 
do com os quatro navios , com que andou 
nas Ilhas de Maldiva , chegou a Columbo ; 
e viílo , e notado o lugar , e havidos Pi- 
lotos , poz-fe em caminho de Bengala : e 
o primeiro porto que tomou daquella en- 
feada , que ainda per os noíTos não era def- 
cuberta , foi do rio que vem do Reyno Ar- 
racam , onde lhe fahíram leis , ou fete na- 
vios de remo; e depois que na prática que 
tiveram com elle fouberam que hia a Ben- 
gala a como çílayam de guerra com ella, 

qui- 



136 ASTA de J0X0 de Barros 

quizeram ir em fua companhia. Peró Dom 
João o não confentio , aconfelhado de hum 
moço Bengala , que elle levava , que era 
cunhado do Piloto da náo que tomara , di- 
zendo que fe levava aquella gente , por fer 
contraria aos Bengalas , não feria bem re- 
cebido. E quanto efíe moço aproveitou aqui 
com iílo que diífe , tanto depois danou. Che- 
gado D. João ao porto de Chatigam , que 
he huma Cidade do Reyno Bengala mui fre- 
quentada de todolos navegantes 5 que áquel- 
le Reyno vam tratar , porque como elle era 
natural Bengala , e cunhado do Piloto da 
náo , que D. João tomara (como diífemos ) 
não tiveram refguardo niflb 5 e aos primei- 
ros da terra com que fallou defcubrio tudo 
o que era paífado , com que houve o Ca- 
pitão da Cidade que D. João , e quantos 
com elle hiam eram ladroes. Porém como 
naturalmente os Bengalas he gente mais 
maJiciofa de todas aquelías partes , porque 
não eftavam apercebidos pêra fe defender , 
diífimuláram com D. João , fem lhe darem 
a entender o que delle tinham fabido , té 
que fe fortaleceífem , como logo fizeram , 
fazendo de noite muitas tranqueiras , e re- 
pairos pêra os noífos não poderem commet- 
ter o lugar , querendo entrar nelie com mão 
armada. Aconteceo que hum dia , ante que 
D. João chegaffe áquelle porto , tinha en- 
tra- 



Década III. Liv. II. Cap. III. 137 

trado nelle huma náo dalli da terra , que 
vinha da Cidade Pacem , que he na Ilha 
Çamatra , carregada de pimenta 5 e de ou- 
tras fortes de mercadoria. Na qual náo vi- 
nha humPortuguez chamado João Coelho, 
que Fernão Peres d 5 Andrade , que eftava 
naquelle porto de Pacem carregando pêra 
a China , mandava como meníàgeiro da par- 
te d' EIRey D. Manuel a EÍRey de Benga- 
la. Fazendo-lhe faber , como eftando na- 
quelle porto carregando huma náo de pi- 
menta , pêra com ella , e outras ir áquella 
Cidade Chatigam a lhe trazer huma embai- 
xada d'ElR.ey de Portugal feu Senhor, per 
defaftre fe lhe queimara aquella principal 
náo de ília frota , como lhe podiam dizer 
os feus naturaes , que eram prefentes , em 
que fe queimaram as principaes couías que 
tinha pêra levar. Pedindo-lhe que em quan- 
to fe elle hia reformar das couías que alii 
perdera , e affí mandar por outras á índia , 
das quaes eram de Portugal , houveífe por 
bem que as náos 5 e navios Portuguezcs , 
que chegaíTem a feus portos , foífem bem 
recebidos , e per eíte modo outras palavras 
que elle João Coelho levava em fua inílruc- 
ção. O qual , tanto que vio furgir a D. João , 
foi-fe logo a elle ianocente do que lhe ha- 
via de acontecer : cá D. João fabendo a 
caufa de fua ida, o reteve fem querer que 

tor- 



138 ÁSIA de João de Barros 

tornafle a terra , dizendo que não compria 
a ferviço d'E!Rey ir elle áquelle negocio , 
ante danava , pois Fernão Peres não eftava 
naquelle porto. E mais que elle D. João 
levava do Governador Lopo Soares , que 
mandafle efte recado a EIRey de Bengala , 
e não elle Fernão Peres , o qual recado ha- 
via de ir com mais authoridade , e com al- 
gumas peças de prefente, que lhe havia de 
mandar per a peflba que a iflb fofle. Re- 
teudo per efta maneira João Coelho , do- 
brou a caufa de íè o Governador da Cida- 
de mais efcandalizar de D. João 5 porque 
€ra elle já fabedor como João Coelho hia 
com recado a EIRey de Bengala da parte 
d'E!Rey de Portugal per mandado de hum 
leu Capitão , que eílava em Pacem. Do qual 
Capitão , (fegundo diziam todos os Benga- 
las , e Mouros que vieram em a náo que 
trouxe João Coelho , ) receberam muito bom 
tratamento , e elle D. João tomara as duas 
náos , que pouco tempo havia que dalli par- 
tiram , fegundo tinham fabido do moço Ma- 
laio , (como diííemos , ) do qual cafo affir- 
mavam que Fernão Peres era Capitão d 5 El- 
Rey , e D. João era algum Portuguez que 
andava feito coífairo. Finalmente deíla boa 
vontade que o Governador da Cidade lhe 
tinha , no primeiro requerimento que lhe 
D. João mandou fazer > refpondeo que^ os 

não 






Década III. Liv. II. Cap. III. 139 

não havia na terra , fendo aquelle Reyno 
de Bengala o mais abaítado de todas aquel- 
las panes , por fer regada com as aguas do 
illuftre rio Gange. D. João , porque a ne- 
ce/Tidade o apertava , e per recados que fo- 
ram , e vieram , não achou graça no Mou- 
ro , não fabendo a caufa diíTo , mandou to- 
mar huma champana , que são á maneira 
de barcas grandes , que eílava carregada de 
arroz , da qual coufa fuccedeo o que o Mou- 
ro defejava , que era romper em guerra. 
E porque entre elles houve per muitas ve- 
zes paz , e guerra , e niífo fe paliaram mui- 
tas miudezas , baile faber que D. João em 
quanto alli eíieve, que foi quaíi todo hum 
inverno , per ferro , e per fogo , que lhe 
lançaram de noite pelo rio abaixo , e fobre 
tudo per fome , padeceo muito trabalho , e 
neceílidadc, porque per razão do inverno, 
como não podia fahir daquelle porto , não 
havia mais que , (como dizem , ) beber eítes 
trabalhos , ou verter a vida. No meio do 
qual tempo, em que de todo houveram de 
perecer á fome , veio o Governador da Ci- 
dade aíTentar paz com elle D. João , não 
por lhe dar repoufo , mas por feu intereíTe. 
E foi, que efperando elle Governador que 
com a monção haviam de vir algumas náos 
áquelíe porto, temendo que D. João as to- 
maria , aíTentou a paz, na qual, fabendo 



140 ÁSIA de João de Barkos 

D. João quão mal o Governador tomava 
ter elle reteudo a João Coelho , e quanto 
folgaria de o elle leixar ir a terra , por le 
valer delle o mandou \ e elle foi o que lhe 
deo a vida. Porque além de ordenar , depois 

Íjue fahio em terra, como D.João houvef- 
e mantimentos, huns furtados de noite per 
meio dos amigos delle João Coelho , e ou- 
tros dados de dia per confentimento do Ca- 
pitão da Cidade , depois lhe foi ainda mui- 
to mais proveitofo do que elle cuidava que 
era tello reteudo em o navio» Cá vindas as 
náos que o Mouro efperava , tanto que as 
teve defpejadas do que trouxeram , tornou 
outra vez a fazer guerra a D. João ; com 
a vinda das quaes foi ainda João Coelho 
mais acreditado na terra , por virem algu- 
mas do porto de Pacem , que contaram 
quanto gazalhado , e favor tinham recebido 
de Fernão Peres cPAndrade. Com o qual 
favor, que elle João Coelho fentia em o Ca- 
pitão da Cidade , e também por já a efte 
tempo fer vindo recado d'E!Rey de Ben- 
gala , que mandava que elle João Coelho 
foffe levar fua embaixada , quaíl em modo 
de confelho , quiz tratar efte negocio com 
o Governador da Cidade. Dizendo que lhe 
parecia que elle não levava com aquelle 
Capitão o modo , que convinha pêra fe ti- 
rar da opprefsão que lhe dava naquelle por- 
to: 



Década III. Liv. II. Cap. III. 141 

to : cá fegundo tinha fabido , elle andava' 
meio alevantado por certas náos que rou- 
bara, e outros crimes que tinha feito. Por 
a qual razão , como homem que receava o 
caftigo do Governador da índia , fe lança- 
ra naquellas partes , e fegundo era de ani- 
mo j e meio defefperado da vida , elle fe 
efpantava não ter feito naquelle porto mais 
deftruição , e que lhe confeílava que quaíi 
com temor delle fòffrêra eílar retcudo de- 
baixo de fua mão , e que lhe não dava ou- 
tro íinal de quem era , fenão a fua prizão. 
Que quanto ao que elle té então alJi tinha 
feito , coufas eram naturaes a todo homem 
bufcar o comer , e amparar a vida , porque 
fe tomara a champana dos mantimentos , 
fora depois que os elle pedira por feu di- 
nheiro , c vio que lhos não queriam dar ; 
e fe fez damnos na terra , era defendendo-fe 
dos que lhe faziam. E quanto ás náos que 
tomaram , não era coufa nova terem os Por- 
tuguczes guerra com os Mouros do Reyno 
de Cambaya , e que como em fazenda de 
imigos fe queriam entregar , porque eftas 
eram as leis da guerra , e que já podia fer 
que por efta traveflura , e por outras taes, 
andaria elle fora da graça do Governador 
da índia. E fe affi era, o remédio daquel- 
le damno que Gromálle feu parente tinha 
recebido pof amor delle Governador tor- 
na- 



I4 2 ÁSIA de João de Barros 

nado elle João Coelho á índia da vinda do 
recado que levava a EIRey de Bengala, 
elÍQ feria remediado: cá o Capitão mor da 
índia per elle João Coelho faberia quanto 
iílo importava a elle Governador , e entre- 
tanto diffimulafle com aquelle Capitão , e 
não mandaíTe que o foffem mais commet- 
ter , ante lhe mandaíle dar mantimentos pê- 
ra íe ir dalli , e defabafar aquelle porto. O 
Mouro , poílo que com efperança defta res- 
tituição danáo, em alguma maneira afloxou 
de mais commetter defcubertamente Dom 
João ; todavia como eítava efcandalizado , 
e meio injuriado dos damnos que tinha re- 
cebido em mortes , e ferimento de muitos 
que mandou fobre elle , defejava de fe vin- 
gar , e pêra iífo teve cíle modo. Carteou-fe 
com EIRey de Arracam , vaífallo que na- 
quelle tempo era d' EIRey de Bengala , o 
qual vivia em huma Cidade deite nome , 
que per hum rio dentro eítaria obra de 
quinze léguas , e daquelle porto de Cliati- I 
gam trinta e cinco ; e do que aífentáram 
entre íi , dahi a poucos dias veio ter com 
D. João hum homem bem tratado de fua 
peífoa , e acompanhado de gente em três , 
ou quatro navios de remo ; o qual lhe apre- 
fentou da parte d"ElRey de Arracam hum 
rubij de preço , poílo em hum annel , dizen- 
do , que por ter fabido eftar elle hum pouco 

mal 



Década III. Liv. II. Cap. IIL 143 

mal avindo com a gente de Chatigam , por 
o máo tratamento que lhe faziam , c elíe 
defejar muito ter amizade , e commercio 
com os Portuguezes , pola boa fama que 
tinham naquellas partes , o mandava viíitar, 
pedindo-lhe que fe quizefle ver com elle no 
porto da lua Cidade Arracam , onde pode- 
ria fer provido do que houvefle mifter. Dom 
João , recebido o prefente , e dado os agra- 
decimentos delle com algumas coufas , que 
deo ao Embaixador , teve prática com os 
principaes da frota ; e vifto o trabalho , e 
perigo que naquelle porto tinham paííado , 
e a neceífidade em que eftavam de fe pro- 
ver, pêra poderem navegar , porque as aguas 
do inverno 3 que alli he grande, lhe tinham 
apodrecido todolos apparelhos , e velame 
dos navios , em tanto que já fe ferviam de 
alguns de algodão , que fizeram de redes 
de huns pefcadores que falteáram , aífentou 
que lhe convinha ir ao porto de Arracam , 
de que já tinha noticia fer hunia Cidade 
abaítada , e de trato. Finalmente elle fe foi 
em companhia do Embaixador, e na boca 
do rio Arracam foi recebido de alguns ca- 
laluzes que EIRey mandava , aprefentando- 
Ihe muito refrefco da terra , por fegurarem 
melhor a entrada , a qual fendo já no meio 
do rio , D. João entendeo não fer tão fe- 
gura , como os noííos navios haviam mif- 
ter* 



144 ÁSIA de Joio de Bakros 

ter. Porque era já o rio alli tão eftreito > 
que com as antenas da verga hia roçando 
pela rama do arvoredo , onde fe elle efpe- 
dio do Embaixador 3 dizendo que bem via 
como os feus navios não eram pêra navegar 
per coufa tão eítreita ; que fe ElRey fe qui- 
zefle ver com elle , havia de fer naquelle 
lugar , onde poderiam aífentar paz , e ami- 
zade 3 e que pêra iíío efperaria dous dias y 
té ver feu recado. Q Embaixador quando 
vio que a força de razões o não podia le- 
var adiante 5 moílrando que não tardaria os 
dous dias , por a Cidade eílar mui perto , 
efpedio-fe delle , levando comíigo os navios 
de fua companhia , mas elle não veio aos 
três , nem aos quatro. No qual tempo por- 
que D. João trazia per vigia do rio os dous 
bargantijs acima , e abaixo 5 veio-lhe dizer 
hum delles que em hum certo paífo eftrei- 
to , per que elles abaixo tinham paílado, 
onde acharam começada humaeílacada , an- 
dava muita gente que mettia mais eílacas , 
como que queriam atraveífar o rio. D.João 
ao paílar pêra cima , tinha viílo o começo 
defta eftacada , e pareceo-lhe que. era artifi- 
cio dos pefcadores , como elles ufam naquel- 
las partes ; peró quando foube que andava 
muita gente na obra , entendeo o engano 3 
e que lhe podia fucceder outro tal deíàftre y 
como acontcceo a D. Lourenço d' Almeida 

no 



Década III. Liv. II. Cap. III. 14? 

íio rio de Chaul, e íem mais demora tor- 
nou-fe per o rio. Ao paliar da qual eflaca- 
da a gente da obra fugio toda , como que 
receava receber algum damno dos noííbs, 
por entenderem a traição que lhe elles que- 
riam fazer. No qual modo de fugida D. João 
entendeo fer affi , e depois per boca de hum 
delles , que João Fidalgo com o feu bar- 
gantij houve ás mãos pêra lingua da ver- 
dade , o qual defengano caufou determinar- 
fe elle fazer fua viagem pêra Ceilão , onde 
fabia que Lopo Soares havia de fer naquel- 
le tempo fazer a fortaleza, da capitania da 
qual lhe tinha dado palavra , e com fua 
chegada o rnetteo de poífe , ( como diífe- 
mos.) E João Fidalgo parece que o índio 
que tomou lhe deo tal efperança , com que 
furtado de D. João , fe leixou ficar naqueí- 
la boca do rio Arracam , e em lugar de 
navios de preza , em que elle efperava de 
fe fazer rico , vieram dar com elle os ca- 
laluzes , e lancharas , que ElPvey de Arran 
cam armava fobreD.João. E a vitoria que 
delles houve , foi livrallo Deos do perigo 
que niífo paífou ; e mais cheio de trabalhos , 
que de prezas , fe partio pêra a índia 5 on- 
de teve muito em haver perdão de Diogo 
Lopes de Sequeira , que já neíte tempo go- 
vernava. 

Tom. Ill P.L K CA- 



146 ÁSIA de J0X0 de Barros 

CAPITULO IV. 

De algumas coafas que D. Aleixo de Me- 
nezes fez , depois que chegou a Malaca , 
entre as quaes foi mandar Duarte Coe- 
lho a EIRey de Sião : e do que elle 
paffòu nejla viagem. 

NO mez de Abril , em que Lopo Soa- 
res mandou D. João da Silveira ás 
Ilhas de Maldiva , na qual viagem paliou 
o que ora efcrevemos , mandou também a 
D. Aleixo de Menezes a Malaca fobre as 
differenças , e trabalhos que lá havia ; o qual, 
partido nos três navios com a gente , e mu- 
nições que diííemos , chegou a Malaca na 
entrada de Junho daqueile anno de dezoi- 
to. E verdadeiramente fe tardara mais quin- 
ze dias , nella citavam outras novas diffe- 
renças ordenadas entre os noflbs , com que 
não fora muito perder-fe por terem EiPvey 
de Bintàm por vizinho. As quaes differen- 
ças eram entre Manuel Falcão , que fervia 
de Alcaide mor ■ e o Feitor Lopo Vaz, 
competindo a quem havia de fervir de Ca- 
pitão da fortaleza per falecimento de Nuno 
Vaz , que eftava cada dia pêra morrer de 
doença \ como morreo em D, Aleixo che- 
gando. Equem tecia toda efta têa , era hum 
Fero de Guilhem Caílelhano 3 que fervia 

de 



Década IIL Liv. II. Cap. IV. 14^ 

de Efcrivão da Feitoria com outros officiaes 
de fua valia , de maneira , que eftavam to- 
dos partidos em dous bandos ; e EIRey de 
Bintam 5 que fabia parte de tudo , efperan- 
do em que haviam de parar fuás compe- 
tências , pêra os vir eítremar com todo feu 
poder , e fe fazer íenhor de Malaca. O qual , 
depois que mandou ao rio Muar o feu Ca- 
pitão Cyribiche, por quão bem lhe fucce- 
dia na guerra , que nos dahi fazia , elle 
mefmo em peíToa com todo feu poder fe 
veio metter no rio Muar j e per elle acima 
pouco mais de dez léguas , em hum lugar 
chamado Pago , fez huma fortaleza muito 
mais forte , que a debaixo donde Cyribi- 
che fe recolhia, e dalli guerreava a Cida- 
de Malaca com dobradas forças de ma- 
neira , que fe contentavam os noífos com 
lhes não fer entrada , defendendo-a ao mo- 
do que fazem os cercados. Tanto que Dom 
Aleixo chegou, EIRey de Bintam no Pago 
onde eftava foube logo como trazia muita 
gente, e munições, pêra que lhe convinha 
mudar a ordem que té então tinha de fa- 
zer a guerra a Cidade , não mandando cor- 
rer fuás Armadas tão foltamente , como fo- 
hiam , ante começou de novo fortalecer mais 
fuás fortalezas , principalmente a do Pago 
em que elle eftava , temendo que os noílos 
o foíTem vifitar a ella ? donde fe cauíòu que 

K ii per 



148 ÁSIA de João de Barros 

per alguns dias fuás lancharas leixarem de 
correr a Malaca , fomente alguma que vi- 
nha em modo de efpia. D. Aleixo porque 
o negocio principal a que hia era metter 
a Cidade em aflbcego por caufa das dife- 
renças pairadas , a primeira ccufa em que 
entendeo , foi em metter AíFonfo Lopes 
d' Acoita de poífe da capitania da fortale- 
za , e a Duarte de Mello da capitania mor 
do mar , e foltar António Pacheco , e os 
outros prezos. E no caíligo das coufas paf- 
fadas não quiz entender , porque Nuno Vaz , 
que era huma das principaes partes em el- 
la , chegando elle , faleceo de fua doença > 
(como diilcmos , ) e aos outros deo-lhes por 
cafrigo os trabalhos , fome , guerra que ti- 
nham paífado 5 e a perda de fazenda , que 
cada hum , por fuftentar fua opinião, re- 
cebeo : e principalmente por a Cidade eílar 
em tal eílado > que havia mifíer mais ho- 
mens* foltos , e contentes , que prezos , e 
cafHgadcs , e mais de coufas em que todos 
tinham culpa , cada hum em feu modo. Aca- 
bando deaílentar as quaes coufas, e aíll as 
da provisão , e fegurança da Cidade > or- 
denou enviar Duarte Coelho a EIRey de 
Sião com cartas , e hum prefente , que lhe 
EiRey D. Manuel mandara na Armada , 
em que clefte Reyno partio António de Sal- 
danha o anno dedezelète. . E iíto em retor- 
no 



Década HL Liv. II. Cap. IV. 149 

110 do que o mefmo Rey lhe tinha envia- 
do per António de Miranda , quando lá 
foi por Embaixador per mandado de Af- 
fo-nfo d'Alboquerque , depois de tomada 
Malaca , em companhia do qual fora o mef- 
mo Duarte Coelho , como atrás fica. Por- 
que além de elle , deíla vez que lá foi , fa- 
ber mui bem as coufas de Sião , o anno paf- 
fado indo elle com Fernão Peres d' Andra- 
de caminho da China , com hum temporal 
que lhe deo , elle Duarte Coelho arribou á 
coita do Reyno de Sião , e entrou per o 
rio Menam , que o atravefla. Nas corren- 
tes do qual eílá limada a Cidade Hudiá ca- 
beça do Reyno , trinta léguas da qual elle 
invernou aquclle anno , e dahi tornou fazer 
feu caminho pêra a China , donde era vin- 
do , como diflemos ; e deíla vez também 
teve grande intelíigencia em faber as cou- 
fas de lá , nas quaes eílava mui prático : aííl 
que por eítas razoes o defpachou D. Alei- 
xo em hum navio , em que o mandou bem 
acompanhado. E a íubílancia da fua embai- 
xada era conformação das pazes , que An- 
tónio de Miranda-, e elle aífen taram com 
EIRey de Sião \ e a pedir-lhe , que houvef- 
íe por bem mandar que alguns dos feus na- 
turaes vieífem povoar Malaca , como lhe 
já mandara dizer , porque íua tenção era 
deílerrar delia todolos Mouros Malayos ; 

e po- 



ijTo ÁSIA de João de Barros 

e povoando-fe dos feus , feria hum meio 
para fe melhor communicarem com osPor- 
tuguezes em amor , e paz , e as coufas do 
commercio andariam em fuás mãos , e não 
dos Mouros , com que íe tinham feito fe- 
nhores da maior parte do marítimo de to- 
do aquelle Oriente. Com a qual embaixa- 
da Duarte Coelho partio a dezoito de Ju- 
lho daquelle anno de dezoito , e chegou lá 
em Novembro ; porque o navio em que foi 
era do Reyno de Sião , e foi fazendo al- 
gumas demoras nos portos da cofta. Com 
a chegada do qual , ElPvey foi mui con- 
tente, e lhe fez grande honra ; e quando 
veio a jurar as coufas da paz , e amizade , 
que Duarte Coelho com elle aífentou , em 
modo de facramento de noífa religião , ar- 
vorou huma grande Cruz de páo com as 
armas deíle Reyno ao pé > no mais notá- 
vel lugar da Cidade , como memoria 5 e 
teílemunho da paz que jurava , de que El- 
Rey ficou mui contente. E dahi a poucos 
dias ao pé delia enterrou Duarte Coelho 
hum Pêro Lopo criado do Duque de Bra- 
gança D. Jemes , que levava com figo , o qual 
faleceo de doença. Defpachado Duarte Coe- 
lho muito a fua vontade per EiRey de Sião , 
elie partio da Cidade Hudiá em Novem- 
bro do anno de dezenove com três navios , 
hum feu , e dous que o mefmo Re/ man- 
da- 



Década III. Liv. II. Ca?. IV. 151 

dava em fua guarda , por caufa das Arma- 
das delRey de Bintam. E fendo já 110 fim 
da coita do Reyno Camboja , por os ven,- 
tos lhe nao fervirem pêra vir pela de Pa- 
tane , querendo atraveíTar a ella pêra to- 
mar a ponta de Cingapura , deo-lhe tão 
grande temporal , que veio dar á coita jun- 
to de Pam , que era de hum genro d'ElRey 
de Bintam noffo imigo. O qual em lugar 
de tratar mal a Duarte Coelho , o agaza- 
lhou, e aos que com elle fe falváram ; e 
per derradeiro , por caufa da prática que Du- 
arte Coelho com elle teve fobre as coufas 
de Malaca , e d'ElRey de Bintam feu fo- 
gro , com quem naquelle tempo eílava mal , 
elle fe fez vaíTallo d'ElRey D. Manuel, 
promettendo de lhe dar cada anno em final 
de obediência hum vafo de ouro , que pe- 
zaílè quatro cates , pezo que iuiquellas par- 
tes fe ufa. E poílo que eíia obediência, a 
que elle voluntária fe fometteo , durou pou- 
co , e quafi fez eíla obra em ódio de feu 
fogro por paixões que entre ambos havia , 
e principalmente por EIRey de Bintam nef- 
te tempo eftar mui quebrado , e elle que- 
ria eftar feguro de nós , e nao perder o tra- 
to de Malaca , que lhe importava muito, 
ao menos naquelle tempo falvou a Duar- 
te Coelho, e o enviou a Malaca em navio 
feu. Quizemos aqui dar razão deita vinda 

de 



i$i ÁSIA de JoÃo de Barros 

de Duarte Coelho, pofto que foi já no fim 
de Fevereiro do anno de vinte , em que 
governava Diogo Lopes de Sequeira , por 
não quebrar o fio da hiftoria , que importa 
mais a continuação delia , pois não são an- 
naes , que fobrefaltalía por caufa dos tem- 
pos, quanto mais que delíe fe dá também 
razão. E por eíle rneímo refpeito , pois Du- 
arte Coelho quaíi em modo de pofle de 
noflb defcubrimento arvorou aquelle diyi- 
noíinal de Cruz , myíterio de noílaRedem- 
peao, como padrão de eterna memoria, em 
huma das mais populofas Cidades daquelle 
grande , e illuílre Reyno de Sião ; neceífa- 
rio he que demos aqui noticia delle , por 
efte ler o mais próprio lugar em que o po- 
demos fazer , pofto que em a noíTa Geografia 
fe faz mais particularmente, 

CAPITULO V. 

Em que fe defcreve o grande Reyno de Sião , 
e algumas coufas notáveis delle, 

EM as partes de Afia que defcubrimos, 
ha três Principes Gentios , com que te- 
mos communicação , e amizade , aos quaes 
podemos chamar Emperadores de toda a 
gentilidade Oriental , que habita a terra fir- 
me delia ; porque debaixo de feu império 
Jia muitos Reynos ; e potencias , que nefta 



Década III. Liv. II. Cap. V. 15-3 

noífa Europa podiam conítituir hum pode- 
rofo Príncipe. O primeiro, e mais Orien- 
tal he EIRey da China, de que logo da- 
remos alguma noticia ; é o fegundo a elle 
vizinho EIRey de Sião, de que ora a que- 
remos dar ; e o terceiro EIRey de Bifna- 
ga , de que adiante também a daremos. E 
não tratamos aqui dos Principes , que vizi- 
nham comeíles dentro pelo fertão , aíli co- 
mo EIRey de Orixá, e EIRey de Benga- 
la , que tem muitos portos do mar , que nós 
navegamos, e com que temos commercio, 
poílo que são fenhores de grandes eftados ; 
porque ainda que eíles fejam mui podero- 
íbs em terra , povo , trato , e riqueza , não 
fe podem comparar aos três que diflemos. 
Cá debaixo delles ha Principes léus vaíTaL- 
los , que fe foílem os feus eftados nefla nof- 
fa Europa , podiam conífituir grandes Rey- 
nos, e principados: a maior parte dos quaes 
he do povo Gentio , de que aquella terra 
do Oriente he a madre a mais politica del- 
le , porque a do Ponente habitada de Gen- 
tio he a mais barbara de todolos bárbaros. 
E porque melhor fe entendam as demarca- 
ções , e figura do eftado , e Reyno deite 
Rey de Sião , de que ora queremos fallar , 
e aíli fique na memoria huma imagem pê- 
ra o que havemos de efcrever dos de Bifnaga , 
Bengala , e Pegu ^ tornaremos á demons- 
tra- 



1^4 ÁSIA de João de Barros 

tração , que já fizemos atrás , fallando da 
marítima coita da índia té o fim do Ori- 
ental da China. Quem na mente quizer re- 
ceber a terra deites Reynos , vire a mão es- 
querda com a palma pêra baixo , e aparte 
o dsdo pollegar do fegundo chamado ín- 
dex ? ou moílrador , e depois aparte eíte Ín- 
dex dos três leguintes , os quaes cerre, e 
encurte pelo primeiro nó , que he quaii o 
meio , per onde elles levemente fe encurtam , 
e eftendem. E depois que tiver aíli a mão > 
olhe que a coita da índia lhe fica ao lon- 
go do dedo pollegar da banda de fora, e 
eíta he aparte doPonente, e na ponta del- 
le he o cabo Comorij , que eítá em altura 
do polo Arâico fete gráos e meio. E na 
ponta do fegundo dedo index , que eítá 
ao Levante ,' ante de chegar ao fim delle, 
que eítá em três quartos de gráo da mefma 
parte , fica em dous a Cidade Malaca. Fi- 
gure mais , que defronte do primeiro dedo 
pollegar , quaíl da banda de dentro , eítá 
a Ilha Ceilão , a mais auítral ponta da qual 
fica em féis gráos , e na ponta do index eítá 
a Ilha Çamatra , per meio da qual paíla a 
linha equinocial. Os quaes cabos , e Ilhas 
são das mais notáveis partes , que a índia 
tem , e que ante de noííb defcubrimento em 
alguma maneira eram fabidas , e notas aos 
antigos Geógrafos , ainda que per modo 

con- 



Década III. Liv. II. Cap. V. 157 

confufo. Todo aquelle vão affí largo , co- 
mo fica entre eftes dous dedos , he o mar 
da enfeada de Bengala chamado aíli do 
mefmo Reyno Bengala , cuja cofta fica a 
mais curva defta enfeada , occupando aquella 
diftancia, que Te faz entre os nós dos dous 
dedos , quando começam a fahir da mão . 
a qual diíiancia quaíi toda fica retalhada com 
as bocas do rio Gange, que per alli entra 
no mar. E no meio do dedo pollegar 5 on- 
de dle tem o nó , apartada da coita obra 
de fetecentas léguas , alli pode íituar a Ci- 
dade Bifnaga , de que todo o Reyno to- 
mou o nome > o qual participa de dous ma- 
res. Da banda de dentro com o de Ben- 
gala , que lhe fica no Levante ; e de fora 
com o mar da índia , em que tem poucos 
portos j e eíla he a largura deíle Reyno , 
hum dos três Gentios que nomeámos , e o 
íèu comprimento he do nó té o fim do de- 
do demarcado per eíla maneira. Da banda 
de fora , que he do Ponente , fica toda a 
terra Malabar 3 queoccupa não ainda o ter- 
Ço da largura deite dedo , porque fomente 
he huma faixa de terra mui eílreita , e to^- 
da a mais terra he de Bifnaga. E do nó 
pêra cima contra a mão , que he a parte 
do Norte , lhe ficam eftes dous eítados , o 
Reyno Decan , que tem todo o marítimo 
da parte do Ponente , e o Reyno Orixá, 

que 



i)6 ÁSIA de João de Barros 

que tem o marítimo do Oriente , o qual 
íica entre efte Reyno Biíhaga , eode Ben- 
gala ? e pelas coitas vizinha com o Rey- 
no Decan. PaíTando-nos ao iegundo dedo 
índex , ou demoftrador , toda a diftancia que 
eftá entre o primeiro nó, quando elle fahe 
da mão , ao fegundo /deíla parte do Po- 
nente , que he o mar de Bengala, lie do 
Reyno Árracao , que vizinha com o de Ben- 
gala , que lhe fica ao Norte , e o de Pe- 
gu que jaz ao Sul. E ambos pela parte do 
Oriente vam dar nas ferranias , e terras 
dos Reynos Avá , e Bremá , os quaes cor- 
rem ao longo do dedo pelo meio delle , 
porque já da outra parte , onde elle faz ou- 
tra enfeada com os três dedos dobrados , 
squelle he o marítimo do Reyno de Sião , 
o qual participa de dous mares ; porque com 
huma cliave de terra vem tomar outra cof- 
ta marítima da parte do Ponente , que he 
na enleada de Bengala , começando do nó 
onde acaba Pegu té o terceiro nó do mef- 
mo index ; onde jazem as Cidades , Rey 
Tagala , Tavam , Pulor , Meguim , Tenaía- 
rij , e Çholom : os Governadores das quaes , 
ainda que fe intitulam por Reys , são íujei- 
tos ao eftado de Sião. Finalmente tirando 
o que oceupam os dous Reynos, Àrracão , 
Pegu , e Malaca , que eftá no fim do dedo 
index ; os limites da qual tem aquella pro- 

P or ~— 



Década III. Liv. II. Cap- V. 157 

porção de terra que tem a unha no dedo, 
todo o mais delle he do Reyno Sião té a 
juntura que elle faz com a mão. Verdade 
he que aquella parte , que cerca a unha, 
e chega té aquella juntura a ella conjunta, 
pofto que foi de feu eílado , alguns Mou- 
ros que lhe não obedecem , fe tem feito fe- 
nhores do marítimo , porque o interior mais 
he povoado de beftas feras , que de homens , 
ou que tem vida delias. E no fim do de- 
do , onde fe elie ajunta com os outros três 
feguintes , faz huma pequena enfeada , por- 
que fahem hum poderoío rio chamado Me- 
não , que na língua delles quer dizer mai 
das aguas , o qual vem fendendo de alto a 
baixo todo o Reyno de Sião , começando 
no lago Chiamay • que eftá em trinta gráos 
de altura da parte do Norte , té fe metter 
no mar em altura de treze , com que toda 
a terra deíle Reyno fica entre os dous ner- 
vos , que correm té a juntura do braço , e 
governam os dous dedos index , e o do 
meio. Porque á femelhança defta demonf- 
tração contém efte Reyno de comprimento 
vinte e dous gráos , que são léguas Hefpa- 
nhoes , per que fempre nefta noífa hiftoria 
falíamos , trezentas e trinta e duas léguas e 
meia, E pela parte do Ponente , indo fem- 
pre pelo nervo do dedo index , confina com 
as ferranias , que cortam de Norte Sul , on- 
de 



15S ÁSIA de João de Barros 

de jazem os Reynos Avá > e Bremá , e Jan- 
goma. E pelo fegundo nervo com hum dos 
mais notáveis rios daquelle Oriente chama* 
do pelos Siamês Mccon , que quer dizer 
Capitão das aguas , porque traz tanta cópia 
delias , que quando vem fahir ao mar na- 
quelle nó do terceiro dedo do fegundo ner* 
yo que diiTemos , ante de fahir a elle , reta- 
lhando a terra per muitas partes , por fe 
eftender, faz hum lago de mais de oitenta 
léguas em comprimento , com que fica di- 
vidindo eíles dous Reynos , o de Camboja 
pegado com o de Sião pela parte maritima 
da pequena enfeada, que diiTemos , e o de 
Choampá , que fica no Oriente delle ; e 
hum , e outro entram mui pouco pelo fer- 
tão da terra , que na figura que fizemos 
jie todo o corpo da mão. E onde ella fe 
ajunta com o coilo do braço, alli fe atra- 
vefiam humas ferranias tão afperas, como 
os Alpes , em que habitam os povos cha- 
mados Gueos , que pelejam a cavallo , com 
os quaes continuadamente EIRey de Sião 
tem guerra , e vizinham com elle fomente 
pela parte de Norte 5 ficando entre elles os 
povos Laos, que cercam todo eíle Reyno 
de Sião , aífi per cima do Norte 5 como do 
Oriente ao longo do rio Mecon , os quaes 
vam vizinhar com a grande Província Chi- 
na y que contém em JI os -dedos derradei* 

ros 



Década III. Liv. II. Cap. V. 15-9 

ros com todo o refto da mão , e pela par- 
te do Sul ficam a eftes Laos , os dous Rey- 
nos Camboja 5 e Choampá , que são marí- 
timos. Os quaes Laos, que per efte modo 
vam cercando deftas duas partes Norte, e 
Levante o Reyno de Sião , por ferem fe- 
nliores de tão grandes terras , que contém 
em íi três Reynos , todos são fujeitos a eli- 
te Rey de Sião , pofto que muitas vezes fe 
rebelam contra elle. E fe lhe alguma obe- 
diência dam , he porque os fegura dos po- 
vos Gueos i que diflemos , por ferem ho- 
mens tão feros , e cruéis , que comem car- 
ne humana ; e íegundo o ufo delJes , e lu- 
gar de ília habitação , parece ferem aquel- 
]es povos que Marco Paulo diz em o livro 
que efereveo de fua peregrinação , habita- 
rem hum Reyno , a que elle chama Can- 
gigu. Porque eftes Gueos , a que elle não 
dá nome , como ao Reyno , geralmente fe 
pintam , e ferrão per todo corpo ao mo- 
do que fazem eftes de que elle falia , e ve- 
mos os Mouros de Berbéria ferrados , cou* 
fa que em tedas aquellas regiões não fabe- 
mos que outra gente o faça. E como ha- 
bitam em altas j e afperas ferranias i onde 
os ninguém pode entrar , defeem daquelles 
lugares fragofos ás terras chans dos Laos, 
e fazem nelías grande eftrago. E tanto , que 
fe não foííe pola potencia defte Rey de Sião > 

que 



x6o ÁSIA de João de Barros 

que com grande número de gente a cavaí-< 
lo , e de pé , e Elefantes de guerra vai con- 
tra elles , já os Laos foram deftruidos , e as 
mefmas terras de Sião tomadas por elles. 
Contra os quaes indo EIRey de Siáo hu- 
ma vez , era ptiefente hum Portuguez per 
nome Domingos de Seixas , homem de boa 
linhagem , o qual foi levado cativo com 
outros noílbs a efte Rey de Sião , (como a 
hiíloria adiante dirá,) e o teve vinte e cin- 
co annos 5 no qual tempo poía experiência 
que teve delie fer homem cavalleiro , e de 
lua pefiba , o fez Capitão de gente. E fe- 
gundo a informação que delle houvemos , 
neíte ajuntamento de gente que EIRey fez 
pêra ir a efta guerra , levaria vinte mil ho- 
mens de cavallo , e eftes cavallos não são 
grandes , como os de Hefpanha , mas pe- 
quenos , e porém mui rijos , e aturadores 
de trabalho, A gente de pé eram duzentos 
e cincoenta mil homens v e Elefantes dez 
mil de peleja , e de carga , porque efte he 
o Reyno em que ha maior cópia delles , 
que em parte alguma , e de que os Reys 
fe mais fervem. E a fora elles , levou gran- 
de número de bois , e bufaros -, que tam- 
bém lhe ferviam de carga ; e quando na 
terra per onde foi lhe desfalecia' o manti- 
mento , fervia-lhe efte gado de provisão del- 
le. E efta gente, que então EIRey levou, 

he 



Década III. Liv. II. Cap. V. 161 

he a ordenada , que fempre tem feita pêra 
qualquer accidente de guerra que fobrevier 
ao Reyno , a qual EÍRey tem repartida per 
capitanias , e fenhores , a que eíle dá terras y 
e comedias pêra iííò > e são obrigados que 
do dia que os chamarem a três íeguintes y 
hão de eíiar poflos no campo , e em cami- 
nho pêra onde os mandarem ir. A qual gen~ 
te EiRey faz fem dar opprefsão ao Reyno , 
porque per eíle modo he paga á fua cufta ; 
e quando quizeíTe ajuntar mais, podia poer 
em campo hum conto de homens > ficando- 
Jhe todalas fronterias , em que tem pofta 
gente de guarnição providas do feu ordi- 
nário. Porque o Reyno he grande , e mui 
povoadas as Cidades , e povoações delle ; 
cá fomente da Cidade Hudiá , que he a ca- 
beça do Reyno Sião, onde EiRey reíide, 
lança de íi cincoenta mil homens. E fe qui- 
zeífe levar gente dos outros Reynos , de 
que he íenhor , não teria conta , mas ordi- 
nariamente per conftituição , e confelho , ef- 
tá aíTentado não trazer em feus exércitos 
lenão dos próprios Siamês, por cautela de 
fe não fiar de outra nação > ainda que fejam 
feus íubditos , cá não querem que lhe faibam 
fua ordenança , modo , e aviíos nas coufas 
da guerra. Os quaes Siamês de nove Rey- 
nos , de que o Principe daquelle eftado he 
fenhor, fómente povoam dous : o primeiro 
Tom.IILP.L L he 



i62 ÁSIA de João de Barros 

he onde eftá a Cidade Hudiá , que da par- 
te do Sul vem enfeitar com as terras de 
Malaca , ao qual elles chamam Muantay , 
que quer dizer o Reyno de baixo. E nef- 
te Muantay fe comprendcm cilas Cidades 
portos de mar 5 Pangoçay , Lugo , Pata- 
ne , Calantam , Talingano , ou Talinga- 
nor, e Pam. Em cada huma das quaes ef- 
tá hum feu Governador , a que elles cha- 
mam Oyá , dignidade como acerca de nós 
Duque , e alguns delíes fe tem intitulado 
por Reys , porque tem polo fertão muita 
terra. Dos quaes o mais vizinho ao noíTo 
Reyno Malaca hePam, que já lhe não obe- 
dece, e aíli fazem outros acima , como fe 
convertem á feéla de Mahamed. O fegun- 
do Reyno continuado a efte pela parte do 
Norte j he Chaumúa , os povos do qual tem 
lingua per íi ; e propriamente o Reyno , a 
que nós chamamos Sião , nome entre elles 
mui eftranho , e impoílo pelos eftrangeiros 
áquelle feu eftado , e não per elles. Três , 
que eílam fobre a cabeça deftes , são dos 
povos Laos , que ( como diífemos ) obede- 
cem por temor : ao primeiro chamam Jan- 
gamá , cuja principal Cidade ha nome Chia- 
rnay, donde muitos por caufa delia chamam 
-ao Reyno Chiamay : ao íègundo Chancray 
Chencran : e o terceiro Lanchaã , que he 
abaixo deites , e vai vizinhar com o Rey- 
no 



Década III. Liv. II. Cap. V. 163 

rio Cacho , ou Cauchichina , como lhe nós 
chamamos , os quaes povos Laos tem lín- 
gua per li. Tem mais dous Reynos , que 
hum vizinha com o outro , ambos maríti- 
mos : o primeiro chamado Como : e o fe- 
gundo Camboja , cada hum dos quaes tem 
língua própria. Da parte doPonente lhe fi- 
ca o Reyno Chaidóco , que tem lingua per 
íí , e a efte fe fegue o Reyno Bremá , que 
vai correndo eílreito , como huma faixa con- 
tra o Norte per muita diftancia , mudando 
quali a terços o nome , porque em baixo fe 
chama Bremá Ová , e logo Bremá Tangut, 
depois Bremá Pram , e mais acima Bremá 
Beca , e por cabeça Bremá Lima , os quaes 
tem lingua própria , pofto que neíta diíFe- 
rença de terras variam pouca coufa. Final- 
mente todos eíles fere Reynos , tirando os 
dous que diííemos íèrem da própria lingua 
dos Siamês , como são gente eíírangeira , 
e conquiftada per elles, o temor, e necef- 
íidade os faz fubditos a EIRey de wSiao , e 
com elles fempre tem que fazer emfeus aíe- 
vantamentos. Os quaes com toda a outra 
terra que tem por vizinhança he de gente 
idólatra , e quaíl em todalas coufas de fua 
crença fe conformam , por tudo fer trazido 
da religião dos povos da Provincia China , 
que foi jáfenhora deite eftado. Tem os Sia- 
mês que Deos he Creador do Ceo , e da 
L ii Ter- 



164 ÁSIA de João de Barros 

Terra , e que dá gloria ás almas dos bons , 
e inferno ás dos máos , e que a alma do 
homem tem dous eípiritos euftodes , que a 
guardam , e hum que a tenta. Geralmente 
efta gente dos Siamês he mui religiofa 3 e 
amiga de veneração de Deos , porque lhe 
edificam muitos , e mui grandes , e magnífi- 
cos Templos , huns delles de pedra , e cal , e 
outros de tijolo , e cal ; nos quaes Templos 
tem muitos idolos de figuras de homens , 
os quaes elies dizem eílar no Ceo , porque 
viveram bem na terra , e que tem fuás ima- 
gens por fua lembrança , mas não que as 
adorem. Entre eíles tem hum de barro , que 
jaz dormindo encoftado fobre humas almo- 
fadas do mefmo barro , o qual fera de cin- 
coenta paífos de comprido , a que elles cha- 
mam Pai dos homens , e dizem que Deos 
o mandou do Ceo , e não foi creado na ter- 
ra , e que delle nafcêram alguns homens > 
que foram martyrizados por Deos. E a 
maior figura deitas , que tem de metal en- 
tre outras muitas que ha naquelle Reyno, 
he huma, que eftá em hum Templo da Ci- 
dade Socotay , que elles dizem ler a mais 
antiga do Reyno , o qual idolo he de oi- 
tenta palmos, e daqui pêra baixo té da es- 
tatura de homem tem grande número del- 
les. Os Templos são grandes , e fumptuo- 
íos , e niíto deípendem os Reys muito, e 

to- 



Década III. Liv. II. Cap. V. i6j 

todo o Rey, como herda o Reyno , em lou- 
vor de Deos logo começa hum Templo, 
e delíes fazem dous , e três , aos quaes el- 
Ies dotam grandes rendas. Todos eíles tem- 
plos como são grandes , logo lhes fazem 
huns pyrames mui altiílimos , ifto tanto por 
fer figura dedicada a Deos , como por or- 
namento do templo > ao modo que fe cá 
fazem os curucheos ; peró cites são de pe- 
dra , ou de tijolo. Do meio pêra cirna dou- 
rados de ouro de pão , fobre betume que 
dura per muito tempo , e pêra baixo he to- 
do pintado de cores , e per remate delle em 
todo cima , affi como nós pomos grimpa , 
põem elies huma maneira de fombreiro , e em 
roda da aba muitas campainhas , afli leves 
em feu movimento , que com qualquer ar 
que lhes dá tangem. Os Sacerdotes deites 
Templos são mui venerados , e elles em feu 
modo religiofos , e tão honeítos , que den- 
tro nas oficinas de fuás caías não pode en- 
trar mulher , nem querem ter gallinhas j! por 
ferem fêmeas ; e fe algum he comprendido 
em coufa de mulher , logo he punido , e 
lançado fora da cafa. Seu habito he de pan- 
no de algodão , e de cor amarella , porque 
todo amarello por a femelhança que tem 
com o ouro , he dedicado a Deos , -e he 
tão comprido , que lhe chega té os artelhos , 
ao modo do habito dos noífos Religiofos, 

Só- 



l66 ÁSIA de João de Barros 

Somente tem eíla differença , que o braço 
cfquerdo trazem nú, edaquellehombro pê- 
ra a parte direita lhe atraveíTa hum a tira de 
panno comprida , ao modo de eítola , de 
que ufam os nofíbs Sacerdotes chamados 
Diáconos ? que dizem o Evangelho , a qual 
apertam com outra que lhe cinge o habi- 
to , e nefta tira atraveíTada eftá a denotação 
de Religiofo , como na terra Malabar a li- 
nha vermelha dos Brâmanes lançada a efte 
modo. Trazem mais por religião andarem 
rapados, edeícalços, ena mão hum abano 
de papel grande da figura de huma adar- 
ga , com que cobrem a cabeça do Sol , e 
amparam o rofto da gente , quando prepaf- 
fam per elles , e no tempo das chuvas tra- 
zem capellos na cabeça. São homens mui 
temperados no comer , e beber ; e fe algum 
beber vinho, he entre elles tão grande pec- 
cado , que o apedrejam por iflb. Tem mui- 
tos jejuns per todo anno , principalmente 
em hum tempo , em que geralmente todo 
povo concorre aos Templos ouvir fermoes, 
ao modo que neftas partes da Chriftandade 
fe coíluma nas Quadrageíimas. Tem algu- 
mas feitas principaes , e todas são no prin- 
cipio da Lua nova, ou quando eftá chea, 
e o rezar delíes he em coro de dia , e de 
noire a certas horas. Neftes Sacerdotes eftá 
toda a doutrina; porque não fomente eftu* 

dam 



Década III. Liv. IL Cap. V. i6y 

dam nas couías de fua religião, mas ainda 
na revolução do Ceo , e dos Planetas, e nas 
couías da Filofofia natural. Tem que o Mun- 
do teve principio, eque houve diluvio ge- 
ral, e que o termo da duração do Mundo 
he de oito mil annos , de que já são palia- 
dos féis mil , e difto davam alguns d'outros 
razão o anuo de mil e quinhentos e qua- 
renta a hum Domingos de Seixas , de que 
atrás fizemos menção , que lhe perguntava 
poreílas coufas. Dizem que afim do Mun- 
do ha de fer per fogo , e que neíle tempo 
fe abriráo no Ceo fete olhos de Sol , e que 
cada hum fucceífivamente feccará huma cou- 
fa , té que aos cinco feccará o mar , e que 
nos dous últimos fe queimará toda a terra , 
na cinza da qual íicaráo dous ovos , macho , 
e fêmea , de que fe tornarão a pruduzir to- 
dalas coufas , de que o Mundo fe tornará 
reformar. E que não haverá neile mar de 
agua falgada , fenão rios que reguem a ter- 
ra , a qual fera mui fértil , e dará feus fru- 
tos fem trabalho dos homens com que el- 
les vivam a leu prazer perpetuamente. Fa- 
zem o anno de doze mezes , e começam o 
feu anno na primeira Lua de Novembro ; 
e a caufa he , porque entre elles neíle tempo 
começa o verão , e os rios mettidos na ma- 
dre trazem fuás aguas claras. E como acer- 
ca de nós a cada hum dos mezes attribui* 

mos 



i68 ÁSIA de JoXo de Barros 

mos hum íigno do Zodíaco , notado per 
huma figura de animal , aílí elies denotam 
os feus per eftas. Ao primeiro , que he No- 
vembro , dam a figura de Rato ; a Dezem- 
bro, Vaca; a Janeiro, Tigre; a Fevereiro, 
Lebre ; a Março , Cobra grande ; a Abril , 
Cobra pequena ; a Maio , Cavallo ; a Ju- 
nho , Cabra ; a Julho , Bogio ; a Agofto , 
Gallinha ; a Setembro , Cam ; a Outubro , 
Porco. São grandes Aftrologos , e não mo- 
vem hum pé íèm eleição de tempo pêra 
feus orapoftos; e pofto que íigam as horas 
do Sol , não tem relógios de fombra , e pê- 
ra o decurfo do dia , e da noite fomente 
nas cafas d'ElRey ha relógio de agua , que 
de dia , e de noite fe vigia ; e ao tempo das 
horas dam tantas pancadas em hum ataba- 
que , que fe houve per toda a Cidade , e a 
tempera íua eftá calculada pelo afcendente 
do Sol. E com efta aftronomia, e aftrolo- 
gia de que ufam , também mifturam outras 
artes que delia dependem , como Geoman- 
cia , Pirom^ancia , e mil modos de feiticeria , 
e efta per doutrina da gQntQ Quelin da cof- 
ta Choromandel, a qual por efta caufa he 
mui eftimada naquelle Reyno , e vem a elle 
a ler efta crença. A outra doutrina com- 
mum , aíli como ler , efcrever , e artes libe 
raes , os meftres delias são os mefmos Sa- 
cerdotes nos próprios Templos , e alli vam 

os 



Década III. Liv. IL Cap. V. 169 

os meninos aprender eílas couías delles ; e 
afíi como os mandamentos 5 e ceremomas 
de fua religião aprendem na lingua da rer- 
ra , aili as coufas da fciencia cníinam em 
lingua antiga , que lie acerca delles como 
entre nós a lingua Latina. Efcrevem ao nof- 
ío modo da mão efquerda pêra a direita , 
tem grandes livrarias todas de mão , por 
não terem imprefsão , como os Chijs. To- 
do efte Reyno , tirando as partes per que o 
confrontamos com os outros povos , que são 
partes montuofas , e de grandes arvoredos > 
e alagadiços , que quaíl são limites de huns 
fe demarcarem com outros , a mais terra 
delle he chã , e de campinas , principalmen- 
te aquelía que vem regando o rio Menam > 
que faz o Reyno mui abundoíò de todalas 
lèmentes , e mantimentos. Á 5 agricultura dos 
quaes a gente fe dá mais , que ao outro 
cxercicio , e por efta caufa he efte Pveyno 
pouco frequentado per via de commercio : 
cá onde não ha mecânica 5 não ha obras 
que os povos eftranhos lhes vam comprar. 
E algumas mercadorias que tem, as quaes 
procedem do Reyno Chiamay 5 aííi como 
prata , pedraria 5 almifcre , (efle Reyno Chia- 
may vizinha com o chamado Tongu , que 
he a cabeça dos povos Brammás, os quíies 
confinam dentro pelo fertão com Pegu , ) to- 
das ellas vafam por eíle Reyno maritimo, 

e por 



170 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

e por Martabam , por a grande navegação 
que tem coma índia ? que lhes fica mais vi- 
zinha per o mar de Bengala , que per o de 
Sião. Ha neíle Reyno ouro , prata , e os ou- 
tros metaes , e delles fe leva pêra outras 
partes ; verdade he que a prata lhes vem das 
ièrranias dos povos Laos. Geralmente todo 
Sião he mui íujeito a leu Rey , porque to- 
dos vivem delle: cá ninguém tem hum pal- 
mo de terra que feja própria , toda he del- 
le, ao modo que neíle Reyno de Portugal 
são os Reguengos , que são as melhores 
empolas , e Comarcas da terra , que os pri- 
meiros Reys tomaram pêra íi em lugar de 
património ; e quem lavra na tal terra 5 pa- 
ga a EIRey o quarto. Aííi neíle Reyno de 
Sião todo he Reguengo , de que os lavra- 
dores pagam hum tanto a EIRey , ou aos 
fenhores , a quem elle dá algumas terras pê- 
ra faa mantenca. A repartição das quaes he 
per huma medida , a que elles chamam cem , 
a qual contém em li vinte braças em qua- 
drado ; e feiscentos cens deites he huma 
medida itinerária per que medem os cami- 
nhos , e diftancias que ha de lugar a lugar , 
per a qual nós aflentámos toda a Geografia 
daquella região em as noíTas Taboas. E pê- 
ra que os vaíTallos fe animem a fervir leu 
Rey , principalmente aquelles que fervem na 
guerra 7 são feus fervidos efcritos em Livro , 

e em 



Década III. Liv. II. Cap. V. 171 

e cm modo de Chroriica : eítes a(ftos dos ho- 
mens são lidos ante EIRey , aííi pêra com 
a lembrança haverem igual premio de fcu 
ferviço , como pêra gloria de feu nome aos 
que delle defcenderem , e todos são pagos 
neítcs rendimentos da terra 5 delia fe dá per 
annos , e alguma em vida da pefíba , e ne- 
nhuma de juro. O qual modo não fomente 
ufa com a gente nobre, mas ainda com os 
fenhores que tem nome de Oyas , que en- 
tre elles he o que acerca de nós denotam 
Duques, e dahi pêra baixo a outras digni- 
dades. Cá todos eítes , peró que d'E!Rey 
tinham Cidades , e Villas com jurdição ao 
noíTo modo , não tem cite domínio fenão 
por annos , ou em fua vida , e todos com 
obrigação de o fervirem na guerra com tan- 
ta gente de cavallo , e de pé , e tantos Ele- 
fantes, E porque maior parte dos méritos , 
pêra haverem eílas comedias , eítá no ufo 
da guerra , ainda que eítem na paz , fempre 
fe exercitam nos aólos , e manhas delia ; e 
algumas feitas que ha no anno , que EIRey 
muito celebra em a Cidade Hudiá , todas 
são ordenadas a eíle fim de os homens mof- 
trarem fuás habilidades nas armas. Huma 
deitas feitas fe faz no rio Menam , onde fe 
ajuntam mais de três mil paraos , e parte-fe 
eíte adio em dous , ao modo que os Ro- 
ínanos faziam as fuás naumachias ; porque 

de- 



172 ÁSIA de JoÃo de Barros 

depois que tem curfo de quem chegará pri- 
meiro a hum poíto á força de remo , en- 
tram na peleja de huns com outros. A fef- 
ta da terra he de fe encontrarem a cavai- 
lo , e em Elefantes , e pelejarem a pé de e£ 
pada , e efcudo huns com outros , e delles 
com alimárias feras > e alguns condemnados 
á morte são lançados a ellas ; e fe fica com 
vitoria , além de ter vida , tem mercê d'El- 
Rey. Finalmente todos feus exercícios são 
ordenados a efte adio de guerra ; e peró que 
fejam homens que fe prezam delia , e caval- 
leiros de fua peífoa , e principalmente os 
das Comarcas , onde eftam fituadas as Ci- 
dades Suruculoeo , e Socotay , que são do 
Reyno Chaumúa , o mais da vida geralmen- 
te gaitam em delicias , e vicios. Porque na- 
turalmente são comedores , fem fazerem ex- 
ceiçao de alguma immundicia ; aíli das que 
cria o mar , como da terra , e mui dados 
a mulheres , e tão ciofos delias , que aífi o 
Rey 5 como todo homem nobre da cafa pê- 
ra dentro , onde ellas eílam , não lhe entra 
macho , todo o ferviço he de mulheres , e 
tem porteiras que guardam eftas entradas. 
E fegundo dizem , tem elles razão , por el- 
las ferem taes nefta parte dacaítidade, que 
hão miíler vigiadas ; porque como fe ellas 
prezam de mulher fer inventor daquelíe tor- 
pe ulb dos cafcaveis > que os homens enxe- 

riam 









Dec. III. Liv. X. Cap. V. e VI. 173 

riram na parte da geração , ( fegundo con- 
támos 5 faltando de Pegu , ) e aííi fe prezam 
que a deleitação deííe beílial ufo he mais 
feu , que dos homens , todo o mal que nef- 
ta parte delias fe puder prefumir , fe deve 
crer. Muitos , e vários coílumes tem eíla 
gente , e o feu Príncipe , que leixámos pêra 
os Commentarios da noífa Geografia , o dito 
baile pêra noticia deite tão grande Pveyno. 

CAPITULO VI. 

Como EIRey Z). Manuel mandou Fernão 
Feres $ Andrade defcubrir a enfeada de 
Bengala , e a cofta da China : e o que paf- 
fou primeiro que fojje d Cidade Cantam , 
que he a principal de hum a das Provín- 
cias que a China tem. 

ALcm dos trabalhos , e diligencia que 
Affonfo d'Alhoquerque teve em quan- 
to governou o eftado da índia , e conquif- 
tou os Reynos , e terras , que per feu fa- 
lecimento ficaram á Coroa deíle Reyno , te- 
ve mais hum vivo, e natural efpirito acer- 
ca de inquirir todolos Reynos , e Provín- 
cias daquelle Oriente 5 trabalhando por fa- 
ber o eltado dos Príncipes delias , e como 
fe governavam , e os tratos , e commercios 
que entre 11 tinham 3 provocando-os em no£ 
fa amizade per todolos modos > e meios 

que 



174 ÁSIA de João de- Barros 

que elle podia. A qual diligencia , e induf- 
tria , (falva a graça dos outros Governado- 
res , que o íuccedèram , ) a elle fe pode at- 
tribuir como própria prerogativa. Donde 
na tomada de Malaca , (fegundo efcreve- 
mos , ) naquelle pequeno efpaço de tempo 
que nella efteve , enviou feus menfageiros a 
Sião , a Maluco , a Pegu , á Jauha , e á Chi- 
na. É de Ormuz , quando o tomou , en- 
viou Fernão Gomes de Lemos ao Xeque 
Iímael Rey da Perfia , que naquelle tempo 
era o terror das gentes daquellas regiões , 
tudo porque o nome Portuguez fofle conhe- 
cido no interior delias , pois o marítimo per 
potencia de armas a elle obedecia. E ao 
tempo que partio de Malaca , huma das 
principaes coufas que encommendou a Ruy 
de Brito Patalim 5 que leixou nella por Ca- 
pitão , e depois a Jorge d'Alboquerque , 
quando o mandou de Cochij a fervir eíle 
cargo , era , que não partiffe navio de mer- 
cadores daquella Cidade , onde não foíTe 
hum Portuguez homem de bom efpirito , 
e difpofiçao pêra trazer informação do que 
vilTe , e ouvilíe daquellas regiões , e tantas 
mil Ilhas , como aquelle mar Oriente tem. 
G que eftes Capitães fizeram em todo o 
tempo que reíidíram naquella Cidade Ma- 
laca 5 donde no tempo de fua monção, (de 
que atrás eferevemos <, ) partiram pêra aquel- 

las 



Década III. Liv. II. Cap. VI. 175: 

las partes. Das quacs EIRey D. Manuel ti- 
nha grandes informações , não fomente per 
os primeiros menfageiros que Affonfo d'Al- 
boquerque per íl mandou , mas ainda pelo 
cuidado que eftes Capitães tiveram. E co- 
mo EIRey eftava avifado da grandeza da- 
quelle Oriente , e da muita riqueza que nel- 
le havia , aííl de coufas notáveis ? como ar- 
tificiaes : determinou enviar huma Armada 
2 eíle defeubrimento , principalmente a Ben- 
gala > e á China , por lhe dizerem ferem 
osReynos do maior commercio , e os mais 
ricos , e poderofos que havia do Cabo Co- 
morij em diante. A capitania da qual fro- 
ta , que havia de fer de quatro velas , que 
na índia fe haviam de armar , deo a Fer- 
não Peres d'Andrade , que naquellas par- 
tes 5 principalmente em Malaca , tinha mof- 
trado quanto nelle cabia eíle , e outros car- 
gos de maior qualidade , o qual (como es- 
crevemos) partio com Lopo Soares , e elle 
o efpedio , tanto que chegou á índia , pêra 
ir fazer efte defeubrimento. Fernão Peres fe- 
guindo fua derrota , o primeiro porto que 
tomou , foi em a Cidade Pacem , cabeça de 
'hum dos Reynos que tem a Ilha Çamatra 9 
á qual os Geógrafos, (como adiante vere- 
mos , ) erradamente fizeram terra firme , e 
não Ilha, como he , chamando-lhe Áurea 
Cherfonezo. Onde pela ordenança que leva- 
va, 



176 ASIÀ de J0Ã0 de Barros 

va , havia de tomar carga de pimenta da 
muita que nella ha , e outras mercadorias 
que tem grande preço na China , a qual el- 
le fazia fundamento ir primeiro defcubrir, 
e depois a Bengala , e coita de Pegu. No 
qual porto dePacem achou Galpar Macha- 
do com alguns Portuguezes , que alli efta- 
vam per mandado do Capitão de Malaca", 
feitorizando carga de pimenta aos juncos , 
que-hiam a Bengala , e á China ordenados 
pela Feitoria de Malaca , íègundo o modo 
que ordenara Jorge de Brito , que foi hu- 
ma das caufas de fe defpovoar a Cidade , 
como efcrevemos. E Manuel Falcão anda- 
va também com huma galé fazendo arribar 
a Malaca todalas náos , que alii vinham ter 
de Bengala, Choromandel, Cambaya, pê- 
ra que foffem com luas mercadorias a ella. 
A qual coufa os Mouros não queriam fa- 
zer iem efta força , e ifto em ódio noíTo , 
trabalhando por avocarem alli todo género 
de commercio , aííi das coufas que havia na 
terra , como das que coftumavam ir a Ma- 
laca , por desfazerem em o trato delia , e 
desfeito , nós leixariamos a povoação , por 
a terra em íi não ter coufa que nos obri-* 
gaífe a fuftentalía. Recebido Fernão Peres 
do Rey da terra com grande honra, e co- 
meçando entender em o negocio da carga 
da pimenta P açonteceo que per deícuido 

dos 



Década III. Liv. II. Cap. 'VI. 177 

dos marinheiros , da pevide de huma can- 
deia , que foi levada abaixo pêra tomar 
agua , a náo em que hia Joannes Impole 
por Capitão , e Feitor , ardeo com quanta 
fazenda levava debaixo da cubcrta , fomen- 
te fe falvou a de cima com toda a gente. 
Quando Fernão Peres vio que per aquelle 
defaftre , por fer a maior náo que levava 
cm fua companhia, ficava defaviádo , e ef- 
perar per outra náo, que em Malaca lhe ha- 
via de fer dada pêra novamente começar 
tomar outra carga de pimenta 5 perdia a 
monção , e tempo em que lhe convinha 
partir pêra a China , determinou de íe ir a 
Malaca , e com as mercadorias que lhe ha- 
viam de dar na Feitoria , e o mais que def- 
te Reyno levava 5 e fe falvou do fogo , fa- 
zer huma viagem a Bengala , e defcubrir 
primeiro efta enfeada , e da vinda ir á Chi- 
na. Com o qual fundamento pêra neíla fua 
ida a Bengala fer melhor recebido quan- 
do lá chegaífe , determinou de mandar dian- 
te hum João Coelho em a náo do Mouro 
Gromalle , parente do Governador de Cha- 
tigam , com as cartas , e recado que atrás 
diiTemos, quando tratámos do que elle fez 
nas coufas de D. João da Silveira. Chega- 
do Fernão Peres a Malaca com efte funda- 
mento de ir a Bengala , em nenhum modo 
o confentio Jorge de Brito , que era Capi- 
Tom.III. P.L M tão 



178 ÁSIA de João de Barros 

tão delia , ante lhe requereo da parte d'El« 
Rey , que como coufa muito importante a 
feu ferviço , elle foíTe primeiro á China , 
dando pêra iíío muitas razões. A principal 
das quaes era, que Jorge d'Alboquerque ti- 
nha enviado lá Rafael Pereftrello em hum 
junco de hum mercador , quealli vivia cha- 
mado Pulate, o qual parecia fer reteudo na 
China , por fer já paliado o tempo em que 
fé efperava por elle. Finalmente por eftas, 
é outras coutas do ferviço d'E!Rey , e bem 
do credito daquella Cidade Malaca , pofto 
que era já tarde pêra a navegação daquel- 
las partes , Fernão Peres fe par tio a doze 
de Agoílo do anno de quinhentos e deze- 
feis ; e ainda pêra maior impedimento , fo- 
ram os tempos tão mortos , que chegou mea- 
do de Setembro á vifta da coíla do Reyno 
de Cochij China. Na qual paragem , por 
fer no fim do tempo da monção , lhe deo 
hum temporal por davante , que o fez ar- 
ribar á coita do Reyno Choampá, com tc- 
dolos navios que levava ; fomente hum jun- 
co , em que hia Duarte Coelho , que deita 
feita foi ter ao rio Menam , que corre per 
meio do Reyno de Sião , onde invernou, 
( como ora atrás diffemos , ) na qual coíla 
elle Fernão Peres correo maior perigo de 
fi$ vida , que em toda a tormenta , per ef- 
tá maneira. Como por razão das calmarias 

que 



Década III. Liv. II. Cap. VI. 179 

que trouxe , ante que lhe íbbreviefle cite 
tempo , hia neceílitado de agua , paflbu-fe 
a huma caravella , de que era Capitão An- 
tónio Lobo Falcão , e leixou recado ás ou- 
tras velas que levava , que correílem a cof- 
ta fempre á vifta delle , por quanto fe que- 
ria chegar bem a terra , pêra a defcubrir, 
e ver fe achava lugar onde fizeílem aguada , 
e quando a achafle , lhe faria final. Indo 
com efte propofito ao longo da terra , tão 
perto que podiam notar a qualidade delia , 
onde a vio verde, e huns córregos difpof- 
tos pêra nelles haver agua : furta a caravel- 
la , fahio alli em hum batel , poftos dous 
berços com hum bombardeiro pêra fervir 
com elles , e a mais gente eram marinhei- 
ros , e grumetes com barris pêra tomarem 
agua , e António Lobo Capitão da caravel- 
la , com que per todos feriam nove peífoas. 
Tomando os barris pêra irem bufcar agua, 
leixou dous grumetes em guarda do batel 
hum pouco largo , com avifo que tiveíTcm 
olho fe vinha alguém 5 e que fizeífem final , 
tirando com hum dos berços; mas elles ti- 
veram tão bom cuidado , que por razão da 
grande calma que fazia , fe fahíram do ba- 
tel , e foram-fe lançar a dormir debaixo de 
humas arvores. Hum dos quaes depois que 
acordou , pelo que vio , foi-fe pelo córrego 
acima em pés , e mãos , fem oiifar de fe er«* 

M ii g uer j 



i2o ASIÀ de JoÁo de Babros 

guer, onde achou Fernão Peres em hum ri- 
beiro , o qual eílava enchendo os barris de 
agua , e quando o vio vir daquella manei- 
ra , perguntou-lhe : Que coufa he ejfa ? O 
grumete como hia cortado do medo , não 
refpondeo , mas apertou os beiços com o 
dedo , fazendo-lhe final que fe calaíTe. Fer- 
não Peres 5 porque os da companhia não ou- 
viííem o que dizia , parecendo-íhe algum 
myílerio , apartou-fe com elle. Do qual íou- 
be que por razão da grande calma que fa- 
zia , fe foram lançar debaixo de huma ar- 
vore á viíia do batel ; e que acertando de 
dormir , quando acordaram , viram eílar o 
batel em fecco , e derredor delle mais de 
cincoenta homens , e que eíla fora a caufa 
de ir a elle em pés , e mãos , e o outro feu 
companheiro ficava efeondido ávifta do ba- 
tel, pêra ver que faziam delle. Quando Fer- 
não Peres foube dcíle perigo , diílimulou 
com António Lobo 5 ediíTe-lhe: Ficai aqui 
com efia gente , e não façais muito rumor y 
que eu quero ir ver o que efte vio , que me 
parece fonho , porque elle vem de dormir 
debaixo do pé de huma arvore ; e tomando 
huma lança , e adarga, diíTe ao grumete: 
Anda por hi diante. Senhor (diíTe elle) não 
vd vojja mercê ajji , fenão em pés , e mãos > 
como eu venho , por não fer vi/lo. Ao que 
Fernão Peres refpondeo ; Amigo ; eu jd lei- 

xei 



Década III. Liv. II. Cap. VI. 181 

ocei de engatinhar , faze o que te digo , an- 
da diante , não hajas medo. Indo per eítp 
modo o mais encubertamente que pode , 
quando chegou onde o outro grumete fica- 
va efcondido , vio eftar o batel na praia atra- 
veíTado , e os berços fora , e muitos homens 
á fombra delle com lanças, e arcos \ o nú- 
mero dos quaes , (fegundo íua eílimação , ) 
lhe pareceo fer de fetenta peííòas. Tornado 
onde leixou António Lobo , por não enfra- 
quecer o animo dos que com elle eílavam , 
diíTe : Bem fabia eu que fonhâra o grume- 
te. O cafo lie efte : Elle , e feu companhei- 
ro lançãram-fe a dormir ao pé de huma 
arvore , com que o batel ficou emfecco: der- 
redor delle lançados d fombra eftam dez , 
ou doze homens da terra , compre que nós 
vamos caladamente té as arvores , onde e fi- 
tes grumetes jaziam , e dalli remettamos 
com huma grande grita , e ninguém enten- 
da fienao em por hombros ao batel , porque 
fie nos puzeremos a pelejar com os Negros y 
per ventura appelli dardo gente da terra y 
que nos dê algum trabalho , pêra nos im- 
pedir a embarcação. Ditas eílas palavras , 
tomou Fernão Peres a dianteira \ e tanto que 
chegou ao lugar aífínado , íahio com huma 
grita , com que fez fugir a gente tão fem 
tento 5 que leixáram os mais delles as ar- 
mas, e fato que traziam, no qual reboliço 

os 



182 ÁSIA de JoXo de Barros 

os noífos aos hombros puzeram o batel na 
agua , e fe recolheram nelle. Fernão Peres 
como fe vio recolhido , mandou bradar per 
huma lingua que levava aos que fugiram, 
os quaes também já tornavam fobre íl do 
primeiro aíTombramento que tiveram , ven- 
do quão poucos eram os noífos. E chega- 
dos efpaço que podiam eftar á falia, man- 
dou-lhes Fernão Peres lançar as armas , e 
coufas que ieixáram, e afil alguns barretes 
vermelhos , e brincos de coufas miúdas , 
que os marinheiros levavam. Com as quaes 
aíli ficaram domefticos , que não fomente 
naquelle inftante per meio delles os noífos 
houveram a agua que bufcavam , mas ao 
fegundo dia , por elles dizerem a Fernão 
Peres que tinham alli perto huma povoa- 
ção , mandou elle recado ás outras velas 
que hiam de largo , as quaes fizeram fua 
aguada , e houveram muito refrefco de gal- 
linhas , e mantimentos da terra, que lhe ef- 
ta gente trouxe. Partido Fernão Peres , foi 
ter a huma Ilha chamada Pullo Candor j Pul- 
lo em língua Malaya de Malaca quer dizer 
Ilha , Candor he o próprio nome ; e daqui 
fe pode entender, que quando neíla hiftoria 
fallarmos por efte nome Pullo , não he pró- 
prio , mas commum. Na qual Pullo Can- 
dor , ainda que era defpovoada , por fer mui 
frequentada dos navegantes , onde geralmen- 
te 



Década III. Liv. II. Cap. VI. 183 

te fazem aguada , e ás vezes tiram os na- 
vios em terra , ha tantas gallinhas das que 
elles allileixam, que tiveram os noflbs hum 
grande refrefco nellas , e aífi em outro mui- 
to género de aves que ha nella , e princi- 
palmente tanta tartaruga , e variedade de 
peixes , que puderam carregar as náos. E o 
porque a elies foi mais novo por té então 
as não terem viíto naquellas partes , foi acha- 
rem algumas parreiras de uvas pretas no 
tempo que le acham inda entre nós : cá era 
110 fim de Setembro. Partido Fernão Peres 
delia , foi ter á coita da terra firme i que cor- 
re de Malaca pêra o Reyno Sião , e tomou 
o porto da Cidade Patane , que he do mef- 
mo Reyno , onde concorrem muitas náos 
de Chijs , Lequios , Jáos , e de todas aquel- 
las Ilhas vizinhas, por fer em trato do com- 
mercio mui célebre, e ora por caufa noífa 
com a tomada de Malaca, he mui frequen- 
tada de toda a mercadoria daquellas partes-. 
Finalmente Fernão Peres aílentou paz com 
o Governador da terra , pêra noíTas náos 
poderem ir a ella, e as fuás virem a Ma- 
laca , e daqui veio correndo todolos portos 
daquella coita , fazendo outro tanto , don- 
de fe caufou que Jorge de Brito logo lá 
mandou , e aífi fizeram todolos outros Ca- 
pitães de Malaca , por acharem fer negocio 
proveitofo , em quanto não romperam a paz. 

Eao 



184 ÁSIA de J0Â0 de Bakros 

E ao tempo que chegou a Malaca , achou 
que era vindo da China Rafael Pereílrello , 
que elle hia bufcar, o qual com as coufas 
que de lá contava , e com o grande ganho 
que fez do que levou, e trazia, alvoroçou 
tanto a Fernão Peres , e aos de fua frota , 
que houve por melhor fazer primeiro aquel- 
la ida , que a de Bengala. Per confelho do 
qual, logo em Dezembro Fernão Peres fe 
partio pêra Pacem fazer carga da pimenta ; 
e por efta fer a melhor mercadoria que lá 
podia levar , e neíle porto fe deteve té 
Maio , em que houve efpaço pêra Simão 
d'Alcaçova , que era hum dos Capitães de 
fua Armada , ir á índia carregar a fua náo , 
e tornar. Partido Fernão Peres deite porto 
de Pacem pêra Malaca , chegou a tempo 
que Jorge de Brito Capitão delia era fale- 
cido ; e fobre quem feria Capitão , havia 
entre Nuno Vaz Pereira cunhado delle de- 
funto , e António Pacheco Capitão mor do 
mar grande contenda a quem ferviria efie 
cargo , (como atrás fica.) Entre os quaes 
elle Fernão Peres fe metteo pêra os con- 
certar ; e vendo que era já em Junho do , 
anno de dezefete , tempo em que lhe con- 
vinha partir , por não perder a monção pê- 
ra a China , leixou-os em fuás differenças. 
Fazendo fua viagem com huma Armada de 
oito velas > de que eram Capitães das fete 

Si- 



Década III. Liv. II. Cap. VI. 18? 

Simão d' Alcáçova 3 Jorge Mafcarenhas , Jor- 
ge Botelho de Pombal, António Lobo Fal- 
cão , Pêro Soares , Manuel d' Araújo , e 
Martim Guedes , com as quaes a quinze de 
Agoílo do anno de dezefete chegou á Ilha 
Tamão , a que os nofíbs chamam da Be- 
niaga , que quer dizer mercadoria , vocábu- 
lo daquellas partes já tão recebido entre el- 
les , que o tem feito próprio. E a caufa por 
efta Ilha feraffi chamada, he , porque todo- 
los eftrangeiros que vam á Província de Can- 
tam ., he a marítima mais Occidental, que 
o Reyno da China tem , a ella por orde- 
nança da terra hão de ir íurgir , por eítar 
per efpaço de três léguas da terra firme , e 
alli provém os navegantes do que vam bus- 
car. E porque as coufas deita região da 
China são tão grandes , como a mefma ter- 
ra he, poíto que em a nofla Geografia da- 
mos toda a relação que delia temos fabido ; 
aqui íummariamente de algumas coufas o 
queremos fazer , começando primeiro ná de- 
feripção da terra , e coufas dos moradores 
delia, e deshi a daremos da Cidade Can- 
tam , cabeça de huma das governanças , que 
efta região China tem , onde Fernão Peres 
eíteve, e fez todo o negocio a que foi. 



CA~ 



i86 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VIL 

Em que fe ãefcreve a terra da China , e 
relata algumas coufas que ha nella , 
e principalmente da Cidade Can- 
tam , que Fernão Peres 
hia defcubrir. 

A Grão Província , (fe efte nome pode 
ter aquella parte da terra , a que nós 
chamamos China , ) he a mais Oriental que 
Afia tem ; a maior parte da qual he lavada 
do grande Oceano , á maneira que he a nof- 
fa Europa oppoíita a ella , começando da 
Ilha Cález. Porque como defta Ilha ella vai 
torneada , e cingida do mar Occidental , e 
depois que chega ao cabo de Finis terra , cor- 
re ao Norte té chegar ás regiões, e^Reyno 
Dinarmaca , e de íi faz a grande enfeada , 
a que chamam mar Balteo entre a Sarma- 
cia , e Norduegia , com o mais que fe vai 
continuando com a terra Laponia , e a ou- 
tra regelada a nós incógnita ; affi efta re- 
gião, a que chamamos China, começando 
da Ilha Aynam , que he a mais Occidental 
que ella tem , vizinha ao Reyno Cacho per 
nós chamado Cauchimchina , que he do feu 
eftado , o mar a vai cingindo pela parte do 
Sul , e corre neíla continuação pelo rumo , 
a que os mareantes chamam Lefnordeíte, 

en- 






Década HL Liv. II. Cap. VIL 187 

encolhendo-a quanto pode pêra o Norte té 
chegar a hum cabo o mais Oriental delia , 
nde eílá a Cidade Nimpó, a que os nof- 
íòs corruptamente chamam Liampó. E da- 
qui volta contra o Noroeíle , e Norte , e 
vai fazendo outra enleada mui penetrante , 
levando per cima de íi outra cofta oppoíita 
á de baixo , com que a terra de cima fica 
mettida debaixo dos regelos do Norte , on- 
de habitam os Tártaros , a que elles cha- 
mam Tátas , com quem tem contínua guer- 
ra. A qual femelhança entre eftes dous fins 
da terra habitada, não eílá tanto em íitua- 
ção de gráos, quanto em modo de figura; 
porque a Ilha Cález eftá em altura de trin- 
ta e fete gráos eícaços do noíTo pólo Ar- 
élico; e muita parte da terra deita Europa, 
qijanto ao per nós fabido , acaba em altura 
de fetenta e dous gráos. E a Ilha Aynam 
eftá em dezenove gráos , e a terra da Chi- 
na , a que eíla eftá conjunta , ( á maneira 
que Cález o eftá com a noíía Europa,) a 
parte delia , de que temos noticia , acaba em 
cincoenta gráos de altura , a fora o mais que 
a ella vai continuada. Da qual diftancia po- 
demos tirar a grandeza defte eftado , pois 
que em largura , (fallando nas menfuras Geo- 
gráficas,) efta terra da China tem trinta e 
hum gráos , e a noíTa Europa trinta e cin- 
co gráos. Enao falíamos na longura, por- 
que 



i38 ÁSIA de JoÃo de Barros 

que por razão da differença dos parallelos , 
os quaes ainda não temos verificados pelo 
inítrumento de que ufamos na deícripção 
das Taboas da notTa Geografia , pêra efte lu- 
gar leixámos a ília diftancia. Somente dire- 
mos aqui huma maravilhofa coufa, que tem 
efta região da China na travefla da fua lar- 
gura, que he a longura ao refpeito de co- 
rno contamos a graduação da terra : que 
entre quarenta e três 5 e quarenta e cinco 
gráos vai lançado hum muro , que corre de 
Ponente de huma Cidade per nome Ochióy , 
que eílá fituada entre duas altiíílmas ferras , 
quaíi como paílb , e porta daqueila região , 
e vai correndo pêra o Oriente ; té fechar 
em outra grande ferrania , que eftá bebendo 
em aquelle mar Oriental em modo de cabo , 
cujo comprimento parece fer mais de du- 
zentas léguas. O qual muro dizem que os 
Reys daqueila região da China mandaram 
fazer por defensão contra os povos , a que 
nós chamamos Tártaros , e elles Tátas , ou 
Táncas , ( fegundo lhe outros chamam , ) 
poílo que além do muro contra o Norte 
ainda tem eílado ganhado a eítes Tátas. Ef- 
te muro vem lançado em huma carta de 
Geografia de toda aquella terra , feita pelos 
mefmos Chijs , onde vem fituados todolos^ 
Montes , Rios , Cidades , Villas , com feus 
nomes efcritos na letra delies , a qual man- 
da- 



Década III. Liv. II. Cap. VII. 189 

damos vir de lá com hum Chij pêra a in- 
terpretação delia , e de alguns livros feus , 
que também houvemos. E ante defta carta 
tínhamos havido hum livro de Coímogra- 
fia de pequeno volume com Taboas da íitua- 
çao da terra, eCommentario fobre cilas á 
maneira de Itinerário ; e ainda que nelle não 
vinha efte muro figurado , tínhamos infor- 
mação deile. E o que fobre iiTo nos davam 
a entender era não fer per todo continua- 
do , fomente haver entre os Chijs , e os 
Tátas huma corda de ferras mui aiperas , 
e em alguns pálios eftava efte muro feito; 
mas agora que per elles o vimos pintado , 
fez-nos grande admiração. A qual carta, 
pofto que não vem agraduada fomente pê- 
ra demoílração , o Livro das Taboas, que 
de ante tínhamos , refpondc a ella na men- 
fura itinerária , de que elles ufam , que são 
três , ao modo de eítadio , milha , e jorna- 
da , de que nós ufamos. A primeira , e me- 
nor diílancia fua he Lij , que tem tanto eC- 
paço , quanto per terra chã em dia quieto , 
e fereno fe pode ouvir o brado de hum ho- 
mem ; dez dos quaes Lijs fazem hum Pu , 
que refponde pouco mais de huma légua 
das noífas Hefpanhoes , porque dez delles 
fazem jornada de hum homem , a qual el- 
les chamam Ychan. E té ora não temos ía- 
bido que íituem a diftancia da terra per grãos 

cor- 



190 ÁSIA de JoÃo de Barros 

correfpondentes ao orbe celefte , pofto que 
fabemos terem eíle ufo nos feus Horofco- 
pos , quando ufain da Aítrologia , de que 
são grandes homens : e não he muito não 
haver entre elles eíla maneira de graduação 
terreftre , pois té o tempo de Ptholomeu não 
era ufado dos Geógrafos. Dentro defta ter- 
ra que divifámos , a qual he toda de hum 
Príncipe Gentio , (como já atrás fizemos 
menção ? ) fe contém quinze Reynos , ou 
principados , a que elles chamam governan- 
ças , os nomes das quaes ora tornaremos re- 
petir , Cantam , Foquiem > Chequeam , Xan- 
tom , Nauquij , Quincij , que são as marí- 
timas delle. E Quicheu , Junná , Quancij , 
Sujuam , Fuquam , Canfij , Xianxij , Ho- 
nam , e Sancij , são do íertão. Em as quaes , 
fegundo moftra a carta da Geografia que 
houvemos , contém duzentas quarenta e qua- 
tro Cidades notáveis 5 as quaes todas aca- 
bam neíla fyllaba fu , que quer dizer Cida- 
de, aíli como Chincheufú, Nimpofu, po- 
las Cidades Chincheu , e Nimpo , onde os 
nofibs vam fazer feus commercios. No qual 
modo elles fe conformam com os Gregos , 
dizendo Conftantinopolis , Andrknopolis , 
por as Cidades que edificaram , ou renovaram 
Conílantino , e Adriano Emperadores , e as 
mais das Viílas também tem feu termo fi- 
nal , que denota Villa > que he Cheu ; a qual 

or- 



Década III. Liv. II. Cap. VIL 191 

ordem não guardam nas outras povoações, 
como são Aldeãs , pofto que ha muitas del- 
ias, que paliam de três mil vizinhos. Nem 
acerca delles fazem efta divisão de Villa á 
Aidea , por razão de muitos , ou poucos 
povoadores, fomente porque as vizinhas são 
cercadas de muro , como as Cidades , e 
mais tem fuás infígnias , aífi na adminiftra- 
çao de juftiça , como nas outras coufas do 
governo da terra , e preeminência de honra. 
Porque como cada huma deftas quinze go- 
vernanças , ou Províncias , tem huma Cida- 
de , que he fua cabeça , a que acodem to- 
dalas Cidades que nella ha ; affi as Villas 
acodem ás Cidades do feu termo , e as Al- 
deãs ás Villas. Ás qtiaes cabeças vam to- 
dalas appellaçoes de qualquer cafo , ora fe- 
ja do eftado , e juftiça , ora da fazenda, 
ora da guerra , onde reíídem os Governa- 
dores principaes , que prefidem áquella go- 
vernança. O primeiro , e principal , a que 
elles chamam Tutam , efte he Governador 
das coufas que pertencem ao eftado , e ad- 
miniítração da juftiça ; e odo regimento da 
fazenda fe chama Concam j e o Capitão ge- 
ral da guerra, Chumpim. E pofto que ca- 
da hum deftes , debaixo de fuajurdição, te- 
nham grande número de OfEciaes , com que 
fervem particularmente feus officios com ca- 
ías próprias ? em huma 7 que he a principal 

da 



192 ÁSIA de J0X0 de Barros 

da Cidade pêra iííb ordenada , cada rnez 
em certos dias fe ajuntam todos três a com- 
municar as coufas principaes , que fobrevem 
diante de cada hum , iílo em modo de con- 
fuita , pêra com mais maduro coníelho de- 
terminarem as coufas. Os quaes cargos na- 
quella Cidade não lhes duram mais que três 
annos , e ainda muitas vezes no meio tem- 
po , fem o elles faberem , são fobrefaltados , 
com que os tiram dos taes cargos , e os mu- 
dam pêra outra parte , e iílo quando as cul- 
pas são leves , porque nas graves gravemen- 
te são punidos , té o caítigo chegar á mor- 
te ; per eíta maneira. O Rey , e Príncipe 
defte grande Império , dos homens que an- 
dam derredor delle , elege hum de que mui- 
to confia , e da-lhe de beber três vezes do 
vinho que elles lá ufam , iílo em modo de 
juramento , e menagem , e manda-o a hu- 
ma cabeça deitas Províncias , ao qual dá 
tanta jurdição, e authoridade , que Fegundo 
■qualidade do crime , elle o poíTa caftigar 
fem vir mais elle a EIRey , e ifto com to- 
do o fegredo que pode fer ; porque ainda 
que leva Provisões aífignadas pelo Príncipe y 
faliam geralmente que lhe obedeçam , mas 
não particularizam o lugar onde vai , por 
não fer fabido dos Officiaes que fazem as 
Prpvisoes , fomente elle que verbalmente lho 
diz EIRey. Partido comeítes poderes, che- 
ga 



Década HL Liv. II. Cap, VIL 193 

ga á Cidade onde he enviado , e defconhe- 
cido , vê 5 e ouve como cada hum daquel- 
les Officiaes ferve feu cargo ; e depois que 
tem informação das obras de cada hum , o 
dia que os três Governadores fe ajuntam , 
vai diante delles como homem que quer re- 
querer alguma coufa. E aprefentando a Pro- 
visão que trás d 5 E!Rey, elles fedefcem da 
cadeira onde eílavam , e fe põem ante elle que 
fobe no leu lugar, efperando elles que kn~ 
tença. ouviráó de fí, a qual por grave que 
feja no culpado , logo he executada ; e efte 
Superior , (a que elles chamam Ceuhij , ) pro- 
vê de outros novos Officiaes ; e aos que fer- 
vem bem , muda pêra outros officios de 
mais confiança na mefma Província a que 
he enviado. Tem ainda o Príncipe deite Im- 
pério outra ordem na maneira de o gover- 
nar , que os Officiaes do governo da juíli- 
ça não hão de fer naturaes da terra , mas 
eílrangeiros , á maneira que neíle Rcyno de 
Portugal fe ufam os Juizes , que chamam 
de Fora , e ifio por adminiftrarem juítiça em 
toda peííba , fem affeição de parentefco 5 ou 
amizade } e os Capitães da guerra hão de- 
fer naturaes da própria terra : cá dizem el- 
les que o amor da pátria lhes fará trabalhar 
mais pola defender. E bem como os Gre- 



gos em refpeito de íí todalas outras naçSrs 

el- 



haviam por barbaras , affi os Chijs dizem 



tp4 ÁSIA de João de Babros 

ellcs tem dous olhos de entendimento acer- 
ca de todalas coufas ; e nós os da Europa y 
depois que nos cominunicáram , temos hum 
olho , e todalas nações são cegas. E verda- 
deiramente quem vir o modo de fua reli- 
gião , os Templos deíla lua lantidade . os 
Religiofos que reíídem em Conventos , o mo- 
do de rezar de dia, e de noite, feu jejum, 
feus facrificios , os eíludos geraes onde fe 
aprende toda feiencia Natural , e Moral , á 
maneira de dar os grãos de cada huma feien- 
cia deitas , e as cautelas que tem pêra não 
haver íbbornaçóes , e terem imprefsão de 
letra muito mais antiga que nós , e íbbre 
iíío o governo de fua republica , a mecâ- 
nica de toda obra de metal , de barro , de 
páo , de panno , de feda , haverá que neííe 
Gentio eftam todalas coufas de que são 
louvados Gregos , e Latinos. A qual gente, 
por não perder nome de Conquiítador , já 
feguio efte modo , conquiftando per dentro 
da terra, té vir ter aoReyno de Pegu , no 
qual ainda hoje eítam obras de fuás mãos 
com letras que o dizem , aíli como finos 
de metal de mui defcompaííada grandeza y 
e bombardas da mefma forte , donde pare- 
ce que primeiro eíle ufo fe achou entre el- 
les , que acerca de nós ; e em hum campo 
njkReyno A vá ao Norte de Pegu entre ef- 
tm$ duas Cidades , Piandá ? e Mirandú , fe 

achaip 



Década III. Liv. II. Cap. VIL 195* 

acham grandes ruínas de huma Cidade , que 
elles aííi edificaram. E não fomente eftes 
Reynos nomeados , mas quantos compreen- 
dem em li o grande Reyno Siáo , de que 
atrás eferevemos , com os Reynos Melitay , 
Bacam , Chaiam , Varagú, que ficam ao 
Norte de Pegu , com outros do interior da 
terra que com elles vizinham } todos em 
alguma maneira obfervam , e guardam par- 
te da religião delles Chijs, e o conhecimen- 
to da feiencia das coufas naturaes , contam 
do anuo per mezes da Lua, doze Signos do 
Zodíaco , e outras noticias do movimento 
dos corpos ecleftes. Porque no tempo que 
per elles foram conquiftadas aquellas partes , 
leixáram femeada eíía doutrina ; e ainda em 
modo de reconhecimento que todos eftes 
Reynos foram conquiftados daquelle Impé- 
rio da China i quafi té noífo tempo de três 
em três annos , os Reys delles lhe manda- 
vam feus Embaixadores com algum prefen- 
te. Os quaes Embaixadores fempre haviam 
de fer de quatro pêra cima ; porque primei- 
ro que chegaflem a eíte grande Emperador 
Príncipe daquelle eftado, era tamanha adif- 
tancia do caminho , e tardavam tanto tem- 
po em lerem ouvidos 5 e defpachados , que 
primeiro morriam hum par delles ; e quan- 
do a doença os não matava , em algum ban- 
quete lhe davam coufa com que os enterra- 
N ii vam. 



ip6 ÁSIA de João de Bakros 

vam. Ao qual , ou quaes faziam huma fum- 
ptuoía fcpultuía com letreiro , em que fe 
continha quem era , e per quem fora man- 
dado , tudo por perpetuar a memoria de 
feu Império. Porém aííi nefta conquiíta ter- 
refle que tiveram , como na per mar , quan- 
do vieram á índia , (como já diílemos , ) ti- 
veram maior prudência , que os Gregos, 
Cathaginenfes , e Romanos ; os quaes , por 
caufa de conquiílar terras alheias , tanto fe 
alongaram da pátria, que a vieram perder; 
peró os Chijs não quizeram experimentar 
efte total damno. Antes vendo como a ín- 
dia lhe confumia muita gente , muita fub- 
ílancia de feu próprio Reyno, e que eram 
avexados dos vizinhos , em quanto elles an- 
davam derramados conquiftando o alheio > 
havendo na fua terra ouro , prata , e todo 
outro metal , e muita riqueza natural , e tão 
grão mecânica , que todos tomavam del- 
les , e elles de ninguém : per Decreto de hum 
Rey prudente , que então governava, tor- 
nou-fe recolher nos termos do eftado que 
tinha , fazendo huma pramatica , e defeza , 
que fob pena de morte ninguém navegaífe 
pêra aquellas partes , da qual lei hoje fe 
guardam eftas duas coufas , per terra , nem 
per mar pode entrar hum fó homem no feu 
Reyno ; e os que entram com algum ne- 
gocio importante ao feryiço d'ElRey , he 

com 



Década III. Li v. II. Cap. VIL 197 

com nome de- Embaixador , eospaííos def- 
tes são contados per olheiros a iííb ordena- 
dos , que fe fabe quanto faz ; e té os mer- 
cadores , que per terra querem ir a eíla Chi- 
na , ajuntam-íè muitos , e fazem hum del- 
les cabeça com nome de Embaixador , e 
com efta cautela compram , e vendem. A 
fegunda coufa he, que nenhum natural po- 
de navegar pêra fora , e foffre-fe alguns que 
vivem nas Ilhas pegadas na terra firme , 
irem a parte que torne aquelle anno , e pê- 
ra efta tal ida pede licença aos Regedores 
da terra, edá fiança de tornar em tal tem- 
po , e não ha de levar navio , que palie de 
cento e cincoenta toneladas ; e fe pede li- 
cença pêra maior , não lha querem dar , cá 
dizem que quer ir longe do Reyno ; e fe 
alguns eftrangeiros per mar lá vam , e a ef- 
tas Ilhas , e alli meios furtados , vera os da 
terra comprar, e vender, e per efta manei- 
ra o fazem hoje os noííòs ; porque ainda 
que Fernão Peres d'Andrade defta vez af- 
fentou paz , e amizade com elles , foram lá 
depois outros, que fizeram obras com que 
elles ficaram de guerra comnofeo. A gente 
defta Província Cantam , onde elle efteve , 
em refpeito da outra que vive mais vizinha 
ao Norte , he como a gente de Africa aos 
Alemães , aífi no parecer , na alvura , e tra- 
jo, como no tratamento de fua peílba, de 

ma- 



198 ÁSIA de João de Barbos 

maneira , que os debaixo parecem efcravos 
dos de cima. Somente por refpeito do com- 
mercio nefta Cidade Cantam , a gente fe 
trata bem , e he rica no feu modo : cá por 
razão delle , concorrem das outras Provín- 
cias do fertao muitas mercadorias de toda 
forte , e aífi de diverfas nações delles 3 que 
já variam a língua natural de Cantam , pof- 
to que entre íi fe entendem quaíl ao modo 
dos Gregos j contrahendo os vocábulos hans 
mais que outros. Geralmente são homens 
delgados em todo negocio , principalmente 
em o da mercadoria ; e nos da guerra mui 
aftucioíòs^ e que em artifícios de fogo pê- 
ra guerra naval , pola experiência que os 
noííbs tem , não hão inveja aos da Europa y 
e já quando lá fomos , tinham artiiheria. 
Porém depois que viram a forma da noífa , 
logo tomaram o modo , porque são tão ex- 
cellentes fundidores , que lavram o ferro em 
vafos do ferviço de cafa , como vemos o 
latão de Num mberga , e he levado per mer- 
cadoria per todas aquellas Ilhas do grande 
Oriente ; mas por fer ferro pedrez , quebra 
como vidro. As mulheres são de bom pa- 
recer em feu modo , e tratam-fe muito bem y 
e elles são tão ciofos delias , que poucos 
lhas vem ; e quando hão de ir fora , vam 
mettidas em andas todas cubertas de feda em 
collos de homens rodeadas de fervidores : 

e pe- 






Década III. Liv. II. Cap. VIL 199 

e peró que todos geralmente tem duas , ou 
três mulheres , huma ló , que he a primeira , 
tem por legitima na eílirnação. AíTi eilas y 
como elles são mui mimofos , e deliciofos 
110 trajo , no ferviço de fuás peífoas 3 e no 
comer difpendem tanta fubítancia , como 
tempo , porque tudo são banquetes , em que 
gaílam dias , e noites de maneira , que lhes 
não chegam Framengos , nem Alemães. Nos 
quaes banquetes ha todo género de muíí- 
ca , de volteadores , de comédias 5 de cho- 
carreiros , e toda outra deleitação , que os 
pode alegrar. O ferviço do qual comer he 
o mais limpo que pode fer , por ler tudo 
em procelana muito fina, pofto que também 
fe fervem de vafos de prata , e ouro , e tu- 
do comem com garfo feito a feu modo, 
fem pôr a mão no comer , por miúdo que 
feja. Peró tem huma differença dos banque- 
tes de cá , porque de dous em dous tem 
huma meza pequena , poílo que na cafa haja 
cincoenta convidados , e a cada forte de 
iguarias ha de vir ferviço novo de toalhas, 
pratos , facas , garfos , e colheres. E de cio- 
fos não comem as mulheres com elles , fen- 
do logo fervidos naquelles banquetes per 
mulheres folteiras , que ganham fua vida 
nefte officio , as quaes sao quaíi como cho- 
carreiros , porque todo o ferviço da meza 
fe paífa com graças , aífi delias > como dos 

ou- 



200 ÁSIA de João de Bakros 

outros miniftres alugados pêra iíTo. As mu- 
lheres próprias , pofto que não eílem neftes 
banquetes , com luas amigas no interior das 
caías fazem outro , onde não entra homem, 
fomente alguns cegos , que tangem , e can- 
tam. Geralmente os homens nobres tem 
grandes apofentos , com pateos , alpendres / 
cubertos , jardijs , e tudo são cafas térrea» 
ao menos na Cidade Cantam , e todo o ma- 
rítimo que os noífos viram ; e de ouvida 
dizem que nas Províncias mais ao Norte 
ha edifícios fobradados. Quaíi a maior par- 
te deitas Provindas, ou governanças, (co- 
mo lhe elles chamam,) principalmente as 
marítimas , todas são retalhadas com rios , 
delles de agua doce , e outros são eíleiros 
de falgada , que entram muito peia terra , 
e por fer mui chã o marítimo delia parece 
alagadiça , não o fendo ; mas per induftria 
dos naturaes trazem o habitado delia a ma- 
neira de hum pomar regado. DcJnde vem 
que ha tanta cópia de barcos da ferventia 
deites rios , que parece habitar tanta gente 
na agua , como na terra ; porque os bar- 
queiros , como aquella he fua herança , al- 
Ji trazem mulher , filhos , e fua fazenda a 
huma parte da barca cuberta á maneira de 
cafa , e a outra parte também cuberta , fe- 
gundo o tempo do anno , pêra os paífagei- 
ros. E como qualquer rio for grande , p 

lar- 






Década III. Liv. II. Cap. VIL 201 

largo , per que humas podam ir , e outras 
vir , quaíi todo eftá coalhado de outros bar- 
cos eftantes á maneira de vendas , onde fe 
acham todalas policias , que pode haver nas 
Cidades. Finalmente he gente que per in- 
duftria de ganhar de comer não ha coufa 
que não invente, té carretas á vela nos lu- 
gares de campina , as quaes governam co- 
mo podem fazer a hum barco per hum rio , 
onde a gente caminha ao modo dos car- 
ros de Frandes , e Itália , pofto que tem ou- 
tros de cavallos. A Cidade Cantam , onde 
Fernão Peres efteve , não fomente pela in- 
formação que tivemos delle , e de outros 
que foram em fua companhia , mas per hum 
debuxo do natural delle , que nos de lá trou- 
xeram , fabemos eftar íituada ao longo de 
hum deites rios navegáveis , que diffemos , 
o qual á entrada da barra tem algumas 
Ilhas povoadas de agricultores , e dalli té 
a Cidade corre o rio em largura de duzen- 
tos paflòs , e de altura de três té íète bra- 
ças , todo pela margem povoado de lugares 
pequenos viçofos. O aífento da Cidade he 
em campo chão , e graciofo com agricultu- 
ra delle ; fomente quaíi no meio delia den- 
tro dos muros eftá hum tezo alto , que pa- 
rece huma teta , onde eftá edificado hum 
fumptuofo Templo , que com feus curucheos 
á maneira de.pyrames, de que elles ufam, 

do 



202 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

do cimento té o cume , faz moftra da Ci- 
dade mui formofa , além de outros Tem- 
plos que ella tem , que fe não moftram tan- 
to , e aífi as caías > porque (como diffe- 
mos ) todas são térreas. O circuito do mu- 
ro delia parece que fera mais de três mi- 
lhas , não tanto per eílimação de vifta , 
quanto per conta j porque huma noite , em 
que elles fazem feita folemne de grandes 
illuminarias , ao modo que nós celebramos 
á vefpera de S. João Baptiíla , hum Antó- 
nio Fernandes homem curiofo dos que le- 
vava Fernão Peres , eítando neíle tempo den- 
tro na Cidade , (porque de dia não ou fava 
de o fazer , ) correo per cima do muro to- 
da a Cidade , e contou noventa torres , que 
eram ao modo de baluartes. Todo efte mu- 
ro healomborado per fora, aífentado fobre 
a face da terra fem outro alicerce , liado de 
canteria , e cal , e tão groffo no pé , que 
quando vem a refponder ao meio , he três 
vezes menos em largura ; e per cima per 
onde fe elle corre todo fera mais de vin- 
te palmos , entulhado per dentro mais das 
duas partes da altura delle , que poderá fer 
de quarenta palmos , o qual entulho fahio 
de huma cava mui larga , que cheia de agua 
tornea todo efie muro , ficando entre elle y 
e^ella efpaço tão largo , que poderão ir a 
par féis homens a cavallo , e per dentro do 

mu- 



Década III. Liv. II. Cap. VIL 203 

muro outros tantos de maneira , que fe pof- 
fa todo ver , e fervir de dentro , e de fo- 
ra , fem algum edifício de cafas Jhe fazer 
nojo. Em cada huma das quaes torres ha 
huma maneira de guarita, ou guarida, (que 
he mais Portuguez , ) cuberta do Sol , e da 
chuva , onde per ordenança da Cidade to- 
dalas noites eftam velas que vigiam. O que 
faz eíla íituaçao da Cidade mais formofa na 
ordem das cafas he ter duas ruas feitas em 
cruz , que tomam quatro portas da Cidade , 
das íhtQ que tem de fua ferventia , e aíli ef- 
tam direitas , e compaíTadas , que quem fe 
põe em huma porta , pode ver a outra de- 
fronte. Sobre as quaes duas ruas todalas ou- 
tras vam ordenadas, e a porta de cada ca- 
fa eftá plantada huma arvore, que tem to- 
do anno folha , fomente pêra íòmbra , e 
frefcura , e aífi poílas em ordem, que per 
o pé de huma fe podem com a vifta enfiar 
o de cada huma das outras. Nas kte por- 
tas per que fe a Cidade ferve ha fete pon- 
tes de pedra, e cal, e cada porta tem hu- 
ma torre com a entrada requeítada per três 
portas, que pafTando huma fica defensão na 
outra j e fe alguns barcos querem ir per de- 
baixo da ponte , bem o podem fazer , que 
a cava tem altura pêra fer navegada , peró 
ha de fer indo elles defemmaíleados. Em ca- 
da huma das portas da entrada da Cidade 

ha 



204 ÁSIA de João de Barbos 

ha hum homem como Capitão da guarda , 
que tem comílgo miniftros , fem leixar en- 
trar fenão homem natural , e conhecido ; e 
dos naturaes nenhum pode levar armas , fo- 
mente os que são miniftros da guarda del- 
ia , como cá são os foldados , que per feu 
trajo são conhecidos, A gente eftrangeira , 
que alli vem ter das outras Províncias , e 
de fora da China , poufa em hum arrabal- 
de , que a Cidade tem , e porém não ha de 
haver homem , que fe não faiba donde he , 
a que vem ; e fe he vadio , logo he prezo. 
Finalmente he o governo , e prudência def- 
ta terra tal , que as mulheres folteiras vi- 
vem fora dos muros , por não corromper a 
Jioneftidade dos Cidadãos , e não ha homem 
do povo que não tenha oílicio. Donde vem 
que não ha pobre que peça efmola , por- 
que todos ou com os pés , ou com as 
mãos , ou com a vifta , hão de fervir pêra 
ganhar de comer, e de cegos haverá den- 
tro na Cidade paiTante de quatro mil , e e£ 
tes fervem de moer nas atafonas em mós 
de braço , affi trigo , como arroz. As ou- 
tras coufas da grandeza defta terra , e do 
feu governo, ecoftumes, (como diífemos , ) 
fe guarda pêra os livros da Geografia , baf- 
te o dito pêra entendimento do que Fernão 
Peres aqui paliou , de que queremos dar re- 
lação o mais breve que pudermos. 

CA- 






Década IIL Livro II. 205 

CAPITULO VIII. 

Do que Fernão Teres pajjou em quan- 
to efleve na China. r 

AO tempo que Fernão Peres começou 
a entrar pelas Ilhas adjacentes ao por- 
to da Cidade Cantam , e Ilha Tamou , ou 
da Beniaga , fegundo lhe os noflbs chamam % 
(como diíTemos,) primeiro que tomaííe o 
poufo nelia , per confelho de Pilotos Chijs 
que levava , achou huma Armada dos mef- 
mos Chijs de muitas velas com hum Ca- 
pitão, que per ordenança da Cidade anda- 
va em guarda da cofta \ porque os navios 
que vinham a feu porto com mercadorias > 
e mantimentos não foífem roubados dos 
coíiairos , que ás vezes vinham andar na- 
queila paragem. Fernão Peres , pofto que foi 
logo quaíi rodeado defte Capitão , e tenta- 
do com alguns tiros de bombarda de ferro 
fracos pêra faberem fe era homem de guer- 
ra , fe de paz , não refpondeo com fua ar- 
tilheria , ante fe leixou ir todo aquelle dia 
embandeirado, mandando tanger luas trom- 
betas , e fazer todolos outros linaes de paz , 
pofto que hia apercebido pêra pelejar , fe 
os Chijs quizeífem vir a mais que áquelía 
tentação. Ao feguinte dia nefta ordenança ? 
levando fempre á ilharga aqueila Armada 

dos 



'206 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

dos Chijs , foi Fernão Peres ancorar na Ilha 
Beniaga em hum porto chamado Tamou , 
onde achou Duarte Coelho , que havia hum 
mez que chegara ; o qual (como difTemos) 
quando fe delle apartou com o temporal , 
foi invernar ao rio de Sião , e deita vinda 
topou com huma Armada de trinta e cinco 
velas de Chijs coíTairos , com que pelejou 
animofamente , e quaíl entre elles eíteve de 
todo tomado. Do qual Duarte Coelho , co- 
mo Fernão Peres foube que aquella Arma- 
da , que vinha ladrando trás elle, andava 
alli per ordenança da Cidade Cantam por 
caufa dos coíTairos , mandou hum recado 
ao Capitão delia , fazendo-lhe faber quem 
era , e como vinha com huma embaixada 
delRey D. Manuel de Portugal feu Senhor 
a EIRey da China , e que por vir acafo 
de paz mais que de guerra, não refpondê- 
ra á tentação delia , que lhe os feus navios 
fizeram. Ao que efte Capitão refpondeo, 
que elie foíTe mui bem vindo , e já per aquel- 
le navio defua companhia, que havia dias 
que viera ante elle , tinha íabido corno elle 
partira de Malaca ; e per os Chijs que a 
ella hiam, também tinha noticia da verda- 
de , e cavalleria dos Portuguezes. Que qual- 
quer coula que houveíTe miíler , mandaíTe 
pedir ao Pio da Villa de Nantó, que viria 
eftar diante, o qual era feu fuperior, por- 
que 



Década III. Liv- II. Cap. VIII. 207 

que elle não tinha mais jurdição que andar 
em guarda das náos , que áquelle porro vief- 
fem , por não receberem algum damno de 
coíTairos , e que fe tornava ao mar a eíFe 
officio. O Pio , a que eíte Capitão encami- 
nhava Fernão Peres , era hum homem que 
fervia hum cargo , como entre nós o officio 
de Almirante do mar , e era nome do offi- 
cio , e não da peífoa. O qual , por razão 
daquella governança de Cantam íèr a mais 
requeílada de eftrangeiros , e mais célebre 
em o trato do commercio , reíidia naquelia 
Villa Nantó , e alli ordenava todaías Ar- 
madas pêra guarda da cofta , e tinha cuida- 
do de fazer faber á Cidade Cantam que 
navios eram alli chegados , e donde vinham y 
e o que traziam , e queriam , e affi de os 
mandar prover do neceífario , de maneira , 
que não fe bolia hum batel fem licença, 
e ordenança fua. Fernão Peres como teve 
eííe recado do Capitão , e foube de Duar- 
te Coelho que já eftava inftruclo em o re- 
gimento daquelíe porto , ordenou de enviar 
a Nantó hum homem com feu recado 20 
Pio i mas elle como official diligente an- 
ticipou em mandar outro perguntar a elle 
Fernão Peres quem era ? e o que queria. Ao 
qual elle deo razão de fi , e que a princi- 
pal caufa de fua vinda era trazer hum Em- 
baixador j que EIRey de Portugal , cujo 

Ca- 



2o8 ÁSIA de João de Barros 

Capitão elle era, mandava aElRey da Chi- 
na com cartas fobre aíTento de paz , e ami- 
zade : que lhe pedia houveíTe por bem de 
lhe dar Pilotos , que com aquellas velas que 
trazia o metteífem dentro na Cidade Can- 
tam. Tornado eíle menfageiro a Fernão Pe- 
res ? trouxe por refpoíla do Pio muitas pa- 
lavras de contentamento de fua vinda , e 
offereci mentos do que houveíTe mifter ; e 
quanto á fua ida a Cantam não podia fer 
fem primeiro o mandarem os Governado- 
res da Cidade , que lhe faria faber de fua 
vinda ; e como a refpofta vieíle , elle lha 
enviaria. Paliados alguns dias, em que Fer- 
não Peres efperou cite recado, mandou fa- 
zer lembrança ao Pio ; mas elle fatisfazia 
tudo com defculpas , dizendo que não po- 
dia fazer mais , que a notificação que tinha 
feito de fua vinda aos Governadores das 
Cidades. E fobre eíle negocio houve tantos 
recados de parte a parte , que enfadado Fer- 
não Peres deíla dilação , mandou tirar do 
porto da Ilha alguns navios pêra fe pôr em 
caminho , e com os Pilotos Chijs , que trou- 
xera de Malaca , metter-fe em Cantam. Mas 
parece que não queria fua dita que tão le- 
vemente fizeíTe eíle caminho , porque não 
eram os navios fora do porto , quando fal- 
tou hum temporal travefsão , que muitas 
vezes alli acode; com que- elle Fernão Pe- 
res 



Década III. Liv.II. Cap. VIII. 209 

res nao teve outro remédio de fe falvar , fe- 
nao cortar maftos , e arrazar caílellos , que 
he toda a fegurança que tem os juncos, que 
fe alii acham no tal tempo , como lhe os 
Chijs diíTeram. Com a qual tormenta aos 
da Villa de Nantó não pezava , porque rou- 
bavam muita fazenda dos navios que hiam 
'ter acoita, e tinham grande efperança que, 
por os noííòs ferem novos naquelle porto , 
haveriam boa parte da lua ; ou ao menos 
que defapparelnando os navios , ficariam os 
noíTos o inverno alli , dos quaes haveriam 
as mercadorias a bom preço. E ifto fentio 
logo Fernão Peres , porque nunca pode ha- 
ver de Nantó mafto , verga, ou taboa al- 
guma pêra concertar as náos , que o tem- 
po lhe defapparelhou ; e quando vio que 
tudo, lhe havia de fahir de cafa, lá andou 
mudando os maftos de humas náos a ou- 
tras , e repairando-le de maneira , té que fe 
tornou a reformar. Acabado efte trabalho , 
que o deteve alguns dias , em que houve 
efpaço pêra poder vir recado da Cidade Can- 
tam pêra a lua ida , quando vio que não 
vinha , por lhe parecer que tudo procedia 
de algum particular intereííe do Pio , ou 
cautelas dos officiaes per que aquelle ne- 
gocio paliava , mandou appareihar dous na- 
vios fomente , o de Martim Guedes em que 
fe metteo , e o de Jorge Mafcarenhas / e 
Tom. III. P.L O der- 



lio ÁSIA de João de Barros 

derredor de íi os bateis das outras náos, 
todos mui bem apparelhados , affi de guer- 
ra , eomo de paz , e partio-fe pêra o por- 
to deNantó; leixando por Capitão das ou- 
tras velas a Simão d 5 Alcáçova , com funda- 
mento de mais perto mandar íeus recados , 
e requerimentos ao Pio , que o leixaflem ir 
á Cidade Cantam ; e quando lho impedifle , 
tomar per íi a licença. Chegado a Nantó, 
mandou logo o Feitor da Armada Joannes 
Impole, mui bem acompanhado de gente 
limpa , e trombetas , com hum requerimen- 
to ao Pio, pedindo-lhe licença pêra paíTar 
a Cantam , com recado , e Embaixador que 
levava; e não o querendo fazer, proteílava 
não incorrer em defobediencia das prama- 
ticas dos Governadores de Cantam , por 
quanto elle fe hia aqueixar a elles do que 
té li era paíTado. O Pio quando vio eíla 
determinação de Fernão Peres , depois de 
fe deículpar ao Feitor, dizendo não fer o 
defpacho deite negocio nelíe , e outras pa- 
lavras brandas envoltas com algumas amoef- 
taçces , tomou por conclusão que fe deti- 
vefle por aquelle dia ; e quando o recado 
não vieíTe té o feguinte a taes horas , que 
então lhe dava licença que fefoíTe em boa 
hora. E porque efte recado não veio, paf- 
fando o termo que lhe o Pio poz , na or- 
dem em que hia , começou Fernão Peres 

fa- 



Década III. Liv.II. Cap.VIIL 2ií 

fazer feu camifrho ; ao qual o Pio , quan- 
do ovio partir, lhe mandou Pilotos da ter- 
ra , que o levaram ante a Cidade Cantam, 
Ao tempo que Fernão Peres aqui chegou, 
que foi quafi em fim de Setembro com to- 
da a pompa , e feita que elle pode, não 
eram na Cidade os três Governadores, que 
diíTemos haver nella , que eram o Tutam y 
Cantam, Chumpim , e eftava hum chama- 
do per nome de officio Puchancij , que fer- 
via em lugar do Tutam , o qual mandou 
logo recado a Fernão Peres , que fe efpan- 
tava delle naquella lua entrada fazer três 
coufas contra a ordenança da Cidade : a 
primeira vir fem licença dos Governadores 
delia : a fegunda , tirar com artilheria : e 
a terceira 5 arvorar bandeira , ou lança. Ao 
que Fernão Peres refpondeo o que tinha 
paífado fobre fua entrada com o Pio de 
Nantó , e que per fim dos recados , que 
entre elíes houve, lhe deo licença, e pêra 
iJTo lhe mandara Pilotos , que o metteíTem 
naquelle porto. E quanto ás outras duas 
coufas , em todaías partes , onde os Portu- 
guezes navegavam , as coílumavam fazer 
em final de prazer , e paz , e não lhe eram 
impedidas , e o mefmo faziam os Chijs , 
quando chegavam a Malaca , como elle po- 
dia faber. A qual Cidade , fendo delRey de 
Portugal , cujo Capitão elle era P não lhe 
O ii pu- 



212 ÁSIA de JoÃo de Barbos 

punham impedimento algum , ante eram tra- 
tados mui bem , como vaííallos de hum tão 
podetafo Príncipe como era EiRey da Chi- 
na 5 a quem elle trazia huma eínbaixada del- 
Rey feu Senhor , como já teria fabido per 
o Pio de Nantó : que lhe pedia houveíTe 
por bem dar ordem como pudefle mandar 
o Embaixador , e preíente , que trazia a Ei- 
Rey á Corte 5 onde elle eftava. O Puchan- 
cij ouvindo eílas razões de Fernão Peres , 
fe deo por fatisfeito ; e quanto ao defpacho 
do Embaixador, mandou-lhe dizer que os 
Governadores da Cidade eram fora , e que 
fe efperava porelles cedo, que como vief- 
fem , feria defpachado ; que fe entretanto 
houveíTe mifter alguma coufa , que de mui 
boa vontade o proveriam. A ida dos três 
Governadores fora da Cidade , fegundo de- 
pois pareceo , foi mais artificio pêra Fernão 
Peres ver a mageílade , e pompa de fuás 
peííbas quando entraííem nella , que algu- 
ma outra neceífidade \ e ainda pêra ver os 
gráos da precedência de cada hum , e a dif- 
ferença que a Cidade fazia no feu recebi- 
mento , vieram hum , e hum , tomando dia 
próprio pêra iflb. E porque gaitaríamos mui- 
to tempo em contar como o Concam , que 
tem adminiftração da fazenda , que era o 
primeiro na entrada, foi recebido per rodo- 
los officiaes,. que eítam debaixo de fua jur- 

di- 






Década III. Liv-IL Cap.VIII. iif 

dição , e depois a entrada do Chumpim Ca- 
pitão da guerra com feus miniítros , e ao 
terceiro dia como toda a Cidade recebeo o 
chamado Tutam , que he o mais principal , 
baile faber em fomma que todos três entra- 
ram com tanta pompa, como fe cada hum 
fora fenhor da Cidade , principalmente na 
entrada do Tutam, Porque o rio era coa- 
lhado de bateis , todos com bandeiras , e tol- 
dos de feda , e a terra- cuberta do povo da 
Cidade com feitas a feu modo. E em huma 
grande praça , onde eftava hum cais de pe- 
dra muito bem lavrado , em que elle defem- 
barcou , era coufa formofa de ver a diífe- 
rença que faziam em cores , em trajo 5 e em 
número os miniftros de cada hum deites 
officios da fazenda , da guerra , da juítiça , 
e doeítado: huns , que haviam de ir a pé , 
e outros a cavallo , e facas guarnecidas es- 
tranhamente , com mais retrancas , e borlas 
do que cá ufamos em huma grande fefra. 
E neíte mefmo dia todo o muro eftava em- 
bandeirado de bandeiras de feda 5 e nas tor- 
res havia maftos arvorados , de que depen- 
diam bandeiras , também de leda , que po- 
diam fervir por vela de hum navio redon- 
do : tanta he a riqueza daquella terra , e tan- 
ta a cópia de feda, que aíli gaitam elles o 
ouro batido efn pão , e a feda neftas ban- 
deiras , como nós gaitamos as tintas de pou- 
co 



ai4 ÁSIA de João de Barros 

co preço , e o lenço de linho groífo. Le- 
vado o Tutam com eíta fella , e apparato 
a fua cafa , Fernão Peres o mandou logo 
vifitar de fua boa vinda , como o tinha man- 
dado fazer aos outros, quando vieram. E 
teve nefte tempo , em quanto elles não vie- 
ram , grande refguardo •> que nenhum feu foi- 
fe á Cidade, nem confentio que Chijs en- 
traffe em os navios , que também elles fob 
graves penas não podiam fazer, fenão de- 
pois que os navios foíTem defpachados , e 
pagaflem os direitos a Cidade da mercado- 
ria que traziam. PaíTados aquelles dias da 
entrada dos Governadores da Cidade , no 
qual tempo entre elles , e Fernão Peres hou- 
ve viíitaçoes , ajuntáram-fe todos três em a 
principal cafa de feu defpacho , onde qui- 
zeram ouvir o que eile Fernão Peres que- 
ria , pêra lhe reíponderem á conclusão do 
cafo , poílo que já tinham fabido a caufa 
de fua ida. No qual dia Fernão Peres man- 
dou o Feitor da Armada Joannes Impole 
bem acompanhado de gente veftida de fei- 
ta , e com trombetas diante , por ir com 
mais pompa , vendo que os Chijs neílas cou- 
fas eram muifumofos, eque as celebravam 
com grande apparato , e que com eíTe efta- 
vam efperando efte recado. Chegado o Fei- 
tor ao cais nos bateis que levada , alli foi 
recebido de alguns principaes da Cidade, 

ç le- 



Década III. Liv.IL Cap.VIII. 215: 

e levado aos Governadores ; diante dos quaes 
propoz , como EiRey D. Manuel , que rei- 
nava no Ponente da terra chamada Portugal , 
que deícubríra muitas terras , e regiões , té 
fuás Armadas virem ter a Malaca , pare 
tão remota do feu Reyno , fendo fabedor 
3er hum feu Capitão chamado Affonfo d'Al- 
3oquerque , que tomou aquella Cidade Ma- 
laca aos Mouros, como ao tempo que hou- 
vera efta vitoria , achara alli alguns juncos 
de Chijs , aos quaes elle vingara de algumas 
tyrannias , que o tyranno daquelía Cidade 
lhe tinha feito , por lhe dizer ferem vaffal- 
los de hum Principe o mais poderofo de 
todo aquelle Oriente ; e que na communi- 
caçao que teve com elles 9 vio fer gente no- 
bre , politica , douta em todo género de 
fciencia , e que fe não tratava per o modo 
bárbaro das outras nações da índia : por 
caufa deita nova , defejando eíle feu Rey , 
e Senhor ter conhecimento , e preílança de 
amor, e amizade com eíle tamanho Prin- 
cipe , como era EIRey da China , manda- 
ra armar alguns navios a elle Fernão Peres 
feu Capitão pêra trazer hum Embaixador 
com cartas , e prefente que alli vinha. O 
qual Embaixador , e prefente elle Senhor 
Rey, mandava quefofle entregue aos feus 
Governadores de Cantam , que , (fegundo ti- 
nha fabido,) permeio delles podia fer en- 

ca- 



11G ÁSIA de João de Barros 

caminhado á Corte , onde eftava o feu Rey , 
e elle Fernão Peres fe tornaffe pêra Mala- 
ca \ e no feguinte anno tornaria lá outro 
Capitão pêra trazer o dito Embaixador, 
porque já nefte tempo poderia fer defpacha- 
do- E por quanto elle Fernão Peres havia 
dias que era vindo , e fora detido muito 
tempo per o Pio de Nantó , onde com hum 
temporal houvera de perder feus navios, lhe 
pedia que o mais breve que pudeíTe fer o 
defpachaífem. Ouvido eíte recado pelos Go- 
vernadores , refpondêram a Fernão Peres 
muitas palavras de contentamento que ti- N 
nham de fua vinda , e fabiam que havia de 
ter EiRey da China pola boa fama que 
naquellas partes havia dos Portuguezes , e 
do feu Rey. E quanto ao Embaixador, 
que logo fe daria aviamento pêra fer aga- 
zalhado em terra ; e tanto que elles rece- 
beíTem a entrega delle , efcreveriam a El- 
Rey feu Senhor a caufa de fua vinda pêra 
faber o que mandava que niíTo fizeífem , por 
quanto fem recado feu não podia dalli par- 
tir. E fe elle Capitão entretanto alguma cou- 
fa quizeííe da Cidade , ou trazia mercado- 
ria pêra fazer commutação com as da ter- 
ra, que o podia mui bem fazer, eiílo fe- 
ria depois que o Embaixador eítiveífe em 
terra. Fernão Peres aííi per eíta refpoíla , 
como per recados , que depois entre elles 

liou- 



Década III. Liv.IL Cap.VIIL 217 

houve , fabido o modo que havia de ter , 
ordenou de pôr em terra o Embaixador com 
as peííbas , que com elle haviam de ficar y 
e prefente que levava , o qual havia nome 
Thomé Pires , que Lopo Soares na índia 
efcolheo pêra iífo. E pofto que não era ho- 
mem de tanta qualidade , por fer Boticário , 
e fervir na índia de efcolher as drogas de 
botica que haviam de vir pêra eíle Rey- 
no , pêra aquelíe negocio era o mais hábil y 
e apto que podia fer ; porque além de ter 
peífoa , e natural difcriçao com letras , fe- 
gundo ília faculdade , e largo de condição , 
e aprazível em negocear , era mui curiofo 
deenquerir, e faber ascoufas , e tinha hum 
efpirito vivo pêra tudo. Finalmente no dia 
qiíe Fernão Peres o entregou no cais de 
pedra com grande eftrondo de artilheria , 
e trombetas , e a gente veílida de feita , el- 
le com fete Portuguezes , que ficaram em fua 
companhia pêra irem com elle a eíla em- 
baixada , foram levados a feu apofentamen- 
to 3 que eram humas cafas das mais nobres 
que haviam na Cidade. O qual foi logo vi- 
íitado dos principaes da Cidade , e os Re- 
gedores lhe ordenaram certa coufa pêra feu 
mantimento , fegundo o ufo que a Cidade 
tem com os Embaixadores ; mas Fernão Pe- 
res o não confentio em quanto alli eíleve , 
dizendo, que depois que eíliveífe poílo em 

ca- 



2i8 ÁSIA de João de Barros 

caminho pêra a Corte delRey , que então 
feguiria o coftume da Cidade. Feita efta 
entrega , mandaram os Governadores pedir 
a Fernão Peres que houveíTe por berp fa- 
hir em terra pêra ver, e feítejar fua peííoa , 
de que fe elle efcufou , dizendo que fegun- 
do feu ufo , tinha dado menagem a EIRey 
feu Senhor daquelles navios , dos quaes não 
podia fahir ; mas que em feu lugar manda- 
ria o Feitor daquella Armada com algumas 
mercadorias , que lhe pedia o mandaíTem 
agazalhar em alguma cafa perto de agua , 
por eftar mais vizinho aos navios , pêra o 
maneio delias. Ordenada efta cafa , mandou 
Fernão Peres o Feitor , e Efcrivão com al- 
guns homens da Feitoria , e mercadorias 
poucas , e poucas , fazendo feu commercio 
com o melhor regimento que podia fer, 
dando licença a alguns homens que foífem 
á Cidade pêra elle também defconhecido 
ter modo como a pudeífe ver , e notar as 
coufas delia , como fez. E depois que poz 
tudo em ordem corrente , fuccedêram duas 
coufas, que lhe conveio partir-fe dalli : a 
primeira , vir-lhe nova de Simão de Alcá- 
çova , que fora commettido per alguns jun- 
cos de coflairos ; mas como elle eílava a 
recado , não puzeram em o effeito feu de- 
fejo; e a fegunda , adoecer-lhe gente, por 
aquelle rio íer enfermo aos noífos : e em 

quan- 



Década III. Liv.II. Cap.VIII. 219 

quanto alli efteve , que foi todo o mez de 
Outubro , lhe morreriam de febres nove ho- 
mens , o principal dos quaes foi o Feitor 
Joannes Impole. Aííi que por eftas coufas , 
elle fe mandou efpedir dos Governadores da 
Cidade , dizendo que fe tornava á Ilha Ta- 
mou , onde lhe ficaram as náos , pêra as ir 
repairar do damno que tinham recebido no 
temporal paliado, e aífí o fez ; porque co- 
mo era já acceito na terra , mor provisão 
houve de todalas coufas pêra fe repairar, 
do que pudera haver eftando na ribeira de 
Lisboa y tanta he a abaílança de tudo na- 
quella terra. E elle foi o primeiro homem, 
que por ver efte bom ufo aosChijs lançou 
lapes ás náos , e navios que levou , o que 
fe ora coftuma entre nós , e aífi as varandas 
fobre o leme fora do corpo da náo. O qual 
lapes he hum forro de taboado delgado, 
que fe prega per todo o coitado da náo , 
vindo debaixo té hum pouco acima das cin- 
tas , já onde o mar não chega ; e entre efte 
taboado novo , e o debaixo fe mette hum be- 
tume feito de cal , e azeite de peixe , pica- 
do aili do maceme velho da náo , com que 
a taboa de cima fe gruda com a outra de^- 
baixo. E depois em lugar de breu , fomen- 
te com a cal , e azeite vai o novo taboado 
cuberto per cima , a qual compoílção he tão 
proveitofa ao taboado P que o bufano não 

en- 



220 ÁSIA de JoÃo de Barros 

entra nelle , e faz-fe eíte betume com agua 
em pouco tempo qual! pedra. E de fer cou- 
fa que faz durar hum junco muito tempo , 
e o tem eítanque de agua , entre os Chijs 
fe acham juncos , que tem quatro, e cinco 
lapes , com que o coitado delles parecem 
hum muro : peró ficam com eíla fortaleza 
muito pezados na vela. Fernão Peres , por- 
que levava regimento d'EiRey D. Manuel , 
que fedetivefle ncítas partes da China ornais 
tempo que pudeffe , por fe melhor informar 
das coufas delia , e em quanto efteve na- 
quella Ilha da Beniaga , e vieram alli ter 
alguns juncos dos povos , a que chamam 
Lequios , de que já em Malaca havia grão 
noticia que habitavam em humas Ilhas ad- 
jacentes naquella coita da China , e elle vio 
que a mais mercadoria que traziam era gran- 
de cópia de ouro , e outra de muito pre- 
ço , e pareceo-lhe mais defpoíta gente , que 
os Chijs, e melhor tratados de lua peflba , 
defejando ter informação da terra delles per 
olho dos próprios Portuguezes ; ordenou de 
mandar a iífo Jorge Maícarenhas em o feu 
navio , pêra que houve licença dos Gover- 
nadores de Cantam. O qual Jorge Mafca- 
renhas partio dalli em companhia de alguns 
juncos , que hiam pêra a Província Fo- 
quiem , que he além de Cantam pela cofia 
em diante contra o Oriente , á qual Provín- 
cia 



Década III. Liv.II. Cap.VIIL 221 

cia os noíTos , por razão de huma Cidade , 
que alli eílá marítima chamada Chincheo, 
onde alguns depois foram fazer commer- 
cio , geralmente lhe chamam o nome da 
Cidade. E porque Jorge Mafcarenhas foi 
hum pouco tarde 7 pêra atraveíTar dalli ás 
Ilhas dos Lequios , que ferao contra o Orien- 
te obra de cento e tantas léguas , a primei- 
ra das quaes eftá em vinte e finco gráos e 
meio do Norte , e dahi vam correndo hu- 
ma corda delias per o muro chamado LeC- 
nordefíe, e des-hi caminho do Norte: ha- 
vendo confelho com os Pilotos Chijs, que 
levava , não partio dalli , e leixou-fe eílar 
fazendp feu commercio com dobrado pro- 
veito do que fe fez em Cantam. Porque 
como aquella parte não he tão frequentada 
dos mercadores , valem as coufas da pró- 
pria terra pouco , e as de fora muito. 12 
neíle mefmo tempo efpedio Fernão Peres a 
Duarte Coelho , por eílar já de todo pref- 
tes , pêra levar nova a Malaca como fora 
recebido o Embaixador que levara , e tinha 
aíTentado paz com os Governadores de Can- 
tam , e como noffas coufas eram mui bem 
recebidas naquellas partes. O qual Duarte 
Coelho , (fegundo atrás fica , ). chegou a Ma- 
laca no fim de Março do anno de dezoito ; 
e efta boa nova que trouxe , caufou armar 
o Capitão , e Officiaes hum junco pêra ir 

á Chi- 



222 ÁSIA de João de Barros 

á China , e aííi pêra dar nova a Fernão Pe- 
res dos trabalhos 3 em que aquella Cidade 
eftava por caufa da guerra que lhe EIRey 
de Bintam fazia 5 como pêra vir carregado 
de munições 5 e mercadoria, Fernão Peres 
fabendo per Jorge Alvares Capitão deíle 
junco o eílado de Malaca , por fer couía 
tão importante, mandou logo per terra cha- 
mar Jorge Maícarenhas a Cidade Chincheo , 
onde foube que eftava , e não partira pola 
razão do tempo , o qual teve logo efte re- 
cado per pofta que naquellas partes também 
ufam. Somente os correios em lugar de cor- 
neta , como ufam os noflbs , trazem o pei- 
toral do cavalio cheio de muitos cafcavéis , 
aífi pêra ferem conhecidos , como pêra com 
o rugido darem elpirito ao cavalio em feu 
curfo , como coftumam os Caftelhanos da 
Villa de Xarez , pêra correr melhor a car- 
reira. Chegado Jorge Mafcarenhas aonde 
Fernão Peres eílava , não teve elíe mais que 
fazer que mandar-fe efpedir dos Governa- 
dores de Cantam ; dos quaes tinha nova 
como lhe era vindo recado dofeuRey, que 
podia mandar o Embaixador Thomé Pires 
a eile. E ante de fua partida , em Cantam , 
e na Villa de Nantó , como naquelle porto 
de Tamou em que elle eftava , mandou Fer- 
não Peres lançar pregoes que fe queria par- 
tir > que fe liouveíle peífoa que de algum 

Por- 



Década III. Liv.IL Cap.VIIL 223 

Portuguez tiveíTe recebido algum damno, 
ou lhe deveíTe coufa alguma, viefie a elle 
pêra lhe mandar fatisfazer tudo ; a qual cou- 
fa foi mui louvada dos naturacs , e nunca 
entre elles viíta , e houveram fermos homens 
de muita verdade , e juítiça. Partido Fernão 
Peres com toda fua frota no fim de Setem- 
bro doanno de dezoito, e fendo tanto avan- 
te como a Ilha Aynam , onde fe pefca ai- 
jofre 5 que he junto de huma ponta da ter- 
ra da China , quando querem entrar na en- 
feada Cauchinchina , com tempo fe perdeo 
delie o navio Santo André, Capitão Pêro 
Soares com certos Portuguezes. E depois 
quando Simão d' Andrade irmão delie Fer- 
não Peres foi á China , ( como fe adiante 
verá 5 ) os Chijs lhe entregaram eíte Pêro 
Soares, e os Portuguezes que foram ter á 
coita perdidos. Fernão Peres feguindo fua 
viagem , quando entrou no eftreito de Cin- 
gapura , que he na coita de Malaca , per 
onde entram os que vem daquellas partes , 
achou Diogo Pacheco com huma Armada , 
que D, Aleixo de Menezes mandara em 
guarda delie Fernão Peres , efperando que 
por razão da monção do tempo podia fer 
alli aqtielle mez , e receber alguma aíFronta 
das Armadas d'ElRey de Bintam. Em com- 
panhia do qual clle entrou em Malaca mui 
profpero em honra P e fazenda, coufas que 

pou- 



224 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

poucas vezes juntamente feconfeguem, por- 
que ha poucos homens que per íèus traba- 
lhos as merecem pelo modo que Fernão 
Peres naquellas partes as ganhava. 

CAPITULO IX. 

De algumas coufas que pajjaram em Ma- 
laca ^ em quanto D. Aleixo de Me- 
nezes efleve nella. 

AChegada de Fernão Peres a Malaca 
foi mui feftejada de todos , não fomen- 
te por as coufas que leixava feito na Chi- 
na em favor noífo , por fer terra mui pro- 
veitofa pêra os que citavam naquella Cida- 
de Malaca , e retorno que vinha a muitos 
dos que Fernão Peres alii leixára , por man- 
darem fuás mercadorias em os feus navios > 
mas ainda porque vinha elle mui provido 
de munições de toda a forte pêra as necef- 
íídades que aquella Cidade tinha , de que 
ie eíle aprovêra pelo recado que lhe Jorge 
Alvares levou do eftado em que ella ficava. 
E daquella viagem não fomente a Feitoria 
de Malaca , mas ainda a todolos que leva- 
ram feus empregos naquella Armada y fize- 
ram mui groíla fazenda, affi no que fe ga- 
nhou na China , como no retorno em Ma- 
laca. AíFonfo Lopes d'Acoíla com todolos 
Officiaes da fortaleza , e affi Duarte de Mello 

Ca- 



Década III. Liv. II. Cap. IX. %tf 

Capitão do mar , e os outros que haviam 
de ficar por moradores em Malaca , ante 
da vinda delle Fernão Peres , tinham pedi- 
do muito a D. Aleixo que houvefle por 
bem de irem dar huma vifta á força 3 que 
o Capitão Ciribiche tinha feito á entrada 
do rio Muar , donde lhe corria pêra lhe 
desfazerem aquelle covil , e ifto ante que 
D. Aleixo fe partiíTe pêra a índia. O qual 
requerimento lhe D. Aleixo não concedeo , 
porque depois que elle chegou áquella Ci- 
dade , ceflara o Capitão Ciribiche de vir 
dar os rebates , que ante dava á Cidade 
com fuás lancharas , fomente com elle Dom 
Aleixo mandar pôr na boca do rio Muar 
huma galé , e alguns calaluzes de remo , e 
ifto baftava pêra ter aquelle Mouro cerca- 
do , fem lhe poder vir mantimento de fo- 
ra , com que lhe pereceíTe a gente á fome. 
Porém porque Fernão Peres era vindo da 
China 5 e além da gente que trouxera , ti- 
nha provida a Cidade com muitas muni- 
ções , e AíFonfo Lopes fe aqueixava a elle 
D. Aleixo que fe queria partir pêra a índia y 
e em fua companhia Fernão Peres , com os 
quaes havia de ir muita gente , e elle ficava 
com a guerra á porta, quafi querendo en- 
carregar fobre elle D. Aleixo qualquer cou- 
fa que por efta caufa fuccedefle : chamou 
D. Aleixo a confelho todolos Capitães , e 
Tom. III. P.L P no- 



lz6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Dotáveis peffoas ; e poílo que todos não 
eram defte voto de AíFonfo Lopes , toda- 
via por não ter caufa de Fe mais queixar, 
nem ter que temer daquella parte tão vizi- 
nha , ordenou D. Aleixo que o mefino Af- 
fonfo Lopes foííe per peííba com a gente 
neceííaria. E poílo que elle fe efcufava por 
caufa da menagem que tinha dado da for- 
taleza ? D. Aleixo que lha tomara a houve 
por levantada naquelle cafo , e elle D. Alei- 
xo não foi a iífo , por trazer por regimento 
de Lopo Soares que por nenhum calo fa- 
hiíTe de Malaca, pois o não enviava a mais 
que a prover das defordens delia , de que 
atrás eícrevemos. Nem menos foi Fernão 
Peres , porque não havia de ir debaixo da 
capitania de Affonfo Lopes , pois não hia 
o mefmo D. Aleixo. Finalmente foram com 
AíFonfo Lopes d' Acoita , D. Triftão de Me- 
nezes , D. Rodrigo da Silva , D. Manuel 
feu irmão , Álvaro de Soufa , Francifco Pe- 
reira , Duarte Furtado , Jorge Mafcarenhas, 
Jorge Botelho , Duarte de Mello Capitão 
mor do mar , Diogo Pacheco , Manuel Fal- 
cão j Pêro de Faria i António Lobo Fal- 
cão , e outros , que hiarn por Capitães de 
calaluzes , e lancharas , e Jorge Mafcare- 
nhãs que viera da China em o feu navio , 
que era forte , e maior que as outras velas , 
pêra com elle poderem abalroar com a tran- 
- í - quei- 



Década III. Liv. II. Cap. IX. 227 

queira da força , que eftava na borda da 
agua , e com elle feriam té trezentos homens 
Portuguezes , além de alguns principaes Ma- 
laios com gente da terra. Chegada efta fro- 
ta ao rio Muar , foi a tempo que a maré 
começava defcabeçar , e deícubria huma 
grofla eftacada, com que os Mouros tinham 
atraveflado o rio hum bom efpaço da for-» 
taleza ; e porém não tão perto , que com a 
nofla artilheria eíla pudeíte receber damno. 
AiFonfo Lopes quando vio que não podia 
paliar a eftacada em a galé , em que hia, 
nem menos o navio de Jorge Mafcarenhas , 
que era o maior , em o qual levavam mui- 
ta artilheria, furgio áquem da eftacada com 
toda a frota. Álvaro de Soufa filho de Ni- 
coláo de Soufa , e cunhado delle AiFonfo 
Lopes d'Acofta , como era mancebo de té 
dezoito annos , de animo generofo, que de-* 
fejava ganhar honra naquelle feito, em hum 
calaluz , em que levava fete Portuguezes , 
paíTou além da eftacada , e foi-fe pôr dian- 
te da fortaleza. Aífonfo Lopes feu cunha- 
do quando o vio affi defmandado , e met- 
tido em tanto perigo , porque da fortaleza 
tiravam com efpingardas, mandou depreíla 
a Jorge Botelho que em hum calaluz , em 
que hia , o foíTe recolher ; mas por muita di- 
ligencia que Jorge Botelho niíTo poz, quan- 
do o recolhçQ ^ çftgva ferido dos tiros dç 

P ii den- 



428 ASIÀ de JoXo de Babkos 

dentro , de que logo morreo em Malaca* 
Jorge Botelho por lhe parecer que eílava 
mais preitos pêra quando ao outro dia pe- 
la manhã houveíTem de dar na fortaleza , 
leixou-fe ficar dentro da eítacada , ao qual 
outros houveram inveja , por fer lugar de 
honra , e foram-fe para elle três , ou quatro 
Capitães de calaluzes. E eílando elle , e os 
outros contentes , cuidando terem bom po£ 
to, pêra quando vieííe a maré da manhã-, 
em que haviam de commetter a fortaleza , 
foram de noite todos chamados , e aíli os 
mais principaes Capitães , e Fidalgos á ga- 
lé de AfFonfo Lopes d 5 Acoita a coníelho 
fobre aquelle feito. O qual no parecer de 
alguns fe houve portão duvidofo , por mui- 
tas razoes que deram , quão fácil parecia a 
outros de contraria opinião , entre os quaes 
era D. Triftão de Menezes , a quem o ca- 
fo parecia mais leve , que a Jorge Mafca- 
renhas , e AfFonfo Lopes , que o haviam 
por mui duvidofo, E não era muito pare- 
cer efte commettimento fácil a D. Triftão ; 
porque como o anno de quinhentos e oito , 
quando D. João de Menezes feu tio irmão 
de feu pai fahio na praia de Arzilla lan- 
çar EIRey de Féz fóra da Villa que tinha 
tomada , elle D, Triftão foi o primeiro ho-* 
niem que poz os pés em terra, , e o peito 
na boca das bombardas dos Mouros > tinha 



Década III. Liv. II. Ca?. IX. 229 

pêra fi que menos feria commetter aquella 
tranqueira de Muar. Porque a diíFerença 
que havia da praia de Arzila á tranqueira 
de Muar , he a que pode haver de hum 
leão a hum gato , poíto que tem a meíma 
figura , e natureza. Cá fegundo affirmam ho- 
mens , que fe acharam em honrados feitos , 
dous viram que tinham a morte ante os 
olhos , de quem os commetteo : efte do foc- 
corro de Arzila , fahindo em pequenos ba- 
teis em hum recife de pedras , onde que- 
brava o mar da cofta brava ; e pondo os 
pés em terra , punham o rofto na boca das 
bombardas , e outro foccorro que em ou- 
tra tal cofta , e recife fez D. Henrique de 
Menezes , fendo Governador da índia , quan- 
do foccorreo a fortaleza de Calecut , eftan- 
do nella por Capitão D. João de Lima , 
como a hiftoria contará em feu tempo. Aífi 
que desfeita efta ida de Muar em perfias , 
tornáram-fe pêra Malaca com menos honra 
da que levaram , com a qual coula D. Alei- 
xo não tinha paciência , lembrando-lhe quão 
pezadamente concedera aquella jornada , o 
cafo da qual elle havia por maior defaftre, 
que fer commettida a fortaleza , e virem os 
homens bem fangrados fem vitoria alguma. 
Mas parece que não quer Deos que neftes 
cafos da vitoria contra os imigos , os ho- 
mens vam mui confiados em fuás próprias 

for- 



i^o ÁSIA de JoÃo de Bakkos 

forças , fomente na efperança de lua ajuda. 
Donde vem vermos cafos commetridos per 
tantas, etaes peflbas , que nojuizo dos ho- 
mens parece não haver coula que lhes pofla 
refiftir , e tudo fuecede ao contrario , e ou- 
tros em que tudo fica na mifericordia de 
Deos , e fuecedem profperamente , como 
aconteceo neíla tornada a repetir dahi a pou- 
cos dias. D. Aleixo paíTado eíle cafo , que 
elíe havia por próprio feu , determinou de 
mandar a D. Triftão de Menezes ás Ilhas 
de Maluco , como lhe Lopo Soares man- 
dara , e fuecedeo ainda pêra o elle fazer 
melhor, chegarem juncos dajauha. Em os 
quaes vinham cartas de Maluco pêra o Go- 
vernador da índia , e Capitão de Malaca , 
as quaes cartas mandava EIRey Boleife de 
Tarnáte 5 hum das Ilhas de Maluco , e Fran- 
cifeo Serrão , que era hum dos Capitães que 
Aíronfo d'Alboquerque lá mandara , (como 
atrás eferevemos.) E nellas mui eílreitamen- 
te pedia eíle Rey ao Governador, e Capi- 
tão de Malaca , que mandaífe lá navios , e 
gente pêra fazerem huma fortaleza , obri- 
gando-fe EIRey a toda a defpeza que fe 
nifto fizeífe , por defejar muito ter amizade, 
e commercio com EIRey de Portugal , e 
feus vaíTallos , eferevendo também Francis- 
co Serrão muitas coufas daquellas Ilhas , é 
quão proveitofa coufa feria haver nellas- hu~ 

ma 



Década III. Liv. II. Câp. IX. 23* 

.ma fortaleza noíTa , ciando pêra iíTo muitas 
razões. Finalmente D. Triftão fe panio pe^- 
ra aquelle negocio em hum navio , em que 
levou cineoenta homens , e dous juncos de 
mercadores de Malaca , a viagem do qual 
eícrevemos em feu lugar. EIRey de Bintao 
per alguns Mouros, que da fua mão tinha 
em Malaca , foube que não commetterem 
os noflbs fua fortaleza na ida que fizeram , 
fora mais por paixões , e differenças que 
houve entre os Capitães da frota , que por 
outro calo ; e que D. Aleixo de Menezes 
que alli eílava , era fobrinho do Governa- 
dor da índia , e trazia os feus poderes, e 
eftava tão indignado contra os Capitães 
por não commetterem a fortaleza com as 
paixões que tiveram entre íl , que lhe pare- 
cia ante de poucos dias elle em peflba com 
quanto poder havia na • Cidade , haviam de 
ir outra vez fobre fua fortaleza. EIRey tan- 
to que foi difto fabedor , como era fagaz , 
e mui prudente em feus negócios , coníide»- 
rando a maneira que teria pêra abrandar ef- 
ta fúria de D. Aleixo , determinou de lhe 
mandar commetter algum modo de paz. 
Porque fabia que partido elle pêra a índia , 
pêra onde eílava de caminho , fegundo lhe 
diziam, em cuja companhia havia deirFer- 
, não Peres , e muita da gente que viera da 
China , com a que íicaífe em Malaca, de- 
pois 



232 ÁSIA de J0X0 de Bakros 

pois da fua partida , elle fe haveria bem. 
Com o qual fundamento mandou alguns re- 
cados a D. Aleixo , pedindo-lhe que man- 
dafle alguma peíToa a elle pêra praticar íò- 
t>re efte negocio. E como lhe foi aceitado 
per recados que foram , e vieram , houve 
D. Aleixo , e AfFonfo Lopes d' Acoita quall 
por acabado tudo , e que fomente fe deti- 
nha por elles não concederem algumas cou- 
fas, que EIRey delles queria em modo de 
fegurança , pêra que elle pedia vontade do 
próprio Governador da índia , moftrando 
defconfiar fem vontade delle aquelle nego- 
cio ficar feguro , tudo ifto a fim de o dila- 
tar té fe chegar a partida/ de D. Aleixo. O 
qual partido na monção , trazendo comíigo 
Fernão Peres com alguns que com elle vie- 
ram da China , ficou o negocio quall em 
modo de trégua , té elle mandar confirma- 
ção do concerto da paz , que elle EIRey 
deBintão queria, tendo elle no peito guar- 
dada a traição que poz em obra ante de pou- 
co tempo , como íe verá. E porque quan- 
do D. Aleixo chegou a índia , Lopo Soares 
em chegando de fazer a fortaleza de Cei- 
lão , a entregara a Diogo Lopes de Sequei- 
ra, o qual governava já ; he neceífario que . 
nefte terceiro Livro , que ora queremos co- 
meçar, entremos com o novo Governador, 
çfcrevendo as coufas de feu tempo. 

DE- 



DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO III. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defcubrimento , e conquifta das ter- 
ras j e mares do Oriente : em que fe 
contém parte das coufas, que fe 
nelle fizeram em quanto Diogo 
Lopes de Sequeira gover- 
nou aquellas partes. 



CAPITULO L 

Como EIRey D. Manuel o anno de quinhen- 
tos e dezoito mandou por Capitão ge- 
ral , e Governador da índia a> 
Diogo Lopes de Sequeira. 

POrque Lopo Soares neíle anno de 
quinhentos e dezoito acabava os três 
annos , que EIRey D. Manuel per or- 
denança quiz que os Governadores das par- 
tes da índia reíidiíTem nella, e aflí todolos 
Capitães , e Officiaes das fortalezas que nel- 
la tinha, mandou fazer huma groíla Arma- 
da pêra ir Diogo Lopes de Sequeira Al- 
motacel mor do Príncipe D. João feu filho, 
e Alcaide mor da Villa Alandroal , filho de 
Lopo Vaz de Sequeira > que tivera a me£ 

ma 



2$4 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

ma Alcaidaria. Ao qual Diogo Lopes El- 
Rey houve por bem darefta governação da 
índia pola experiência que tinha de lua 
pefíòa , não fomente em a viagem que fez 
a Malaca , quando a deícubrio , ( fegundo 
efcrevemos , ) mas ainda em outras Arma- 
das fobre mar 5 e principalmente na Villa 
de Arzilla em Africa , onde efteve por Ca- 
pitão. E porque com Lopo Soares acaba- 
vam também muitos Capitães , e Officiaes 
os três annos que haviam de fervir , e por 
efta caufa convinha irem outros queosfuc- 
cedeíTem , e gente de armas pêra defensão 
das fortalezas , pola muita que era faleci- 
da ; mandou EIRey aperceber nove velas 
pêra mil e quinhentos homens, de que ci- 
tes eram os Capitães : D. João de Lima , 
que hia pêra fervir EIRey de Capitão de 
Calecut , Ruy de Mello filho de Fernão de 
Mello pêra Capitão de Goa , D. Aires da 
Gama pêra Capitão de Cananor, Garcia de 
Sá filho de João Rodrigues de Sá , Lopo 
Cabreira pêra Alcaide mor de Malaca , João 
Lopes Alvino pêra andar na cofta de Me- 
linde pêra Sofala , Pedro Paulo filho de 
Bartholomeu Forlentim , João Gomes Chei- 
ra-dinheiro pêra as Ilhas deMaldiva. Aper- 
cebida efta frota , partio Diogo Lopes de 
Lisboa a vinte e fete do mez de Março 
-deite anno de dezoito, e com bons tempos 

que 



1 



Década III. Liv. III. Gap. L 235* 

tjue teve, chegou a Moçambique. E ante 
que chegaífe aqui na paragem do Cabo de 
Boa Efperança , hum peixe deo huma en- 
contrada em a náo de D. João de Lima, 
ue cuidaram alguns no eílremecer que ella 
*ez, que dera em algum penedo; e acudin- 
do logo á bomba , parecendo que podia a 
náo fazer agua , viram que não fazia mais 
que a ordinária. Porém depois em Cochij , 
dando pendor á náo, acharam mettido no 
coitado delia hum focinho de hum peixe , 
que feria de comprimento de dous palmos 
e meio , agudo na ponta , e preto , e duro 
á maneira de corno das alimárias , a que 
os Gregos chamam Rhynocero , e nos Gan- 
da , como Lhe os índios chamam. Somente 
tinha eíte huma differença , que a crefpidão 
da fuperficie delle era á maneira de groíTa 
de ferro , e tão dura que o limava , como 
faz huma lima de dura tempera. E parece 
que quando deo efte encontro no cortado, 
entrou grande parte per hum liame , e ao 
efpedir , barafuílando com o corpo , fez ef- 
tremecer a náo , e efnocou per junto das 
cachagens , o qual foi trazido por moílra 
a efte Reyno , dizendo fer de hum peixe , 
c outros de outro. Depois paíTados alguns 
annos confirmei fer do peixe agulha, como 
alguns diziam; porque indo eu pêra o ca£ 
tello de S.Jorge da Mina, que lie na ço£ 
--.-■ i ta 



336 ÁSIA de J0X0 de Bakkos 

ta de Guiné , levando o Piloto per popa do 
navio huma linha com feu anzol pêra to- 
mar os peixes , a que os mareantes chamam 
Albecóras , que são do tamanho , e feição 
do Atum , veio cahir no anzol hum deites 
peixes Agulha, o qual anzol ficou mettido 
entre as duas farpas das cachagens , com 
que teve o peixe, té que ao eílrcmecer do 
navio acudiram todos ; e fufpendcndo o 
focinho fora da agua , ou (por melhor di- 
zer) o bico , tanto andaram marinheiros 
com fifgas , e arpões , que o prenderam per 
muitas partes , e lhe lançaram no governo 
do rabo huma laçada. Finalmente eram ao 
arribar mais de vinte homens , e repartido 
depois per todos , tinha mais polpa do que 
hum touro tem de carne ; e o feu focinho , 
poílo que limaíTe o ferro , e foíTe da feição 
do da náo de D. João de Lima , era mais 
pequeno com o que o outro peixe era 
maior ; e porque ambos eftes dous focinhos , 
ou bicos de peixe tivemos na mão , e o que 
fe tomou nefte navio affirmáram os marean- 
tes fer peixe Agulha , nos parece que tam- 
bém era o outro. Diogo Lopes partido de 
Moçambique, chegou a Goa a oito de Se- 
tembro , onde fe deteve poucos dias , por 
achar nova que Lopo Soares eftava de ca- 
minho pêra ir a Ceilão , parecendo-lhe que 
o podia tomar ante que fe partiiTe pêra lá, 

E fen~ 



Década III. Liv. III. Cap. I. 237 

E fendo tanto avante como Pondarane , foi 
dar com elle António de Saldanha , que (co- 
mo atrás fica ) vinha de Ormuz , onde in- 
vernára ; e pofto que o topou de noite , ei- 
la foi bem alumiada com o fuzilar da ar- 
tilheria , com que fe ambas eftas Armadas 
íalváram. Acabado eíle prazer , foi logo 
António de Saldanha em hum batel vifitar 
Diogo Lopes , e ficou lá com elle toda 
aquella noite ] dando-lhe conta das coufas 
do eítado da índia , que fez apreíTar mais 
a elle Diogo Lopes , não fe querendo de- 
ter pelas fortalezas perque paliou , fomente 
leixava os Capitães que levava pêra relidi- 
rem nellas ; porque fua tenção era (como 
diííemos ) tomar Lopo Soares primeiro que 
partiífe de Cochij pêra ir a Ceilão , e im- 
pedir-lhc aquella ida , por não fer coufa 
tão importante naquelle tempo a fortaleza 
que hia fazer , como outras coufas , que le- 
vava d ? ElRey mais encommendadas , pêra 
as quaes lhe convinha agente, e náos, que 
Lopo Soares levava pêra aquelle feito. Mas 
os tempos foram taes, que em Baticalá o 
detiveram nove dias , donde mandou reca- 
do a Lopo Soares fomente polo entreter; 
e chegou eíle feu recado a Cochij huma 
tarde da manhã , que elle Lopo Soares era 
partido. E porto que efte recado per man- 
dado de Diogo Lopes não paíTou mais adi* 

an- 



338 ASIÀ de João de Barros 

ante, ao caminho foi avifo a Lopo Soares 
da vinda dellc Diogo Lopes , o qual elle 
diífimulou , e foi avante com leu intento, 
que acabou (como efçrevemos.) Chegado 
Diogo Lopes a Coçhij , onde foi recebido 
com muita fefta , teve elle tanta temperan- 
ça , e reverencia á peflba de Lopo Soares , 
que não quiz poufar na fortaleza , que he 
o apofentamento dos Governadores , e aga- 
zalhou-íe em humas cafas de Lourenço Mo- 
reno, em quanto Lopo Soares não veio de 
Ceilão , nem ufou de feu officio té delle re- 
ceber a entrega , fegundo a EIRey manda- 
va em fuás Provisões com as folemnidades 
coftumadas , porque tinha Lopo Soares hu- 
ma Provisão que governaíTe té fe de todo 
embarcar. Depois da vinda do qual , que 
foi a vinte de Setembro , teve ainda Dio- 
go Lopes muito primor nos cumprimentos 
de honra com elle , o que té hoje não te- 
mos viílo , ante grandes defgoftos , e taes , 
que podiam bem macular a honra , não dos 
que fe embarcaram , (porque os mais dei- 
tes muita ganharam na paciência do que lhe 
foi feito , ) mas daquelles , per cujas culpas 
iè partiram bem defcontentes \ matéria cer- 
to não de barões , que entram em tão gran- 
de coufa , como he o governo da índia. A 
qual neítes aítos fempre lhe vimos aos feus 
ixovos Gpvernadores: moítrar bom roíto, q 

o con- 



Década III. Liv. III* Cap. L 23? 

o contrario aos que fe partem delia ; e o 
que peior he , que quem nelJa mais íuor, 
ç fangue verteo pola fervir, menos galar- 
dão tem de íeus frutos : quafi como que 
quer fer tida por crua madrafta de huns, 
e a tempo Jifongeira madre de outros , cer- 
to duro caftigo de Deos , cuja cauía he es- 
condida a muitos , e a poucos delcuberta. 
Lopo Soares entregue a índia a Diogo Lo- 
pes , partio-fe de Cochij , e veio per Cana- 
nor , onde tomou gengivre , e dahi pêra 
efte Reyno a vinte de Janeiro, anno de de- 
zenove , com nove náos carregadas , com 
que chegou a elle. Parece que toda a for- 
tuna delle Lopo Soares eílava em ir, e vir 
com fua frota , e boa carga de efpeciaria , 
porque defta vez não lhe fuccedêram as cou- 
ias da governança da índia tão profpera-* 
mente , ao menos na ida do mar Roxo , 
como a primeira vez o anno de quinhen- 
tos e quatro no feito de Panáne. Diogo Lo- 
pes ficando em feu governo , em quanto al- 
li efteve em Cochij , efpedio alguns Capi- 
tães per diverfas partes por a neceffidade 
que diífo havia : D. AfFonfo de Menezes 
com três navios pêra eftar fobre a barra de 
Baticalá , fem leixar entrar , ou fahir vela 
alguma , té elle Diogo Lopes alli fer , e to- 
mar vingança do Governador da Cidade^ 
poreftar alevantado contra nós, e não que* 

rer 



140 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

rer pagar as páreas que devia. E aílí efpe- 
dio a João Gomes Cheira-dinheiro pêra ir 
fazer huma fortaleza nas Ilhas de Maldiva , 
onde EIRey D. Manuel mandava que el- 
le ficaíTe por Capitão. No qual tempo tam- 
bém eípedio Chriftovão de Soufa com hu- 
ma Armada de três velas , ellc em huma 
galé j e em duas caravelas Ruy Gomes 
d 5 Azevedo d'Elvas , e Lourenço Godinho. 
Ao qual fe havia de ajuntar João Gonçal- 
ves de Caftello-branco , que com três fuftas 
citava fobre a barra de Dabul por manda- 
do de Lopo Soares , polo que alli paflara 
D. João de Monroy por caufa de Álvaro 
de Madureira , que andava lançado com os 
Mouros ? (como atrás efcrevemos ,)e áe 
caminho havia elle Chriftovão de Soufa le- 
var de Goa dous catures , que lhe havia de 
dar Ruy de Mello Capitão delia 5 como 
deo , com que elle Chriftovão de Soufa fez 
corpo de cinco velas , em que levava té 
cento e feífenta homens. Diogo Lopes 5 def- 
pachados eftes Capitães ; e providas as cou- 
ias de Cochij ? partio-fe pêra Goa 3 e de ca- 
minho veio provendo as fortalezas de Ca- 
lecut , e Cananor, e aífi no levantamento 
de Baticalá , onde tinha mandado D. Af- 
fonfo de Menezes 5 tornando o Governa- 
dor á nòíTa obediência com pagar as páreas 
que devia : , e outras fatisfações que Diogo 

Lo-» 






Década III. Liv. III. Cap. I. 241 

Lopes quiz delle porcaufa da rebelião paf- 
fada. Chegado Diogo Lopes a Goa , co- 
meçou logo a entender em mandar outros 
Capitães a diverfas partes : o primeiro foi 
António de Saldanha com huma frota de 
mais quatro velas além das que trazia com- 
ilgo pêra andar na coita de Arábia , e dahi 
vir invernar a Ormuz, e de caminho paf- 
íar pela coíla de Dio , onde fe havia de de- 
ter, efperando as nãos de Meca peío mo- 
do que fez , quando Lopo Soares o enviou. 
E aífi mandou Simão d 5 Andrade pêra a Chi- 
na com certos navios , ao qual EIRey Dom 
Manuel proveo de cá per feu Alvará da 
capitania mor daquella viagem , depois que 
vieíTe feu irmão Fernão Peres d 5 Andrade. 
O qual a efte tempo era já chegado á ín- 
dia em companhia de D. Aleixo de Mene- 
zes , que (como atrás fica ) partiram de Ma- 
laca , nas coftas dos quaes veio nova como 
os commettimentos de paz , que EIRey de 
Bintam movera , tudo fora ílmulações té fe 
D. Aleixo partir , e que viera fobre Ma- 
laca com grande poder 5 a qual mettêra em 
grande trabalho , e que ficava em muito 
maior , aífi por eílar desfalecida de manti- 
mentos , como de gente , e eífa pouca que 
havia era toda enferma ; por caufa da qual 
nova , e aífi por aproveitar António Cor- 
rêa , com que tinha razão de parentefco ^ 
Tom.III. P.L <X, cl- 



242 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

elle lhe deo huma náo ? e hum navio , que 
fofle a Malaca com algumas provisões que 
de lá pediam , onde o Capitão Affoníb Lo- 
pes d' Acoita lhe daria mais dous juncos , 
com que foíle a Pegu aflentar paz , e trato 
com o Rey delle ; e carregados os juncos 5 
e navios de mantimentos , por alli haver 
grande cópia delJes , os enviaíle a Malaca 
pêra provisão delia , e elle carregaííe a náo 
de outras mercadorias , que tem valia em 
Ormuz , e as levaíTe lá. Mas Deos ordenou 
eíla fuá ida de outra maneira mais em fa- 
vor das coufas de Malaca , pêra entendi- 
mento das quaes convém dizer primeiro 
o que íe neila paliou depois da vinda de 
D- Aleixo. 

CAPITULO II. 

Do que fe pajfou em Malaca depois que 
D. Aleixo de Menezes fe partio , ajji no 
cerco que lhe EIRey de Bintam poz , como 
fta vitoria que os noffos houveram na ida 
do rio Muar , tomando-lhe a fortaleza que 
alli tinha feita na entrada do rio. 

AO tempo que D. Aleixo de Menezes 
partio de Malaca , ficava a Cidade no 
eftado que diflemcs , e peró que com efpe- 
rança de paz ? fegundo EIRey de Bintam 
fimulava 7 com as cautelas que niflb mofixa- 

va 



Década III. Liv. III. Cap. IÍ. 243 

va ter : leixou-a D. Aleixo afli fortalecida , 
que pode foffrer o impero da vinda d'El- 
Key , que dahi a poucos dias per terra , e 
mar a veio commetter. Per terra com mais 
de mil e quinhentos homens com muitos 
Elefantes armados ; e per mar com feíTen- 
ta lancharas, ecalaluzes, navios mui guer- 
reiros , e leves no remo. Chegado huma 
manha fubitamente com efta frota , e exer- 
cito , poz os noíTos em grande coufusão , 
e trabalho j porque na fortaleza não have- 
ria mais que té duzentos homens , muita 
parte delies doentes de febres , e outras en- 
fermidades, que fe geram da corrupção dos 
peftiferos ares que a terra tem por razão 
de feu íitio. Porém como a honra, e a vi- 
da nos taes conflitos ambas fe animam pê- 
ra fe defender, foi efta vinda d'ElRey de 
Bintam quaíi hum aziar pêra efquecerem to- 
dalas febres de maneira , que a muitos não 
lhes vieram mais , e todos cobraram força 
pêra fe levantar, e veftirem as armas. Af- 
fonfo Lopes , 'ante defta vinda d'ElRey, ti- 
nha repartida a vigia , e guarda da Cidade 
em eftancias , e eftas em capitanias per ef- 
ta maneira. Na parte da povoação chama- 
da Ilher , em duas eftancias feitas fobre a 
cava , eftavam Francifco Fogaça , e André 
PeíToa ; e no outeiro ? que eftá fobre a nof- 
ia fortaleza , onde depois Duarte Coelho 
Q^ii fun- 



244 AS1A de João de Babkos 

fundou huma Ermida da vocação de NoC- 
fa Senhora da Graça , eftava Jorge Botelha 
de Pombal , e os Portugaezes caiados na 
terra , onde chamam a Bato China ; e na 
ponte , que atravefla o rio per onde vam 
á povoação grande dos Mouros , que he 
contra Úpij , guardava Fernão de Lemos ; 
e a guarda deita meima povoação , que tam- 
bém eftava cercada de cava , per que entra- 
va agua, tinha elleAffonfo Lopes entregue 
ás principaes cabeceiras dos Mouros , e Gen- 
tios que alli viviam : aíli como aoBendára, 
ao Colafcar , ao Tamungo , e outros , todos 
offerecidcs a morrer por fua cala, mulher, 
e filhos : cá tinham por certo fe EIRey de 
Bintam entrafle a Cidade , não haver de fi- 
car algum com vida polo ódio em que ef- 
tava com elles. Do mar tinha cuidado Du- 
arte de Mello Capitão mor delle, com os 
outros Capitães , que eram D. Rodrigo da 
Silva , Fernão Figueira , Diogo Mendes , 
Gabriel -Gago, Carlos Carvalho , e elle Af- 
fonfo Lopes ficava pêra acudir ás eftancias 
da terra , onde vifle mais neceffidade. Che- 
gado EIRey huma manhã (como diíTemos) 
foi a tempo que a maré era vazia , e os 
noíTos navios eftavam quafi todos na vafa , 
que cauíbu terem os imigos lugar pêra pôr 
fogo a huma galé noffa defemmafteada , que 
eftava pêra fe renovar , por fer já mui ve- 
lha , 



Década IIL Liv. III. Cap, II. 245* 

lha , e aíli a duas náos de mercadores já des- 
carregadas. E como a primeira noticia , que 
os noílbs tiveram deita vinda d'ElRey , foi 
a moítra da fua Armada do mar , já quan- 
do punham fogo a eftas peças , todos na- 
quelle primeiro fubito da viíla acudiram á 
praia , cuidando que queria poiar em terra. 
Porém quando elles nas coitas ouviram hu- 
ina grita de outros , que fahíram do mato , 
onde eítavam lançados em cilada, eremet- 
tiam ás eílancias que diíTemos , leixou A£- 
fonfo Lopes d 9 Acoita eíta parte do mar en- 
tregue a Duarte de Mello 9 que a defen- 
deífe , e com a outra gente ordenada ás es- 
tancias acudio a elles , onde já achou Mou- 
ros da Cidade, que lhe defendiam a fubi- 
da. E poílo que eítes imigos da cilada na- 
quelle primeiro Ímpeto ouíadamcnte com- 
mettêram as eílancias , como quem nellas 
achou fraca defensão , por fer da gente da 
terra ; tanto que os noífos chegaram , aíli 
lhes puzeram o ferro de vontade , que os 
fizeram defcer dos lugares das eílancias , on- 
de tinham fubido , havendo entre elles hu- 
ma cruel competência á cufta do fangue , e 
vida de muitos 5 aíli ás lançadas , efpingar- 
dadas, como com alguns berços encarreta- 
dos , que Aífonfo Lopes mandou trazer aos 
lugares de maior perigo , que varejavam, 
e defpendiam bem de pelouros. Duarte de 

Mel- 



146 ÁSIA de Joio de Barros 

Mello com os outros Capitães , por caiifa 
da maré , detiveram- fe hum bom pedaço 
primeiro que nadaífem , pêra ir commetter 
os imigos j e tanto que começaram defpa- 
rar nelles fua artilharia , defparelháram tan- 
tos , que lhe conveio a elles alargarem- fe 
hum pouco , com que os noííos tiveram tem- 
po de apagar o rogo , que tinham poíto. 
Mas não foi eíte negocio tão levemente de 
fazer , que primeiro não cuftaíTe vidas , e 
fangue dos noíTos ; porque Gabriel Gago 
com quantos levava na fua lanchara fe af- 
fogáram per defaftre de lhes faltar fogo na 
pólvora , fem poder fer fòccorridos , quan- 
do a lanchara fe abrio , por todos terem 
tanto que fazer em íi , que não podiam foc- 
correr aos outros. E a Diogo Mendes Ca- 
pitão da outra , huma bombarda dos imi- 
gos lhe levou a cabeça fora dos hombros, 
ficando o toro do corpo em pé. Finalmen- 
te aífi no mar , como na terra ? os noííos 
tiveram tanto que fazer per efpaço de três 
horas , que durou aquella fúria , que fe con- 
tentaram com ficar em poífe do leu , reco- 
lhendo-fe os imigos aos lugares , que ele- 
geram pêra feu alojamento : os do mar pê- 
ra a Ilha grande , que eílá defronte da Ci- 
dade ; e os da terra quaíí á vifta das eftan- 
cias , fazendo-fe todos fortes , como quem 
vinha de vagar 7 e aífi o fizeram y porque Eí- 

Rey 



Década III. Liv. III. Cap. II. 247 

Rey per dezoito , ou vinte dias contínuos 
teve os noíTos cercados , dando-lhes per mui- 
tas vezes duros , e fortes combates , que os 
trazia mui canfados aífi do trabalho , como 
da vigia , e neceífidade de mantenedores , 
que lhes começaram falecer. Mas aprouve 
a Deos que em todo efte tempo os imigos 
acharam nelles tanta reíiítencia , e houve en- 
tre elles tantos mortos , e feridos , que ven- 
do EIRey que recebia mais damno do que 
fazia , e que os noíTos começavam já tomar 
tanta oufadia contra elles , que o hiam com- 
metter , temendo que faltaíTem com elle den- 
tro no feu próprio arraial , huma noite o 
mais caladamente que pode , fe partio , tor- 
nando-fe ao Pago , donde viera. Na qual 
vinda , pofto que deo muito trabalho aos nof- 
fos , e delles morreííem dezoito homens , 
aíll no mar , como na terra , de que os prin- 
cipaes foram os Capitães , que nomeámos , 
dos imigos fe foube ferem mais de trezen- 
tos e trinta , e hum grande número de fe- 
ridos , com que EIRey entre os Mouros , 
que viviam em Malaca , perdeo muito cre- 
dito, vendo que deite feito em que ellepoz 
todas fuás forças , e os noíTos eram pou- 
cos , e mui debilitados nellas por caufa da 
enfermidade , e fome , que padeciam , em 
todolos combates fempre levou a cabeça 
quebrada. Elle como teve cila experiência , 

que 



248 ASIÀ de João de Barros 

que rofto por rofto não podiam levar o 
melhor delles , po r pelejarem como gente , 
que não tinha mais falvação que o feu bra- 
ço , determinou tornar á guerra que lhe an- 
te fazia , por fe achar melhor delia , man- 
dando fuás lancharas correr a Malaca , e 
a faltear os juncos, qnç a ella vinham. E 
algumas vezes per terra íiiandava gente , que 
commettiam as tranqueiras, combatendo-as 
de dia y e de noite ; e como achavam de- 
fensão , tornavam-fe recolher, parecendo- 
lhes que algum dia podiam tomar os nof- 
fos defcuidados ; ou ao menos pêra os can- 
far tanto , que entre efte trabalho da guerra y 
enfermidade da terra , e fome que lhe fazia 
padecer , defendendo-Lhe trazerem manti- 
mentos , os podia diminuir de maneira , que 
não houveíTe quem defendefle a Cidade , e 
fe vieíTe metter nella. Pêra confeguir o qual 
effeito, tirou da força que tinha no rio de 
Muar o Capitão Ciribiche , que vinha fazer 
eftes faltos , e poz outro per nome Sanfo- 
tea de Raja , que era o mais affamado ca- 
valleiro daquellas partes. E o que tinha da- 
do a eíle Mouro tanto credito entre elles , 
era por ter acima do artelho hum mamillo 
de carne duro á maneira de callo , á feme- 
lhança de efporão de gallo , e haviam to- 
dos que efte final era de animofo ; porque 
naquellas partes como acham gallo , que 

tem 



Década III. Liv. III. Cap. II. 249 

tem grande efporão , dam por elle muito , 
por os achar mais feroces que os outros, 
que o tem menor, nos defafios em que os 
mettem • por fer coufa mui coílumada , e 
hum grande pafíatempo , e delicias, que os 
nobres daquella região coítumam ter , prin- 
cipalmente em Patane, metterem eítes gal- 
los em defafio ; E perde-fe , e ganha-le gran- 
de íbmma de dinheiro nas apoftas , que fo- 
bre iíTo fazem os que vam ver eíle eipeíta- 
culo ; porque huns põem por parte de hum 
gallo , e outros por outro ; do qual duel- 
lo, e peleja ha juizes , que julgam qual dei- 
les o fez melhor. Efte Sanfotea de Raja , 
pofto que era cavalleiro de fua peíTba , e 
bom Capitão , mais tinha ganhado efta opi- 
nião que delle havia com artificio, e ardis 
da guerra , que por feu próprio braço. Por 
não perder a qual opinião , e mais moílrar 
quanta diíferença havia delle a Ciribiche , 
per hum grande tempo, aill per mar, co- 
mo per terra , fez muita guerra á fortaleza. 
E tanto a apertou com defender que lhe 
não yíqíCq mantimento , e da índia foi tar- 
de provida , que valia algum que fe acha- 
va tanto preço , que quaíi ficava pezado 
a ouro; e de não haver vinho, muitos dias 
fe leixou de celebrar MiíTa. Com a qual 
neceiíidade poz os homens em tal eítado en- 
tre fome , e doença P principalmente a gen- 
te 



150 ÁSIA de João de Barros 

te commum , que não podiam mover os 
braços ; no qual tempo tiveram algum foc- 
corro com avinda de António Corrêa , que 
(como atrás diíTemos ) Diogo Lopes de Se- 
queira mandara áquella Cidade com algu- 
ma provisão , e dalli havia de levar dous 
juncos a Martabam , ou a Pegu carregar de 
mantimentos. O qual , em quanto elles fe fa- 
ziam preftes , aífi com o que trouxe, como 
com íua pefiba , muito reíiftio aos rebates , 
com que eíle Sanfotea de Raja apertava a 
Cidade : té que fobreveio coufa não cuida- 
da dos noíTos , ( fendo já António Corrêa 
partido pêra Pegu , ) com que elle Sanfo- 
tea perdeo a vida em huma vitoria que hou- 
veram delle; e ocafo fuccedeo perefta ma- 
neira. Continuando elle eíte modo de nos 
fazer a guerra , per terra rebates nas tran- 
queiras , e* per mar correndo a Malaca , ás 
vezes mais a femoftrar que a pelejar, con- 
vertia a vingança do que não podiam fa- 
zer em esbulhar os navios , que vinham á 
Cidade , principalmente áquelíes que eram 
de partes , que eítavam em noífa amizade , 
e aos outros fazia entrar no rio de Muar, 
e tomando-lhes o melhor do que traziam , 
como direitos , e do mais pagava-lhes ao 
preço que queria ; dizendo que aquelías cou- 
laseram peraElRey de Malaca feu Senhor, 
o qual poílo que tiveífe perdido a polTe do 

fitio 






Década III. Liv. III. Cap. II. 25T 

íitio da Cidade , não tinha perdido a pof- 
fe da navegação daquelles dons eftreitos , 
per que fe navegava a ella ; por razão do 
qual fenhorio fe lhe devia tudo o que lhe 
pagavam quando em fua profperidade el- 
le eftava em Malaca. E aconteceo que en- 
tre eftas tomadias foi o junco de hum mer- 
cador Jáo de nação , que continuava vir 
muitas vezes a Malaca com mantimentos , 
ao qual elle metteo dentro no rio Muar> 
e levou á fortaleza que tinha y com lhe di- 
zer querçr-lhe pagar quanto trazia. Porém 
depois que o esbulhou de todo , diífe-lhe 
que da vida lhe fazia graça ; pois fendo nós 
imígos delRey feu Senhor , com quem elle 
filava de fogo , e fangue , por o terem lan- 
çado fora da fua Cidade 3 elle trazia man- 
timento , e outras coufas pêra nos fuílentar , 
e favorecer. Finalmente o Jáo quando fe 
vio perdido de todo , fomente com o caf- 
co do navio veio-fe a Malaca aprefentar a 
AfFonfo Lopes d'Acoíla , dizendo fer-lhe 
feito aquelle damno por noífa caufa , e que 
Sanfotea não dava outra razão de o esbu- 
lhar do feu. Affonfo Lopes d' Acoita , por- 
que eíle Jáo era homem mui poderofo , e 
acreditado na Cidade entre todolos merca- 
dores 5 fentio muito eíle mal que lhe foi 
feito ; porque perdendo elle o feu , fem ou- 
tra emenda ; ou reítituiçao , não oufaria mer- 
ca- 



2^2 ÁSIA de João de Barkos 

cador algum vir á Cidade , com que fe per- 
deriam de todo , pois ella de fi não tinha 
coufa alguma. E depois que o confolou de 
íua perda , dando-lhe efperança de reftitui- 
çao delia , eíteve-lhe perguntando polo lu- 
gar onde Sanfotea tinha adernada a forta- 
leza y e outras coufas de que defejava ter 
mais informação , do que elie tinha vifto 
delia , quando lá foi , como efcrevemos 
atrás. O Mouro depois que fatisfez ás per- 
guntas de Affonfo Lopes , affirmou-fe em 
que elle daria modo como aquella fortale- 
za foffe tomada , dando pêra iflb razoes 
Í)or caufa das entradas , e fahidas , que el- 
e notou , affi pela parte do mar , como da 
terra. Finalmente poílo eíle negocio em con* 
felho , chamando Aífonfo Lopes pêra iíTo 
as principaes peíToas , depois que fe ouvi- 
ram razões humas em contrario de outras , 
em que havia dúvida no commettimento 
deita fortaleza ? pola ida paífada que foi 
fem fruto algum , como por parte do cre- 
dito que fe dava pêra tamanho feito a efte 
Jáo j venceram outras razões. E aíTentou-fe 
que Duarte de Mello devia ir cornmetter 
eíta força , repartindo logo o commettimen- 
to delia per duas partes : huma per mar de 
rofto a ella , e outra per terra per hum cer- 
to lugar , porque o mefmo Jáo oífendido 
promettia levar a gente encubertamente , té 

a pôr 



Década III. Liv. III. Cap. II. 25*3 

a pôr pegada nos páos da tranqueira , on- 
de não havia mais perigo , que refguardar- 
fe dos eflerpes de peçonha , que alli eítavam 
femeados , os quaes elle iria tirando todos , 
por os noflbs náo encorrerem neíle perigo. A 
qual entrada per terra AíFonfo Lopes d 5 Aco- 
ita encommendou a Manuel Falcão , debai- 
xo da capitania do qual havia de ir António 
Lobo Falcão feu fobrinho , Diogo Pache- 
co j Manuel Pacheco feu irmão , Diogo Bran- 
dão do Porto , João Guedes de Santarém, 
e outras peíToas nobres ; e omefmojáo com 
dous filhos , e alguns criados hiam diante 
por guia de todos. Levando mais eíla or- 
denança , que tanto que entraílem no rio 
Muar, hum pedaço ante de chegar á for- 
taleza , que havia de fahir Manuel Pache- 
co com fua gente em hum certo lugar , e 
ir per huma vereda , que corria entre a ef- 
pefTura do arvoredo ao longo do mar. A 
qual vereda hia dar nas tranqueiras da for- 
taleza , per a qual o Jáo os havia de enca- 
minhar; e não haviam de commetter a en- 
trada delia , fenao depois que ouviífem va- 
rejar a artilheria , com que Duarte de Mel- 
lo per mar a havia de combater. AíTentada 
efta ida o mais fecretamente que fe pode 
fazer, apercebeo-fe Duarte de Mello, com, 
fama que havia de ir ao eílreito de Sabão 
dar guarda aos navios que vinham á Cida* 

de, 



2^4 ÁSIA de João de Barros 

de, por não receberem damno da Armada 
que trazia Saníotea de Raja. E tanto que 
de todo foi preftes , partio Duarte de Mel- 
lo vefpera de todolos Santos do anno de 
'quinhentos e dezenove , levando em toda 
a frota té duzentos homens , de que feriam 
cento e vinte Portuguezes , e os mais eram 
Malayos da terra , e foi a tempo que lhe 
amanheceo no lugar , onde Manuel Falcão 
havia de fahir. O qual tomando ojáo por 
guia, fegundo tinham afíentado, começou 
caminhar com aííás trabalho ; porque como 
a terra era alagadiça , e havia alguns eftei- 
ros que paliar , e fobre iflb aquella noite 
chovera, hiam todos mais pêra tomar por 
repoufo huma chaminé de fogo , onde fe 
enxugaífem , que do fogo de pólvora que 
acharam. Duarte de Mello , por lhe dar 
efpaço a elles fazerem efte caminho ^-e tam- 
bém por fer menos fentido , a remo furdo 
foi de vagar , té que ao tempo que lhe pa- 
receo que feriam no lugar que ojáo dizia, 
fe moílrou ante a fortaleza , dando Sant-Ia- 
go com a artilharia. Manuel Lobo tanto 
que a ouvio , como ainda não eílava jun- 
to da tranqueira , apreílbu o Jáo que hia 
diante ás ccftas de hum efcravo feu tirando 
os efterpes , o qual com a prefla defcido dos 
hombros do efcravo , por muito refguardo 
que teve, não andou muitos. pálios que não 

foi 



Década III. Liv. III. Cap. II. 25-5* 

foi encravado , com que lhe conveio tornar 
a íubir aos hombros do mefmo efcravo : 
mas aproveitou-lhe pouco , por fer a peço- 
nha delles de tanta potencia 5 que morreo 
logo. Manuel Falcão pofto que perdera a 
guia , não leixou de feguir feu caminho , 
levado ante li dous filhos do Jáo homens , 
e os feus efcravos , que lhe foíTem tirando 
eftes efterpes. Dos quaes pofto que Deos 
guardou Manuel Falcão , não fe pode elle 
guardar na primeira chegada 3 commetten- 
do entrar na tranqueira j porque veio h li- 
ma das bombardas , que os imigos naquel- 
la parte tinham pofta, que lhe quebrou hu- 
ma perna ? com que logo ficou quaíl mor- 
to ao pé de huma palmeira. Vendo os no£* 
fos que com elle hiam em que eítado fica- 
va o leu Capitão , e o Jáo guia , que os 
té li trouxera era efterpado , e outros que 
fe não puderam guardar, ficaram fufpenfos 
no que fariam , porque ainda nefte tempo 
não tinham fabido do que fazia Duarte de 
Mello , fomente ouviam na parte do mar 
os trons da artilheria , per que fabiam fer 
já diante da fortaleza. E citando aífi con- 
fufos , levantou a voz hum João Fernandes 
de Santarém , e diíle contra todos : Senho- 
res , que fazemos ? Aqui eftá o Senhor ; Dio~ 
go Pacheco , tomemos a elle por Capitão \ 
porque elle he tal cavalleiro , que nos met* 

te- 



256 ÁSIA de JoXo de Barkos 

terá em parte onde ganhemos honra com 
"vitoria. Com o qual parecer houve , nos 
que fealli acharam juntos , hum rumor que 
eram nefte voto. Ao que Diogo Pacheco 
refpondeo : Não he tempo ãe mais eleição y 
nem de Capitão .> cada hum ofeja defi mef- 
mo : Sant-Iago. No qual appellido affi fi- 
caram animados , que como homens , que 
fe offereciam em facrificio a Deos , todos 
juntamente commettêram a tranqueira , on- 
de acharam afias reíiftencia , porque ella ef- 
tava naquella parte -já mais defcnfavel, do 
que aleixou o Jáo , que levou efte ardil de 
commetterem a entrada per aquella parte, 
Duarte de Mello pela outra , que eftava fron- 
teira a margem do rio , poz-fe a dar ba- 
teria per meio de fogo , fettas , e outros 
aguilhóes de morte , huns de arremeflb , ou- 
tros a mão tenente , paííando avante , té que 
fez affaftar os Mouros. E porque affi neíta 
fua entrada , como na outra do Sant-Iago , 
que deo Diogo Pacheco , era tamanha a fu- 
maça , e tanta a confusão , que huns fe não 
conheciam dos outros , fomente no appellido , 
leria coufa muito mais confufa , e incerta 
querer dar razão do que cada hum fez, e 
diíTe , depois que a fúria accendeo o animo 
de todos : baile faber que efpaço de duas 
horas os Mouros fe defendiam animofamen- 
te. Porque além de paíTarem de oitocentos 

ho- 



Década III. Liv. III. Cap. II. 257 

homens , número mui deíigual dos noffos , 
eram todos gente limpa , em que entravam 
obra de trezentos Mandarijs , que são co- 
mo entre nós os Fidalgos , e muitos deites 
tinham eíte appellido Raja , que (como já 
efcrevemos ) le dá em denotação de gran- 
de honra , ao modo que nós temos o titu- 
lo de Conde. Peró nem a cavalleria , nem 
a nobreza , nem o leu Capitão tão nomea- 
do Sanfotea de Raja , o qual alli fez ma- 
ravilhas, os pode livrar de morte, leixan- 
do a fua bem vingada em vidas , e fangue , 
que derramaram dos noííbs. Finalmente ef- 
te foi hum dos honrados feitos , que fe na- 
quellas partes fizeram , alli no commettimen- 
to , como no pelejar delle , no qual quaíl 
todolos Mouros , que defendiam aquella 
força , ficaram eítirados no meio delia , e 
delles foram cativos , fem algum eftar in- 
teiro em fuás carnes ; e dos noíTos morre- 
ram mui poucos , porém feridos houve aífás. 
Havida efta vitoria , mandou Duarte de Mel- 
lo recolher a artilheria que nella eítava, a 
qual paíTou de trezentas peças , em que ha- 
via muitas de bronco fem outro esbulho; 
porque como todos eftavam alli em guar- 
nição , e defensão deita força ? não tinham 
mais movei , que quanto traziam fobre fuás 
peflbas , e per derradeiro foi queimada , e 
Feita em cinza. Duarte de Mello, porque 
Tom.III.P.L R a Ar- 



i$$ ÁSIA de JoXo de Barros 

a Armada ? que hia dar os rebates a Mala- 
ca , tanto que elle entrou no rio per man- 
dado do Capitão Saníbtea de Raja , fe re- 
colheo per elle acima, quizera ir trás ella 
té o lugar do Pago, onde EIRey de Bin- 
tam eftava , e em modo de falto dar tam- 
bém fobre elle com aquella vitoria , que lhe 
Noíío Senhor moftrava ; mas não o pode 
fazer. Porque como EIRey tinha fabido que 
a fua Armada , por grande que foííe , não 
havia de poder refiftir á noffa ; toda a fua 
guerra era fahirem dalli as fuás lancharas 
a faltear os juncos, que vinham a Malaca , 
e ás vezes dar moftra de íi á Cidade , em 
modo de rebate , e tornar-fe logo a reco- 
lher a efta guarida do rio. E temendo que 
a noífa Armada podia fubir pelo rio acima y 
té onde era o Pago íèu apofento , tinha man- 
dado atraveíTar o rio com grande tranquia 
de madeira em partes , porque as noífas, 
•quando fubiftcm acima , foííe per caneiros 
mui eftreitos , e de palia gem perigofa. O 
primeiro atalho dos quaes era ante de che- 
gar a efta força que lhe tomaram , e acima 
delia outro , e outros de maneira , que da- 
hi á povoação do Pago , onde EIRey eílava , 
nos lugares mais eftreitos havia eftes atra- 
veíFados de tranquia. E fegundo Duarte de 
Mello foube dos cativos que alli houve, a 
çaufa porque Sanfotea de Raja mandou que 

fua 



Década III. Liv. III. Cap. II. 2^9 

fua Armada fe foíTe per o rio acima , foi 

{>orque lhe pareceo que elle Duarte de Mel- 
o não vinha a mais , que a lha queimar, 
e não a commetter a fortaleza , por eítar 
mui defenfavel , e com mais gente , que 
quando alli foi ter o Capitão Affonfo Lo- 
pes d' Acoita , que levava dobrada frota do 
que elle trazia. Vendo Duarte de Mello , 
depois que fe embarcou , a fegunda eítaca- 
da de tranquia , que eílava logo acima da 
fortaleza , e que acima havia outras, que 
lhe impediam feu defejo , contentou-fe com 
aquella tão illuftre vitoria ,. que lhe NoíTo 
Senhor deo, e veio-fe pêra Malaca, onde 
foi recebido com grande feita , e prazer de 
todos , por ficarem defabafados dos febre- 
faltos deite Capitão Sanfotea , e mais pode- 
rem haver mantimentos de fora , que com 
temor delle não vinham , coufa que os mais 
atormentava, que a meíma guerra. 



Rii CA- 



2Óo ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO III. 

Como Garcia de Sã foi ter a Malaca , 
e Ajfonfo Lopes d^AcoJla , por ejlar mui 
doente , lhe entregou a capitania da Cida- 
de , e fe veio d índia , onde morreo em che- 
gando : e do que António Corrêa pajjbu afji 
em Pegu , como em Malaca , onde Diogo 
Lopes de Sequeira o mandou. 

HA vendo pouco mais de três mezes que 
eíle feito era paliado , adoeceo Affon- 
ío Lopes d'Acoíla Capitão da Cidade , a 
qual quiz NoíTo Senhor livrar de outras taes 
revoltas , como vimos que houve nella fo- 
bre o fucceder á capitania por falecimento 
de Jorge de Brito ; porque em tal eftado 
eítava Affònfo Lopes , que não dava a fua 
doença muita efperança de vida. E ante que 
o NoíTo Senhor levaííe , acertou de vir á 
índia Garcia de Sá fiiho de João Rodrigues 
de Sá, a quem Diogo Lopes de Sequeira 
deo licença , que em quanto não entrava em 
cargo algum , e elle não hia ao eftreito de 
Meca , onde efperava ir o anno feguinte , 
foíle em huma nio a Malaca fazer feu pro- 
veito. E também a fim que com fua che- 
gada , Malaca receberia favor, aíli de gen- 
te , como de mantimentos , porque de todas 
eftas coufas havia de ir bem provido : e 

mais 



Década III. Li v. III. Cap. III. 261 

mais tornaria na monção de Dezembro com 
o cravo , noz , maça , e as outras fortes de 
drogas , que daqucllas partes foiem vir pê- 
ra a carga das náos , que haviam de partir 
o Janeiro feguinte de quinhentos e vinte. 
Affonfo Lopes d'Acofta quando vio Garcia 
de Sá , peífoa tão principal, e que levava 
comíigo paílante de felfenta homens de ar- 
mas , além da gente que amarinhava a náo , 
houve que NoíTo Senhor o vinha a ver , 
e á mefma Cidade , porque elle eftava mui 
delconfiado de fua vida ; e fegundo lhe dizia 
o meftre , no mar, ou na índia podia ha- 
ver faude. Finalmente chamando elle Affon- 
fo Lopes os Capitães , officiaes , e peíToas 
principaes da Cidade , lhes propoz o eftado 
em que eftava ; e que vendo quanto com- 
pria a ferviço d'ElRey , e bem daquella Ci- 
dade fer governada per huma tal peífoa, 
como era Garcia de Sá , elle dcfiftia da ca- 
pitania , e lha entregava , pois a fua doen- 
ça era mais de morte que vida. E fua ten- 
ção era ir-fe pêra a índia na própria náo , 
em que elle Garcia de Sá fora , com o qual , 
(fegundo já o tinha praticado , ) haviam de 
ficar mais de feífenta homens , que vinham 
em fua companhia pêra guarda , e defensão 
da Cidade, que era hum grande foccorro 
para ella , por quão desfalecida eftava de 
gente , e a que havia (como todos fabiam ) 

ef- 



3Ó2 ÁSIA DE JoÁO DE BARROS 

eítava doente, enão mui inteira nas forças 
corporaes pêra foffrer os trabalhos daquel- 
la terra, que fempre havia miíier fer ceva- 
da com gente freíca pêra iflb. A eíla von- 
tade de Affonfo Lopes d'Acofta contrariou 
Lopo Cabreira Alcaide mor da fortaleza, 
aílegando o regimento d'ElRey fer em con- 
trario do que elle queria fazer , por quan- 
to a elle pertencia a fuccefsão da capitania , 
fazendo fobre iíTo alguns requerimentos j mas 
tudo ceifou , havendo refpeito ás qualidades 
de Garcia de Sá , e á gente que com elle 
ficava. Por a qual razão Aífoníb Lopes lhe 
entregou a capitania per hum adio folemne ; 
e elle partio em a náo caminho da índia , 
onde faíeceo em chegando , por ir já mui 
debilitado. Garcia de Sá , tanto que come- 
çou entender no governo , e eftado da ter- 
ra , e nas coufas d'ElRey de Bintam , fou- 
be que todo feu intento , e trabalho era ajun- 
tar parentes , amigos , e grandes apparatos 
de guerra , com fundamento de vir cercar 
Malaca , e não fe levantar delia té a tomar , 
ou morrer fobre ilfo. Porque ainda que ti- 
nha muito fentido tão grande quebra, co- 
mo foi a perda de tanta gente , e munições 
de guerra , que fe perdeo na fortaleza do 
rio Muar , (fegundo vimos , ) muito mais 
íentia ir já perdendo o credito em todas 
aquellas partes. Cá os parentes , genros , e 

ou- 



Década III. Liv. III. Cap. III. 263 

outras ajudas , que levemente achava no tem- 
po de Tua profperidade , quando as pedia , 
começavam de lhe falecer , por fer coufa 
mui geral o favor feguir a profperidade , 
e não as quebra. As quaes couías , poílo que 
Garcia de Sá fabia , vendo-fe pobre de gen- 
te , e de outros provimentos , com que não 
podia por em eífeito feu defejo , que era , 
ante que efta ferpe creafle mais cabeças das 
que queria ajuntar á fua , ir a fortaleza de 
Pago a lha cortar 3 fe o Deosajudafíe , con- 
vertia efta fua tenção em prover , e repai- 
rar a Cidade , reformando também navios 
velhos, de que tinha neceífidade. Alguns 
dos quaes deo a Duarte Coelho , que era 
vindo do Reyno de Sião , onde o mandou 
D. Aleixo , fegundo atrás fica , o qual per 
efpaço de três mezes andou no eílreito de 
Sabam , e naquelles canaes , per onde vi- 
nham os juncos a Malaca em guarda del- 
les , por caufa das Armadas d'ElRey de 
Bintam , té que aprouve a Deos que torna- 
do António Corrêa de Pegu 3 onde era ido , 
veio ter a Malaca , com que EIRey foi fiír 
gindo do Pago. Pêra entendimento do qual 
feito , ( ainda que vai mais adiante , ) con- 
vém fazermos aqui relação do que primei- 
ro procedeo. Atrás efcrevemos como Dio- 
go Lopes de Sequeira mandou António Cor- 
rêa com huma náo , e hum naviq que vief- 

fe 



264 ÁSIA de J0X0 de Barbos 

fe a Malaca , onde iUFonfo Lopes lhe da- 
ria juncos pêra ir aMartabam, e Pegu car- 
regar de mantimentos pêra provisão da Ci- 
dade , e elle carregaífe a náo, e navio de 
lacre , e outras mercadorias , e fe foííe a 
Ormuz entregallas aos officiaes d ? E!Rey, 
por o muito proveito que fe neíta viagem 
fazia. Deite navio que elle levava era Ca- 
pitão António Pacheco , que hia pêra fer- 
vir o feu cargo de Capitão mor do mar de 
Malaca , do qual cargo fora tirado de pof- 
fe , quando o prendeo Nuno Vaz Pereira 
fobre fuás differenças , como fica atrás ; e 
tanto que o navio foífe em Malaca , havia 
de ficar por Capitão delle hum cavalleiro 
por nome Duarte Franco , que hia no mef- 
mo navio , e aífi hia também Manuel Pa- 
checo irmão delle António Pacheco. E além 
deite navio , houvera de ir em companhia 
de António Corrêa té a Ilha Çamatra Dio- 
go Pacheco irmão deites dous , o qual ha- 
via pouco que com Manuel Pacheco viera 
de Malaca , e trouxera grandes informações 
das Ilhas do ouro , de que havia geral fa- 
ma na índia eítarem ao Sul de Çamatra. 
Sobre o qual defcubrimento Diogo Lopes 
o mandava , por elle Diogo Pacheco fer 
m ui experto nas coufas do mar , e ter gran- 
de habilidade pêra defcubridor , além de 
fer cavalleiro de lua peííòa} e pêra iííb lhe 

man- 



Década III. Liv. III. Cap. III. 26? 

mandou armar hum navio , em que eile hia , 
e hum bargantim , de que era Capitão Fran- 
cifco de Sequeira. E como pêra o refgate , 
e commercio do ouro fe haviam miíter al- 
gumas fortes de pannos de Cambaya , que 
não havia na feitoria de Cochij , ao tempo 
que António Corrêa dalli partio , não po- 
de ir com eile, fomente António Pacheco 
feu irmão , cuja companhia lhe durou pou- 
co a eile António Corrêa , com hum tem- 
poral que fobreveio , com que foi ter ao 
porto de Pacem , e dahi a Malaca , e de- 
pois partio pêra Pegu > como já diífemos; 
e do que lá paífou , adiante fe verá 3 por- 
que queremos continuar eíte Capitulo , re- 
latando os trabalhos deites iirnaos Pachecos. 
Os quaes fe tiveram tanto favor da fortu- 
na na índia , quanto tinham de ferviço 3 e 
cavalleria , elles foram bem profperos em 
fazenda. Peró como nefte Oriente , a que 
chamamos índia ? reina mais a cegueira da 
fortuna , que a luz da razão , diífemos já 
porella fer cruamadraftra dos fieis, e lijon- 
geira madre dos artifícios : coufa tão appro- 
vada na boca do povo defte Reyno cabe- 
ça delia , que quando vem paliar hum def- 
tes feus mimofos com a pompa da fua prof- 
peridade , dizem : Vedes , alli uai hum fi- 
lho da índia. O qual dito nunca fe pode 
dizer por algum deites irmãos , porque qua- 
tro 



i66 ÁSIA de JoÂo de Barros 

tro de que fe ella fervia , a três fepultou em 
II ; e hum que cá veio , foi António Pache- 
co , acabou neíle Reyno mais farto de fer- 
viços , que de galardão. E tornando á via- 
gem de Diogo Pacheco , que partio logo 
nas coitas de António Corrêa , tanto que 
começou tomar per rumo defua navegação 
a coita da Ilha Çamatra pela parte do Sul , 
fendo tanto avante como o Reyno chama- 
do Daya , que feria vinte léguas do de 
Achem , que fica ao Occidente na ponta da 
Ilha , com hum tempo que teve , perdeo-fe 
delle o bargantim , o qual foi alli dar á 
coita , e delle efcapou fomente hum efcra- 
vo Canarij , que depois veio ter a Achem , 
onde os noífos o acharam , e delle foube- 
ram a perdição deite bargantim. Diogo Pa- 
checo feguindo a coita , foi ter ao Reyno 
de Barros , mui nomeado naquellas partes 
polo muito ouro que nelle ha , e aífi o chei- 
rofo beijoim , a que os noflbs por a fua- 
vidade chamam beijoim de boninas , e por 
outras mercadorias de preço. Por caufa das 
quaes coufas concorrem alli algumas náos 
xie Cambaya , e navios dos Reynos de Pa- 
cem , Pedir , Achem , e Daya , da? quaes 
partes elle achou furtas três velas , que co- 
mo conheceram fer navio noífo , ficaram des- 
amparadas , acolhendo-fe a gente a terra, 
Diogo Pacheco entendeo o feu temor , fez 

fmaes 



Década III. Li v. III. Cap. III. 267 

íinaes de paz , com o que os Governadores 
da terra mandaram faber quem era , e o 
que queria , viíitando-o com algum refref- 
co. Aos quaes elle , depois de gratificar feu 
prefente com algumas couías das que alli 
podiam fer eftimadas , refpondeo íer hum 
Capitão d'ElRey de Portugal , mandado 
pelo feu Governador da índia rodear aquel- 
la Ilha per a banda do Sul ; e nos portos 
que defeub rifle , notificafle que feguramente 
podiam levar fuás mercadorias a Malaca , 
e que também podiam vir a elle , fe lhe 
aprouveffe, porque mercadoras levava pê- 
ra com elles fazer pacífica commutação. E 
Íiuanto á gente que fugira dos navios com 
ua chegada , feguros podiam tornar a elles , 
pofto que foliem de lugares , com que os 
Portuguezes tiveífem guerra ; porque por 
reverencia de eítarem naquelle porto d'El- 
Rey de Barros , com quem EiRey D. Ma- 
nuel de Portugal feu Senhor defejava ter 
conhecimento , elle lhe faria muita honra , 
e os ampararia , fe alli outrem lhes quizef- 
fe fazer algum mal , ou damno. Da qual 
refpofta o Rey da terra , e feus Governa- 
dores ficaram mui contentes , e mandaram 
logo a bordo do navio refrefeo , e que fof- 
fem fazer com elle commutação das coufas 
que havia na terra com as que elle trazia. 
Diogo Pacheco, porque fe vio fem o ban- 

gan- 



268 ÁSIA de João de Barros 

gantim , que era a principal coufa que elle 
havia miíler pêra aquelle defcubrimento a 
que hia , determinou de gaitar os pannos , 
que levava pêra o refgate do ouro , a tro- 
co do que lhe alli deram , que foi hum 
pouco de ouro , e beijoim , e algumas cou- 
fas que dalli levam a Malaca. Porque os 
Mouros como são cioíbs de nós , poucas 
vezes em terras , onde novamente imos ter , 
dcícobrem a groílura que tem , temendo 
que nos façamos fenhores delia , e os lan- 
cemos daquelle proveito que elles logram. 
E em quanto slli eíleve , fomente trabalhou 
em duas coufas ; em fe vigiar , temendo que 
de noite per induftria dos Mouros deCam- 
baya não lhe foíTe feita alguma traição ; e 
em fe informar dos da terra do que tinham 
fabido 5 e fe dizia das Ilhas do ouro , que 
eílavam ao Sul daquella Ilha Çamatra ; por 
quanto geralmente em Malaca , onde hiam 
alguns mercadores daquelle Reyno Barros > 
fe dizia que na terra nãô havia tanto ouro , 
como elles levavam , mas que a maior quan- 
tia haviam per refgate nas Ilhas do ouro , 
a que elles navegavam. E poílo que os Mou- 
ros , e naturaes da terra deite negocio eram 
mui ciofos , tanto puderam peitas , que Dio- 
go Pacheco deo a dous 3 ou três naturaes 
dalli , que já lá foram , que vieram a lhe 
dizer o que tinham viíto > e experimentado , 

di- 



Década III. Liv. III. Cap. III. 269 

dizendo que quaíi ao Sueíle daquelle porto 
de Barros cento e tantas léguas havia huma 
corda de baixos , e reftingas , em meio dos 
quaes eftava huma Ilha não muito rafa, e 
per as fraldas chea de palmares 7 dentro na 
qual vivia muita gente preta , com que fa- 
ziam refgate de ouro á borda da agua , por 
não coníentirem que alguém foííe onde el- 
les habitavam , e por iífo não fabiam o íí- 
tio de terrapel dentro , nem o mais que nel- 
la havia , nem o modo da vida daquella 
gente, a qual dava muita quantidade de ou- 
ro a troco de huns pannos de Cambaya da 
forte que elle alli trouxera , que eram vef- 
picias , mantazes , e bertangijs azues , e ver- 
melhos. E pofto que elles faziam bom ba- 
rato do ouro a troco de tão baixos pannos, 
ainda havia muitos homens , que fe lá fof- 
fetjí huma vez 5 por mais ouro que trouxef- 
fem , não tornariam lá outra , com temor 
de perder a vida ; porque geralmente de 
vinte velas que láfoííem, não ficava a quar- 
ta parte , por fer efta navegação mui peri-* 
gofa. A caufa era não fe poder ir a eíla 
Ilha 5 fenao em monção de tempo 5 que du- 
rava três mezes , e em vafilhas mui peque^ 
nas , por os muitos baixos , e reftingas , que 
tinha , em que havia alguns canaes per que 
navegavam , e eftes mui eftreitos , e que ca- 
da anno fe mudavam por ferem de arêa, 

com 



zjo ÁSIA de JoÃo de Barros 

com a revolução das aguas no inverno da- 
quellas partes. E quando acertavam de en- 
trar , ou fahir per elles , em dia que não 
foíTe muito brando , e fereno , quebrava o 
mar em frol , e acapellava qualquer coufa 
que achava diante. Diogo Pacheco peró que 
eftes homens lhe fizeíTem maiores difficul- 
dades , ciofos defte negocio , fegundo elle 
entendia , não leixava de lhe perguntar mui- 
tas coufas , aíTi pêra feu aviío , como pêra 
ver fe oscomprendia em alguma contradic- 
çao. E depois que delles tirou o que pode , 
como iílo era o principal que o alli fez 
deter alguns dias , mandou-fe efpedir d ? El- 
Rey , e de feus Governadores , e fez feu 
caminho correndo a cofta da Ilha adiante, 
té chegar ao canal , que ella , e a terra de 
Jauha fazem y chamado de Polimbam , de 
huma Cidade cabeça do Reyno da mefma 
Jauha , que jaz fobre aquellas praias. E da- 
hi torneando a Ilha per a outra cofta do 
Norte , foi ter a Malaca , onde achou Gar- 
cia de Sá por Capitão , e partido pêra a In-* 
dia Affoníb Lopes d' Acoita ; o qual ante 
que adoeceffe 5 fendo já António Corrêa em 
regu , prendeo a feu irmão António Pache- 
co , e o tinha mandado á índia , fem o que- 
rer leixar fervir a capitania mor do mar. 
Alguns dizem que a caufa principal dqíla 
prizão fpi fer AíFoníb Lopes d'Acofta ho- 
mem 



Década III. Liv. III. Cap, III. 271 

mcm de forte condição , e rixofo , em quan- 
to eíteve em Malaca , com muitas pefloas ; 
e porque António Pacheco era homem y que 
nao lhe havia de lbffrer alguma íbltura de 
palavras , que elle tinha , quando o vio em 
Malaca , e que vinha com elle feu irmão 
Manuel Pacheco , e que Diogo Pacheco do 
defcubrimento que hia fazer alli havia de 
ir ter 5 temeo que três irmãos , e mais tão 
cavalleiros , aviaffem com elle ter modera- 
ção de palavras. Finalmente elle mandou 
fazer autos de fua prizao , dizendo que lhe 
era defcortez , e homem mal foffrido ; e 
condemnando-o em culpas , que elle mefmo 
AfFonfo Lopes tinha , o entregou a feu ir-^ 
mão Gafpar d 5 Acoita , que elle mandou á 
índia em huma náo , que fe foi perder nas 
Ilhas de Gamifpolá. As quaes , por ferem 
fronteiras , e mui vizinhas á Cidade Achem , 
tanto que fe foube nella que a gente da- 
quella náo eítava alli perdida , foram a el- 
les lancharas de Mouros ^ com os quaes 
pelejaram tanto , que não ficaram mais vi- 
vos , que o Capitão Gafpar d 5 Acoita , An- 
tónio Pacheco , Gregório Gonçalves do Al- 
garve , Diogo Fernandes , e outros três , 
cujos nomes não vieram á noíTa noticia; e 
todos tão feridos , que fe houveram por 
tão mortos , como os outros. Dos quaeá 
tanto que Garcia de Sá , que já fervia dé 

Ca- 



272 ÁSIA de João de Barros 

Capitão de Malaca , foube parte , elle os 
mandou refgatar per meio de Nina Cuna- 
pam hum Gentio grande nofíb amigo, que 
eftava por Xabandar em Pacem , que fera 
de Achem té vinte léguas. E a eííe nego- 
cio enviou Diogo Pacheco , que quando 
chegou a Malaca (como diííemos) eftava 
bem innocente dos taes trabalhos de feu ir- 
mão. Mas maiores os padeceo elle em tor- 
nar ao feu defcubrimento do ouro o anno 
feguinte , pêra onde o armou Garcia de Sá 
em hum navio da terra , e hum bargantim , 
com que chegou ao porto de Barros, on- 
de eílivera , no qual tornou achar quatro , 
ou cinco velas de Cambaya , e de outras 
partes , que lhe não confentíram tomar pou- 
íb dentro no porto , tirando-lhe ás bombar- 
dadas. Diogo Pacheco , porque o vento lhe 
era contrario , e vio que gente da terra a 
grão preíTa fe mettia em lancharas pêra 
vir também contra elle , metteo-fe no bar- 
gantim , querendo tirar á toa o navio ao 
mar largo polo não tomarem ; e foi o tem- 
po tanto , que o mar comeo o bargantim , 
e o navio veio á cofta , do qual efcapáram 
alguns Malayos homens do mar cafados em 
Malaca , que fe mettêram pelo fertão da 
Ilha atraveífando-a toda , e vieram ter da 
outra banda do Norte, onde acharam em- 
barcação, que os levou a Malaca, osquaes 

con- 



Dec. III. Liv.III. Ca?. III. e IV. 173 

contaram cila perdição de Diogo Pacheco , 
que foi o primeiro dos noííos que perdeo 
a vida por deícubrir cila Ilha do ouro. 

CAPITULO IV. 

Como António Corrêa chegou ao Reyno de 
Pegu : e afjl fe defcreve o fitio , e cou- 
Jas delle , e da paz que elle An- 
tónio Corrêa ajfimtou com o feu> 
Rey , e do mais que fez té 
chegar a Malaca. 

T Ornando a continuar com a viagem que 
António Corrêa fez a Pegu com bdm 
tempo que teve , depois que partio de Ma- 
laca , chegou ao porto da Cidade chama- 
da Martabam , que he do eílado d 5 EIRey 
de Pegu. E como per hum rio navegável 
que tem , do fertão concorrem alli quali to- 
dalas mercadorias , que vam ter á Cidade 
Pegu cabeça defte Reyno aííí chamado , e 
na própria terra havia os mantimentos que 
elle hia bufcar , e muita cópia de lacre , e 
dalli per terra á Cidade de Pegu , onde El- 
Rey eftava , feriam té fe (Tenta léguas , de- 
terminou não fubir mais pela cofta acima , 
pêra entrar per o rio de Cofmij , per onde 
vam ter á própria Cidade Pegu. Porque co- 
mo naquelle tempo toda a coíla deite Rey- 
no eftava ainda por defcubrir por nós 5 a 
Tom.IILP.L S qual 



1J4 ASIAdeJoaodeBasros 

qual he mui chea de Ilhas , e os mais dos 
rios dos principaes porros tem tão grande 
macareo , que perigam muitas nãos ; abaf- 
tou o em que fe elJe vio no porto de Mar- 
tabam pêra não querer fazer mais experiên- 
cia ; e também pareceo-lhe que per efle mo- 
do podia dar mais preftes aviamento aos 
juncos 5 que havia de carregar de mantimen- 
to pêra Malaca , por a neceííidade em que 
a leixava , e principalmente por achar aíli 
muitos juncos 3 que a frete vam cada dia 
a ella , por fer mui breve viagem. Affi que 
por eftas coufas dalli quiz mandar recado 
â EIRey dè Pegu , e pêra ifíb ordenou An- 
tónio Paçanha natural da Villa Alancuer 
em modo de menlageiro , e por Eícrivao 
deíla meííaje Belchior Carvalho , e féis 3 ou 
fete homens pola mais authorizar , a fora 
feus fervidores , e alguns peaes da terra , 
que o Governador da Cidade lhe ordenou 
que foíTem em íua companhia com provi- 
sões pêra osagazalhar per todo o caminho. 
E porque António Corrêa foi o primeiro 
Capitão 5 e peííoa notável , que alli foi en- 
viado aííentar paz com EIRey de Pegu, 
depois que AíFonfo d'Alboquerque de Ma- 
laca mandou a elle Pvuy d'Acunha ? e eíla 
paz , e amizade ; que elle António Corrêa 
aííentou , foi com grande folemnidade ; an- 
te que venhamos á relação delia , faremos 

ou- 



Década III. Liy. III. Cap. IV. 275- 

outra das coufas deite Reyno. Pegu , per 
que geralmente nomeamos efte Reyno , no- 
me he impofto pelos Eílrangeiros : os natu- 
raes chamam-Ihe Bagou , e aííl chamam á 
principal Cidade , donde o Reyno tomou 
o nome. Pela parte do Ponente he cercado 
efte Reyno do mar da enleada de Benga- 
la , e o leu comprimento he da Cidade Rey 
marítima > que eftá em quatorze gráos , e 
hum terço de elevação do polo Arélico > 
e acaba em dezoito na Cidade Sedoe tam- 
bém marítima. Porém nefta coita fe contém 
mais léguas do que fe moftra per eftes 
quatro gráos , e hum terço , porque vai el- 
la repartida per efta maneira : o primeiro 
terço de toda a diftancia fua he de Norte 
Sul , e o fegundo de Levante a Ponente, 
e o outro torna ao Norte, per onde fe vê 
que os dous terços fomente multiplicam em 
gráos , e o mais em número de léguas por 
à feição que a terra faz. Pela banda do 
Norte vai enteftar em o Pveyno chamado 
Arracam , com que muitas vezes tem guer- 
ra , e não pode tomar, por fer mui mon- 
tuofo 5 e cercado de grande arvoredo. E 
correndo defta parte dentro pelo fertão té 
chegar ao fertão da Cidade Rey , onde el- 
le fanece da banda do Sul , vem fazendo 
huma faixa de terra á maneira de meia lua. 
A maior parte da qual he montuofa P e ha- 
S ii bi- 



276 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

bitada dos povos Brammás , e Jangomás 9 
que fe mettem pela parte do Oriente deíle 
Reyno , entre elle , e o grão Reyno Sião ? 
o qual Sião vem beber no mar da Cidade 
Tavay pêra baixo. Toda eíla terra de Pe- 
gu , ou Bagou , como lhe chamam os na- 
turaes , he mui chã á maneira de campina , 
que a faz fer alagadiça , com muitos eftei- 
ros do mar , que entram per ella , e per 
as bocas de dous notáveis rios , que a re- 
talham toda em grande número de Ilhas á 
maneira de huma horta regada. As quaes 
aguas doces a fazem mui fértil de todo gé- 
nero de mantimento , aííi dos agricultados , 
como dos que a própria terra brota de íi \ 
e pela mefma maneira tem a criação dos 
gados 5 e alimárias com grande cópia de 
aves , e peixes , que fe pefcam na agua faí- 
gada , e doce , com que a terra he mui 
abaftada de mantimentos. Té efte tempo 
que António Corrêa chegou aqui , e depois 
per alguns annos fe demarcava efte Reyno > 
(como diífemos , ) em que haveria de com- 
primento pouco mais de noventa léguas ? 
e no friais largo outro tanto. Porém de pou- 
cos annos a cá com a communicação nof- 
fa , e alguma ajuda que houve dos noffos , 
que lá eftavam fazendo fuás fazendas , fez 
EIRey guerra aos povos Bremmás , e to- 
mou-lhes alguns Reynos> té que a fortuna 

lhe 



Década III. Liv. III. Cap. IV. 277 

lhe virou as coPtas, e o rofto a hum vaf- 
íàllo delle mefmo Rey , que elle tinha pof- 
to por Governador do Reyno Tangú dos 
Brammás. O qual com efta gente Brammá, 
que he mui bellicofa , lhe tomou o Rey- 
no , e ainda cuftou a vida a hum cavallei- 
ro per nome Fernão de Moraes Portuguez , 
que lá eftava com hum galeão fazendo car- 
ga de lacre per mandado do Governador 
da índia , com o qual morreram aquelíes , 
que comfigo tinha no galeão. E foi tama- 
nha a fortuna defte novo tyranno , que não 
fomente tomou todo efte Reyno Pegu , ma- 
tando todolos principaes da terra hum , e 
hum , por fe fegurar delles , mas ainda 
conquiftou eftes Reynos , Prom , Melitay , 
Chalam , Bacam , Mirandu , e Avá , que 
correm contra o Norte mais de cento e cin- 
coenta léguas 5 todos de povos Brammás, 
fempre ao longo do rio, que vem do lago 
Chiamay , o qual com fuás correntes rega 
grão diltancia de terra por vir per campi- 
nas ; e quando com fua çrefeente fahem da 
madre , fe alarga mais de trinta léguas , 
com que as terras ficam eílercadas do feu 
nateiro , e refponde tão em breve com a 
novidade das fementeiras de arroz , e cria- 
ção dos gados á maneira da terra do Egy- 
pto com a creícente da chea do Nilo. E 
depois de havidas eílas vitorias P em que 

tam- 



ij$ ÁSIA de João de Barros 

também alguns dos noííbs militaram , qua- 
íi nos annos que compúnhamos efta hifto- 
ria , tentou de ir tomar o Reyno Sião , pe- 
io não lhefuccedeo como elle defejava. Cá 
por fer caminho comprido, e muita pane 
montuofa , e tão cego com arvoredo 3 que 
lhe convinha á força de machado fazer 
eílrada per diftancia de muitas léguas , não 
ganhou nefta jornada mais que perda de gran- 
de número de gente ; e porém chegou á 
vifta da Cidade Hudiá cabeça do Reyno 
Sião , que lhe foi bem defendida. Efte po- 
vo de Pegu tem língua própria, difFerente 
dos Siamês , Brammás , Arracam , com que 
vizinha , por cada hum ter iingua per íi. Po- 
rém quanto á maneira de ília religião , tem- 
plos , facerdotes , grandeza de idolos , e ce~ 
remonias de feus facrincios 5 nfo de comer 
toda immundicia , e torpeza de trazer cal- 
cáveis foldados no inftrumento da geração , 
convém muito com os Siamês. E ainda di- 
zem elles , que os Siamês procedem da íua 
linhagem ; e lerá aíli , porque efta torpeza 
dos cafeaveis em todas aquellas partes não 
fe acha em outro povo. Donde fe pode crer 
fer verdade o que elles contam, queaquel- 
la terra fe povoou do ajuntamento de hum 
cao y e huma mulher ; pois que no ad:o do 
ajuntamento delíes querem imitar os cães , 
porque quem o imita P dçlle deve proceder, , 

E a 



Década III. Liv. III. Cap. IV. 279 

E ahiíloria defta fua geração he, que vin- 
do ter á coita daquelle Reyno Pegu , que 
então eram terras hérnias , hum junco da 
China , com tormenta fe perdeo , de que 
fomente efcapou huma mulher , e hum cão , 
com o qual ella teve cópula, de que hou- 
ve filhos , que depois os houveram delia , 
com que a terra fe veio a multiplicar , e por 
não degenerarem do pai , inventaram os cas- 
cavéis ; e daqui , depois que a gente foi 
muita , fe paflbu a Sião , donde os daquel- 
le Reyno tem o mefmo coílume ; e porque 
em ambas eftas partes as mulheres tem me- 
lhor parecer que os homens , dizem elias 
que as fêmeas fahem á primeira mai, e os 
machos ao pai. Outros dizem , que eíta ter- 
ra ? e a de Arracam foi povoada de degre- 
dados , e que o ufo dos cafcaveis foi re- 
médio contra aquelle nefando peccado con- 
tra natura. E ainda alguns Judeos daquel- 
la região, que fabem a lingua , e entendem 
a efcritura delles , dizem que eftes degreda- 
dos eram enviados per EIRey Salarnão de 
Judéa , no tempo que as fuás náos nave- 
gavam áquellas partes em bufca de ouro , 
que levavam de Offir , que elles tem fer 
na Ilha Çamatra , que naquelie tempo ha- 
viam fer terra contínua a efta. Seja como 
for , pois de tempos tão antigos não temos 
efcrituras j fomente o que o povo recebe 

de 



2,8o ÁSIA de João de Barros 

de pai a filho, e fegundo o demónio na* 
quelle tempo , e ainda agora reina em to- 
da aquelia gentilidade , mais nefandos abu- 
fos , fóra dopenfamento noífo, tem entre íi. 
Baila para noticia das coufas deite Reyno , 
e difcurfo de noíTa hiítoria , faber as demar- 
cações delle, o lítio, abaílança, e religião 
de gente ; o mais de feus coftumes , gover- 
no , e eítado de feu Rey , ulo de fuás ar- 
mas , e outras coufas que entre elles fe uíam, 
leixamos pêra os Commentarios da noíTa 
Geografia , a que fempre nos remettemos , 
por ler da própria matéria , quando mais 
particularmente falíamos de cada Reyno per 
li. E tornando aos menfageiros , que Antó- 
nio CoiTea mandou ao Rey de Pegu , que 
reinava ao tempo que elle chegou ao porto 
de Martabam , tanto que per elles foi in- 
formado como que eflava alli , e que fua 
vinda não era a mais que aífentar pazes , e 
amizade com elle , com alguns juílos im- 
pedimentos de não poder ir a elle, foram 
logo defpachados com davidas em retorno 
do que lhe António Corrêa mandou. E pê- 
ra effeito da amizade , e paz que elle que- 
ria aífentar com António Corrêa em nome 
delRey de Portugal , como feu Capitão que 
era , enviou com o mefmo Antoniq Paça- 
nha duas peíToas notáveis de fua cafa , hum 
íèçular 7 e outro Religiofo que era o feu Rau- 

Jim 



Década III. Liv. III. Cap. IV. 281 

lim maior, a que todolos outros do Rey- 
no Pegu obedecem. Chegadas eftas duas 
pelToas tão principies á Cidade Martabam , 
que por caufa de lua vinda foi logo metti- 
da em prazer , e feita , e mais fabendo fe- 
rem vindos a efte aífento de amizade noíTa , 
que elles muito defejavam pola vizinhança 
que tinham com Malaca , que era a vida , 
e principal commercio de toda aquella en- 
feada de Bengala , houve entre elles , e An- 
tónio Corrêa fuás viíitaçoes. E quando veio 
ao dia , que todos três fe haviam de ver 
pêra jurar eftas pazes , o qual aélo pêra 
maior folemnidade fe havia de fazer no tem- 
plo da Cidade , com muita gente que veio 
a elíe , efperáram por António Corrêa , o 
qual foi com os feus na maior pompa que 
elle pode , por mais folemnizar efta feita , 
levando o Capellão da náo , que lhe fervia 
de Raulim. E como já entre elles as pazes 
citavam aflentadas . e não vinham áquelle 
lugar a mais que ferem juradas , fegundo 
feu ufo; tanto que todos foram juntos , não 
houve mais que fazer, que tirar o Samibe- 
legam huma folha de ouro batido , onde , 
(fegundo ufo dos Reys daquelle Oriente , ) 
vinham efcritas eftas capitulações. E entre- 
gues a hum ofticial , foram lidas em alta 
voz duas vezes : a primeira na própria lín- 
gua da terra , pêra ferem entendidas dos 

na- 



282 ASTA de João de Barros 

naturaes ; e à fegunda interpretadas em a 
nofla pêra osnollbs; e per modo femelhan- 
te mandou António Corrêa ler as fuás per 
oEfcrivão danáo, efcritas em papel a nof- 
íb ufo. Lidas , e aílínadas as quaes coufas , 
quando veio ao juramento, que o Samibe- 
legam havia de fazer , o feu Raulim co- 
meçou a ler per hum livro de ília religião, 
e per fim da lição tomou huns papeis ama- 
rellos , (cor dedicada ao culto divino , ) do 
tamanho de letras de cambo , e algumas 
folhas de arvores odoríferas , em que hiam 
efcritas palavras , as quaes accendidas em 
fogo , fe fizeram em cinza. E de li tomou 
as mãos do Samibelegam entre as fuás, e 
as poz fobre aquellas cinzas , dizendo al- 
gumas palavras : á que o Samibelegam re- 
ípondia, como que concedia naquelle jura- 
mento , promettendo em nome d'EÍRey fer 
firme , e valiofo o que aífentava , tudo iflo 
com tanta ceremonia , attenção , e íilencío , 
que fez grande admiração aos noííòs. An- 
tónio Corrêa quando veio a fazer feu ju- 
ramento , chegou-fe a elle o Capellão da 
náo veílido em fua fobrepelliz alva. E por- 
que em a náo não havia outro livro , que 
fizeífe maior pompa , por fer de folha de 
papel inteira j que hum Cancioneiro de tro- 
vas imprimidas, em o qual citavam as obras 
que os Fidalgos , e peíTqas defte Reyno , 

que 



Década III. Liv. III. Cap. IV. 283 

que tinham vea pêra iíTo , té aquelle tempo 
tinham feito ; quiz António Corrêa levar 
ante efte livro , que o breviário do Clérigo , 
ou algum Jivro de rezar , que na vifta do 
Gentio , que era prefente , parecia pouca 
coufa , e que não ornamentávamos bem as 
palavras de noffa crença. Finalmente toman- 
do o Capellão o livro na mão , e aberto 
pêra António Corrêa jurar 5 pondo os olhos 
na letra , começou a ler alto , fegundo o 
adio requeria , o princípio das trovas , que 
tinha feito Luiz da Silveira Guarda mor 
do Principe D. João , que depois de Rey 
o fez Conde de Sortelha j. o argumento das 
quaes he do Ecclefiaftices de Saiamao , que 
começa : Vaidade das vaidades , e tudo he 
vaidade. Na qual hora por razão deitas pa- 
lavras tomou tamanho receio a António Cor- 
rêa com admiração delias, e lhe faltou no 
efpirito Iram tremor , como fe puzeíTe as 
mãos nas palavras de toda noíía Fé. E te- 
ve pêra íi, que era obrigado cumprir aquel- 
le Jimulado juramento ; porque Deos não 
he teftemunha de enganos , ainda que fejam 
os taes actos feitos entre peíToas diíFerentes 
em fé, quando ambas as partes contratam 
de paz , e concórdia em bem eommum. 
Acabado efte acto de paz , e concórdia , 
que caufou fer logo António Corrêa pro- 
vido de todolos mantimentos, que havia 

mif- 



2,84 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

miíter pêra Malaca , lacre , e outras coufas 
pêra a fua viagem de Ormuz \ ante que fe 
partiíTe 3 lhq aconteceo coufa , que lhe mu- 
dou eíla viagem ; e o cafo foi efte. Havia 
naquelia Cidade Martabam, ao tempo que 
elle António Corrêa chegou , alguns Mou- 
ros alli eftantes fazendo luas mercadorias, 
os quaes foram prefentes a todo o a do de 
paz , que elle aíTentou ; e como iíto foi pa- 
ra elles huma grande dor , porque logra- 
vam o commercio daquelle Reyno , onde 
té aquelle tempo navios nofíbs não conti- 
nuavam , em algumas vezes que o Piloto , 
e Meftre da náo de António Corrêa foram 
a terra confertar as velas , e prover-fe do 
necelTario pêra fua viagem , em banquetes 
que lhe pelos da terra foram dados per al- 
guns principaes homens da terra , como noí- 
fos amigos , parece que tiveram os Mou- 
ros tal induítria y que lhe deram peçonha , 
de que morreram , eílando António Corrêa 
pêra partir. Quando fe elle vio manco dei- 
tas duas tão principaes partes de fua nave- 
gação , tomou por remédio tornar- fe a Ma- 
laca em companhia dos juncos , que tinha 
carregado de mantimentos , porque nelles 
havia Pilotos da terra , que fabiam efta na- 
vegação, e não os tinha pêra a índia ; e 
fem efperar mais 5 como fez tempo 5 fe par- 
tio pêra Malaca 3 aonde chegou a tempo 

que 



Dec. III. Liv. III. Cap. IV. e V. 28; 

que tanto aproveitou com fua peíToa , co- 
mo com os mantimentos que levava. Pare- 
ce que pêra iflb permittio Deos o defaíire 
da morte do Piloto , e Meílre , como fe 
verá neíte feguinte Capitulo. 

CAPITULO V. 

Como Garcia de Sá ordenou huma Arma- 
da a António Corrêa pêra entrar no ria 
Muar , e ajji ir ao Pago , onde El- 
Rey de Bintam ejiava , ao qual eh 
le desbaratou , e defiruio. 

EM quanto António Corrêa fe deteve 
neíla viagem de Pegu , em Malaca par- 
laram as coufas que atrás contámos , aífí 
do tempo de Affonfo Lopes d'Acofta , co- 
mo outras , depois que Garcia de Sá entrou 
na capitania ; e todas as mais que fe nefte 
tempo fizeram té a chegada delle António 
Corrêa , deram muito trabalho á Cidade r 
por não haver nelia mais defcanço que ar- 
mas ás cofcas , dos rebates , e cercos d'EI- 
Rey de Bintam , fome de que fuás Arma- 
das eram caufa , defendendo os mantimen- 
tos , e doenças que cada dia hiam gaitando 
a gente 5 que na Cidade havia. Com a vin- 
da do qual António Corrêa 3 porque do 
comer geralmente pende a maior parte do 
contentamento dos homens 7 trouxe dk tan- 
ta 



r 



2,86 ÁSIA de Joio de Barros 

ta abaítança á terra , que deite esforço to- 
márani todos forças , com que os rebates 
d'ElRey de Bintam ceifaram , achando tan- 
ta reiiftencia nas tranqueiras que foiao com- 
metter , que entenderam fer vindo á Cida- 
de íòccorro de mantimento , e gente. Gar- 
cia de Sá como vio que EIRey de Bintam 
mais damno lhe fazia per fome , que per 
armas , determinou nefta profpcridade , e 
alegria , que os homens tinham com aquel- 
la abaílança , atalhar ao diante , e mais acs 
ajuntamentos que EIRey de Bintam fazia , 
(como atrás eferevemos , ) pêra vir em pef- 
íòa cercar a Cidade, Finalmente elle poz 
fua tenção em coníèlho ; e propoftas mui- 
tas razoes, e inconvenientes fobre o cafo, 
aíièntou que pêra tirar aquella ferpe que ti- 
nham tão perto , como era o Pago , don- 
de cada dia eram commettidos , convinha 
pêra quietação daquella Cidade ir fobre EI- 
Rey de Bintam ante que fe fizcíle mais 
poderoíò com as ajudas que convocava a 
li, e o lançaífem daquella fortaleza. E que 
viílas as qualidades da peífoa de António 
Corrêa , e quanto bem aquella Cidade per 
meio d elle tinha recebido : efte por fer o 
principal > convinha que também vieífe da 
fua mão , que era ir por Capitão mor de 
huma Armada , que fe faria pêra efte feito. 
E' porque demos o feu a cada hum , as 

prin- 



Década III. Liv. III. Cap. V. 287 

principaes peííoas que eram nefíe voto fo- 
ram Garcia de Sá , que havia dias que o 
trazia no peito , D. Rodrigo da Silva , Du- 
arte Coelho , Manuel Pacheco , e outros 
três , ou quatro. Preftes a frota , que feria 
de trinta velas , as mais delias navios de 
remo, e alguns redondos, e caravelas, que 
Duarte de Mello Capitão mor do mar tra- 
zia de Armada , em que iriam té quinhen- 
tos homens , cento e cincoenta Portuguezes , 
e os mais era gente da terra , partio An- 
tónio Corrêa a quinze de Julho do anno 
de quinhentos e vinte , em cuja . companhia , 
além dos nomeados ,- hiam mais eítes Ca- 
pitães , Duarte Furtado , Francifco de Se- 
queira , Henrique Leme , Carlos Carvalho , 
Bartholomeu d'Afonfeca , Chriílovão Dias , 
Ruy Mendes , Diogo Dias , João Salvado , 
e outros, cujos nomes não vieram á noticia 
noíla. Efte rio , per que António Corrêa 
havia de ir , (como já diíTemos , ) na entra- 
da tinha aquella força , que Duarte de Mel- 
lo deflruio ; e em algumas partes onde era 
eftreito , tinha algumas eílacadas , etranquias 
que o atraveflavam , leixando fomente al- 
guns canaes per onde navegavam as lancha- 
ras d'ElRey , todo per ambas as margens 
delie mui cuberto de grande , e efpefíb ar- 
voredo , que o aflbmbrava em tanta manei- 
%a ? que não entrava o Sol nelle fenão quan- 
do 



288 ÁSIA de JoXo de Barros 

do fe podiam enfiar os feus raios com a 
madre do mefmo rio. E quando hiam per 
elle , rombava a folha , ou qualquer mo- 
to que fe fizeífe , eomo em huma abobada 
de maneira , que hum batel que foífe reman- 
do era ouvido longe* Somente nos cotove- 
los que elle fazia com fuás torturas , aqui 
era impedido , e fe quebrava muito o ter- 
mo do ouvido , em os quaes lugares EI- 
Rey de Bintam trazia fempre efcuitas, pe- 
ja fer avifado do que entrava per elle , com 
temor noílb , o qual eítava em huma forta- 
leza fituada não ao Jongo defte grande rio 
de Muar , de que falíamos , mas nas cor- 
rentes de outro pequeno , quaíl como eftei- 
ro , ao qual os naturaes chamam Pago , don- 
de ao lugar, e íitio delia chamavam Pago, 
e vinha-íè metter nefte grande , que corre 
mui longe pela terra , fempre per lugares bai- 
xos , e apaulados ; e o Pago como he de 
pouca agua , e mui eílreito , paífado o lu- 
gar onde EIRey tinha feito feu aífento, 
não paííava mui adiante. Na margem do 
qual de ambas as partes , ao modo de Ma- 
laca , EIRey. tinha feito huma grande po- 
voação toda de madeira, a huma das quaes 
partes ficava o povo , e elle na outra , e no 
meio atraveífava huma ponte per que fe 
ferviam. E poíto que eftas forças , e po- 
voações são de madeira, principalmente as 

que 



Década III. Liv. III. Caí, V. 289 

que elles ordenam em modo de fortaleza, 
lie coufa tão defenfavel , que a muitas del- 
ias nao chega muro de pedra, e cal; por- 
que fazem huma eítacada de páos tão for- 
tes , e duráveis , que lhe chamam os noíTos 
páo ferro, e delles tão groflbs como maf- 
tos j e tão juntos huns aos outros , que nao 
pode hum homem paíTar per entre elles , e 
são entulhados per dentro ; e efte entulho 
he hum terço de toda fua altura , e per 
efte modo são entulhados os baluartes , em 
que tem aífeftada artiiheria. E corno EIRey 
deBintam fempre teve receio de o commet- 
terem alli, não fomente nefte lugar de fua 
habitação , mas ainda onde efte pequeno rio 
Pago fe mettia no de Muar , tinha feito em 
hum cotovelo delle outra tal força de grof- 
fa madeira de huma banda , e da outra do 
rio , onde fe recolhia parte da fua Arma- 
da , e a entrada do rio era per huma can- 
cela , que fe fechava cada noite , onde ha- 
via gente de guarnição, que guardava efte 
lugar , que também tinha muita artiiheria. 
Finalmente embaixo, e em cima tudo eram 
perigos , e trabalho per que os noííbs ha- 
viam de paliar , pêra tirar os quaes impe- 
dimentos de madeira , ainda que nao foífe 
tomar a efpada , e lança na mão , fomente 
machados pêra a cortar , canfaria mil ho- 
mens >, quanto mais tão pouca gQntc como 
Tom. IIL P.L T a nof- 



290 ÁSIA de João de Barros 

a noffa era. Porém aíli conftituio Deos as 
obras dos homens , que os mefmos homens 
per outro artificio , quando lhes a elie apraz , 
as vencem , e desfazem. Porque como An- 
tónio Corrêa per alguns Malayos, que fa- 
biam bem eílas entradas , era avilado de 
tanto embaraço , e impedimento , levava 
ante li huma manchua com mais de vinte 
homens com machados pêra os desfazer. In- 
do aífi com efta ordem pelo rio acima , an- 
te que chegaífe ao cotovelo , que diííemos 
terem os Mouros feita a primeira força , que 
feria obra de fete léguas da barra , foi fen- 
tido , e houve logo rebate , affi onde elles 
eftavam , como na povoação d'ElRey. O 
qual fufpeitofo de feu mal, a grande pref- 
fa mandou recolher muita parte da Arma- 
da , que tinha em baixo pêra a povoação > 
onde elle eftava ; e depois de recolhida , cor- 
tar muitas arvores das que eftavam á bor- 
da do rio pêra o encher de tranquia. E em 
alguns •paflbs mandou decepar outras té o 
meio , e eftarem aíli com cordas lançadas 
nas pontas com gente da outra banda pref- 
tes , pêra que querendo algum dos noííbs 
navios paífar , que as abateíFem fobre elles. 
António Corrêa quaíi noite chegou junto 
da primeira eftancia , que os Mouros tinham 
feita; e como a terra alli fazia hum coto- 
velo agudo, ficava a tranqueira dos Mou- 
ros 



Década III. Liv. III. Cap. V- 291 

ros da parte dianteira , e a noíTa Armada 
da parte trazeira, tão vizinhas pelas coitas, 
que fe no meio não houvera tão alto , e ef- 
peífo arvoredo , víram-fe todos ; e porém 
ouvia-fe o rumor de ambalas partes , por 
as razões do tombar do rio , que diflemos. 
Ouvindo António Corrêa efta vizinhança , 
paíTada parte da noite , em que a gente al- 
gum tanto aílbcegou do rumor , mandou 
em hum balão pequeno a Jorge Mefurado 
Feitor da fua náo , por faber a íingua Ma- 
laya , que lhe foífe efpreitar a tranqueira 
dos Mouros , e elcuitaíFe o rumor delles , 
pêra faber em que determinação eftavam. O 
qual tornado a António Corrêa , diíle que 
a prática da vigia dos Mouros era , que pe- 
la manhã haviam de pelejar com elle , e 
animar-fe huns aos outros ; e que fegundo 
o rumor delles, lhe parecia que era muita 
gente. António Corrêa , por ter dado pêra 
iílb hum certo íinal , tanto que foi ouvido , 
todolos Capitães foram com elle, onde fe 
coníultou o modo que haviam de ter ao 
outro dia ante manha, em que elle fe de- 
terminava commetter os imigos ; e a ordem 
que pêra iíío deo foi efta. Que Duarte de 
Mello Capitão mor do mar , por ter huma 
caravela , que podia com os caftellos ficar 
igual das tranqueiras , e cancella per que 
era a entrada, iria diante, levada a caravela 
T ii per 



nyi ÁSIA de JoÃo de Barros 

per bateis á toa , pêra pela enxarcea , e ma- 
reagem delia fubir anoííagente; e logo jun- 
to a ella iria eile António Corrêa , por cau- 
fa de hum tiro groflb , que levava na gaié 
em que hia , e affi os outros navios maiores % 
que levavam artilheria pêra fe fervirem na- 
quella chegada delia , e mais ferem ampa- 
ro aos navios de remo rafos , té enteftarem 
nas tranqueiras 5 e principalmente a paíTa- 
gem da caravela. A qual affi eftava feita, 
e fechava aquelle lugar da entrada , que 
muito mais receava António Corrêa o em- 
baraço , que lhe ella podia Fazer na paífa- 
gem 3 entalando-lhe os navios no meio da 
vea , que commetter a força , que os Mou- 
ros tinham feito á de dentro delia , onde 
tinham poíta fua artilheria. E como eíle 
impedimento era o que lhe maior confusão 
fazia , ordenou que na caravela foífe da gen- 
te do mar a mais deipachada , e defira pê- 
ra fubirem pela enxarcea ; e tanto que em- 
paraíTem com a canceila , fe lançafTe nella 
hum golpe de homens , e entrados dentro , 
foífem com machados cortar qualquer fe- 
cho , com que eftiveífe fechada. Poílo An- 
tónio Corrêa nefta ordem , tanto que foi 
manhã , começou a defcubrir o cotoveílo , 
que a terra fazia , na volta do qual os Mou- 
ros tinham feito fua fortaleza. E> ainda a 
caravela não era defcuberta de to<|ío ? quan- 
do 



Década III. Liv. III. Ca?. V. 295 

do a artilheria dos Mouros , que eítava ai- 
li apontada, começou a varejar, fem el- 
la lhe refponder com a fua, por affi o ter 
ordenado António Corrêa , fenão depois 
que elle tirafle com huma efpera em final 
que dava Sant-Iago. Dado o qual final , com 
que a artilheria de ambalas partes começou 
a fuzilar ; entrou no vão daquelie rio hum 
trovão contino , coufa tão efpantoía y que 
não parecia fer inftrumento de homens , mais 
que a natureza da terra , e o furor do ar 
com todolos elementos concorriam em guer- 
ra , e própria deílruição fua , com que os 
homens não fabiam em que lugar eílavam. 
Porque eíle contino , e efpantofo trovão per 
huma parte , a groffura do fumo , que não 
fahia daquelie opaco , e fombrio lugar per 
outra j e a luz efcura dos relâmpados , que 
de quando em quando per outra afuzilavam , 
e per derradeiro a grita de tanta gente , fa- 
zia tudo huma tal miftura nos ouvidos , e 
viíla 3 que fe não podiam entender , refpon- 
der , ou conhecer huns aos outros , fomen- 
te ás cegas cada hum lançava mão do que 
achava ante fi. E quafi apalpando mais , que 
vendo o que faziam , os da caravela de 
Duarte de Mello , peró que lhe foi afias 
trabaíhofo , fubindo pela enxarcea houveram, 
a cancela á mão ; e depois que foram fe- 
chores delia , fe lançaram dentro da tran- 
quei- 



294 ÁSIA de João de Barros 

queira ; e como não levavam outro intento , 
por lhes aííi fer mandado , a primeira cou- 
ía que fizeram , foi vir abrir as portas da 
cerca á caravela pêra entrarem os outros 
íiavios. Na qual entrada fern mais pelejar, 
alíi fe houveram os Mouros por vencidos , 
que nenhum quiz efperar a fúria do noíTo 
ferro. Finalmente António Corrêa com to- 
da fua gente fe fizeram fenhores daquella 
fortaleza , té do almoço que os Mouros ti- 
nham poílo ao fogo , que era arroz cozi- 
do 5 e outras viandas fegundo feu ufo , que 
os noflbs houveram por melhor que as lan- 
çadas , e frechadas , que naquella entrada 
efperavam achar. Mas aprouve a Deos que 
os livrou deíle perigo , e ficaram com o 
animo dobrado , pêra logo com efta vito- 
ria ir avante onde EIRey eftava : o que 
António Corrêa fez , tanto que os noííbs 
esbulharam o que alli foi achado , que por 
fer de gente de guarnição , era pouca cou- 
f a , e a melhor foram vinte e tantas peças 
de artilheria ? a maior parte delia de me- 
tal ? e algumas que foram noffas ? que elles 
tinham havido nas aíFrontas que nos deram 
em Malaca. António Corrêa , porque te- 
meo que indo elle per aquelle pequeno 
Pago acima 5 nas cortas lhe podiam dar 
alguma aíFronta as lancharas da Armada 
d 5 ElRey, que per ventura eítariam eícon- 

di- 



Década III. Liv. III. Cap. V. 29? 

didas per eíTes eílreitos , que vinham dar 
no rio grande; leixou alli Duarte de Mel- 
lo na fua caravela , e outros navios , que 
por grandes não podiam ir acima , por fi- 
car feguro 5 e mais entre tanto recolheriam 
a artilheria , e munições que alli ficavam. 
E affi ordenou por caufa das arvores 5 que 
eftavam atravefíadas per o rio que havia de 
ir, e outras que eftavam ferradas, pêra da- 
rem fobre elle a paflagem dos noííbs , ou 
ao menos pêra lhe fechar á tornada o ca- 
minho , que foffem diante os bateis com 
os homens de machado , pêra lhes tirar ef- 
te impedimento , e perigo. A qual provi- 
dencia aproveitou tanto , que fem ella não 
pudera ir adiante ; porque além da tranquia 
atraveflada , havia em algumas partes mui- 
ta eftaca mettida ao maço , tão profunda 
na vafa , por a terra fer apaulada , que lhe 
deo grande trabalho o arrancar 5 e cortar 
defta madeira , e foi caufa que fe deteve 
muito em chegar á povoação onde EIRey 
eíbva. O qual com efta detença de Antó- 
nio Corrêa teve tempo de pôr fija gente 
em ordem , e feus Elefantes armados , e tu- 
do tão a ponto , que quando os noííos che- 
garam , e o viram eftar em huma chapa da 
terra , que fe fazia fobre o rio , onde elle 
havia de deíémbarcar, lhe fez aflas de te- 
mor. Porque além defta vifta , que parecia 

fer 



nyG ASIÀ de JoÃo de Barros 

fer de dous mil homens bem armados pêra 
dar , e receber, em elles deícubrindo efte 
lugar , foram recebidos com huma grita y 
que rompia os ares eftrogindo as orelhas ; 
e quando foi aos noííos quererem poiar em 
terra , foram recebidos de muita artilheria , 
e huma nuvem de frechas, que cubriam o 
Sol. No qual feito claramente os noflbs vi- 
ram obrar mais o poder de Deos , que o 
feu ; porque no primeiro ferro que come- 
çaram pôr na carne dos Mouros , aííi os 
cortou o temor , e perderam as forças , e 
fentido , que em nenhuma outra coufa o 
tinham fenao em os pés , o qual desbara- 
to caufou pôr-fe EIRey em falvo com to- 
da a potencia de feus Elefantes , parecendo- 
Ihe que dentro no mato os noíTos o haviam 
de tomar: tanto foi o temor que lhe Deos 
poz no animo , fem haver homem , que 
tornaíTe atrás. Acabando eíta gente de des- 
pejar a Cidade , poíto que os corpos de 
alguns ficaram atraveííados per eíTas ruas , 
os noíTos fe fizeram fenhores delia , fem 
António Corrêa confenrir que entraflem pe- 
lo mato em alcanço d'ElRey , contentando- 
fe com tamanha mercê 5 como lhe Deos fi- 
zera em lançar eíle tyranno , que tanto nos 
perfeguia , daquelle lugar tão perigofo de 
entrar , que fomente em o commetter era 
grande feito P quanto mais acabar-fe fem 

mor- 



Década III. Liv. III. Cat>. V. 297 

morte de algum dos noííòs, que foi outro 
novo milagre. Finalmente a Cidade , e ca- 
fas ^'ElRey foram esbulhadas do melhor, 
que em tão pequenas vaíilhas , como elles 
traziam , fe pode levar , e per derradeiro fe 
poz fogo a tudo; e os Mouros em fugin- 
do , por nos não lograrmos delias, o pu- 
zeram em mais de cem peças de navios , 
hims que eram da Armada d ? EiRey , aífí 
como lancharas , calaluzes , e outras de feu 
ferviço , em que havia alguns de eftado, 
dourados as popas , e proas , ornamento em 
que eftes Príncipes querem moíirar a ma- 
geftade , e policia de feu ferviço , alguns 
dos quaes por moftra António Corrêa levou 
a Malaca , leixando feito em cinza aquelles 
dous fitios. Na qual Cidade foi recebido 
com o maior prazer , que ella havia dias 
que tivera ; porque com a deftruição deite 
tyranno , (a quem daquella vez não ficou hum 
barco, nem peça de artilheria,) ficava el- 
la fegura das perturbações que lhe dava. O 
qual como homem defconfiado de mais po- 
der viver naquella parte, fe foi aílentar na 
Ilha Bintam , que fera de Malaca quarenta 
léguas , onde per algum tempo quietou , em 
quanto não teve forças. 



CA- 



1<)% ÁSIA 3DE JOÃO DE BARKOS 

CAPITULO VI. 

Como Garcia de Sã mandou de Armada a 

Manuel Pacheco fobre o porto de Pa- 

cem , e Achem : e do feito que cinco 

Portugueses , que com elle foram , 

fizeram : e do mais que fobre 

ejle cafo Juccedeo. 

COm efte feito , que foi mui foado per 
todas aquellas partes , ficaram os ami- 
gos , e liados d 5 ElRey de Sintam mui que- 
brados no favor que tomaram delle pêra 
noílb damno : e alguns delles tinham com- 
mettido crimes , e infultos contra nós , de 
que té então não houveram caítigo , por ef- 
tar Malaca tão aífortunada da perfeguição 
defte tyranno , que não podia acudir a iíTo. 
E entre eftes , que começaram tomar oufa- 
dia contra nós , foi hum tyranno que efta- 
va em Pacem , que fe tinha intitulado por 
Rey , e aífi o Rey do Reyno Achem , dos 
quaes adiante particularmente faremos rela- 
ção , por lá fer mais próprio lugar. Aqui 
baile faber que tinha efte de Pacem rouba- 
do alguns dos nofíòs , que alli foram ter 
com fazenda , aíli no tempo que Lopo Soa- 
res governou , como depois que lhe fucce- 
deo Diogo Lopes de Sequeira. E a coufa 
mais freíca, que então tinha feito, era fe- 
rem 



Década III. Liv. III. Cap. VI. 299 

rem alli mortos mais de vinte e tantos ho- 
mens, deiles criados de D. Aleixo de Me- 
nezes ; outros de D. João de Lima Capi- 
tão de Cochij , os quaes alli foram ter em 
huma náo do meíino D. João 5 em que tam- 
bém fe perdeo muita fazenda. Garcia de Sá 
como com a vitoria que houve d'ElRcy 
de Bintam ficou com mais algum repoufo 
pêra poder entender no que eíles tyrannos 
da IlhaÇamatra tinham feito, os quaes el- 
le diílimulava pola opprefsão em que Ma- 
laca eftava, ordenou logo de armar huma 
náo , a capitania da qual deo a Manuel Pa- 
checo , que polo que alli era acontecido a 
feu irmão António Pacheco , quando foi 
cativo , (como efcrevemos , ) teria mais íà- 
bor de fazer efta guerra ao tyranno de Pa- 
cem 3 e Rey de Achem , andando per aquel- 
la coita defendendo-lhe a entrada das náos , 
que com mercadorias vieííem a feus portos , 
e as fizefle arribar a Malaca , e aifi não con- 
fentiífe que os íeus foííem pefcar ao mar; 
porque como os Gentios da índia , e aííl 
os Mouros que vivem no marítimo delia , 
mais fe mantém do pefcado , que de carne , 
em nenhuma coufa lhe podia fazer maior 
damno , que em lhe defender a pefcaria , e 
aíli as náos que vam áquelles portos, gran- 
de parte das quaes levam das Ilhas deMal- 
diva muita muxama , que fe faz de pefca- 
do, 



300 ÁSIA de João de Barkos 

do , e he entre elles mui eítimada. iPartido 
Manuel Pacheco a efte feito , começou ator- 
mentar aquelles dous portos de Pacem , e 
Achem , tomando-lhe quantos pefcadores 
vinham pefcar , com hum batel que pêra 
iflb trazia bem efquipado ; e as náos eftran- 
geiras fazia-as arribar a Malaca 3 e as que 
per força queriam tomar eftes portos , met- 
tia-as no fundo. No qual tempo por lhe 
falecer agua , mandou a iflb o batel rema- 
do per marinheiros Malayos , e em feu res- 
guardo com elles eílas cinco peflbas , An- 
tónio de Vera do Porto , António Paçanha 
de Alanquer , Francifco Gramaixo , João 
cPAlmeida de Quintella , e o barbeiro da 
mo; porque pela experiência que tinha de 
fuás peflbas , não lhe haviam de leixar o 
batel em mãos dos Mouros , fuccedendo 
algum cafo , em quanto os marinheiros fizef- 
fem aguada. Entrando eíle batel em hum 
rio chamado Jacapárij , que fera do porto 
de Pacem huma légua , onde fez fua agua- 
da , quando veio ao fahir , como os Mou- 
cos os tinham em olho , de huma parte , e 
da outra choviam fettas fobre elles , por 
os virem efperar á margem do rio : Tudo 
pelos entreter em quanto fe faziam preftes 
três lancharas no porto de Pacem pêra os 
vir tomar ante que fahiíTem do rio ao mar, 
onde a náo lhe podia foccorrer , e deram*- 

lhe 



Década III. Liv. III. Cap. VI. 301 

lhe os Mouros tanto trabalho com as nu- 
vens de frechas que lhe tiravam , que fe 
não fe cubríram com as adargas , as quaes 
hiam cubertas das mefmas frechas , nenhum 
deíles ficara com vida. PaíTado o qual pe- 
rigo , já na boca do rio começou vir a el- 
les a maré , e com cila a viração , que os 
entreteve tanto , fem á força de braços po- 
derem furdir avante , que vieram a clles três 
lancharas , que o vinham bufear. Huma das 
quaes , que era a capitania , por fer mais 
veleira , vinha hum bom pedaço das outras 5 
em cada huma das quaes paliavam de cen- 
to e cincoenta homens 3 todas mui bem re- 
madas , e o Capitão delia era hum Mou- 
ro Jáo de nação per nome Raja Sudamicij y 
que fervia a EIRey de Pacem de Capitão 
de fuás Armadas. Os noífos quando fe vi- 
ram tão longe da náo , e que o vento não 
fervia pêra lhes poder foccorrer a. tempo , 
fem primeiro paliarem pela fúria daquelías 
três lancharas , determinaram morrer ante 
que fe leixar cativar. E o confelho que to- 
maram foi oíFerecer-fe a Deos em facrifi- 
cio , dizendo , que não pelejalTem no batel 
fenão em lanchara , abalroando com elles 
juntamente , fe lançafTem dentro , e fe mettef- 
fem ás lançadas com os Mouros , e os mais 
NoíTo Senhor o faria por elles. A lancha- 
ra como vinha com alvoroço de os levar 

na 



302 ÁSIA deJoÁo de Barros 

na mão primeiro que as outras chegaflem , 
como coufa de pouca preza chegou a eJles , 
quaíi como que os queriam tomar á mão 
vivos; mas de outra maneira lhe fuccedeo. 
Porque ainda ella não chegava , quando os 
noflbs com o nome dejefus naboc^ fe lan- 
çaram dentro tão levemente 3 que ainda o 
pé não era poílo na coxía , quando o ferro 
das lanças era no peito dos Mouros ; aíli 
animofamente , que como carneirada em que 
dam lobos , os fizeram logo remoinhar. E 
como eram muitos , huns embaraçavam os 
outros , por fè reíguardar de fe não feri- 
rem y e os noflbs não tinham outro oílicio , 
fenão fornear , e enfopar as lanças nelies , 
com que alguns fe lançaram ao mar. Final- 
mente foi tamanha a defenvoltura , e dei- 
pacho , que eíles cinco homens com os mari- 
nheiros tiveram naquelle commettimento , 
que ainçia que andavam bem fangrados, o 
Senhor Deos que os animava , e favorecia , 
lhes deo força pêra que ficaífem fenhores da 
lanchara , morrendo grande parte dos Mou- 
ros, huns delles ás lançadas , e outros afo- 
gados. E feu próprio Capitão rouco de bra- 
dos ? que fe não lançaíTem ao mar , não co- 
mo quem fogia , mas com indinação delles , 
fe lançou também ; e com hum terçado na 
mão direita , remando com os pés , e a ef- 
querda , matava nelies por fe vingar, como 

ho- 



Década III. Liv. III. Cap. VI. 303 

homem defefperado. Quando as outras duas 
lancharas de longe viram que os noííbs eram 
fenhores deita , parecendo-Jhes que o batel 
trazia tanta gente , que podia fazer aquelle 
feito , e mais que a náo começava de fo- 
brevir a elies , fizeram a volta ao porto don- 
de fahíram , que foi vida pêra os noííbs, 
por eftarem taes , que não tinham já alento , 
e vafavam muito fangue ; e o que NoíTo 
Senhor fez mais por elles , foi , que das fe- 
ridas que houveram , nenhum delles morreo. 
EIRey dePacem vendo-fe comefta injúria, 
e temendo que pois Malaca deftruíra EIRey 
de Bintam , que outro tanto poderia fazer 
a elle com alguma Armada j e também ík- 
bià que era ido hum Principe herdeiro da- 
quelle eftado ao Governador da índia re- 
querer ajuda contra elle, por fegurar fuás 
coufas 5 mandou dizer a Manuel Pacheco 
que queria paz , e não guerra ; e que fe o 
Capitão de Malaca a mandava fazer por 
caufa de algumas perdas , que os Portuguezes 
alli tinham recebido , em que elle não era 
culpado , (como fe inoftraria , quando o qui- 
zefle faber , ) elle era contente de compoer 
todo efte damno. Manuel Pacheco, porque 
havia já tempo que andava alli , e tinha vin- 
do ao ponto que Garcia de Sá defejava, 
que era ter paz com efta Cidade Pacem , por 
íer mui importante ao eílado de Malaca , 

e ef- 



304 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

e efte tyranno fe fomettia com obrigação 
de fatisfazer as perdas que os noíTos rece- 
beram , e mais que lhe convinha ir dar hum 
fôlego á gente , que com elle andava ; fin- 
gio que elie não tinha poder pêra affentar 
paz com. elle , fenao fazer-lhe crua guerra ; 
e porém por quanto a dk lhe convinha che- 
gar a Malaca , daria conta ao Capitão dei- 
te leu requerimento. Partido Manuel Pache- 
co ,. levou a lanchara , que os noííbs toma- 
ram , pêra eftar em Malaca por memoria de 
tão honrado feito , onde foi recebido com 
muito prazer de todos. E porque Duarte 
Coelho eftava pêra ir á China, onde Gar- 
cia de Sá o mandava com huma náo , e hum 
navio afazer fazenda d' EIRey , pêra a qual 
viagem era mui neceflario levar pimenta , 
e EIRey de Pacern requeria paz ; por vir 
em tão boa conjunção efte feu requerimen- 
to, leix.ou de mandar a ifib Manuel Pache- 
co , por fe não fazerem duas defpezas , e 
foi Duarte Coelho a efte negocio. O qual 
affentou a paz , e carregou as duas náos que 
levava , de pimenta , e feda , e outras mer- 
cadorias , que ficaram em Malaca , em que 
fe fez boa fazenda ; e com a pimenta , e 
outra carga partio pêra a China , da viagem 
do qual adiante faremos relação. E por fer 
já vinda a monção pêra a índia , partio-fe 
António Corrêa carregado de honra, e da 

fa- 






Dec.III. Lív.IIL Cap. VL eVII. 30? 

fazenda que fez em Pegu , coufas que pou- 
cas vezes le coníeguem , onde elle chegou 
a falvamento. E per aqui acabamos as cou- 
fas , que naquellas partes de Malaca le fize- 
ram oanno de dezenove, e vinte , no qual 
tempo paliaram outras na índia , de que con- 
vém darmos razão por haver muito tempo 
que delia partimos. 

CAPITULO vir. 

Em que fe defcreve o Jitio das Ilhas de 
Maldiva , e algumas coufas delias : e como 
João Gomes , que foi enviado a fazer hu~ 
ma fortaleza na principal chamada Maldi- 
va , afez 5 e depois o mataram os Mouros > 
e a caufa porque. 

AO tempo que Diogo Lopes dé Sequei- 
ra defpachou António Corrêa , Gar- 
cia de Sá , Simão d 5 Andrade, e outras pe£ 
foas pêra as partes de Malaca , em a rela- 
ção do que alguns paliaram nos detiveram 
té eftepaííado Capitulo , também defpachou 
outros Capitães. E porque João Gomes de 
alcunha Cheira-dinheiro fôi o primeiro pê- 
ra fazer huma cafa forte nas Ilhas de Mal- 
diva , primeiro que entremos na relação do 
que elle fez , convém darmos huma geral 
noticia deftas Ilhas de Maldiva , em que tan- 
tas vezes falíamos. Efte nome Maldiva > 
Tom.III.P.L V pof- 



306 ÁSIA de João de Barros 

poílo que feia nome próprio de huma ío 
Uha , como logo veremos, a etymologia 
delle em a lingua Malabar quer dizer mil 
Ilhas, Mal mil, e diva Ilhas, porque tan- 
tas dizem haver em huma corda delias. Ou- 
tros dizem , que efla palavra Mal he nome 
próprio da principal , em que reíide ElRey , 
que fe intitula por lenhor de todas , e a ci- 
la commummente chamam Maldiva , como 
fe diíTeífem a Ilha de Mal ; e como ella he 
cabeça de todas , todas fe intitulam delia. 
E efta corda , que corre á femelhança de 
huma faixa eílendida fronteira á coíla da 
índia , começa nos baixos , a que chama- 
mos de Pádua na paragem de monte De- 
lij , e vai enteítar na terra da Jaóa , e coíla 
de Sunda. Ifto fegundo demoliram algumas 
cartas da navegação dos Mouros , porque 
os noííòs té ora tem noticia fomente de obra 
de trezentas léguas do curfo delias, come- 
çando nas a que chamam de Mamálle , no- 
me de hum Mouro de Cananor , que era 
fenhor das primeiras , que eílam apartadas 
da coíla Malabar per efpaço de quarenta 
léguas em altura doze gráos e meio da 
parte do Norte. E as derradeiras neíla dif- 
tancia de trezentas léguas chamadas Candú , 
e Adú , cftam 'em ktt gráos da parte do 
Sul • e quaíi no meio deíla faixa de tre- 
zentas léguas eílá a principal delias chama- 
da 



DecadaIII. Liv. III. Cap. VIL 307 

da Maldíva , que diíTemos , onde refide o 
Rey , que fe intitula por fenhor de todas» 
As quaes Ilhas as mais pequenas eílam en- 
cabeçadas em as maiores de maneira , que 
huma governa trinta , quarenta , fegundo 
eílam íituadas ; e a eíle número aíli encabe- 
çado em huma chamam elles patána. E pof- 
to que o Rey , que fe intitula por fenhor 
de todas , e todo o povo delias feja Gen- 
tio , os Governadores são Mouros , coufa 
que elles fempre trabalham j porque com 
ter a governança das terras , pouco , e pou- 
co fe vem a fazer fenhores delias. E o mo- 
do que nifto tem he fazerem-fe rendeiros 
da renda das terras , principalmente dos por- 
tos de mar , porque com eíle arrendamen- 
to anda junto o governo dajuíliça, por fe 
melhor arrecadarem as rendas do Príncipe 
da terra ; e eíle ufo que os Mouros tem, 
mais he inda nas terras firmes que nas Ilhas. 
A íituação deitas de Maldiva , ainda que 
algumas das maiores fejam apartadas humas 
das outras per eípaço de vinte j quinze , 
dez , e cinco léguas , o maior número del- 
ias he eílarem tão conjuntas , e apinhoadas , 
que parecem hum pomar meio alagado de 
agua , que quafi tanta parte he cuberto co- 
mo defcuberto delia j e que de falto em fal- 
to , por não molhar os pés , e ás vezes lan- 
çando a mão nos ramos das arvores > fean- 

V ii da 



308 ÁSIA de JoÃo de Bakros 

da todo. E são os canaes deita agua que 
as retalha tão retorcidos , que os mefmos 
naturaes ás vezes huma maré os apanha , e 
lá os vai lançar em parte , onde não íabem 
atinar. Porque ainda que eíles canaes mui- 
tos delies tem tanta altura, per que podam 
navegar náos mui groílas , são tão eftreitos , 
que em partes vam dando com a entena das 
velas nos palmares ; não que dem tâmaras y 
como dam as de Barberia , e toda Africa , 
mas hum pomo do tamanho da cabeça de 
hum homem ; ao miolo do qual primeiro 
que lhe cheguem , tem duas cafcas á ma- 
neira de noz. A primeira , pofto que per ci- 
ma , he mui liza 5 paflada aquella tez liza , 
todo o mais he tão eítopento , que fcfia todo 
melhor que efparto , da qual cordoalha fe 
ferve toda a índia : e principalmente em 
amarras , por ferem as que fe fazem deite 
fiado mais feguras , e duráveis no mar, que 
nenhuma forte de linho. E a caufa he por- 
que enverdece com a agua falgada ; e faz- 
fe tão correento nella , que parece feito de 
coiro , encolhendo , e eítendendo á vontade 
do mar : de maneira , que hum cabre deites 
bem groífo , quando a náo com a fúria de 
tempeítade , eítando fobre ancora , porta 
muito per ella , fica tão delgado , que pare- 
ce não poder falvar hum barco ; e no ou- 
tro faluço , que a náo faz arfando , torna a 

ficar 



Década III. Liv. III. Cap. VIL 309 

ficar em fua groíTura. Servem-fe mais defte 
cairo em lugar de pregadura j porque como 
tem efta virtude de reverdecer, e engroffar 
110 mar , cozem com elle o taboado do co£ 
tado das náos , e tem- as por mui feguras : 
verdade he que elles não navegam pela fú- 
ria dos mares do Cabo de Boa Efperança > 
nem menos tem hum pairo a pezar dos ven- 
tos , como fazem as noíTas náos , fomente 
navegam no tempo do verão em monções, 
que são tempos bonanças regulados em feu 
curfo per efpaço de três mezes , e como 
entra inverno , logo ceifam de navegar. Tem 
mais efte pomo tão proveitofo outra cafca 
de mui duro páo , per cima da qual ficam 
os fmaes daquelles nervos , e fios da outra , 
á maneira do entre-cafco da fovereira , ou 
(por melhor dizer) a maneira de huma noz 
defcuberta da cafca verde. Efta cafca per 
onde aquelle pomo recebe o nutrirnento ve- 
getavel , que he pelo pé , tem huma ma- 
neira aguda , que quer femelhar o nariz 
poílo entre dous olhos redondos , per on- 
de elle lança os grellos , quando quer naf- 
cer: por razão da qual figura 9 ] fem fer fi- 
gura , os noífos lhe chamaram coco , nome 
impofto pelas mulheres a qualquer coufa , 
com que querem fazer medo ás crianças , 
o qual nome aífi lhe ficou , que ninguém 
lhe íabe outro , fendo o feu próprio , como 

lhe 



310 ÁSIA de João de Barros 

lhe os Malabares chamam , Tenga , e os Ca- 
narijs , Narle. O miolo , que tem dentro nef- 
ta fegunda cafca , ficará de tamanho de hum 
grande marmelo, e porém de parecer dif- 
ferente, porque fua própria femelhança na 
cor de fóra , e de dentro he huma avelã , 
que tem dentro algum vão, fem fer maci- 
ça, e do mefmo fabor , mas com mais grof- 
fura , e fubftancia , cá tem mais partes olio- 
ginofas que a avelã. Dentro no qual vão 
fe eftilla huma agua mui doce , e cordeal , 
principalmente ao tempo que elle eftá na 
arvore já de vez \ e quando quer nafcer , 
todo eíle concavo em que efta agua eftá , 
fe faz huma máfia efpeflfa á maneira de na- 
ta , a que elles chamam lanha , coufa mui 
fuave , e faborofa , e de melhor fubftancia , 
que as amêndoas , quando na arvore que- 
rem coalhar. Porque eíle fruto na fubftan- 
cia , na altura , no ufo de comer , e óleo 
que em íi tem , muito femelhavel he ás ave- 
lans , e amêndoas , e aíli tem per cima aquel- 
la cor alionada , e per dentro he alvo. Ef- 
te pomo , e a palmeira que o dá parece fer 
das mais proveitofas coufas , que Deos deo 
ao homem pêra fua fuftentaçao , e necefla- 
rio ufo; porque além de fervirem no que 
já diífemos , fazem delle mel , vinagre, 
azeite , vinho , e mais he mui fubftancial 
mantimento per li fó comido, e mifturado 

com 



DecadaIIL Liv. III. Caí. VIL 311 

Com arroz , e per outros modos , de que os 
índios em ieus comeres fe fervem delle. E da 
primeira cafca que o cobre , fe faz o cai- 
ro , que diífemos fer tão commum, e ne- 
ceífario pêra a navegação de todo aquelle 
Oriente , depois que o curtem 3 maçam , e 
íiam á maneira do linho canamo. As pal- 
meiras que o dam também fervem de ma- 
deira , de lenha , e telha , porque cobrem 
as cafcas com as folhas , por vedar bem a 
agua , e aífi lhes ferve de papel , efcrevendo 
nellas da maneira que já diiTemos ; e os feus 
palmitos , quando são novos , não lhes che- 
gam os da Barberia. Finalmente , como hum 
homem naqueilas partes tem hum par de 
palmeiras, ha que tem todo o neceííario pê- 
ra feu ufo ; e quando querem gabar algum 
de bondade em fuás obras , dizem por clle : 
He mais frutífero , eproveitofo , que huma 
palmeira. A fora eftas arvores , que fe criam 
naqueilas Ilhas fobre a terra , parece que 
he tão viva a femente delias , que a natu- 
reza alli repoíitou , que em algumas par- 
tes debaixo da agua falgada nafce outro 
género delias , as quaes dam hum pomo 
maior que o coco ; e tem experiência que 
a fegunda cafca delle he muito mais efficaz 
contra a peçonha , que a pedra Bezoar , que 
vem daqueílas partes Orientaes , que fe cria 
no bucho de huma alimária, a que osPar- 

feos 



312, ÁSIA de Joio de Bakros 

feos chamam Pazon , de que nos livros de 
noíTo Commercio tratamos largamente fal- 
lando das couías contra peçonha. A mais 
commura , e notável mercadoria que eftas 
Ilhas tem y por cuja caufa fe navega para 
ellas , he o cairo que diíTemos , por fe não 
poder navegar em todas aquellas fem elle. 
E aílí tem huma maneira de marifco tão 
miúdo , como caracóes , mas de outra fei- 
ção , e de hum oífo duro, branco, e luí- 
trofo , entre os quaes fe acham alguns tão 
pintados , e luílrofos , que feitos em botões 
com hum cerco de ouro , parecem alguma 
coufa efmakada , dos quaes fe carregam por 
laílro muitas náos pêra Bengala , e Sião, 
onde fervem de dinheiro , ao modo que en- 
tre nós ferve a moeda miúda de cobre pê- 
ra comprar as coufas miúdas da praça. E 
a eíte Reyno de Portugal também fe trazem 
por laílro dous , e três mil quintaes alguns 
annos 5 os quaes fe levam a Guiné , aos 
Reynos de Beneij , e Congo , onde fe gaf- 
tão no mefmo ufo de moeda , e o Gentio 
do interior daquellas terras fazem deíla moe- 
da thefouro. E á maneira de como os mo- 
radores daquellas Ilhas o apanham , e pef- 
cam , he fazerem grandes balfas de folha 
de palma , liadas humas com outras por 
fe não efpedaçarem ; e lançadas no mar, 
fóbe eíle marifco a ellas bufcar algum ce- 
vo i 



Década III. Liv. III. Cap. VIL 313 

vo ; e como eítas balfas eftam bem cuber- 
tas delle , tiram-as á terra , e apanhado , 
todo he mettido debaixo da terra té que 
apodrece o pefcado que tem , e de li lava- 
do no mar , ficam os búzios , (que aíli lhe 
chamamos nos , e os Negros Igovos , ) mui 
alvos , pêra com menos nojo os tratar nas 
mãos, que amoeda de cobre, de que nef- 
te Reyno vai hum quintal de três té dez 
cruzados , fegundo vem muito , ou pouco 
da índia. Tem mais eftas Ilhas muita pef- 
caria, de que fe faz grande cópia de mo- 
xama , que fe leva pêra muitas partes por 
mercadoria , em que fe ganha bem , e aíli 
em azeite de peixe, e cocos, ejágara , que 
fe faz delles ao modo de açucare. Quanto 
áscoufas de artificio que agente delias faz, 
são pannos de feda , e algodão , e delles 
são taes , que coufa de recedura não fe faz 
melhor em todas aquellas partes , eifto prin- 
cipalmente nas Ilhas Ceudú , e Cudú , on- 
de dizem que ha melhores tecelões , que 
em Bengala , e Choromandel. Porém toda 
a feda , e algodão , de que fazem eíles pan- 
nos j lhes vem de fora , por ferem mui des- 
falecidas deftas duas coufas , e aíli de arroz , 
que todo lhe vai de carreto. Tem criação 
de gado vacum , carneiros , e ovelhas ; mas 
não tanto que lhes efcufem as manteigas , 
que lhes yam de Ceilão , . e de outras partes , 

em 



314 ÁSIA de João de Barros 

em que fe faz muito proveito. A gente def* 
tas Ilhas y com que os noíTos tem communi- 
cação , he baja , fraca , e maliciofa , cou- 
fas que fempre andam juntas , não fomente 
em a natureza dos homens , mas ainda nos 
brutos animaes , donde fe pode verificar hu- 
ma paradoxa , que todo fraco de animo he 
rnaiicioib em cautelas. Veíle a principal gen- 
te pannos de feda , e algodão ; e a outra 
da plebe , das mefrnas palmeiras , e de her- 
vas tecem fua cubertura. Tem lingua pró- 
pria ; poílo que os que vizinham com a cof- 
ta do Malabar, faliam a fua lingua, prin- 
cipalmente na Ilha Maldiva, onde eftá El- 
Rey , por caufa de concorrerem a ella mui- 
tos Malabares. E a efta Ilha chegou João Go- 
mes , que , ( como no princípio diífemos , ) 
Diogo Lopes defpachou pêra vir a ella fa- 
zer huma cafa forte á maneira de fortale- 
za 5 pêra dalli feitorizar cairo , e outras cou- 
fas que ha na terra pêra provimento das 
Armadas. O qual polo que já eftava aífen- 
tado entre EIRey , e D. João da Silveira 
fobre o fazer defta cafa , como atrás fica , 
elle João Gomes foi recebido d'ElRey com 
gazalhado , e lhe deo lugar onde pudeTe 
fazer a cafa que requeria. E porque elle 
levava recado que mandafle logo cairo, e 
outras coufas que ha na terra pêra provi- 
são da feitoria de Cochij , e não podia jun- 
ta- 



Década III. Liv. III. Cap. VII. 315: 

tamente dar aviamento a iílò , e mais fazer 
a caía forte de pedra , e cal , por não achar 
eílas achegas preíles , pêra que havia mif- 
ter mais vagar ; como homem que eftava 
em terra pacífica , e que tinha o Rey por 
íl , fez huma força de madeira pêra feu 
recolhimento , no qual durou pouco tempo > 
porque o regular curfo das coufas , em que 
os homens trabalham , he , que cada hum 
colhe a novidade da terra fegundo o que 
neíla femeou. E como João Gomes , por 
fer homem cavalleiro de fua peííoa , era hum 
pouco imperiofo , e queria que todo mun- 
do lhe obedeceíTe , e que bafíava fer Portu- 
guez , pêra ifto aífi fer , e mais Capitão d'El- 
Rey de Portugal ; quantas náos de Mou- 
ros alli vinham ter , todas queria que efti- 
veífem a feu mandar , como fe elie fora o 
Rey da terra. Do qual modo , e tratamen- 
to os Mouros fe escandalizavam ; e fobre 
eíle efcandalo fe ajuntou o damno , e per- 
da j que Gromalle Mouro de Cambaya re- 
cebeo em a náo , que lhe tomou D. João 
da Silveira , quando alli veio ter, (como 
atrás eferevemos.) Finalmente , tanto que 
elle foube que João Gomes alli eílava , e 
que tinha dez , ou doze homens comíigo 
iómente , ajuntáram-fe os Mouros efeanda^ 
lizados de João Gomes 3 que foram ter a 
Cambaya, e armados certos navios deram 

fo- 



316 ÁSIA de JoXo de Barros 

fobre elle , e o mataram com quantos ti- 
nha comíigo. 

CAPITULO VIII. 

Do que fezChriftovao de Soufa com huma 

Armada , que lhe o Governador Diogo 

Lopes deo pêra ir d cofia de Dabul : e 

ajji do que p a /piram outros , que 

também enviou o anno feguinte. 

A Trás fica como Chriftovão de Soufa 
foi mandado per Diogo Lopes de Se- 
queira com féis velas de Armada para an- 
dar na coita de Dabul , por razão do que 
os Mouros alli tinham feito no tempo de 
Lopo Soares. Sobre o qual cafo elle tinha 
lá enviado João Gonçalves de Caftello-bran- 
co com três fuftas , ao qual Diogo Lopes 
mandava que fe ajuntaíTe com Chriftovão 
de Soufa, e andaffe com elle té a entrada 
do inverno em guarda daquella cofta , e náos 
que de Goa , Cananor , Cochij hiam carre- 
gar a Chaul , onde tínhamos huma feitoria , 
de que era Feitor Diogo Pais. Seguindo 
Chriftovão de Soufa efta viagem , como foi 
já no fim de Janeiro, achou os ventos No- 
roeftes , que naquella cofta pêra fua viagem 
eram mui contrários. E parecendo-lhe que 
abraçando-fe mais com a coita , em algu- 
mas enleadas , ficaria mais abrigado dos 

ven- 



Década III. Li v. III. Cap. VIII. 317 

ventos , que lhe eram ponteiros , e tam- 
bém nas abras dos rios podia achar alguns 
navios de Mouros , que furtadamente de 
nós pairavam dalli pêra Cambaya cem al- 
guma pimenta ; cofeo-fe bem com a terra , 
té chegar á barra do rio Citápor , onde 
foube que eílava huma náo , que carrega- 
va de pimenta. A gente da qual tanto que 
vio hum catur ', que Chriílovao de Scufa 
mandava a ella , falvou-fe em terra , leixan- 
do a náo defamparada , com que o catur 
não teve mais que fazer que levalla. Chrif- 
tovao de Soufa , tanto que os Noroeíies o 
leixáram , fe poz em caminho pêra Dabul , 
onde achou nova que os Mouros , chegan- 
do Ruy Gomes d' Azevedo á barra do rio , 
ao longo do qual eftá a Cidade Dabul íl- 
tuada , o vieram commetter com muitas fu£. 
tas ; e eítando com ellas ás bombardadas , 
faltou-lhe fogo na pólvora , com que fe 
queimou elle . e a gente ; do qual defaílre 
efeapou huma mulher Portuguez , que os 
Mouros cativaram , e iílo haveria féis , ou 
lete dias que paliara : Cuidando Chriílovao 
de Soufa que eíla caravela lhe ficava atrás , 
por não fer boa pêra abolinar no tempo 
que a levou ao longo da coita, e ella lan- 
çou-fe ao mar pêra mais cedo fe ir perder. 
Chriílovao de Soufa com o primeiro Ímpe- 
to da indinação que teve deúe cafo quizera 

com- 



318 ÁSIA de JoÃo de Barros 

commetter ir dar íbbre a Cidade Dabul ; 
peró leixou de o fazer 5 porque a entrada 
do rio tinha hum baluarte mui forte , e 
cheio de tanta artilheria, que podia metter 
no fundo quantas velas quizeífem entrar pê- 
ra dentro , e mais tinha já perdida a gente 
da caravela. E eílando determinado pêra 
ir a Chaul ver fe andava lá João Gonçal- 
ves , e com elle vir commetter eíle cafo com 
mais cópia de gente 5 deo-lhe tamanho tem- 
poral de Noroeíte , que o fez recolher na 
enfeada dos Malabares, que fera de Chaul 
duas léguas, Paffada a qual fúria do tem- 
poral , depois de naquella enfeada ter pof- 
to o fogo a huma povoação de Mouros , 
tomou- fe á barra de Dabul , onde achou 
outra tal nova como a primeira de huma 
náonoíTa, que osofficiaes de Cananor man- 
davam á feitoria de Chaul , a qual as fuftas 
de Dabul tinham mettido no fundo. Quan- 
do Chriftovão de Soufa fe vio em meio def- 
tes dous defaílres , que elle attribuia a íi mef- 
mo polo modo que paífáram , foi-fe com 
eíla indinaçao a Chaul em bufea de João 
Gonçalves ; mas achou lá nova fer partido 
pêra Goa 3 donde depois o tornou o Go- 
vernador a mandar , como veremos. Chrif- 
tovão de Soufa , porque não o leixavam os 
Noroeftes , que naqueflle tempo alli curfa- 
yam muito, e podia já mal foífrer a vela, 

e tam- 



DecadaIII. Liv.IIL Cap.VIIL 319 

e também não via modo pêra tomar emen- 
da dos Mouros de Dabul , recolhidos man- 
timentos , fez-fe á vela caminho de Goa , 
dando primeiro em hum lugar chamado 
Calacij cinco léguas de Dabul , por fer Teu , 
o qual commettimento houvera de cuftar 
a vida de muitos , per efta maneira. Chrif- 
tovao de Soufa chegado de noite á barra 
defte lugar , parecendo-lhe que por fer de 
noite fe poderia melhor vingar dos Mou- 
ros , fe os tomaíTe de fobrefalto , leixou a 
caravela de Lourenço Godinho , e a fua 
galé na barra , e em duas fuíías , e hum 
paráo , e bateis fe metteo pelo rio acima , 
fendo luar bem claro. Peró como os Mou- 
ros eftavam de avifo fobre elíe , que fa- 
biam andar per aquella cofta , efcandaliza- 
do do que os Mouros de Dabul lhe tinham 
feito , quando entrou no lugar , pofto que 
era grande, e nobre, com fumptuofas mef* 
quitas 5 era já todo defpejado , com que 
não teve mais que fazer, que entrar no lu- 
gar , e deíia pouquidade que fe pode ha- 
ver da gente commum recolhia a praia , 
pêra embarcar pela manha. A qual não lhe 
pareceo tão pacífica , como a noite : cá cem 
fua vinda appareceo fobre o lugar hum Ca- 
pitão com té quatrocentos homens , os mais 
delles frecheiros, como gente determinada , 
e offerecida a morrer. Chriflovao de Sou-* 

fa 



320 ÁSIA de João de Barros 

ia parecendo-lhe que andava ainda no lu- 
gar alguma gente noíía no engodo do es- 
bulho , fahio com té quarenta efpir.gardei- 
ros ; e a mais gente que tinha , que leriam 
cento e cincoenta homens per todos. E quan- 
do chegou a huma rua do lugar, traziam 
os Mouros diante li ás frechadas alguns dos 
noíTos , que lá andavam ; e dando Sant-Iago 
com o alvoroço que a gente levava , de£ 
carregaram as efpingardas nos Mouros. Os 
quaes íòíFrendo aquelle primeiro Ímpeto , 
como todos eram frecheiros , amiudaram 
fuás frechas , que nunca mais os nolfos ef- 
pingardeiros puderam cevar íuas eípingar- 
das. E porque eftes não trazem adargas , 
como a outra gente de armas , foram os 
primeiros que começaram receber o dam- 
no das frechas , e affi os primeiros que fe 
puzeram em falvo caminho das fuílas. O 
qual defamparo fez a Chriftovão de Soufa 
vir-fe também recolhendo a ellas , por fe 
ajudar da artilheria que nellas eílava 7 com 
que podiam varejar ao longo da praia , pê- 
ra os Mouros darem lugar a íe embarca- 
rem ; mas deita indufrria Chrillováo de Sou- 
fa fe náo pode fervir , porque fentindo-a os 
Mouros , mettèram-fe entre os nofios ,- e a 
embarcação de maneira , que não podiam 
tirar das fuftas , que não fizeííem tanto dam- 
no em os noiTos, como nelles. Finalmente 

Chrit 



Década III. Liv. IILCa*. VIIL 32Í 

Chriftovão de Soufa por tomar a embarca- 
ção , e os Mouros por lha defender , fe 
paliaram três horas , té que á força de fer- 
ro elle fe achou ao embarcar fomente com 
dez homens derredor de íi , porque de cen- 
to e cincoenta , com que elle fahio , to- 
dolos outros eram embarcados , de que as 
peíToas que o mais acompanharam te fe met- 
ter na fufta , foram Francifco de Soufa Ta- 
vares feu fobrinho , e Belchior Tavares. O 
qual negocio foi tão quente , que entraram 
os Mouros com elles dentro na agua , e 
com as mãos queriam reter a fuíta y dos 
quaes muitos ficaram na praia eítirados , e 
dos noflbs foram feridos trinta e cinco ; e 
hum bombardeiro , eftando dentro na fufta , 
huma frecha o foi matar. Recolhido Chrif- 
tovão de Soufa ás fuás embarcações, foi-fe 
caminho de Chaul , para aqueila gente fe- 
rida fer melhor curada. Diogo Lopes de Se- 
queira 7 porque a Goa lhe foi recado do 
que acontecera na perdição da caravela , e 
náo , que os Mouros de Dabul mettêram no 
fundo , como ora contamos , e na infor- 
mação deite cafo foi culpado tanto Chri£ 
to vão de Soufa , que fem mais aguardar ou- 
tro recado , o mandou logo vir. O qual re- 
cado levou António Rapofo , que hia em 
companhia de João Gonçalves , que Chrif- 
tovão de Soufa cuidava eftar em Chaul , e 
Tom.lII.P.L X elle 



322 ÁSIA de João de Barros 

elle era já partido pêra Goa , como diífe- 
mos , o qual trazia quatro , ou cinco na- 
vios , c com os mais que tinha Chriftovão 
de Soufa , a quem elle efcrevia que lhe en- 
tregaíTe os que trazia comfigo, João Gon- 
çalves havia de andar naquella coita. Peró 
Chriftovao de Soufa , como lhe conftou , que 
por Diogo Lopes fer mal informado do 
cafo , lhe mandava que entregafle a Arma- 
da , elle o nao quiz fazer , eftando ainda 
em Chaul curando a gente ferida do cafo 
que ora contámos ; e depois que foi em 
Goa , Diogo Lopes ficou fatisfeito das ra- 
zoes que lhe elle deo da culpa \ que ante 
elle lhe quizeram dar , porque também fou- 
be Diogo Lopes nao fer culpa fua, fenao 
defaítres ; e que quando conveio pelejar, 
elle o fizera como cavalleiro que era. E 
logo no verão feguinte mandou Diogo Lo* 
pes a Chriícovão de Sá , filho de Henrique 
de Sá Senhor de Matofinhos , e Alcaide 
mor do Porto com três galés para andar 
de Armada na coita de Chaul , e paragem 
de Dio. Porque foube per João Gonçalves 
quantos modos Melique Az Senhor de Dio 
bufcava pêra com fuás fuítas damnar as noí- 
fas coufas , quando fe podiam ajudar de 
nós ; e também por caufa das fuítas de Da- 
bul, de quem as noífas náos , e navios, que 
hiam a Chaul , recebiam muito damno. E 

os 



DecadaIII. Li v. III. Cap.VIII. 325 

os Capitães das duas galés , que hiam com 
Chriftovao de Sá, eram D. Jorge de Me- 
nezes feu primo com irmão, filho baftardo 
de D. Rodrigo de Menezes Commenda- 
dor da Granduía da Ordem de Sant-Iago, 
e Jorge Barreto de Beja. Com as quaes ve- 
las Chriftovao de Sá andou naquella coita 
de Cambaya , e aíli aíTombrou Melique Az , 
vendo que começavam já deattentar nelle, 
que recolheo fuás fuílas ; e acabado o tem- 
po que lhe Diogo Lopes limitou que an- 
daíTe alli , tornou- fe pêra Goa. Nas coftas 
do qual veio António de Saldanha ter na- 
quella paragem de Dio , o qual vinha de 
Ormuz j onde invernára da vinda do eftrei- 
to, como atrás efcrevemos. E efte peque- 
no tempo , que António de Saldanha an- 
dou na cofta de Dio , quafi de paliada , co- 
mo era na monção que as náos de Meca 
vem pêra aqueila Cidade , fez nellas boas 
prezas 5 que fe accrefcentáram ás outras que 
trazia da cofta de Arábia. Com as quaes 
chegou á índia , onde todai^_ AxXDààas , 
que Diogo Lopes fez os annos de dezoito > 
e dezenove , fe recolheram , porque aíli o 
tinha elle ordenado pela neceílidade que 
havia das velas , e da gente pêra huma grof- 
fa Armada , que o anno de quinhentos e 
vinte havia de fazer pêra entrar o eftreito 
úo mar Roxo > que lhe EIRey mandava 9 

X ii co- 



324 ÁSIA de J0Ã0 de Bakkos 

como fez ' y e adiante faremos relação dei- 
ta fua ida. 

CAPITULO IX. 

Do que paffòu huma Armada de quator- 

%e velas , Capitão mor Jorge d?Albo- 

querque , que o anno de quinhentos e 

dezenove EIRey D. Maiiuel mandou 

d índia : e do que Diogo Lopes 

de Sequeira nijjo fez. 

OAnno de quinhentos e dezenove fez 
EIRey D. Manuel huma grofla Ar- 
mada de quatorze velas , porque mandava 
fazer algumas fortalezas na índia , e Capi- 
tães a novos defeubrimentos ? pêra que con- 
vinha cópia de velas , e gente , a capitania 
mor da qual frota deo a Jorge d'Alboquer- 
que , que na índia havia de fervir de Ca- 
pitão da Cidade Malaca depois de Aífon- 
fo Lopes d' Acoita. E em quanto não en- 
trzffe nefta capitania , dava-lhe EIRey hu- 
ma viagem pêra a China , pelo modo de 
Fernão Peres d' Andrade , pêra a qual ida 
lá na índia lhe haviam de fer dados navios. 
Õ que lhe dava pola experiência que tinha 
de feus ferviços naquellas partes , em que 
moílrou muita virtude , e cavalleria que ha- 
via nelle. Da qual Armada aquelle anno 
pairaram fomente quatro náos, de que eram 

os 



Década III. Liv. III. Cap. IX. 325" 

os Capitães Lopo de Brito filho de João de 
Brito , Pêro da Silva filho de Ruy Mendes 
de Valconcelios fenhor das Villas de Fi- 
gueiró e Pedrógão , que havia de andar por 
Capitão do trato de Cochij pêra Ormuz , 
João Rodrigues d 5 Almada , e Francifco da 
Cunha , que partindo depois a fete de Junho , 
chegou a Cochij a dez de Outubro. E os 
que não pairaram aquelle anno á índia , e 
invernáram em Moçambique , e per aquella 
coita , foram eíles : o meímo Jorge d'Albo- 
querque , Chriftovão de Mendoça filho de 
Diogo de Mendoça Alcaide mor de Mou- 
rão , Rafael Pereíirello , Rafael Catanho , 
Diogo Fernandes de Beja , o Doutor Pêro 
Nunes , que hia pêra fervir de Veador da 
fazenda daquellas partes , peio modo de Fer- 
não d' Alcáçova , de que atrás falíamos. Ma- 
nuel de Soufa , filho de Duarte de Soufa , 
.Gonçalo Rodrigues Corrêa , D. Diogo de 
Lima , que arribou a efte Reyno , e D. Luiz 
de Gufmao Fidalgo Caftelhano , que fe 
levantou com hum formofo galeão que le- 
vava ; e o cafo fuccedeo per efta maneira. 
Seguindo efte D. Luiz fua viagem , quando 
foi na traveífa do cabo de Santo Agoftinho 
pêra o de Boa Efperança , que he a regu- 
lar derrota , deo-lhe hum tempo que lhe 
quebrou o leme , e ficou tão fem corregi- 
mento ^ que lhe foi forçado arribar á terra 

de 



326 ÁSIA de J.0Ã0 de Barros 

de Sanita Cruz do Braíil. Na qual parte 
por defeuido que teve , eftando em terra 
fazendo o leme , os Bralijs lhe mataram cin- 
coenta e tantos homens , em que entrou o 
Piloto. Vendo-fe D. Luiz com eíte defaftre , 
que elle houve por boa fortuna , fegundo 
íeus máos propofitos , de que já havia al- 
guma noticia em palavras que ante tinha 
foltado , como era homem á maneira de 
foldado , aíTentou em feu peito de fe tornar , 
e ir-fe pêra Itália , e andar naquelle arcipe- 
lago a toda roupa. E porque fe pudefle 
melhor fenhorear dos Portuguezes que fica- 
ram , ííngio que queria buicar as arcas de 
todos , dizendo que tinha íàbido que dos 
defuntos que os Braíijs mataram , muitos 
tinham tomado parte de fua fazenda. A qual 
bufea fazia per mãos de Caílelhanos , que 
hiam em o galeão, entre criados, e outros 
que convocou pêra feu propoíito ; e como 
achava arma alguma nas arcas , tomava-a 
logo 5 dizendo que o fazia por evitar bri- 
gas em a náo. Per efte modo feito fenhor 
da náo , começou defeubertamente moílrar 
quem era , fazendo cruezas como hum al- 
goz , em que matou alguns Portuguezes ; e 
poílo na volta das Ilhas terceiras, o Mef- 
tre Fernando Aífonfo , que elle trazia co- 
mo prezo , per artificio lhe fogio , o qual 
lhe fervia de Piloto , e affi hum batel com 

ai- 



Década III. Liv. III. Cap. IX. 327 

alguns marinheiros. E porque elíe levava 
já tomada huma naveta de Duarte Belio 
hum mercador de Lisboa , a qual vinha 
da Ilha S. Thomé carregada de açucares , 
eeícravos, ehuma caravela que tomou en- 
tre as Ilhas , e com os poulos que de hu- 
mas em ourras andou fazendo,, e fama que 
os fogidos deram delle , fe foube feu pro- 
poíito , vigiáram-fe as povoações pequenas 
delle, e nos primeiros navios que partiram 
pêra efte Reyno íe veio o Meure dar con- 
ta a EiRey. O qual logo a grão preíTa man- 
dou daravifo a todolos portos de Caftella , 
que vindo al!i , o prendeíTem , e trabalhaf- 
íem por lhe tomar o galeão. Elíe tanto que 
nas Ilhas houve eftes dous navios , partio- 
fe com ellcs caminho das Canárias , ante 
de chegar ás quaes , tomou outros dous 
carregados de paítel , e peícado , com que 
entrou no porto da Gomeira por vender 
eíles roubos. Sobre a qual venda , em que 
entrevinha o Capitão do lugar, houveram 
ambos differenças , com que D. Luiz come- 
çou de lhe esbombardear a povoação ; e hou- 
ve ralrefpofta da aitilheria que nella havia, 
que lhe quebraram a verga grande do galeão. 
Vendo-fe elle manco fem o poder marear , 
já como homem aflbmbrado dos males que 
tinha feito , e que não fe atrevia com ta- 
manha preza > pêra que havia miíler mais 

po- 



328 ÁSIA de João de Barros 

poder de gente , e que ella hia dizendo quem 
era , baldeou a artilheria do galeão na me- 
lhor caravela , com o mais preciofo que 
lhe pareceo deites roubos , e com gente de 
fua quadrilha fe partio pêra Caítella , lei- 
xando o galeão , e as outras veias , que de- 
pois vieram ter a poder de íeus donos, E 
por acabarmos eíta fua vil tragedia , che- 
gado elle D. Luiz ao porto de Cales , on- 
de já era o aviíò d'ElRey fobre dk , ef- 
capou da prizao em que o quizeram to- 
mar ; mas depois foi tomado em terra , e 
levado ahuma torre do alcácer de Sevilha , 
da qual per tiras , que fez dos lançoes em 
que dormia, fe lançou ; e como ainda ti- 
nha grande altura pêra chegar a baixo , lei- 
xou-fe cahir , onde quebrou ambas as per- 
nas. E jazendo adi como mereciam fuás 
obras , aos gemidos da dor que tinha acu- 
dio hum homem , que o falvou ás coitas 
em hum Moíteiro de Frades , e depois foi 
ter a Itália , onde acabou mal , como fuás 
obras mereciam. Outro galeão , que tam- 
bém hia nefta Armada , de que era Capi- 
tão Manuel de Soufa , tem outra tragedia 
mais miferavel ; o qual apartando- fe da com- 
panhia de Jorge d'Alboquerque , e chega- 
do a Moçambique, poíto que era já tarde, 
commetteo patiar á índia. Peró como os 
ventos Levantes eram forçofos , não os po^ 

den- 



Década III. Ljv. III. Cap. IX. 329 

dendo foffrer , arribou a terra áquem do 
cabo ■ Guardafií pêra fevprover de agua, de 
que andava mui desfalecido : á mingua da 
qual , por a muita gente que levava , que 
paliavam de duzentos homens , lhe eram 
mortos alguns. Com a qual neceílidade íe- 
guindo a coita caminho de Melinde , veio 
ter a hum lugar chamado Matua , onde lei- 
xado o galeão hum pouco largo da coita 
com quarenta homens no batel , fahio em 
terra buícar agua , a qual achou em fontes 
hum pouco affaftadas da povoação. Agen- 
te da terra tanto que os viram , com refref- 
co de gallinhas, e outras coufas os vieram 
bufcar , aos quaes acharam occupados en- 
chendo barris , e vaíilhas de agua ; e como 
todos vinham famintos deitas duas ccuías , 
defcuidáram-fe tanto do batel , que lhes fi- 
cou em fecco com amare, que alli efpraia 
muito. Quando o elles viram tão longe da 
agua , huns a levar a que tinham recolhi- 
do nos barris , outros aos hombros , a elle 
começaram de fe apreffar; a qual prefla os 
Mouros lhe atalharam com outra maior, 
vindo fobre elles mais de dous mil , que 
os tinham em olho do lugar onde eítavam 
eícondidos , efperando alguma conjunção ; 
e foi ella tal , por o galeão eítar mais de 
meia légua a la mar , que todolos noííos 
ficaram enterrados naquella praia. Os do 



3^0 ÁSIA de JoÃode Barros 

galeão vendo tamanho defaftre , em que en- 
trou o Capitão , e Piloto , que haviam de 
governar a elles , e a elle , não oufando 
fahir em terra , nem efperar mais tempo , 
por a grande neceííidade que tinham de 
agua 5 deram á vela o melhor que puderam , 
por a maior parte da gente andar enferma y 
e foram a hum lugar chamado Oja , que 
fera alam de Melinde contra a índia vinte 
léguas. No qual lugar acharam mantimen- 
tos , e o mais que haviam mifter ; e hou- 
ve tanta facilidade na maneira deita com- 
municaçao per efpaço de dias , que fe foi 
á terra o meílre com cinco peflbas , de que 
os principaes eram , Simão de Pedrola mo- 
ço da Camará d'ElRey , e Belchior Mon- 
teiro 5 ambos naturaes do Porto , onde o 
ienhor de Oja os teve leis dias , lem os que- 
rer ieixar ir ao galeão , moílrando ter mui- 
to contentamento de lua eíhda , pedindo- 
Ihes que invernaíTem alii , onde lhes feria da- 
do todo o neceííario. Os do galeão pare- 
cendo-lhes que eram elles mortos , ou cati- 
vos , como já não traziam cabeça que os 
governafle , e todo feu eftado era íalvar- 
íe das mãos dos Mouros , pois o não po- 
diam fazer da enfermidade , de que o ga- 
leão andava tão ifcado , que cada dia lan- 
çavam mortos ao mar , porque entre elles 
não havia força pêra levar ancoras , cortá- 
i ram- 



Década III. Liv. III. Cap. IX. 331 

ram-as , fazendo-fe á vela , com temor que 
os podiam tomar ás mãos : tanta era a con- 
fiança , que elles tinham na fua força. Quan- 
do o meftre , que citava em terra , o vio 
partir , foi-ie ao fenhor que o entretinha , 
a que elles chamam Rey , o qual havendo 
compaixão do que lhe íòbre iíib diíTeram , 
lhes mandou dar hum paráo pêra irem to- 
mar o galeão ; mas elle hia já tão longe , 
que tomaram elles por falvação tornar-fe 
á terra aEIRey, que os recebeo mui bem. 
O galeão como não levava outro Piloto fe- 
iião o contra-meílre , que do officio fabia 
mui pouco , foi affentar a quilha em hum 
fecco de arêa junto da Ilha de Quiloa , on- 
de per os Mouros delia , e de Monfía , e 
Zenzibar foram mortos , íem darem vida a 
mais que a hum moço fobrinho do meílre , 
o qual EIRey de Zenzibar falvou para 
mandar em prefente a EIRey de Momba- 
ça j cujo vaflallo elle era ; e per derradeiro 
efcorchado o galeão de quanto levava , lhe 
puzeram o fogo , que he o confumidor de 
todalas coufas. As outras velas , que foram 
em companhia de Jorge d ? Alboquerque , 
pofto que não tiveram tantos trabalhos , af- 
fás foram aquelles que lhe fez não paífarem 
á índia, e invernar em Moçambique, on- 
de muitos ficaram enterrados de enfermida- 
de. Diogo Lopes de Sequeira , poílo que 

não 



33 2 ÁSIA de João de Barros 

não fabia deites defaftres , per as náos que 
chegaram á índia foube como partiram def- 
te Reyno quatorze velas , e que fegundo 
os tempos que tiveram neíia viagem , pare- 
cia que infernavam todas em Moçambique , 
e per aquella cofia. E como pelas cartas que 
EIRey D. Manuel lhe efcrevia apertava mui- 
to que em toda maneira entraífe o eftreito 
de Meca , fe o já não tinha feito , pêra a 
qual ida elle fe apercebia , e como vieífe 
a monção , partir ; houve que efta inverna- 
da de Jorge d'Alboquerque lhe vinha a po- 
pa , pêra de Moçambique o ir efperar ao 
cabo Guardafii , e levar parte das náos , e 
gente frefca , que com elle hia. Pêra o qual 
negocio mandou hum Gonçalo de Loulé ho- 
mem diligente , e que entendia bem as cou- 
fas domar, com cartas aJorged'Alboquer- 
que em hum navio , que lhe deo , cm que 
lhe efcrevia que com o primeiro tempo el- 
le fe puzeíTe em caminho , e o foífe efpe- 
rar ao cabo Guardafu com toda fua frota ; 
e achando nova que era já paliado , fe fof- 
fe trás elle caminho doeftreito. E poílo que 
neíca viagem também Gonçalo de Loulé, 
entre animo , cubica , e neceílidade paífcii 
muitas coufas , por ferem mui miúdas , que 
nos poderiam deter ; baila faber que toman- 
do elle a coita de Melinde , na mão fez 
limitas prezas > por recolher as quaes deí- 

pe~ 



Década TIL Liv. III. Cap. IX. 533 

pejou o feu navio do neceíTario , e depois 
com tormenta alijou tudo. E porém per 
aquella coita foi apanhando algumas relí- 
quias , que ficaram do galeão Santo Antó- 
nio , aíli como o meíire com feus compa- 
nheiros em Oja , o fobrinho em Zanzibar 5 
e aíli alguma artilheria groíTa em a Ilha 
Monfia , as quaes peças elle entregou em 
guarda ao Rey , por lerem tão grcíías que 
as não podia levar 3 e per derradeiro foi 
levar o recado a Jorge cPAJboquerque. O 
qual tanto que teve tempo , fe fez á vela ; 
e quando chegou ao cabo Guardafú , achou 
nova íèr Diogo Lopes já paliado; e não o 
lèguio como lhe mandava , por muita par- 
te das náos que levava ferem da carga da 
cfpeciaria , e de armadores , que lho tolhe- 
ram com muitos requerimentos , e protef- 
tos , aprelentando o traslado de feu§ con- 
tratos , per os quaes não eram obrigados an- 
dar em Armadas. Finalmente Jorge d'Al- 
boquerque poz a proa no' cabo de Rofcal- 
gate da coita Arábia , onde fabia que Dio- 
go Lopes havia de tornar ; e fendo tanto 
avante como as Ilhas da Maceira , teve hum 
tão grande temporal , que efteve quaíi per- 
dido em fundo de cinco braças. Sahido do 
qual perigo, em que fe também achou hu- 
ma não de hum Baílião Figueira de Goa , 
que hia pêra Ormuz 7 foi ter ao porto de 

Ca- 



334 AvSIA de JoXo de Barros 

Calayate , onde pafTou outro maior, por 
fer caufado não dos temporaes 5 mas da ma- 
lícia , e cubica dos homens , que he mais 
perigofa 5 que os temporaes da natureza ; e 
o cafo foi cite. Eftava naquella Villa de 
Calayate , que he d'E!Rey de Ormuz , hum 
feu Governador , a que elles chamam Gua- 
zil , o qual havia dias que era chamado por 
EIRey por caufa de mexericos ? o que el- 
le diflimulava , dando algumas efcufas que 
EIRey não recebia. E deíejando elle de o 
haver á mão , eícreveo a Duarte Mendes 
de Vaíconcellos , que alli andava com hu- 
ma fufta , per mandado do Capitão de Or- 
muz , que fabia fer grande amigo do Gua- 
zil , que havia nome Raez Xabadim 3 que 
trabalhaííe por lho haver á mão ; por a qual 
coufa lhe promettia muito , além do fervi- 
ço que fazia a EIRey de Portugal , pois o 
Reyno de Ormuz era feu. Duarte Mendes 
como vio Jorge d'Álboquerque no porto , 
pareceo-lhe que'tinha acabado efte feito ; e 
dando-lhe conta do cafo , accrefcentou tan- 
to com fuás razões importar muito ao fer- 
viço d'E!Rey D. Manuel , por aquelle Mou- 
ro eílar meio alevantado , que concedeo el- 
le na prizao. E aífentou com elle que o mo- 
do de o prender feria 5 ir elle Duarte Men- 
des ao ferao com alguma gente , com que 
coítumava ir viíltar o Mouro, no qual tem- 
po 



Década III. Liv. III. Cap. IX. 335- 

po eítariam os Capitães das náos na praia, 
e a hum certo final dariam defubito naca- 
fa , e aífi o prenderiam. Peró o negocio foi 
feito tanto com mais alvoroço , que pru- 
dência , dos miniftros que niíío eram , e o 
Mouro fe vigiava de maneira , que cuílou 
eíle commetter entrallo nas cafas vinte dos 
noííos que morreram ? e cincoenta e tantos 
feridos. E ainda houvera de chegar a mais , 
fenão fora Diogo Fernandes de Beja 5 que 
eílando fangrado daquelle dia , acudio com 
a gente da fua náo á praia • e fegurou a 
embarcação aos noííos , e per derradeiro o 
Mouro falvou-fe per hurna janella ? e não 
lhe mataram mais de três homens. Eíle fim 
temas obras que fe commettem , dando o 
beijo na face com a efpada efcondida. O 
qual cafo, depois da vinda de Diogo Lo- 
pes , elle caítigou na peíToa de Duarte Men- 
des , levando-o dalli prezo a Ormuz , por 
induzir aiílbjorge d'Alhoquerque , da via- 
gem do qual Diogo Lopes ao eílreito es- 
crevemos neíte feguinte Capitulo. 



CA- 



336 ÁSIA de João de Barrou 

CAPITULO X. 

Como o Governador Diogo Lopes de Se* 
queira partio com huma grojja Armada ao 
eftreito do mar Roxo : e do que pajjou té 
chegar à Ilha Maçuà , onde o Embaixa- 
dor Mattheus foi conhecido fer do Prejie 
João , e do mais que fe alli pajjou. 

O Governador Diogo Lopes de Sequei- 
ra , tanto que enviou a Gonçalo de 
Loulé ao cafo que ora diíTemos ? e defpa- 
cbou as náos , que aquelle anno haviam de 
vir com. carga da efpeciaria a efte Reyno , 
a capitania mor dos quaes deo a Fernão Pe- 
res d'Andrade , que com ellas chegou a fal- 
vamento ; por não perder tempo , poílo que 
ainda de todo não tinha preftes as náos , 
que efperava levar , partio-fe de Cochij a 
dous de Janeiro do anno de quinhentos e 
vinte , vindo per Cananor , Calecut , Bati- 
calá , provendo-íe de mantimentos ., e cou- 
fas que alli tinha mandado fazer , e a eftas 
fortalezas do neceíTario pêra íua fegurança y 
em quanto elle fazia aquelía viagem. E por- 
que huns galeões , que tinha mandado fa- 
zer em Calecut , não eram de todo acaba- 
dos, foi neceíTario deter-fe alguns dias em 
Goa , donde partio a treze de Fevereiro 
com huma frota de vinte e quatro velas, 

nas 



Década III. Liv. III. Cap. X. 337 

nas quaes levava té mil e oitocentos homens 
Portuguezes , a fora outros da terra Mala- 
bar , e Canarij , com os quaes fez número 
de três mil homens de armas , leixando a 
D. Aleixo de Menezes por Governador em 
fua aufencia. Das quaes velas eram dez náos 
grofías , dous galeões , cinco galés , quatro 
navios redondos , duas caravelas latinas , e 
hum bargantim pêra recados , de que eftas 
peííoas eram Capitães , D. João de Lima , 
Francifcó de Távora , Chriftovão de Sá , 
Chriííovão de Soufa, Jeronymo de Souía, 
Manuel de^Moura , Diniz Fernandes de 
Mello , Jorge Barreto Pereira y Pêro Gomes 
Teixeira Ouvidor geral , António Rapofo 
de Beja , Fernão Gomes de Lemos , Antó- 
nio de Lemos feu irmão , Nuno Fernandes 
de Macedo , Henrique de Macedo feu ir- 
mão , Gafpar Doutel , Lourenço Godinho , 
Simão Guedes \ Pêro de Faria , Francifcó 
de Mello, Pêro da Silva, António Ferrei- 
ra , Diogo de Saldanha , e António de Sal- 
danha. Ao qual Diogo Lopes de Sequeira 
mandou cinco dias ante de fua partida com 
quatro velas dos Capitães , que com elle an- 
davam de Armada , que íe foífe diante dar 
vifta á Ilha Çocotorá ; e achando nella al- 
guns navios de Mouros , que os entretivef- 
fe , por não levarem nova de fua ida , cá 
fua tenção era não tomar a coita de Ara- 
Tom.IILP.L Y bia 3 



338 ÁSIA de JoÃo de Barros 

bia , fóxAo a de Africa , começando no ca- 
bo Guardafú , onde havia de fazer fua agua- 
da 5 e alli o efperaífe. E fendo cafo que 
no mar achaíle alguma náo de Mouros , 
que liia abocando entre ambalas terras pêra 
entrar o eftreito , que lhe deíTe pouca caça , 
pêra fe elia poder falvar , e dar nova que 
andava alii Armada noífa de poucas veias y 
com que ficaílem fem fufpeita da frota 5 e 
que aquelle anno não havia elle entrar no 
eftreito. E podo que António de Saldanha 
levou diante cinco dias , teve Diogo Lo- 
pes tão profpera viagem , que quaíi em hum 
mefmo tempo chegaram todos ao cabo Guar- 
dafú , e alli huma caravela que deite Rey- 
no partio , Piloto , e Capitão Pêro Vaz de 
Vera , aquelie que Lopo Soares em fahin- 
clo do eftreito mandou com Lopo de Vil- 
la-lobos com cartas a EIRey , como atrás 
eícrevemos,. O qual Pêro Vaz trazia por 
regimento que foífe ter ncfte cabo Guarda- 
fú nefte tempo , porque fabia EIRey pelo 
que tinha efcrito a Diogo Lopes da entra- 
da do eílreito, que então podia fer alli. A 
caufa da vinda do qual foi trazer cartas a 
Diogo Lopes , per que VnQ EIRey fazia fa- 
ber como per via de Levante tinha ifabido 
a ida dos Rumes áquellas partes 3 encom- 
mendando-lhe que os foífe receber dentro 
no eftreito o mais poderofamente que pu- 

def- 



Década III. Liv* III. Cap. X. 339 

deííe, eque em toda maneira levaífe com- 
íigo o Embaixador Mattheus, o qual elle 
Diogo Lopes já levava , pêra fazer fobre 
o feu negocio o que lhe EIRey mandava. 
E porque em todalas partes que no rofto 
de Guardafú elle quiz tomar pêra fazer agua- 
da não achou lugar pêra iíío , foi correndo 
a coíla té chegar ao porto de huma povoa- 
ção chamada Mete > que com ília vifta lo- 
go fe deípovoou a fomente huma Moura 
velha de tanta idade , que não teve pés pê- 
ra fe falvar. Per meio da qual Diogo Lo- 
pes fez fua aguada , moftrando ella hum 
rio fecco , e que cavaííem debaixo do mui- 
to feixo que tinha , porque naquelle tempo 
fecco toda a fua agua hia furtada per bai- 
xo. A qual velha Diogo Lopes , em galar- 
dão deita fua obra , mandou dar pannos , 
e em modo de graça diíie que a fazia fe- 
nhora daquelle lugar, porque ella o mere- 
cia melhor que quantos nelle viviam , pois 
todos o defamparáram . e ella não ; e por 
amor delia mandou que lhe não foífe pof- 
to fogo , pofto que do tempo de António 
de Saldanha elle ficou bem deftruido , quan- 
do o tomou , fegundo atrás efcrevemos. Par- 
tido o Governador daqui, indo fempre 30 
longo da coíla , como lhe pareceo ter paf- 
fada a Cidade Adem , atraveffou á parte da 
terra Arábia y em que ella eftá fituada, e 
Y ii che- 



340 ÁSIA de JoÂo de Barros 

chegou a efta coita a treze de Março. On- 
de fendo tanto avante como hum lugar cha- 
mado Ara , por elle Governador com a lua 
Santo António ir tomar o poufo junto de 
António de Saldanha, que eítava já furto, 
fem ambos faberem o perigo que tinham 
de baixo da agua , que era hum penedo , 
deo tamanha pancada nelle , que foi logo 
a mio aberta , da qual fe não íalvou , mais 
que a gente, e alguma pouca de artilheria , 
e fato que vinha íbbre cuberta. O qual de- 
iaftre deo nome ao lugar , porque lhe cha- 
mam agora os noífos o Penedo de Santo 
António. Repartida a gente deita náo , que 
feriam té quatrocentas peílbas , pelas outras y 
paflbu-fe Diogo Lopes ao galeão S. Diniz , 
em que hia Pêro de Faria , e aos dezefete 
de Março entrou per as portas do eítreito. 
A qual entrada elle mandou feítejar com 
bandeiras , eílendartes , trombetas , artilhe- 
ria ; e ainda por maior feita , e animar a 
gente da perda da fua náo , mandou foltar 
alguns Mouros , que andavam nas galés a 
banco , por ferem doentes ; e foi dita que 
logo os afiemos deites foram reformados 
com outros de novo , que tomou Jerony- 
mo de Soufa em huma gelua. Dos quaes 
Diogo Lopes foube , como ao porto de 
Judá eram vindos mil e duzentos homens, 
e féis galés de Rumes vinham pêra lançar 



Década III. Liv. III. Cap. X. 341 

gente em Zeibid , e dahi haviam de ir a 
Adem. Diogo Lopes , como quem os hia 
buicar, mandou logo pôrtodalas velas cm 
ordem, pêra que em vendo, commettendo ; 
mas elles tiveram cuidado de fe guardar def- 
te encontro , por ferem avifados da entra- 
da daquella frota , tornando-fe recolher ao 
longo da terra , e leixando o mar largo , 
per onde ella podia navegar. Diogo Lopes 
de Sequeira , pofto que já na índia tinha 
denunciado aos Capitães daquella frota , co- 
mo lhe EIRey mandava que entraíTe o ef- 
treitoj ante que partiííe daquelle lugar do 
poufo que tomou , paíTada a porta delle , 
os mandou chamar , e alli em confelho lhe 
tornou refumir a tenção d 5 EiRey D. Ma- 
nuel naquella entrada do eftreito , que lhe 
mandava fazer , e o que novamente efcre- 
via per Pêro Vaz de Vera , que era chega- 
do , como todos fabiam , e afli a nova que 
alli achavam dos Rumes. E finalmente que 
toda aquella frota , em que era feita gran- 
de defpeza , fomente a duas coufas era vin- 
da : a primeira , a desbaratar a Armada dos 
Rumes , fe lhe a elle Noíío Senhor fizeíTe 
tanta mercê que os achaífe ; e a fegunda , 
pôr o Embaixador Mattheus na terra do 
Prefte, e faberem particularmente das cou- 
fas daquelle Príncipe , a noticia do qual era 
tao defejada, como todos fabiam. Pratica- 
das 



34^ ÁSIA de João de Barros 

das algumas coufas fobre efta notificação que 
o Capitão mor fez , acerca do modo que 
teriam em a navegação dalli a Judá , onde 
eftavam os Rumes ; porque o cafo não efta- 
va em termos pêra tratarem de outra cou- 
fa , partio-fe a frota porta na ordeny, e com 
o regimento que lhe elle deo. E como os 
ventos geraes contrários a fua navegação 
começavam já a curfar , andou tão pouco , 
eifto ainda com muito trabalho, que tinha 
dalli , (onde de todo furgio , por não poder 
ir mais avante ,) ao porto de Judá paífante 
de cento e vinte léguas. Sobre o qual cafo 
havido confelho , e praticados todolos in- 
convenientes , e damnos que fuecedêram a 
Affonfo d' Alboquerque , e a Lopo Soares, 
quando commettêram aquelle caminho , por 
fer fora de tempo , que aííentáram , virta a 
inftancia , com que lhe EIRey encommen- 
dava as coufas do Prefte , fer mais feu fer- 
viço ir bufear a fua corta , que trabalhar 
por ir a Judá. E por ventura deite defeu- 
brimento de feu ertado , e portos fe faberia 
coufa , que déífe mais breve caminho , e 
mais íeguro modo pêra darem fim ás entra- 
das dos Rumes naquelle eftreito ; e quando 
não houveíTe mais que fazer , que poer Mat- 
theus em terra , ficava tempo pêra darem 
hum caftigo ao Rey da Ilha Dalaca , por 
caufa da morte de Lourenço de Cofme , e 

dahi 



Década III. Liv. III. Cap. X. 343 

dahi irem invernar a Ormuz. Approvado 
efte parecer em que todos concorreram , por 
fer em parte que demandando a terra rota 
abatida , nem faberiam tomar a Ilha Ma- 
çuá , por íe não atreverem os Pilotos a if* 
10 , nem menos Pêro Vaz de Vera , que já 
alli fora , foi neceiTario tornar á Ilha Cei- 
bam , que ficava atrás , pêra dalJi fazerem 
feu caminho. Na qual mudança fe mudou 
o tempo de maneira , que não podiam ir 
atrás 5 nem adiante , com que aíTentou Dio- 
go Lopes de leixar alli António de Salda- 
nha com todalas náos , e velas de alto bor- 
do , e dk em as de remo paflar-fe á cofia 
AbaíTia ; mas aprouve a NoíTo Senhor , que 
ante de poer ifíb em eíFeito , veípera de Paf- 
coa da Refurreição lhe fobreveio tempo , 
que com toda fua frota fez feu caminho 
ao porto da Ilha Maçuá , ainda com alfas 
trabalho. E ao poer do Sol , per detrás de 
huma alta montanha no dia de Pafcoa , vi- 
ram todos huma bandeira preta da feição 
daquellas , a que chamam rabo de gallo , 
dentro no corpo do Sol , aíErmando-fe al- 
guns que a viam mover, couía que a to- 
dos fez grande admiração ; e tomaram eíle 
final em favor de noíías coufas , e deítrui- 
çao da fedia de Mahamed , por fer naquel- 
le dia de tanta folemnidade , e em parte 
onde elle prevalecia com abusão de fua fe- 

pui- 



344 ÁSIA de JoÁo de Barros 

pultura, e nós com poder de armas contra 
elle. Com prazer, e alvoroço da qual vif- 
ta , além de o dia fer feftival , e o mais 
celebrado de noíTa Religião , houve per to- 
dalas náos grandes fulias , e alegria : e quan- 
do veio ao íeguinte , que eram dez de Abril , 
chegaram á Ilha Maçuá. A qual Diogo Lo- 
pes com os navios pequenos logo mandou 
rodear, porque a gente de fua povoação fe 
não paílaííe a terra firme , que fera delia 
em parte pouco mais de dous tiros de béi- 
ta ; mas ella havia já cinco dias que eftava 
defpejada , aíli de pefíbas 5 como de fazen- 
da , porque tantos havia que a noíTa frota 
era vifta das geluas , que andavam na pef- 
caria do aljofre , que alli ha. Porém ainda 
os noflbs acharam alguma pobreza em na- 
vios pequenos 3 que como a noíTa Arma- 
da entrou no porto , foram tomados , e aífi 
duas náos de Guzarates , que fe fizeram á 
véía na volta da Cidade Çuaquem ? onde 
Jeronymo de Soufa com fua galé foi to- 
mar huma , e queimou outra r falvando-fe 
toda a gente em terra no lugar de Arqui- 
co , onde os moradores da Ilha Maçuá ef- 
tavam todos recolhidos , por fer povoado 
de Chriftãos do Prefte , e aífi em outro feu 
lugar vizinho menos povoado , per nome 
Decanij. E fegundo fe depois foube deiles , 
tanto fugiram os Mouros deMacuá, quan- 
do 



Década III. Liv. III. Cap. X. 345- 

do viram as velas , parecendo-lhes ferem de 
Rumes , como noffas ; porque algumas ve- 
zes que alli vieram ter navios feus , tinham 
recebido tanto damno delles , que os temiam 
como a nós, de que tinham ouvido gran- 
des males. Hum bargantim da nofla Arma- 
da 3 que também andava por haver á mão 
alguma das geiuas , que fe acolhiam ao lu- 
gar de Arquico , que lhe o Governador man- 
dava tomar , pêra haver lingua da terra , 
tanto fe chegou á praia , que em huma al- 
madia vieram ter com elle três homens. Os 
quaes fabendo fer o bargantim de Portugue- 
zes , foi tamanho o prazer nelles , que dons 
fe lançaram dentro no bargantim, dizendo 
qué os levaííem ao Capitão mor pêra lhes 
darem huma carta, que levavam do Capi- 
tão daquelle lugar , que era d'E!Rey dos 
Abexijs. Levados eftes dous homens ao Go- 
vernador Diogo Lopes , hum dos quaes era 
Abexijs de nação , e outro Mouro , em che- 
gando ante elle , lançáram-íe aos feus pés , 
os quaes elle mandou levantar , e reccbeo 
com gazalhado , fabendo fer enviados do 
-Capitão do Prefte. E recebida a carta , que 
vinha eícrita em Arábigo, continha-fe nel- 
la , como elle Capitão de Arquico per El- 
Rey de Ethiopia feu Senhor dava muitos 
louvores a Deos por fer chegado aquellc 
dia ^ em que Chriftãos haviam de vir áquel- 

ie 



34^ ÁSIA de João de Barros 

le porto , como entre elles fe efperava per 
profecias que diíTo tinham ; que ília vinda 
foíle muito boa , e pêra tanta paz , amiza- 
de , e bem daquelia terra deíRey feu Senhor, 
como todolos feus vaííalios efperavam. E 
porque os moradores daquelia Ilha Maçuá , 
ainda que Mouros foíTem , eram feus , lhe 
pedia por mercê os houveíTe por feguros 
daquelia fua frota , os quaes com temor del- 
ia eram acolhidos áquelle lugar Arquico , 
em que elíe eftava , e ao outro Decanij. E 
quanto aos Chriítãos que neíles havia , nes- 
tes não falíava , porque aos taes baítava-Ihes 
o nome que tinham peraeftarem feguros de 
fuás armas , pois as do animo de todos eram 
das chagas de Chrifto Jefas , em que todos 
eram falvos. E que em retorno de hum an- 
nel de prata , que lhe aquelie feu homem 
daria , como finai da paz , que no feu ani- 
mo havia , pêra receber , e agazalhar aquel- 
ie povo Chriftáo de fua Armada , e o pro- 
ver do que na terra houveíTe , pedia que 
lhe mandaíle outro final tão notável , que 
foífe vifto per aquella mefquinha gente da 
povoação de Maçuá , que com feu temor 
leixára faas cafas. Diogo Lopes , lida efta 
carta , e recebido o annel , que lhe deo o 
Abexij , por as coufas que o Embaixador 
Mattheus contava daquelia Ilha Maçuá , e 
lugar de Arquico , refponderem ás que aquel- 
ie 



Década III. Liv. III. Cap. X. 347 

Ie Capitão dizia , entendeo ferem Teus aquel- 
les homens , e recado , e não algum artifi- 
cio de Mouros pêra fe falvar. E feita mer- 
cê a ambos , mandou-lhes dar huma bandei- 
ra de damafco branco com huma Cruz no 
meio , daquellas que coftumam- andar em 
noflas Armadas , da femeihança que tem as 
da Ordem da Milícia de Chrifto , refpon- 
dendo ao recado do Capitão , quanto tem- 
po havia que EIRey D. Manuel de Por- 
tugal feu Senhor encommendava aos feus 
Capitães mores da índia que trabalhaííem 
por vir áquelle porto afientar paz , e ami- 
zade com o Prefte fenhor daquellas regiões 
da alta Ethiopia. E em final deita verdade, 
e retorno do annel que lhe eíle enviara , 
perque lhe pedia paz pêra os vaíFaííos def- 
te Príncipe , cujo Capitão eile dizia fer , lhe 
mandava aqaella bandeira com o final da 
verdadeira paz dos Chriftãos , pois por qIIq 
Chrifto noflb Redemptor fez paz entre Deos , 
e os homens. Tornando o bargantim a ter- 
ra com eíles dous homens > hia o Mouro 
tão ledo , polo feguro que levava aos feus , 
que temendo que o Abexij , que hia occu- 
pado com a bandeira , levaíTe a alvicera da- 
quella nova , ante que chegaffe mais á praia , 
ie lançou ao mar, por ir diante com ella. 
E parece que foi ifto permifsão de Deos pê- 
ra aqueiie íinal de noíTa redempção fer dal- 

li 



348 ÁSIA de J0X0 de Barros 

li levado com mais pompa ; porque polo 
recado que o Mouro deo no lugar 5 fe ajun- 
taram mais de duas mil almas entre Mou- 
ros , e Chriftãos a quem mais corria \ e che- 
gados ao bargantim , parecia que o queriam 
levar nas palmas. Finalmente o Capitão do 
lugar fabendo o dom que lhe o Capitão 
mor mandava , veio á praia ao receber com 
grande veneração ; e moítrando aos noflbs 
quanto contentamento tinha de lua vifta , 
depois que per mandado delle a gente fe 
poz em procifsão , levou arvorada a ban- 
deira com cantares de alegria ao lugar , e 
mandou-a arvorar fobre fuás cafas. Diogo 
Lopes como efpedio os homens , que leva- 
ram efte recado ao Capitão , quiz dar h li- 
ma vifta á povoação da Ilha Maçuá , por- 
que lhe diziam haver nella muitas cifternas 
de agua , da qual a Armada vinha hum 
pouco desfalecida : e achou haver nella qua- 
renta e nove , de que as dezeieis eram de 
féis braças de comprido , três de largo , e 
duas e meia de alto , e as outras fomenos , 
e em todas havia tanta cópia de agua , que 
não quiz pôr muita taixa ás náos , e porém 
repartio-a per todas. E porém depois de 
vagar elle Diogo Lopes , per íi quiz ver 
toda a Ilha pêra melhor informação fua, 
com fundamento do que lhe EIRey efcre- 
via : que notaífe tudo , pêra ver onde fe po- 
de- 



Década III. Liv. III. Cap. X. 349 

dcria melhor fazer huma fortaleza contra 
os Rumes , aqui , ou na Ilha Camarão j e 
fegundo a medição > que elle mandou fa- 
zer no circuito delia, haverá mil e duzentas 
braças. A fua figura he quaíi como huma 
meia lua : e jaz o lançamento delia com a 
terra firme , (de que eftará affaftada obra de 
dous tiros de béíta , ) de maneira , que fe- 
cha hum porto , e acolheita de nãos , que 
muitos dos nofibs diziam fer melhor que o 
de Cartagena , e o de Modam. A povoa- 
ção dos Mouros era , fegundo elles coftu- 
mam per toda aquella colía , as cafas prin- 
cipaes de pedra , e cal com terrados , e as 
outras de taipa , e cubertas de palha ? e hu- 
ma mefquita , onde depois o Capitão com 
a gente da Armada per vezes mandou di- 
zer MiíTa : e a primeira foi das Chagas de 
Chriílo Jefus , por fer dita huma fefta fei- 
ra depois das oitavas da Faícoa : e poz no- 
me a efta Cala já com efte facrificio dedica- 
da a Deos 5 N. Senhora da Conceição. A 
terra defta Ilha em li era groíTa , e defaba- 
fada , em que andava criação de gado va- 
cum , e gazellasj e tão grande número de 
lebres , que alguns dos noííbs as tomavam 
a coifo com regeitos que lhes remefiavam. 
Tornando Diogo Lopes deita primeira vi£ 
ta que deo a efta Iiha, hum pouco chega- 
do a terra P vio defcer do lugar Arquico 

con- 



%ço ASTÀ de JoÁo de Barros 

contra a praia hum homem a cavallo com 
quatro bois diante , e dous a pé , que os tan- 
giam; e entendendo que vinha a elle com 
algum recado , mandou chegar o bargantim , 
em que iiia bem a terra pêra lhe failarem. 
Os quaes tanto que chegaram , por moílrar 
quem eram néfte íínal , começaram nomear 
Chrifto Jefus , e fira Madre , amoftrando 
huma carta de pergaminho grande , em que 
traziam pintadas fuás figuras , dizendo ferem 
Chriftãos. Diogo Lopes , em elles entrando 
no bargantim, que lhe aprefentáram diante 
eílas Imagens, tirado o barrete , com adora- 
ção as beijou , do qual acto elles ficaram 
muito contentes, e fe houveram por fegu- 
ros de todo ; e como gente já mais confia- 
da , fatiaram ao Governador , dando-lhe 
aquelles quatro bois da parte do Capitão 
de Arquico , e huma carta , por a qual Jhe 
dava os agradecimentos da bandeira , que 
lhe mandara j e lhe fazia faber como tinha 
efcrito a hum Senhor, que governava aquel- 
la Comarca , chamado Barnagax , da vin- 
da delie Capitão mor, e a caufa delia ; e 
também tinha mandado chamar os Frades 
do Moíleiro de Visão , que alli eftavam per- 
to , por ferem aquelles , que mais fallavam 
na vinda dos Chriftãos áquelle porto , e que 
diífo tinham profecias. Porém que lhe pa- 
recia que não viriam íènão paliado o ou- 
tro 



Década III. Liv. III. Cap. X. 35-1 

tro Domingo , por guardarem todolos oito 
dias daquella femana > por razão da fcíla 7 
éter tantos dias defeu oitavado ; ainda que 
per outra parte ; (por eíla fera vinda dclles 
ferem paííos dados em louvor de Deos , ) 
a elie lhe parecia que logo partiriam. Dio- 
go Lopes , recolhidos aquelles homens no 
bargantim , folgou de os ver , porque to- 
dos traziam ao pefcoço em hum cordão hu- 
ma Cruz pequena de páo ; ao modo que 
nós coftumamos trazellas de ouro j fenao 
que nós as trazemos por galanteria , ejoia, 
e o que peior he , pêra jurarmos per ellas , 
e elles por devoção , e final do que profef- 
fam. E o que mais lhe contentou delles 
foi achallos zelofos das coufas da Fé , aííi 
no que lhe refpondiam ás perguntas que 
lhe elle fazia , como no que lhe elles per- 
guntavam. E houve tanta prática de huma 
parte , e de outra per meio de André d'Ataí- 
de língua dos Governadores , fem elle Dio- 
go Lopes lhe querer mentar Mattheus o 
Embaixador pêra ver fefallavamnelíe , que 
vieram elles a perguntar fe fora ter á ín- 
dia , ou a Portugal hum Embaixador , que 
o Prefte tinha enviado , o qual havia nove , 
011 dez annos q\)e era partido , e delle não 
tinha nova. Diogo Lopes diffimulando o 
cafo , perguntou-lhes pelo nome , e alguns 
finaes y per que fe podia mais certificar dç 

fuás 



35*2 ÁSIA de JoÁo de Barros 

fuás coufas. Ao que ellcs refpondêram mui 
conformes á verdade , dizendo fer hum mer- 
cador , que negoceava no Cairo , de que 
o Preíle fe fervia muito em recados , e ne- 
gócios , e aífí fua madre a Rainha Helena. 
E por fer homem diligente , ambos mai , e 
filho determinaram de o mandar á índia, 
pêra dahi ir com recado a hum Rey Chrif- 
tao do Ponente, cujas Armadas diziam fe- 
rem aquellas , que novamente conquiftavam 
a índia , e faziam guerra aos Mouros. Ao 
qual mandando o Governador que vieífe 
ver aquelles homens , quando elJes o viram , 
e conheceram , lançáram-fe a elle , beijan- 
do-lhe a mão com grande reverencia , cha- 
mando-íhe Abba Mattheus , que quer dizer 
Padre Mattheus , em denotação da honra , 
que naquella terra per fuás cans , e digni- 
dade lhe era dada. Elle quando os vio an- 
te íl 5 com aquelle modo de reverencia que 
lhe faziam final que naquella terra fua pef- 
foa era eftimada , com prazer começaram 
os feus olhos a verter lagrimas pela alvura 
de fua barba, que elle trazia bem compri- 
da. E depois que os beijou no hombro , 
ena cabeça, fegundo oufo dos Arábios em 
lugar de paz , diífe : Louvores fejam dados 
ao eterno , e piedofo Deos , quefe lembrou 
de meus trabalhos , infâmia, e injurias «, 
fois lhe aprouve que houvejfem fim , e fe 

ma- 



Década IIL Liv. III. Cap. X, 35*3 

manifejtaflè ante o Senhor Governador ? e 
tanta Fidalguia , e Nobreza , como he pre- 
fente , fer eu verdadeiro nejle caminho que 
fiz , todo endereçado a fervi ço delle mef 
mo Deos , pois era pêra ajuntar em paz , 
e amizade dous tão Chrijiianifftmos Prín- 
cipes , como são EIRey David de Ethiopia > 
e EIRey D. Manuel de Portugal , contra 
os Mouros imigos de fua Santa Fé , e não 
fou vifto fer hum Mouro enganador falfa- 
rio efpia do Soldão , com outras infâmias , 
e injurias , que pêra minhas orelhas eram 
maior trabalho , que quantos tenho pajja- 
do de dez annos a efta parte per tantos 
mares , e regiões como peregrinei. Porém 
fe pêra ejfeito de tamanha Armada , como 
aqui trás o Senhor Governador , fe não po- 
dia menos fazer , eu dou todolas minhas 
tribulações , perigos , e injurias per bem 
empregadas , e de tudo me efqueço com o 
prazer de fia hora. Epera que de todofeja- 
perfeito , vós-outros , amigos , que me co- 
nheceis 3 ide chamar o Capitão de Ar qui- 
co de minha parte , e que lhe peço mande 
chamar o Barnagax , e os Frades do Mof- 
teiro de Visão , porque elles fabem a ver- 
dade das minhas coufas ; e também pêra 
me entregar a elles o Senhor Governador , 
que não vem a outra coufa a ejle porto 
per mim tão defejado. O Governador Dio- 
Tom.III. P.L Z go 



35*4 ÁSIA de João de Barros 

go Lopes , e peflbas que eram prefentes , 
vendo o modo y e lagrimas com que Mat- 
theus difíe eftas palavras , e lembrando-lhe 
quanto fe delle dizia , que caufou padecer 
elle algum trabalho , além do que elle me- 
recia , por íer homem forte de condição , 
mimoíb , e máo de contentar , houveram 
piedade delle , e tiveram grande contenta- 
mento de fe acharem prefentes áquella ho- 
ra , em que femanifeííou fer verdadeiro, e 
não falfo Embaixador. As palavras do qual 
acudio Diogo Lopes cem outras, em que 
o confolou ; e que quanto á vinda do Bar- 
nagax , e Padres , que elle mandava chamar 
o Capitão , como tinha feito , não fabendo 
delle Mattheus. Tornados eftes Abexijs com 
o recado do Governador ao Capitão, per 
os quaes fe foube que alli vinha Mattheus y 
começaram alguns que o conheciam vir ás 
ruíos , e com grande prazer fe lançaram an- 
te elle , beijancio-lhe a mão , moílrando nef- 
te , e outros linaes fer homem eítimado na 
terra. E como os noííos viram cite alvoro- 
ço naquelle povo Chriííâo , e houve logo 
fama per teda a Armada que aquelle Rey 
dos Abaílijs era mui rico de ouro, por nas 
fuás terras haver grandes minas, delle ; mo- 
vidos três homens de armas da gente com- 
inam com cubica defte ouro , (a fama do 
qual tem feito maiores males ; ) fugiram da 



i 



Década III. Liv. III. Cap. X. 357 

galé de Jorge Barreto , determinados de íe 
ir á Corte do Preííe. Ao que Diogo Lo- 
pes logoacudio, mandando ao Ouvidor Pê- 
ro Gomes Teixeira com recado ao Capi- 
tão de Arquico, pedindo-lhe que ordenaf- 
fe como ambos fe viííem , pêra praticarem 
algumas coufas do ferviço de Deos , e dos 
Reys , a que ambos ferviam : e também que 
três homens de baixa forte eram fogidos da 
Armada , e fe dizia ferem lançados em ter- 
ra , lhe pedia que lhos mandafle entregar. 
Partido Pêro Gomes ao lugar de Arquico, 
que era duas léguas dalli da poufo , onde 
a Armada eftava furta , ao outro dia tor- 
nou em companhia do mefmo Capitão de 
Arquico , que vinha ver Diogo Lopes , e 
trouxe comfigo os três fugidos , que foram 
tomados cinco léguas caminho da Corte do 
Preíie. E as viítas entre o Capitão , e Dio- 
go Lopes foram na praia, por algumas des- 
confianças de temor de entrar no mar , que 
o Ouvidor fcntio no Capitão : e aífentados 
em ires cadeiras , elle em huma , Diogo 
Lopes na outra 3 e na terceira ò Embaixa- 
dor Mattheus , foi toda a prática do pra- 
zer , e contentamento , que todos tinham 
daquelle ajuntamento , o qual feria pêra mui- 
to ferviço de Deos , e exalçamento de fua 
Santa Fé , e deftruição da feita de Maha- 
med 3 pois pêra iíTo em amor, e caridade v 
Z ii de 



3$6 ÁSIA de João de Barros 

de irmãos fe ajuntaram dous Príncipes tão 
poderofos , EIRey D. Manuel no mar ; e 
EIRey David de Ethiopia na terra. Efpe- 
didos hum do outro , tornou-fe Diogo Lo- 
pes embarcar , e o Capitão mui contente 
com huma eípada ? e outras peças que lhe 
elle deo 5 não quiz cavalgar em huma mula 
em que veio , fejtiao em hum cavallo que 
trazia a deftro ; e por moftrar o contenta- 
mento que levava , affaftados obra de trin- 
ta de cavallo , e duzentos peães , que trou- 
xe comfígo , começou com huma lança cor- 
rer o campo , maneando-a a huma mão , 
e a outra com tanta defenvoltura , e graça , 
que folgavam os noflbs de o ver. Principal- 
mente a Diogo Lopes , que já eftivera por 
Capitão da Villa de Arzilla nas partes de 
Africa ; e dizia por elle que lhe parecia ter 
ante os feus olhos o Alcaide Lároz fenhor 
de Alcacerquebir , que neíle modo de efca- 
ramuçar era mui defiro ; e mais efte Capi- 
tão vinha vertido ao modo mourifco , camifa 
branca das que elles ufam , e feu bedem em J 
cima , e na cabeça huma touca. Paffado sy 
te dia , que todo foi de prazer com a vifta 
deite Capitão , quando veio ao outro , man- 
dou Diogo Lopes a terra o bargantim re- 
colher fete Frades , que do Mofteiro de Vi- 
são vinham ver o Embaixador Mattheus , 
os quaes á entrada do galeão foram recebi- 
dos 



Década III. Liv. III. Cap. X. 357 

dos com huma Cruz de prata arvorada , e 
com o Cântico Benedittus Dominus Deus 

Ifrael , fendo pêra iffo juntos todos os Clé- 
rigos da Armada com fuás fobrepellizes , e 
os Cantores do Governador. No qual rece- 
bimento não houve alguém , que pudeíTe re- 
ter as lagrimas com huma piedofa lembran- 
ça de ver dous povos Chriítaos , hum Occi- 
dental y e outro Oriental tão remotos em 
lugar , tão differentes em policia , coftumes , 
e ceremonias da Religião que profeífavam ; 
fomente aquelle final da Cruz alevantada 
ante clles alli os inílammava em fé delia , 
amor , e caridade entre íi , que os tinha ata- 
dos em vinculo de irmandade efpiritual , co- 
mo íe entre elles precederam particulares 
benefícios de parte a parte. Certo 9 grande , 
e maraviíhofo final da obra, que faz o eC- 
pirito da Verdade no coração daquelles, que 
profeuam noífa Religião Chriftã. E porque 
eftes povos Abaífijs ante deite noífo defcu- 
brimento nunca fouberam que coufa era dar 
obediência á Igreja Romana , e eítas viftas 
foram caufa que os Reys daquella grande 
Ethiopia per meio d'ElRey D. Manuel man- 
daram fua obediência aos Surtimos Pontífi- 
ces Romanos , poíío que já tinham feu Pa- 
triarca , de quem recebiam os Sacramentos 
do que profeífavam , ante que mais proce- 
damos neíte quarto Livro, queremos efcre- 



358 ÁSIA de João de Barros 

ver alguma coufa da antiguidade , religião , 
e eílado deites Príncipes da Abaífia , a que 
vulgarmente chamamos Preíle João. 




DE- 






DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO IV. 

Dos Feitos j que os Portuguezes fizeram 
no deícubrimento, econquiita das ter- 
ras, e mares do Oriente: em que fe 
contém parte das coufas , que fe 
nelle fizeram , em quanto Diogo 
Lopes de Sequeira gover- 
nou aqueíias partes. 

CAPITULO L 

Em que fe efcrevem as coufas cVElRey da 

Âbajjia , ou Ethiopia febre Egypto , a 

que vulgarmente chamamos Pr efe João : 

e as coufas cio error defte nome , e o 

mais que defte Príncipe temos fabi- 

do , e affi do feu eftado > e povo. 

ANte que defcubriííemos eftas partes 
da índia, toda a diligencia que El- 
Rey D. João o Segundo pode fa- 
zer por defeubrir efte Rey dosAbaííijs, el- 
le a fez com aífás cufto de fua fazenda y 
como coníta pelo que atrás eícrevemos. De- 
pois EIRey D. Manuel a inítrucção que 
deo a Vafco da Gama , quando o mandou 
a defeubrir efte Oriente / quafi toda fe re- 
furnia em faber o eítado , e coufas deíle Prin- 

ci- 



3^o ÁSIA de JoXo de Bakros 

cipe y e em todalas Armadas , que pelo tem- 
po em diante foram , os degredados que 
mandava lançar na coita de Melinde , no 
Cabo Guardafií, a eíte fim eram lançados, 
Porque como neítas partes da Chriítandade 
commummente andava çfte nome Prefte João 
das índias ; e víamos alguns Religioíbs que 
habitavam neíta AbaíTia , parecia-nos , por 
a pouca noticia que fe tinha daquellas par-* 
tes , fer eíte feu Príncipe aquelle grande 
Preíiejoão das índias , donde procedia tra-^ 
balharem os da noífa Chriítandade por ter 
fua amizade , e eonimunicaçao. E peró que 
em a nofTa Geografia largamente efere vemos 
do Eítado deite Rey da AbaíTia ; pêra de- 
claração deita hiítoria aqui trataremos algum 
pouco de fuás coufas , e principalmente def- 
te error , que anda entre o vulgo , cuidan- 
do fer elle aquelle grande Prefte João das 
índias , a qual opinião tem enganado a ho- 
mens doutos. Segundo o que temos alcan- 
çado per algumas eferituras , aíli dos Occi- 
dentaes , como Orientaes da parte Afia 5 en- 
tre os Tártaros chamados Jagathay , que 
habitam a Provincia Hathay , a que nós cha- 
mamos Catuyo , que he aquella , a que Pto- 
lomeu chama Scythia fora do monte Imão , 
houve alguns Príncipes Chriítáos Ncítor.ia- 
nos , que foram dos mais poderofos daquela 
las partes , a que os Tártaros Gentios na* 

ouek 



Década HL Liv. IV. Cap. I. 361 

quelle tempo chamavam Unchá, e os feus 
naturaes vaflallos delle o intitulavam per 
efte nome Jóvano , do nome de Jonas Pro- 
feta. O qual nome andava pertodolos her- 
deiros daquelle império , por fer próprio 
do feu eftado , como o de Cefar aos Ro- 
manos , depois de Júlio Cefar primeiro Em- 
perador : e per nós-outros Occidentacs da 
Igreja Romana era chamado Preíle João 
das índias , por o feu eftado fer naquellas 
partes Orientaes. E chamavam-lhe Presby- 
rer , porque quando eftes Príncipes profpe- 
ravam , (fegundo efereve António Arcebis- 
po de Florença 5 ) levavam ante íi em lu- 
gar de bandeira huma Cruz no tempo da 
paz , e no da guerra duas , huma de ouro , 
e outra de pedras de grande preço. He de 
notar que excedia a todolos Principes da 
terra em nobreza , e riqueza y íignificadas 
.eílas duas couías pela matéria de que cilas 
eram , e pelo final fer defenfor da Fé ; don- 
de lhe davam efte nome de Prcsbyter, de 
que nós corrompemos Preíle ; e era tão po- 
derofo , (fegundo alguns delle deferevem , ) 
que tinha debaixo de feu império fetenta e 
dous Reys. Vindo o império deftes Princi- 
pes a hum per nome próprio chamado Da- 
vid , pedindo aos Tártaros feus tributários 
o tributo que lhe pagavam, per induzimen- 
to de hum feu próprio Capitão chamado 

Sin- 



362 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Singis, ou (fegundo outros) Chingijs , os 
Tártaros fe rebelaram , donde entre elle , 
e elles houve guerra , no fim da qual elle 
perdeo o eftado , e peíToa. O qual eftado 
le trafpaílbu no feu Capitão Singis author 
defta guerra , que , (fegundo alguns que- 
rem,) era da linhagem do meímo Prínci- 
pe per via de mulher , e por fe reconciliar 
em amor do povo , cafou com hurna filha 
fua ; e não tomando o titulo , que andava 
nos herdeiros daquelle eftado , tomou outro 
novo , chamando-fe Ularchan do Cathavo. 
Da qual batalha que houve entre elle Prín- 
cipe David , e feu Capitão , fallando Mar- 
co Paulo em o que efcreveo de fua pere- 
grinação naquellas partes , diz , que a caufa 
delia foi por efte Singis , a que elle chama 
Chinchis , fer defprezado deíle Emperador 
Prefte João , mandando-ihe pedir per feus 
Embaixadores huma filha em cafamento , 
lendo elle Chinchis a efte tempo já levan- 
tado por Rey entre os Tártaros. E deite 
Chinchis Chan , ou Singis , que foi levan- 
tado por Emperador o anno de mil cento 
e oitenta e fete , começa elle Marco Paulo 
contar a genealogia dos Emperadorcs Tár- 
taros de Cublay , que era o íexto na ordem 
delles , em cuja Corte elle eftava no anno 
de mil e duzentos e oitenta e hovc , que 
he differente. princípio do que efcreveo Hai- 

tho- 



Década IIL Liv. IV. Cap. I. 363 

thonio Arménio do Império dos Tártaros. 
Os quaes por ambos ferem eítrangeiros da- 
quellas regiões , fe enganaram neítas genea- 
logias , poio que temos lido em huma Chro- 
nica em Parfeo, que houvemos, dos feitos 
de Tamor Langue , a que os noííos cha- 
mam Tamerlao , na qual fe contém a ge- 
nealogia daquelles Príncipes Tártaros , per 
decurfo de muitas centenas de annôs té o 
tempo delle Tamor , dos quaes eferevere- 
mos em a nofla Geografia , quando tratar- 
mos daqueílas regiões. E ainda que o Efr 
critor delia feja Mouro , confefla que deíle 
Príncipe Prefte João, a que elles (como dif- 
femos) chamavam Unchá , ficou hum Rey 
de pequeno eftado , que recolheo as relíquias 
daquella chriftandade Neftoriana. A qual por 
fer mui a vexada dos Príncipes Tártaros, 
que depois fuecedêram nos annos de mil e 
duzentos quarenta e féis , o Papa Innocen- 
cio Quarto , ouvidos feus clamores , man- 
dou ao Príncipe Tártaro , que então impe- 
rava , certos Frades Dominicos , o princi- 
pal dos quaes fe chamava Fr. Amelmo , 
pedindo-lhe que nãoquizefle tingir as mães 
em o fatigue Chriftão , e amoeííando-o que 
quizelíe receber a Fé de Chriíío. E porque 
110 tempo que os Príncipes Chriftlos deíle 
eftado de Afia , entre nós os da Europa , 
eram nomeados per efte nome Prçíte João 

das 



364 ASIÀ de J0Ã0 de Barros 

das índias , perdido o feu império, ficou 
na boca das gentes , e ellas o trafpaífáram 
no Rey dos Abaílijs 5 que habitavam a Ethio- 
pia íbbre Egypto , de que tratamos. Porque 
vendo neílas partes os Religiofos daquejla 
Provincia , e fabendo ferem fubditos a hum 
Príncipe Chriítão , que também traz por ef- 
tado huma Cruz na mão em denotação de 
defenfor da Fé , parecia-lhe fer efte o Preíle 
João das índias tão celebrado neílas partes da 
noíTa Europa. Os quaes Religiofos , quan- 
do ouviam nomear o feu Rey por efte no- 
me Preíle João , parecia-Jhes fer nome dado 
a elle per nós 5 fem faberem donde proce- 
deria. E ainda quando per algumas peííoas 
doutas 3 e curiofas eram perguntados da in- 
terpretação deite nome , que dávamos ao 
feu Príncipe , davam-lhe evasões fegundo o 
juízo de cada hum. E daqui procedeo hum 
Embaixador defte Reyno de Abaífia , que 
veio a efte Portugal , dizer ao noíío Lufí- 
tano Damião de Góes, quando efcreveo da 
Religião , e coftumes defta gente , que em 
fua linguagem Bebule, e Encoe queria di- 
zer Preciofo Joanne : e hum Religiofo def- 
ta nação dizer a Marco António Sabellico , 
quando compunha a fua Rapfodia , que ef- 
te vocábulo Grão na fua língua queria di- 
zer Potente , e que chamarmos-lhe João , 
feria corrução deítoutro ; e Pico Mirandula 

per 



Década III. Liv. IV. Cap. I. 365- 

per outra tal informação , em íua efcritura 
chamar-lhe Preítão Rey dos índios. O qual 
engano > que eftas peíToas tão doutas rece- 
beram , foi por naquelle tempo não termos 
mais noticia daquelle Príncipe, que quan- 
to fabiamos per os Religiolbs do feu Rey- 
no 5 que viamos neftas partes , muitos dos 
quaes contam coufas differentes do que os 
nofTos tem vifto ; principalmente depois que 
Diogo Lopes de Sequeira 5 (como logo ve- 
remos 3 ) dalli mandou hum Embaixador a 
EIRey David , que então reinava naquella 
Ethiopia : e muito mais particularmente no 
tempo que D. Eftevao da Gama , fendo Go- 
vernador da índia o anno de quarenta e 
hum , entrou naquelle eftreito , e foi té o 
lugar de Suez , onde o Turco tinha feito 
huma Armada com tenção de a queimar. 
Na qual tornada leixou a requerimento def- 
te Rey feu irmão D. Chriftovão da Gama 
com quatrocentos homens pêra lhe ajudar 
a recobrar feu Reyno, que de todo lhe ti- 
nham tomado os Mouros , havendo já tre- 
ze annos que o tinha perdido. Na reílitui- 
çao do qual os noííos que lá ficaram , tri- 
lharam todo feu eftado ; <e per informação 
dos que são vindos , (porque grão parte dos 
outros morreram nefta guerra ? e hoje andam 
lá , ) nós compuzemos a Geografia daquel- 
las regiões ; e houvemos noticia das que da- 
qui 



366 ÁSIA de João de Barros 

qui em diante efcrevcmos , e aííl do que ef- 
creveo Franciíco Alvares, hum Sacerdote 
que foi com o noíío Embaixador. E fe- 
gundo o que per eftas peífoas temos alcan- 
çado , oRey daquellas partes, a que já per 
direito de poííe tem entre nós adquirido 
nome de Preíle João , he hum Príncipe Chri- 
ílão Jacobira , a que os feus povos chamam 
em geral Rey da terra Abaília , e elle em 
fuás cartas fe intitula affi: David amado de 
Deos , columna da fé , parente da efiirpe 
de Judd , filho de David , filho de Sala- 
mão , filho da columna de Siom , filho da 
f emente de Jacob , filho da mão de Maria , 
filho, de Nahú per carne , Emperador da 
grande , e alta Ethiopia , e dos fi;us gran- 
des Reynos , e Províncias , Rey de Xod , 
de Gaffate , de Fatigar , de Angóte , de 
Buze , de A de a , de Vangue , de Cojame 
onde nafee o Nilo , de D a mar a , de Baga- 
medre 3 de Amhea , de Vague , de Tigre 
JSdahom , ^ Sabay donde foi a Bainha 8a- 
há, de Ba maga x , fenher téNobia onde he 
afim do Egypto. Das quaes regiões , e fenho- 
rios , pofio que a maior parte poffuia pacifica- 
mente , de alguns aífi de Mouros, como de 
Gentios , tem fomente o titulo , como al- 
guns Príncipes deíla noíla Europa , que fe 
intitulam per fenhores de Reynos , eeítados, 
de que fera mais certo fenhor aquelle, que 

os 



Década III. Liv. IV. Cap. I. 367 

os conquiflar da mão dos infiéis , em cujo 
poder elles citam. Porque muitos a efte Pvey 
obedecem quando querem , e o mais do 
tempo eftam alevantados : donde fe caufa 
andar elle fempre no campo com a mão ar- 
mada , ora contra Mouros , ora contra Gen- 
tios , em meio dos quaes elle tem feu efta- 
do. E fendo tão grande como he , e o mais 
mimeroíb em povo de toda Ethiopia , não 
tem Cidade , ou povoação nobre : havendo 
na meíma Ethiopia fora de fua jurdição 
entre povos mui bárbaros na vida politica , 
povoações nobres per edifício , defenfaveis 
per arte , populofas per mercadores , e ri- 
cas per trato de commercio , que a elles 
concorrem , as quaes com razão fe podem 
chamar Cidades. Muitas das quaes são cer- 
cadas de muro de pedra , tijolo ? ou taipa , 
com vai los 5 e cavas tão profundas , e lar- 
gas , e agua a que as enche , que fe podem 
defender do impeto de quaefquer imigos. 
E vendo os noííos , que .andavam na Corte 
daquelle Principe Prefte João , quantas ve- 
zes os Mouros 5 e Gentios faziam entrada 
em fuás terras , e á mingua deftas defensões 
lhe matavam , e cativavam muito povo com 
outros damnos de guerra , praticando com 
os principaes fenhores fobre efte cafo, edi- 
zendo-lhe o modo que os Reys deíla noífa 
Europa tinham na defensão de feu eftado, 

edi- 



368 ÁSIA DE JOÃO DE BAUROS 

edificando Cidades , Villas , e Caftellos cer- 
cados de muro , refpondiam que o feu Rey 
não punha a potencia de leu eílado em cer- 
cas de pedra , mas no braço de feu povo. 
E que eíle com as taes defensões defcuidar- 
fe-hia tanto de íl , que viria a receber maior 
damno, e perderia o exercício das armas , 
c\ue fe conferva como cuidado de fegurar 
a vida , e defender a fazenda , o qual exer- 
cício fe ganhava andando fempre no cam- 
po , e não em o repoufo das cafas. Per o 
qual modo osFveys daquella grande Ethio- 
pia tinham ganhado dos infiéis a maior par- 
te do feu eftado ; e que fe alguma pedra , 
e cal gaitavam 3 era em fundar fumptuofos , 
e magníficos templos, emqueDeos era lou- 
vado , porque as cafas de fua adoração ha- 
viam de fer diíFerentes da habitação dos 
homens , aííi por fer coufa a elle Deos de- 
dicada , como por os miniftros do culto di- 
vino eftarem feguros dos infultos dos infiéis , 
<que tinham por vizinhos , o qual modo os 
feus Reys tinham já continuado per muitas 
centenas de annos , e o receberam da dou- 
trina de Salarnao Rey de Judéa , donde o 
feu primeiro Rey defcendia. E parece, pof- 
to que eíles Abaffijs deffem aos noílbs eftas 
razoes de não fundarem Cidades , ou Caf- 
tellos cercados , que coAume mui antiquiííí- 
mo he entre elles não as haver, porque vo- 

mos 



Década III. Liv. IV. Caí. t 369 

mos que os Geógrafos , e Ptolomeu, que 
foi o mais moderno em fuás Taboas > três , 
ou quatro Cidades mediterrâneas íitua em 
toda efta região da Ilha Meroe pêra cima, 
E ainda deíles não ha memoria , fomente 
da Cidade Axuma > que fegundo os Abaf- 
lijs dizem > foi Camará , e quali Metropoli 
da Rainha Sabá, da qual ora não appare- 
ce mais que algumas antigualhas de edifícios? 
arruinados , e pedras ao modo de pyrames , 
que por fua grandeza o tempo não pode 
confumir , ao qual lugar elles chamam Aca- 
xumOi Peró pêra demarcação dos Reynos, 
e Comarcas ufam aquelles Príncipes na par- 
te onde ha maior povoação , (poucas das 
quaes chegarão a dous mil vizinhos,) ter 
numa cafa de pedra , e cal , ou de taipa ; 
não pêra defensão da terra 5 mas como cá 
uíam huma cafa pública , a que chamamos 
do Confelho , a qual elles chamam Betene- 
gux , que quer dizer cafa d'ElRey. Na qual 
cafa poufa o Governador da terra quando 
ahi eftá , e alli faz fuás audiências ao po- 
vo ; e quando poufa em outra parte > ou 
não he na terra , fempre eílá aberta , e po- 
rém ninguém oufa de entrar nella y cá feria 
logo punido como trédor , que fe queria 
levantar com a terra. E a eíta caufa em as 
Taboas da noífa Geografia tomamos eítes Be- 
tenegux por fituação de cada huma das Co- 
T0m.UL P.L Aa mar- 



370 ÁSIA de João de Barros 

marcas que aquellas regiões tem. E fegun- 
do o que do citado deite Emperador da 
Ethiopia temos fabido , elle jaz entre as cor- 
rentes dos rios Nilo , Aítabora , e Aítapus , 
que Ptolomeu defcreve na quarta Taboa de 
Africa , aos quaes rios os naturaes chamam 
Tacuij , Abavij , Tagazij. Dos quaes rios 
elles tem por maior o do meio , e por iffo 
lhe deram o nome que tem , que quer dizer 
pai das aguas: o qual procede do lago, a 
que Ptolomeu chama Coloe , e elles Barce- 
ná : e eíte lago podemos dizer fer o cora- 
ção de todo o eítado do Preíte : cá lhe fi- 
ca no meio , e em torno vai cercado dos 
Reynos , e Províncias que fe elle intitula , 
como ora diffemos. Os confins do qual ef- 
tado pela parte do Oriente enteíta no mar 
Roxo , começando quaíi na fronteria das 
portas do eítreito , que eítam em altura da 
elevação do pólo Anítico doze grãos , e hum 
terço , e acaba na paragem da Cidade Çuá- 
.quem .marítima. , que eftá em dezenove grãos, 
e hum quarto : aííi que deite lado Oriental 
podemos dizer que contém pouco mais , ou 
menos , cento e vinte e duas léguas. Peró 
entre ornar, e as fuás terras vai huma cor- 
da de ferranias quafi febre as praias delle , 
que he povoada de Mouros , que são fe- 
nhores. dos portos de mar , fem elle ter mais 
que o da Vilia Arquico^ ou Arcoco , cc^ 

mo 



Década III. Liv. IV. Cáp. I. 371 

mo lhe alguns chamam , onde (fegundo atrás? 
efcrevemos ) Diogo Lopes de Sequeira e£- 
rava com fua frota. Da parte Occidental 
vai enteílar em grandes minas de ouro, cu- 
jos habitadores são Negros Gentios , que 
lhe obedecem , e pagam tributos , as quaes 
ferranias vam correndo quaíi com as cor- 
rentes do rio Nilo , que elles chamam Toa- 
vij , de que elles tem fomente noticia fem 
uíò das luas aguas , por razão das grandes 
ferranias de Damud , e Sinaxij , (em que 
também ha outras minas , ) fe metterem en- 
tre elles , e elle. E daqui vem chamarem 
elles ao rio Abavij pai das aguas , por não 
verem as do Nilo : e eftas dizem elles que 
bebem dous géneros de gente , de que tem 
noticia : huma he Hebrea , que jaz mais ao 
Ponente , a qual tem Rey mui poderofo > 
de que elles fabulam grandes couías , echa- 
mam-lhe per nome commum Neguz Tede- 
ros , que quer dizer Rey dos Judeos. A 
outra gente fica mais vizinha ao ajuntamen- 
to que fazem os rios Nilo , e os outros 
dous , ifto da parte do Ponente , a qual he 
de Amazonas , a que elles geralmente cha- 
mam Manguifte das Suétes , que quer dizer 
Ileyno das mulheres. E parece que ou eílas 
-procederam da Rainha dos No.bijs , a que 
«lies chamam Gaiia ? ou ella delias , porque 
«efta Gaiia fica com o feu eítado fronteiro a 
Aa ii el- 



37i ÁSIA dê João de Barros' 

ellas pela parte do Oriente, e mette-fe en- 
tre todos os riosAbavij, e Tagazij , quali 
na paragem onde fe elles ajuntam , e em 
hum corpo fe vam metter no rio Nilo, e 
aííi fe mettem as ferranias de Magáza , on- 
de também ha outras minas de ouro mui 
ricas. E lançando humâ linha com o enten- 
dimento da Cidade Çuáquem marítima que 
diífemos , ao fim da Ilha Meroe, que ao 
prefente fe chama Nobá , onde o Nilo vai 
já todo em huma vea levando todolos ou- 
tros rios incorporados em íi , fica eíle lado 
da parte do Norte , que aparta o eítado do 
Prefte dos Mouros , em comprimento de 
cento e vinte cinco léguas. E caminhando 
deite fim do Nilo pela parte do Occidente , 
que defcrevemos , fazendo huma maneira de 
arco não mui curvo , que vai fenecer con- 
tra o Sul , chega ao Reyno Adeá , que he 
a mais auftral terra que elíe tem : nas fer- 
ras do qual ttàfce o rio Obij , a que Pto- 
lomeu chama' Raptus , que vai íahir ao Ocea- 
no na povoação Quiimance junto de Me- 
linde. Na qual diílancia de caminho per a 
linha curva que diíTemos, haverá duzentas 
e cincoenta léguas ; e toda a vizinhança que 
per efta parte tem he de Gentios , gente pre- 
ta , de cabello revolto , mui bellicofa , prin- 
cipalmente os povos a que elles chamam Gaí- 
las > vizinhos a eíle Reyno Adeá. E partin*. 

do 



Década III. Liv. IV. Cap. L 373 

do delle , (que eftá em altura de féis gráos 
da parte do Norte ) , pêra Oriente , vai en- 
feitar com o Reyno Adel , que he de Mou- 
ros , cuja Metropoli fe chama Arar , e eftá 
em altura de nove gráos , na qual diftancia 
pode haver pouco mais , ou menos cento e 
oitenta léguas. AíTi que ajuntando as diftan- 
cias deftes quatro lados , que cercam o ef- 
tád.o defte Príncipe , podemos dizer que con- 
tém pouco mais , ou menos feiscentas e fe- 
tenta e duas léguas. E os três rios , que d in- 
fernos que o regam , não são foberbos quan- 
do fahem de fuás fontes , que bailem regar 
a terra do Egypto ; mas são ajudados das 
aguas de outros mui notáveis > porque em 
o chamado Tagazij , que he mais Oriental , 
entram fete ,, e no lègundo Abavij oito, e 
no Tacuij quatro , que nafcem nas ferras de 
Damut , Bizamo , e Sinaxij , a fora outros 
que ejle já traz incorporados em fi quan- 
do aqui chega, O curió, enome dos quaes 
fe verá em as Taboas de noífa Geografia , e 
no Commentario delia , quando tratamos 
do Egypto, e a razão do feu crefcimento 
no tempo de noíTo verão : matéria bem dis- 
cutida entre graves Authores , e poucos en- 
tenderam a caufa por não terem noticia dos 
temporaes daquellas. partes. E aíli efçrçve^ 
mos particularmente da origem dos Reys 
deite império , com os coftqmes dç fua re- 
li- 



374 ÁSIA de João de Barros 

ligião ; e por iffo neíte feguinte Capitulo 
fomente queremos dar huma geral noticia 
de fuás coufas , pêra enfiar affi o que neíta 
parte Abaííia fez Diogo Lopes , como o 
que fizeram os outros Governadores pelo 
tempo em diante. 

CAPITULO II. 

Como a Rainha Sabd fe foi ver a Je~ 
rufalem com Salamao Rey de Judéa , de 
que houve hum filho chamado David , do 
qual ^ fegundo dizem os povos ÂbaJJijs , 
procedem os feus Reys , e o mais que elles 
dizem defia Rainha Sabd , e afji da cha- 
mada Canddce , e de algumas coufas do ef 
tado defte Príncipe > e fua religião , e cof 
tumes. 

SEgundo o que efíes povos Abaífijs tem 
per efcritura , de que fe gloriam, he, 
que ouvindo á Rainha Sabá daquellaEthio- 
pia a fama do poder, e fapiencia de Sala- 
mao Rey de Judéa , por fe informar da ver- 
dade, mandou a Jerufalem hum Embaixa- 
dor. E fendo per elle, depois de fua vin- 
da , certa do que vira , e ouvira , defejando 
em pelfoa participar da fapiencia delle , pê- 
ro que idólatra foífe; partio perajeruíaiem 
com grande apparato de eftado , e riquezas , 
embarcando no mar roxo em hum porto , 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 37? 

onde fe depois edificou huma Cidade do feu 
nome Sabá em memoria deíla paífagem. A 
qual Ptolomeu íítua em altura de doze gráos 
e meio , de que ao prefente não ha mais me- 
moria , que dizerem alguns fer na terra , de- 
fronte da qual eíiá huma Ilha chamada Sai- 
bo em altura de quinze gráos e hum oita- 
vo , a qual em alguma maneira retém o no- 
me da Cidade , e he mais propinqua á iitua- 
çao de Ptolomeu que Maçuá , ou Çuáquem, 
onde outros querem que foffe. PaíTando ella 
efte mar roxo a outra parte da terra Ará- 
bia , e atraveíTando aquelle deferto , ante de 
chegar ajerufalem, em huma lagoa, no ca- 
bo da qual eílavam humas traves atraveíía- 
das a modo de ponte per que a gente palia- 
va , ella alumiada de efpirito profético não 
quiz paflar per ellas , dizendo que nao ha- 
via de poer os pés onde o Salvador do 
Mundo havia de padecer ; e depois que fe 
vio com Salamão , pedio-lhe que as mandaf- 
fe dalli tirar. O qual em íua chegada a re- 
cebeo com honra , aífi por razão de íua pef- 
foa , como poios grandes does de ouro , cou- 
fas aromáticas , e pedras preciofas , que le- 
vou pêra o Templo do Senhor , e ferviço 
da caía delle Salamão , com o qual eíleve té 
fer inftruéia em as coufas da Lei , e conce- 
beo hum filho delle , que pario no caminho 
á tornada pêra feu Reino. E depois que foi 

em 



376 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

em idade , com grande apparato, e riquezas 
o enviou a feu padre , pedindo-lhe que an- 
te o tabernáculo do Santuário lhe aprouvef* 
fe de o ungir por Rey daquella Ethiopia , 
pêra ficar por iucceíTor delia ; pofto que té 
aquelle tempo feu Reino andafle na linha fe- 
minina , e não mafculina per coftume do 
Gentio da terra. Chegado Meiiech (que aífi 
havia elle nome) ajerufalem, foi recebido 
de feu padre com muito amor, e delle al- 
cançou feu requerimento ; e ao tempo que 
foi ungido por Rey , lhe mudou o nome , 
chamando-lhe David , como feu avô. E fen- 
do já doutrinado em todalas coufas da Lei 
de Deos , ordenou Salamão de o enviar a 
lua madre com apparato de Rey ; e pêra i£ 
fo de cada hum dos doze tribus lhe deo o£- 
ficiaes ao modo de fua cafa delle Salamão , 
e por Príncipe dos Sacerdotes Azaria filho 
de Sadoch, que também era Principe dos 
Sacerdotes do Templo dejerufalem. O qual 
Azaria poucos dias ante de fua partida al- 
cançou per intercefsão de David que pudek 
fe entrar em o Saneia Sanclorum a orar, e 
facrificar por fucceífo do caminho, na qual 
entrada elle furtou as taboas da lei , poendo 
outras em feu lugar , que pêra efte cafo ti- 
nha feitas , fem difto dar conta a David , té 
que partido elle , e fendo já nos confins da 
Ethiopia , lho diífe. David , como quem 

que* 



Década III. Liv. IV. Cat>. II. 377 

queria imitar a feu avô em zelo da honra 
da Lei de Deos , com grande prazer ? e ale- 
gria fe foi á tenda de Azaria ; e tiradas as 
taboas do lugar onde as trazia , começou an- 
te cilas a bailar , e cantar louvores , e glo- 
rias ao Senhor , ao qual todolos íeus imita- 
ram vendo a caufa do feu prazer. Final- 
mente chegado David ante fua madre , eíla 
lhe entregou o Reino ; e deite Príncipe di- 
zem elles Abaffijs que procedem todolos feus 
Reys per linha mafculina té hoje , e que 
acerca delles não reinou mais mulher. E 
mais que todolos officiaes , de que fe ora 
os Reys fervem , são da linhagem daquel- 
les , que eíie feu primeiro Rey David trou- 
xe; e que não pode tomar outros pêra go- 
verno de fua caía ? e Reyno , fenao deites 
tribus , no gráo , e qualidade que cada hum 
trouxe naquelle princípio. E também fe glo- 
riam que per duas Rainhas fuás naturaes , ce- 
lebradas na Sagrada Efcritura , tiveram co- 
nhecimento de duas leis , que Deos quiz 
dar aos homens pêra fe falvar em diverfos 
tempos ; per a Rainha Sabá , a que deo 
per Moyfés ; e per a Rainha Candáce , a 
que deo per Chriítojefus feu filho. E por- 
que parece contradicção dizerem eítes povos 
Abaílijs que os feus Reys daquelía Ethiopia 
procedem deita Rainha Sabá , e que não 
houve depois delia mais Rainhas no feu 

Rey- 



378 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Reyno , e dizerem que a Rainha Candáce , 
que foi depois deita , ao menos mil e oiten- 
ta annos também fua Rainha , convém que 
naoleixemos eíta confusão aos ouvintes. Ef- 
te nome Ethiopia não fomente he nome 
comtnum das duas regiões Oriental , e Occi- 
dental , a que os Cofmografos o deram , 
mas ainda de huma Cidade fituada junto da 
IíhaMeroe, em huma Província oriental a 
ella 5 que carrega hum pouco contra o Sul , 
á qual os Abaffijs chamam Tigray , e Eílra- 
bo Tenezes, a qual Provinda íabemos fer 
governada per mulheres com titulo de Rai- 
nhas. E parece que fe intitulavam do nome 
da Cidade Ethiopia , como Metropoli do 
Reyno 3 e não de toda a região de Ethio- 
pia fobre Egypto , porque no mefmo tem*- 
po havia Príncipes , que tinham o titulo de 
Reys da Ethiopia commum. Da qual região 
Tenezes , fallando Strabo , diz : E depois 
o porto de Sabá , € o lugar da caca dos 
Elefantes , affi chamada de fie ufo y e a re- 
gião interior fe chama Tenefis , a qual tem 
os defterrados , que em outro tempo fugiram 
de Pfammiticho Rey do Egypto 5 os quaes 
fam chamados Sebritas , que quer dizer 
eflrangeiros , e tem Rainha , debaixo do 
fenhorio da qual eftá a Ilha Meroe , %izã~ 
nha a ejles lugares > e ajfentada em o Ni- 
Í0é E mais adiante > fallando elle das vito- 
rias , 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 379 

rias , que Petronio Capitão Romano houve 
nefta terra , diz : De/ies povos eram os Ca- 
pitães da Rainha Candáce , a qual em nof- 
fos tempos imperou os Et hi opas , certamen- 
te mulher baroil , a qual tinha hum olho 
ferdido. E procedendo ainda mais em as 
vitorias de Petronio , conta dos Embaixa- 
dores que lhe efta Candáce enviou , ao re- 
querimento da qual elie náo concedeo , an- 
te Jhe tomou huma Cidade per nome Na- 
pata, em que eítava hum filho delia Candá- 
ce, que fe falvou do impeto delle Capitão. 
E fegundo a conveniência dos tempos , ef- 
ta deve fer a Rainha Candáce , cujo era o 
Eunucho , a quem o Diácono S. Filippe 
declarou a profecia de Ifaias , e converteo 
á Fé de Chriíío. Per o qual Eunucho , e 
per a pregação de S. Mattheus , confeflam 
os Abaílijs receberem a Fé : peró não cele- 
bram muito a vida deíle Santo , por fer au- 
thor da fua conversão , nem tem a fua lenda 
conforme a Igreja Romana : Cá fegundo el- 
]a, eíle Apoílolo efteve naquellas partes per 
efpaço de trinta e dous annos , e a fua pri- 
meira entrada foi em huma Cidade chama- 
da Nabader , e poufou com o Eunucho con- 
vertido per Filippe, e elle o levou aElRey 
Egypto y o qual fe converteo com toda fua 
cafa , por eíle Apoílolo lhe refufcitar hum 
filho. Ao qual Rey fucccdeo Hyrtaco , que 

mar- 



380 ÁSIA de João de Barros 

martyrizou o Apoítolo ; e per morte deite 
tyranno os povos elegeram hum filho d'El- 
Rey Egypto defunto , que viveo per efpa- 
ço de íetenta annos , e leixou por herdeiro 
do Reyno hum filho , que foi barão fantii- 
íimo. Aííl que em hum mefmo tempo ve- 
mos nefta parte da Ethiopia barões intitula- 
dos porReys delia, e mulheres do mefmo 
titulo y que não eram conjuntas per matri- 
monio a algum delíes. Porque ora Candáce , 
de que fe falia nos A6tos dos Apoítolos , e 
a de Strabo feja toda huma , Hibernos , (fe- 
gundo conta Alexandro de Alexandro em 
os feus Dias geniaes , ) que muitas Rainhas 
deitas partes em memoria da primeira , pola 
excellencia de,fua peílba , foram chamadas 
Candáces y eomo Cefares , os Emperadores 
Romanos , e Faraós os Reys de Egypto , 
tendo cada huma nome próprio , como ti- 
nha a Senhora do Eunucho , á qual chamam 
Judith , fegundo dizem os próprios Abaííijs, 
E ainda que não feja com nome de Candá- 
ce , fabemos que , quaíi naquelles confins que 
diíTemos , hoje reina huma mulher, e não 
de pequeno eftado, a qual os mefmosAbaf- 
íljs chamam Gaiia, Nas terras da qual , prin- 
cipalmente nas que são da região , a que 
chamamos Nobia , e os Abexijs Nobá , al- 
guns dos noíTos que alli foram , viram mui- 
tos templos da chriítandade que aqyella tçiv 

ra 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 381 

ra teve , os quaes jaziam arruinados das 
mãos dos Mouros , e em algumas paredes 
imagens de Santos pintadas. E a caufa def- 
ta deílruição , ( fcgundo elles diziam,) foi 
lerem defamparados^a Igreja R omana , por 
razão do gra^cje^úmero de Mouros , que 
os tinham cercado. E fendo os noíTos na 
Corte do Preíle João , em companhia de 
hum Embaixador , que Diogo Lopes de Se- 
queira deíla vez do porto de Arquico lhe 
mandou 5 (como logo veremos , ) eíta Gaíia 
Rainha daquelles Nobijs , mandou pedir ao 
mefmo Prefte per feus Embaixadores , que 
lhe mandaíTe Clérigos , e Frades pêra lhe 
reformar o feu povo , que com a entrada 
dos Mouros havia muito tempo que eílava 
fem doutrina Evangélica, por não poderem 
haver Bifpo Romano , como já tiveram. Ao 
que o Prefte refpondeo que o não podia fa- 
2er , porque também o feu Abuna , debaixo 
da doutrina do qual eílava toda a Igreja da 
Ethiopia , elle o havia do Patriarca Alexan- 
drino , que eílava entre os Mouros , e fem 
recado do que pediam , fe tornaram eíles 
Embaixadores da Gaiia. Certo grave coufa 
pêra as orelhas de hum Chriílão zelofo da 
fé ouvirem , vendo que o grão do Senhor 
femeado neíla , e outras partes per os primei- 
ros agricultores de feu Evangelho , que fo- 
ram os Apoftolos ; fe perde por os feus fuc- 

cef- 



382 ÁSIA de J0Ã0 de Bakros 

ceífores não tirarem a zizania delle , pêra 
que a efpiga do número centeíimo crefça. E 
os principaes , a quem compete o adjuto- 
rio deita obra , polo poder do fegundo gla- 
dio que Jhe foi dado , leixam efte antigo 
agro da primeira femente ,. e vam romper 
terras novas apauladas da muita idolatria 
que em li- contém, porque lhz reíponde ao 
prefente mais com temporaes fruitos , que 
com almas ganhadas ao Senhor, E praza a 
EUe que os miniftros , e jornaleiros deíla obra 
não fe entreguem tanto na temporalidade , 
e abominações do ceno dos taes pavês , com 
que no dia do* final juizo não appareçam 
ante o Tribunal de Chrifto , delles feitos 
inais gentios do que elles per catholica dou- 
trina daquelle gentio ganharam almas , que 
aprefentem ao Senhor como fieis fervos , que 
deram á uíiira o talento de íiia poífibilidade. 
E tornando ás noíTas Rainhas da Ethiopia 
de que falíamos , confirma também não le- 
rem ellas fenhoras univerfaes da região de 
que fe nomeam , fomente da Cidade do tal 
frome, o titulo quejofefo no livro da anti- 
guidade Judaica dá á Rainha Sabá , quando 
conta como foi ver Salamão : cá elle a in- 
titula por Rainha da Ethiopia, e de Egy- 
pto , havendo nefte tempo Faraó fogro da 
mefmo Salamão , que eraRey detodoEgy- 
pto : cá fe fora verdade fer ella Rainha def- 

t4 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 383 

ta região , per alli fizera o caminho a Jeru- 
falem, que era mui perto, e não atraveíiára 
o mar roxo , e o deferto de Arábia. E por- 
que fez efte caminho per ella, diflè aEícri- 
tura : Veio a Rainha do AuJIro. Donde al- 
guns quizeram commentar íèr Rainha da re- 
gião Sabea , que he nas partes da Arábia Fe- 
liz , a que ora os Mouros Arábios delia cha- 
mam Yáman. E pois Jofefo, não fendo ella 
Rainha de Egypto , lhe dá o titulo delle , 
aífi fe deve crer que não de toda a Provin- 
cia da Ethiopia era Rainha , fenão da Cida- 
de aíli chamada , e das Comarcas a ella vizi- 
nhas. E também o próprio nome delia não 
era Sabá, mas Ma queda, fegundo dizem os 
Abaílijs : peró davam-lhe aqueíie nome Sabá > 
que era o próprio de huma Cidade Metro- 
poii daquella região que ella imperava : e 
por já não haver tal Cidade , os Abaífijs 
chamam áqaella região Sabay, (como difle- 
irios.) A qual Cidade Sabá , ante de ella fer 
Rainha , havia muitas centenas de annos que 
era fundada : cá fegundo o fitio , eíta era 
aquelia Sabá, que Moyfés cercou , e tomou 
per induítria da filha do Rey delia , quando 
Faraó Rey do Egypto o mandou por Ca- 
pitão a efta guerra, fegundo conta Jofefo no 
livro que allegamos. E paliados quatrocen- 
tos e fetenta annos , pouco mais , ou me- 
ãos } Cambyfes conquiíhdor defta Ethiopia , 



384 ÁSIA de João de Barros 

mudou o nome a efta Cidade Sabá , cha- 
mando-lhe Meroe, que era o nome de fuá 
irmã , ou fegundo querem outros Efcritores y 
defua madre: donde ficou eíte nome á Ilha 
que faz o Nilo, em a qual ella era edifica- 
da. Parece que eítes Efcritores , quando fat- 
iavam deitas Rainhas , ás vezes tomavam a 
parte polo todo , e outras ao contrario ; in- 
titulando-as ora per huma maneira , ora per 
outra. E os mefmos Abaílijs , que fe glo- 
riam delias 5 moftram algumas memorias da 
fua habitação ; porque ainda que a Rainha 
Sabá fe intitulaííe da Cidade Sabá , que era 
na Ilha Meroe, dizem elles que acamara, 
em que ella tinha feus thefouros , he hum 
lugar chamado Acaxuma , onde ora fe mo£ 
tram grandes edificios , e alguns pyrames da 
grandeza da agulha de Roma , a qual na- 
quelle tempo foi tão principal Cidade , e du- 
rou tanto curfo deannos, que Ptolomeu co^ 
mo coufa célebre , chamando-lhe Axuma y 
a íitua em altura de dez gráos da parte do 
Norte. E aíli dizem que a Rainha Candáce 
nafcco em hum lugar perto defta Cidade 
Acaxuma, o qual ora he huma aldeã de fer- 
reiros ; e o próprio lugar de Acaxuma era 
a principal eílancia delia, poílo que oRey- 
no próprio , de que fe elle intitulava , era a 
terra a que elles chamam Buro , mui vizi- 
nha á Cidade Acaxuma. E também dizem 

que 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 385- 

que o Capado da Rainha Candáce não corr- 
ver teo á Fé de Chrifto fomente o Reyno cha- 
mado Tigray , que (como difíemos) he 
aquella parre da terra, a que Strabo. chama 
Tenefis , na qual ainda hoje ha huma povoa- 
ção chamada Temey, que parece que delle 
procederia a toda a Comarca , e que algum 
deites nomes he corruto do outro , mas ainda 
converteo outras Comarcas. E aíli dizem que 
David filho da Rainha Sabá fe coroou por 
Rey naquella Cidade Acaxuma , donde ficou 
em ufo que os Reys , que depois o fuccedê- 
ram té hoje, fe vam coroar áquelle lugar j e 
não o fazendo , reina injuftamente. E que aíli 
os Pveys , que fuccedêram a efte David té o 
tempo que receberam a Fé de Chrifto , como 
defta fua conversão té ora fempre foram ac- 
crefcentando feu eftado per conquifta de ar- 
mas : e todolos Reynos , e fenhorios , que 
per efte modo tem accrefcentado a fua Co- 
roa, como de coufa própria, quando pro- 
\êm delles a algumas peffoas , ainda que pro- 
cedam da linhagem daquelles de quem os 
houveram , he em quanto lhes bem parece , 
fomente o Reyno Dambeá. Cá efte , ainda 
que o Príncipe que o governa feja vaífallo del- 
le Prefte João , não o pôde remover , nem 
tirar daquelle eftado , e herda-fe de pai a fi- 
lho. E a caufa he , que no tempo que Da- 
vid filho da Rainha Sabá começou conquif- 
Tom. III. P.L Bb tar 



386 ÁSIA de J0Á0 DE Bahkos 

tar os Reynos da gentilidade a elle vizinhos f 
efte fe deo a elle por vaffallo ante de fer 
conquiftado. E dos outros Pveynos , que ef- 
tes Principes conquiftáram dos Reys Gentios 
daquella Ethiopia , aíTi como dos povos Go- 
ragens , e de outros , quando os noííbs lá 
andaram , gloriando-fe elles Abaílijs daquel- 
las vitorias 3 lhe moftravam as próprias ca- 
ías , onde aquelles Reys gentios habitavam. 
E dizem que o primeiro Reyno , que efte 
feu primeiro Rey David conquiílou da mão 
do Gentio daquella Ethiopia , foi o que el- 
les chamam Tigray. Trouxemos todas eftas 
coufas , porque fe veja que em hum meímo 
tempo houve naquella Ethiopia os Reys, e 
Rainhas illuftres que nomeamos ; e que os 
Abaílijs por gloria do feu princípio , que 
começou nefte primeiro David , querem en- 
cubrir os outros Reys , que também houve 
naquellas partes. Condição mui geral de to- 
dnlas gentes , que por darem antigos , e il- 
luftres princípios á fua linhagem , íèmpre fa- 
bulam coufas a que a antiguidade não tes- 
temunha dá licença : pofto que per outra 
parte eftes Abaílijs moftram o contrario na 
conquifta , que dizem ter os feus Príncipes 
com os Reys Gentios comarcãos , de que 
conquiftáram tantos Reynos , como tem. O 
que parece pelo decurfo do tempo , e per 
as Rainhas P que fempre naquellas partes hou- 
ve' 



Década III. Li v- IV. Cap. II. 387 

ve té hoje , he , que a Sabá daria a feu filho 
alguma parte da terra da que eile poíluia 
para herança fua, e tudo o que foífe con- 
quiftando do Gentio daquellas regiões accref* 
centaílè a fua coroa : e o mais que ella pof- 
fuia como Rainha , conformando-fe com o 
coftume , e lei da terra , ficava á outra fê- 
mea , té vir ter per eíle modo a Candáce , e 
delia fucceílivamente a Gaiia , que ora reina y 
da qual particularmente falíamos em a noffa 
Geografia. Muitas coufas deílas não eílam 
alumiadas antre os AbaíTijs , por fer gente > 
que não fe dá a eferever os anmies dos feus 
Reys , como coílumáram os Gregos , e Lati- 
nos , que não são tão antigos na Lei de Deos , 
como elles dizem fer. E prevalece entre el- 
les tanto efta antiguidade da Rainha Sabá , 
e Lei de Moyfés , por fer o leite de fua pri- 
meira doutrina, que ainda hoje eílam agua- 
dos delia, porque todos guardam ofabbado, 
e Domingo , tem circumeisão , ebaptifmode 
agua ao noíTo modo. Peró differem niílo , o 
macho he levado á Igreja a receber eíle fa- 
cramento aos quarenta dias , e a fêmea a fef- 
fenta , e fempre ha de fer ao fabbado , ou 
Domingo ; porque como guardam eíles dous 
dias , e nelíes celebram MiíTa , dam o facra- 
mento ás crianças, dando-lhes logo a madre 
amamma pêra poder levar aquella pequena 
particula. E quanto a hum final de fogo, 

Bb ii que 



388 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

que trazem fobre o nariz , que alguns que- 
riam dizer fer baptifmo de fogo , tirado da- 
quclla palavra daEfcritura: Ipfe vos bapti- 
%abit in Spiritu SanSfo , & igne , não he 
aíli , fomente ufam delle per preceito dos 
primeiros Reys , que foram Catholicos. Os 
quaes como viviam em meio de tanta gen- 
tilidade , porque o leu povo foíTe conhecido , 
mandaram que feaffinaíTe com fogo naquel- 
le lugar : e he tão guardado o tal preceito , 
que achando-fe algum homem fem elle , fen- 
do accufado, fica cativo doPrincipe. Acir- 
cumcisão de que também ufam , he feita aos 
oito dias em cafa per Sacerdote j os homens 
110 lugar ordenado , e as mulheres cortando- 
Jhes huma partícula glandofa, a que os La- 
tinos chamam nynfa , o qual ufo não havia 
acerca dos Hebreos , e dizem elles que o 
tem por preceito da Rainha Sabá. Além dei- 
tas ceremonias da lei velha , que elles hão 
por facramentaes , tem outras acerca de não 
comer porco , e coufas a que chamam im- 
mundas , muitos abufos que elles confeíTam 
tomarem , não fomente por preceito do feu 
Abuná , que (como diílemos ) tem a dou- 
trina dos Jacobitas , mas ainda por prama- 
tica do feu Rey. Porque , excepto os facra- 
mentos 3 e ordenar os Cierigos nas ordens 
pêra o íacerdocio , que fe faz pelo Abuná , 
cm todo o mais o Rey he fobre todos : cá 

cl- 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 38? 

elle os provê dos benefícios , e os remove 
quando lhe apraz , e caftiga feus delidos , 
como fe foliem leigos. Os Clérigos não tem 
dízimos , cá todolos rendimentos da terra 
são delRey , fomente tem algumas terras , 
que lhe os Reys ordenam , que rendem pê- 
ra as Igrejas ; e ifto he fegundo a devoção 
dos Principes , os quaes nefte modo de re- 
partir com a Igreja fe tem moflrado ferem 
zelofos da honra de Deos. Porque em to- 
da aquella Ethiopia (como diíTemos) não 
ha hum edifício , ou cafa , que os Reys te- 
nham feito pêra íi ; e pêra fe louvar Deos 
são tantos os Moíleiros de Frades da Ordem 
de Santo Antão, (porque não tem outra,) 
e tantas as Igrejas de Cónegos Regrantes > 
que ellcs tem ao modo que temos as Sés 
Cathedraes, e tanta a outra Igreja parochia , 
e tanta Ermida , que não tem número : e a 
todas os Reys provêm de renda , ornamen- 
tos, e nifto fomente fe moílra a grandeza, 
e policia daquelles Principes. Aos Frades , 
e Cónegos Regrantes nas Comarcas onde 
habitam dá terras aílinadas , a que elles 
chamam Gultos , que rendem pêra a cafa : 
e aífi vive o íàcerdotp abaftadamente , e he 
eftimado naquellas partes , principalmente os 
que reíidem nos Conventos , e Igrejas Coí- 
legiaes , que por nenhuma outra coufa os 
homens mais trabalham naquellas partes > 

que 



3$o ÁSIA de João de Barros 

que por ter gráo de Sacerdote , porque com 
iíto tem a vida certa. E daqui vem haver 
naquellas partes grande número de Frades , 
e Clérigos: cá a multidão delles fundada na 
cubica de ter o neceflario em aquelle eítado , 
faz confervar-fe entre elles tanto tempo o 
que profeíTam da lei. Geralmente todo aquel- 
le povo he bárbaro nas coufas da fciencia; 
porque tirando as que pertencem ás ceremo- 
nias do feu facerdocio , (e ainda eftas barba- 
rizadas , ) em todo o mais não fe acha nel- 
les doutrina alguma , nem procuram por ií- 
fo : té nas coufas mecânicas não tem enge- 
nho algum ; e fe lá acolhem algum eítran- 
geiro engenhofo , não o leixam vir; e po- 
rem não pcra lhes fervir em mais > que na 
inftruélura de feus templos , por entre elles 
não haver pedreiros , carpinteiros , ou pin- 
tor que lhos faça , e eííes que tem são obra 
de efírangeiros. E todolos ornamentos , pa- 
ramentos que tem , que são muitos 5 e mais 
do que fe eípera em tão barbara gente , aífi 
pola cópia 5 como por ferem de feda , e 
trocadilhos , todo efte panno lhes vai da ín- 
dia , do Cairo , e de outras partes : té os 
pannos das tendas do feu Rey , e ornamen- 
tos de fua cafa , na qual , e nas Igrejas ef- 
tam toda las alfaias , que per partes a gen- 
te nobre de toda aquella Ethiopia podia ter. 
E-he tão eítranha coufa entre elles algum 

ar- 



Década III. Liv. IV- Cap.IL 391 

artificio , do pouco ufo que tem da policia , 
que té hum ferreiro , que lavra o ferro pê- 
ra fuás neceílidades , tem per coufa que fe 
faz por arte diabólica : e por efta caufa são 
antre elles infames ; e fe acertam de ver pe- 
la manhã hum ferreiro , e adoecem naquel- 
le dia, dizem que do olho do ferreiro lhes 
veio aqueíle mal. E chega efta ignorante 
opinião a tanto , que vivem eftes ferreiros 
quaíi apartados do conforcio da outra gen- 
te , e não os leixam entrar nas Igrejas. Fi- 
nalmente he Nação tão bruta , que muitos 
dos vizinhos , fendo negros de cabello tor- 
cido , tem mais policia na mecânica das cou- 
fas , do que elles tem. E não pode fer mais 
bruto do engenho , que acertando hum Ar- 
ménio , que fe achou naquellas partes , de 
fazer a EIRey hum moinho de agua pêra 
lhe moer o trigo , e todo outro género de 
pão , a farinha do qual elles fazem entre 
humas pedras á mão , mais remoendo que 
moendo , e ifto com muito trabalho : aca- 
bando EIRey dever a obra que fazia , man- 
dou- a logo desfazer , dizendo que aquillo 
não fervia em fua terra , porque elle anda- 
va fempre no campo per todo o feu Rey- 
no , e não havia de levar com Sigo aquelles 
engenhos , que fempre eftavam em hum lu- 
gar. Como fe aqueíle artificio não convi- 
nha a mais , que onde eiie foíTe prefente, 

e não 



3p2 ÁSIA de João de Barros 

e não ao povo de todo feuReyno. O qual 
povo tudo merece , cá habitando tão groitas 
terras , onde ha grandes criações pêra fe 
aproveitarem das lans , Regadios pêra linhos , 
e Jitios pêra todo algoclão , que quizerem 
femear ; de bruteza , e preguiça padecem 
andarem veftidos geralmente de pelles por 
cortir ; e quem as traz cortidas , he huma 
grande policia. E são tão curtas eftas fuás 
veftes , que lhes cobrem pouca parte do cor- 
po : té o commum dos Clérigos , Frades , 
e Freiras he huma vergonha ver como an- 
dam , fem a elles terem de quanto lhes pa- 
rece. Somente os Cónegos , e Frades , que 
rclidem em feus Conventos , eftes veílem 
panno de algodão, e trazem as roupas com- 
pridas , como convém a leu habito : e afll 
a gente nobre ufa defte panno , o qual lhe 
vai da índia, e de algumas partes vizinhas. 
Porque (como diffemos ) são taes , que nem 
pêra veftir , tomar hum peixe , huma ave , 
huma fera , per modo de artificio , não tem 
pêra iíTo engenho , fomente pêra furtar são 
aíli engenhofos 5 que lhes não chegam os 
Ciganos vagabundos , e ifto na Corte d 5 El- 
Rey , que nas outras partes não ha efta fei- 
tura fem punição. E parece que de andar 
o feu Príncipe fempre no campo paliando 
as hervas, ao modo dos Alarves, fegundo 
os temporaes do anno 7 ora em huma -re- 
gião > 



Década III. Liv. IV. Cap. II 393 

Sião , ora em outra , na qual inquietação , 
e concurfo de muitas , e varias nações , aífi 
de que andam naquelle arraial , como das 
que conquiftam , os puzeram em neceífida- 
de de dous ufos , os quaes lhes fez a na- 
tureza , pêra roubar , e pelejar , a que Na- 
turalmente são inclinados. Donde vem que 
eíles Abaffijs geralmente como são fora da 
miferia de fua pátria , tem animo oufado , 
principalmente naquellas partes Orientaes , 
€ alguns delles são excellentes Capitães , co-* 
mo os noíTos tem experimentado. O eftado 
do Prefte , peró que ao prefente que nós 
compomos efta hirtaria feja bem pequeno , 
e mudado com a entrada que os Mouros 
fizeram em todo feu Reyno , fazendo-fe fe- 
nhores delle , quaíi per decurfo de treze an- 
nos , fendo elie recolhido em partes remo- 
tas de ferranias , por faívar a vida , té que 
os noíTos á cufta de feu próprio fangue o 
reftiíuíram , como fe dirá em feu tempo ; 
neíle , em que o Governador Diogo Lopes 
de Sequeira enviou a elle D. Rodrigo de 
Lima por Embaixador da parte d'ElRey 
D. Manuel 3 ( como logo veremos , ) era 
mui poderofo em terras 5 e povo. Em ter- 
ras , porque tinha as que atrás nomeámos ; 
e povo, porque com fua potencia não fo- 
mente era fenhor obedecido de toda a Chrifi- 
tandade daquella Ethiopia , mas ainda mui- 
tos 



394 ÁSIA de João de Barros 

tos povos da gentilidade , e dos Mouros , 
em que entravam grandes fenhores. E em 
nenhuma coufa fe moítrava mais a poten- 
cia delle , que no aíTentar do feu arraial ; 
porque (como diflemos) por antigo coftu- 
me eíles Principes andam fempre no cam- 
po paílando as hervas , ora a huma parte , 
ora a outra , ao modo dos Parthos, Par- 
feos , e Arábios , que feguem efte coftume. 
E verdadeiramente era coufa maravilhofa 
de ver : cá em huma populofa Cidade de 
pedra , e cal achar-fe-hão edifícios , templos , 
praças , ruas , mantimentos , mercadorias , 
e policia de bom regimento j e neíle arraial 
achava-fe huma Cidade de panno , de grande 
número de tendas de algodão , humas de hu- 
ma cor , outra de outra , e delias de feda en- 
tretalhadas , affi armadas , e arruadas , e os 
officios poílos em bairros , e as Igrejas em 
Freguezias , que por muitas vezes que fe 
o Preíle mudafle , já cada hum fabia onde 
fe havia de aíTentar, fe ao Levante, fe ao 
Ponente , e a que máo , e em quanta diílan- 
cia ; de maneira , que nenhum homem ti- 
nha neceífidade de perguntar : Onde pouja 
foao ? porque pola ordenança do lugar em 
que cada hum fe havia de apoufentar , já 
•fabia que osOíEciaes d'ElRey em tal par- 
te, c os da juíliça em tal, e os mecânicos 
de tal officio em tal, e a tantas tendas. E 

fe- 



Década III. Liv. IV. Cap. II. 395- 

fegundo o grande número da gente , que 
eíte Príncipe trazia , fe não houvera eíta or- 
dem , poia pouca demora que elie ás ve- 
zes fazia em lugares , primeiro que fe hum 
homem achara , fe partira dalli. Porque o ar- 
raial , que eítando a praça principal íituada 
no meio delle , era dalli ás tendas d'E!Rey 
huma lega a ; e fe era em campo chão lé- 
gua e meia, tudo per huma rua tão direi- 
ta , e larga , que das portas dos paços d'El- 
Rey fe via oconcurfo delia, por elles fem- 
pre ferem aífentados no lugar mais alto da- 
quelle íitio : bem fe deve crer que não to- 
maria eíte arraial pouco efpaço de terra, e 
que a gente delle não era de pequeno nú- 
mero , pois tinha treze Freguezias , huma 
das quaes era dos cozinheiros d'ElRey. E 
quando fe mudava , além do grande núme- 
ro de homens , que ferviam de levar car- 
gos á cabeça , de mulas de carga dizem 
que pairavam de cem mil , a fora muitos 
camelos que levavam as tendas. Das quaes 
mulas elles fe fervem não fomente neíte fer- 
viço de carga , mas ainda pêra caminharem 
nellas , e os cavallos levam a deítro; por- 
que como entre elles não fe ufa ferrarem 
as beílas , e são mais mimofos que as mu- 
las , pelejam nelles , e caminham nas mulas. 
A maneira doferviço d'ElRey , e tratamen- 
to de fua peífoa naquelie tempo , que flo- 
re- 



396 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

recia em potencia de todalas coufas , era 
mais de homem divino , que humano : pê- 
ro agora que a guerra dos Mouros trouxe 
á terra neceífidade de homens , já fe com- 
munica , e já oconverfam , ejá íèleixa ver 
como homem , e não com aquellas ceremo- 
nias , de que ante ufava , como fe elle fora 
alguma divindade. Porque té os fenhores de 
feu eftado no modo de o ver , e fallar não 
pareciam vaííallos , mas efcravos } em tan- 
to , que mandando elle recado ao mais po- 
derofo delles per o mais baixo homem de 
fua cafa , ainda que foífe ao Tigre Mahon , 
ou ao Barnagax , que na dignidade repre- 
fentavam Reys , tanto que em fua cafa lhe 
era dito que lhe vinha hum recado do Pref- 
te, logo em continente fe fahia de fua ca- 
fa, e no campo , e a pé , nu da cinta pêra 
cima havia de receber o feu recado. Ou- 
vido o qual recado , fe era em contentamen- 
to do Prefte , veftia-fe das mais nobres vef- 
tiduras que tinha, e tornava a cavalgar, e 
hia-fe pêra cafa ; e fe era em feu defcon- 
tentamento , a pé , nu como eftava , fe tor- 
nava. E a primeira palavra que eíles men- 
fageiros diziam da parte d'ElRey , era : £/- 
Rey vos envia faudar^ á qual palavra to- 
dos por cortezia , e acatamento hiam com 
a mão ao chão. Outros muitos coftumes 
tem a gente Abaííij y e o feu Principe , que 

são 



Dec. III. Liv. IV. Cap. II. e III. 397 

são mui diveríbs dos noííos , os quacs (co-*- 
mo já diífemos) leixamos pêra o Commen- 
tario da noíla Geografia , porque eíle lugar 
não requer mais. 

CAPITULO IIL 

Como Diogo Lopes de Sequeira fe via 
com o Barkagax , hum principal Capitão do 
Prefle , com o qual afjentou paz ; e entre- 
gue o Embaixador Mattheus , e D. Rodri- 
go de Lima , que elle em fua companhia 
mandou ao Prefle , fe partio pêra ir inver- 
nar a Ormuz : e o mais que fez nefle ca- 
minho. 

O Governador Diogo Lopes de Sequei- 
ra , ante que eftes Padres do Mofteiro 
de Visão , que elle com tanta folemnidade 
(como diíTemos ) mandou receber , tinha fe- 
cretamente enviado a elle hum Fernão Dias , 
homem que fabia mui bem a língua Ará- 
bia , que geralmente fe falia per aquellas 
terras , pêra que notadas as coufas do Mof- 
teiro , e Religiofos delle , o pudeíTe bem 
informar , e de tudo eftar aviíado quando 
os Religiofos , que Mattheus mandara cha- 
mar , vielTem faber fe refpondia o feu di- 
to com a viíla delle Fernão Dias. E porque 
elle tardava, e os Frades eram vindos, os 
quaes contavam muitas coufas da fua Reli* 

g ião * 



398 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

gião j número , grandeza das cafas que ti- 
nham , e aííi dos muitos Religioíòs que nel- 
las havia; e que oMofteiro de Visão, que 
he da vocação da Ordem dejefus, era hum 
dos principaes que elles tinham : o Ouvidor 
Pêro Gomes Teixeira zelofo das coufas de 
noíTa Fé , defejando ver per íi o que eftes 
Frades diziam , pedio licença ao Capitão 
mor , que em companhia delles o leixaíTe ir 
ver aquelle Morteiro. Diogo Lopes quando 
vio que huma tal peflba , como era Pêro 
Gomes, fe offerecia a efte caminho, per o 
qual podia fer melhor informado das cou- 
ias que defejava , que per outra peflba al- 
guma , agradecia-lhe muito efta ida , dizen- 
do , que lhe havia grande inveja a ella. Fi- 
nalmente Pêro Gomes fe foi em companhia 
dos Frades té a Villa de Arquico , e dalli 
o Capitão do lugar mandou hum feu irmão 
com elle ; e fendo no caminho , começaram 
achar magotes de gente do Barnagax , que 
fe vinha ver com Diogo Lopes. E quando 
chegavam a eftes magotes , o irmão do Ca- 
pitão de Arquico , por obediência , e reve- 
renciar a peííòa do Barnagax , cuja aquella 
gente era , fe de feia a pé , e lhe falia va ; e 
tornado a cavalgar quando vinha outra , fa- 
zia outro tanto, nas quaes ceremonias , fe- 
gundo feu ufo , fe foram detendo hum bom 
efpaço y té que vieram encontrar com a pef* 

loa 



Pecada III. Li v. IV. Cap. III. 399 

foa delle Barnagax , o qual trazia ante II 
quatro mulas a defiro mui formofas , e qua- 
tro cavallos grandes , como os de Andalu- 
zia em Hefpanha , e toda a gente que acom- 
panhava o Barnagax vinha de mulas. O ir- 
mão do Capitão de Arquico , vifto a peflba 
delle , per efpaço de hum tiro de béfta fe 
apeou 3 e fez apear a Pêro Gomes , e am- 
bos a pé foram contra o Barnagax a lhe 
fallar ; o qual por honrar Pêro Gomes , te- 
ve a rédea da mula em que vinha ; e che- 
gados elles , lhe beijaram a roupa no lugar 
dogeolho direito, fegundo feu coftume de 
reverenciar as peífoas tão notáveis. O qual 
Barnagax , depois que foube de Pêro Go- 
mes quem era, e a romaria que hia fazer, 
e como o Capitão eftava efperando por el- 
le , reípondeo com palavras de homem pru- 
dente, que o meímo defejo de fe ver com 
o Capitão mor o movera áquelie caminha 
que fazia ; e que a romaria que elle Pêro 
Gomes hia fazer era tão perto , que bem 
poderia tornar ante que elie Barnagax fe 
viííe com o Capitão ; que lhe pedia por 
amor delle que affi ofizefíe, porque folga- 
ria de fallar primeiro com elle ; e affi fe 
fez. Porque Pêro Gomes , vifta a cafa , e to- 
mada informação do que defejava faber dos 
Padres do Moíteiro , dos quaes foi mui bem 
recebido , fe tornou pêra Arquico. Dos 

quaes 



400 ÁSIA de João de Barros 

quaes Religioíbs houve hum livro eícrito 
em íingua Chaldea , em que elles tem toda 
a lenda da Igreja , de Evangelhos , Epifto- 
las 5 Pfalmos de David que rezam, e outras 
coufas que refpondem á Igreja Romana , 
e algumas Tegundo Teu ufo« Chegado oBar- 
nagax ao lugar Arquico , per meio de Pê- 
ro Gomes houve alguns recados entre elle, 
e o Capitão mor Diogo Lopes fobre o lu- 
gar onde fe ambos haviam de ver ; por- 
que hum requeria que fofle no próprio lu- 
gar Arquico , que do poufo onde as náos 
eílavam , (que era hum pouco abaixo , ) a 
cllc haveria duas léguas , e outro queria den- 
tro em as náos. Nas quaes dúvidas fe met- 
teo confelho dos Mouros , a quem noíía 
amizade com o Prefte era mui odiofa por 
fer em fua deílruiçao , os quaes mettêram 
tanta defconfiança no animo do Barnagax , 
que não havia remédio pêra querer que as 
viítas foíTem de outra maneira , ijé que en- 
treveio nifto ir António de Saldanha a elle. 
E entre muitas práticas que ambos tiveram 
fobre efte negocio, depois de elle regeitar 
arrefens de parte a parte , efcufando-fe dif- 
fo com dizer, que onde havia Chrifíanda- 
de havia de haver toda a verdade , em 
hum Sacerdote querendo defcubrir huma 
Cruz , que levava de prata , que António 
de Saldanha pêra o provocar lhe queria en- 
tre- 



Década III. Liv. IV. Cap. III. 401 

tregar , como penhor de feguridade de fua 
peilba naquelle adio das viftas , levantou-íe 
muito rijo donde eítava , indo á mão ao 
Sacerdote que não defcubriífe a Cruz ; di- 
zendo , que pêra coufas de tão pouca im- 
portância , como eram as que fe entre eiles 
tratavam , pêra que era entrevir o final de 
que dependia toda noffa Fé ? E fem mais 
altercar nas dúvidas que tinha , diííe , que 
era contente de chegar á praia , que eítava 
defronte de Arquico. E pois diziam que as 
nãos por razão dos baixos não fe podiam 
mover do Jugar onde eílavam pêra vir aí- 
li, que vieííe o Governador em navios de 
remo , e que ambos fe veriam na praia. Tan- 
to poder tem a vifta daquelle final entre 
aquella barbara , e ruílica gente ^ creada na 
côdea da noffa lei , que mais os fegura a 
viíla delle pêra não temerem perder a vida , 
que a nós , creados na policia da Igreja Ro- 
mana , e verdadeiro entendimento da lei 
Evangélica , os juramentos folemnizados com 
tanto facramento de palavras na fegurança 
dos bens, a que chamamos fazenda. Don-, 
de parece que mais tem aproveitado a eftes , 
nefta parte , a ignorância da luz da lei , que 
anos a claridade delia. Finalmente efte Bar- 
jnagax , como homem feguro dos temores 
que lhe os Mouros punham , e fem pontos 
de honra , (matéria que faz toda difcordía , ) 
Tom.IILP.I. Ce el- 



402 ÁSIA de João de Barros 

elle fe veio ver com Diogo Lopes á praia 5 
acompanhado com té duzentos homens de 
cavallo , e dous mil de pé , os quaes entre- 
gou ao Capitão de Arquico como guarda 
do campo ; e fahindo-fe do corpo deita gen- 
te , veio com té féis peííbas ao lugar on- 
de eílavam ordenados aíTentos , em que fe 
haviam de aíTentar. O veftido de fua peífoa 
era ao modo Alarve , huma camifa branca 
de lenço veftida fobre outras roupas , e em 
cima hum bedem preto, e na cabeça huma 
touca branca de lenço. E fegundo fe depois 
foube , elle , e os feus vinham em habito 
honefto , e t rifle , por haver poucos dias que 
em huma entrada que elle fizera nas terras 
dos Mouros contra as partes do Egypto , 
perdera hum filho , e quatrocentos de cavai- 
lo , per o qual cafo o Prefte eítava defeon- 
tente delle , dando-lhe a culpa diflb. Diogo 
Lopes veio a modo contrario com té feis- 
centos homens veíiidos de feíla ; e quando 
vio a ordenança em que o Barnagax leixa- 
va a gente que trouxera comfigo , poz a 
fua ao longo da praia em ordem de boa 
moftra ; e fahido com outros leis homens , 
foi-fe onde eílavam feus aíTentos, cadeiras 
pêra elle Diogo Lopes , e Embaixador , e 
hum catele cuberto de feda pêra o Barna- 
gax , por eíle fer o modo da maior honra , 
que elles podem ter em feu aífento. Che- 
ga- 






Década III. Liv. IV- Cap. III. 403 

gados a hum tempo a efte lugar , aflentá- 
ram-fe todos três ; e depois de feitas fuás 
cortezias , fegundo o ufo de cada hum , e 
darem graças a Deos poios ajuntar naquel- 
le ado de congregação Chriftã , em amor , 
e paz , começou Diogo Lopes dar conta 
das coufas que eram paííadas , affi nas dili- 
gencias que os Reys de Portugal tinham 
feito por ter conhecimento , e communi- 
cação com aquelle Emperador da Abaífia 
tão nomeado per toda a Chriílandade , co- 
mo as duvidas que os Capitães da índia ti- 
veram , quando viram lá o Embaixador 
Mattheus , parecendo a todos fer alguma 
induftria dos Mouros pêra fim de feus ne- 
gócios. Porém depois de elle fer em Por- 
tugal , EIRey D. Manuel, que então rei- 
nava, o recebeo como fe devia receber o 
Embaixador de tal Príncipe , e que per al- 
guns inconvenientes , e occupaçóes que hou- 
ve no Reyno , não foi logo defpachado. 
Depois vindo á índia, EIRey D. Manuel 
feu Senhor mandara a Lopo Soares o Go- 
vernador pafTado , que fora ante delle , que 
entraífe no eftreito poderofamenre , e entre- 
gaífe a elle Mattheus naquelle porto de Ar- 
quico aos Capitães delle : e aífí por falecer 
o mefmo Embaixador, que EIRey com el- 
le mandava , e por tempos contrários não 
pode haver eíFeito aquella viíla > e aílo de 
Ce ii ir- 



'404 ASTA de João de Bakros 

irmandade , em que ellc Diogo Lopes , e 
clle Barnagax eílavam. Porque as comas per 
Noílb Senhor ordenadas pêra tamanho fru- 
to , como aqueíle íería 3 convinha terem eftes 
princípios de trabalho pêra maior confola- 
çáo 3 e mérito daqueiles , que per elle mef- 
mo Deos os íbíFriam. E pois Deos fizera a 
elle Diogo Lopes tão particular mercê , que 
o chegara áquellahora em que eftava , duas 
couías lhe convinha fazer pêra cumprir com 
a infcrucção que lhe EiRey D. Manuel feu 
Senhor mandava : a primeira , levar huma 
authentica certidão delie Mattheus como 
ficava naquelle porto entregue a elle Bar- 
nagax , peflba das mais principaes daquel- 
le Reyno , e aííi hum Embaixador feu > 
que mandava que foífe ao Preíle em com- 
panhia delie Mattheus em lugar do outro 
que falcceo. E a fegunda era fazer huma 
fortaleza na Ilha Camarão , ou naquella Ma- 
çuá 5 qual parecefíe mais proveitofa pêra 
guerrear os Mouros daquelle eílreito do mar 
Roxo , conformando-fe niílo com a vonta- 
de do Preíle , e também tomar emenda d 5 EI- 
Rey da Ilha Dalaca 5 poía morte de hum 
Capitão Portuguez , que alli foi ter na en- 
trada de Lopo Soares , íegundo elle Mat- 
theus fabia , como peflba que eíle negocio 
prognoíticou , por faber fer aquelíe Mouro 
Jiomem atraiçoado. E que quanto a elle Mat- 
theus " 



Década III. Liv. IV. Cap. III. 405* 

íheus fer entregue ? difíò eílava já fatisfeito , 
e o Embaixador , que com elle havia de ir , 
era aquelle Fidalgo , amoftrando a D. Ro- 
drigo de Lima , filho de Duarte da Cunha 
de Santarém , o qual era hum dos féis que 
levava comfígo já ordenado pêra efte a6lo , 
que por não eftarem ainda preftes algumas 
peífoas que com elle haviam de ir , e aíli 
coufas pêra a peííoa do Preííe , por iflb lho 
3iao entregava logo. Que elle havia de ir 
em companhia delle Mattheus té oMoftei- 
ro de Visão , onde (fegnndo elle dizia ) por 
fua devoção havia de eílar alguns dias : que 
álli pedia a elle Barnagax que mandaffe al- 
guma peííoa , que o encaminhaíTe té a Cor- 
te do Preíte , quando elle Mattheus tiveíTe 
algum impedimento de não poder ir tão ce- 
do. Que quanto ao fazer da fortaleza , por 
aquelle anno lhe parecia que não podia fer , 
aíli porque a elle Capitão mor lhe convi- 
nha ir invernar fora do eílreito , por ter per- 
didas a maior parte das munijoes que tra- 
zia em huma nio que perdera , como por 
haver ainda de vir recado do parecer do 
Prefte fobre eíle cafo ; e que conformando- 
fe com o breve tempo que tinha de cami- 
nho , daria huma vifla a Dalaca. O Barna- 
gax , em quanto Diogo Lopes diííe eílas 
couias ? eíleve mui attento , e a todas re- 
ipondeo como homem prudente ; e per der- 

ra- 



406 ÁSIA de João de Barros 

radeiro em confirmação de paz , e amiza- 
de , que alli aíTentáram, veio hum Sacer- 
dote , e aprefentou huma Cruz de prata dou- 
rada, em que ambos a haviam de jurar. A 
qual Cruz tomando o Barnagax na máo pe- 
lo pé , e pofto em geolhos , difle : Aquella 
paz , e amor que Chrifto Jefus nojjb Re- 
âemptor mandou afeus difcipulos que hou- 
rvejjè entre elles , ejia feja entre nos-outros , 
que profejjhmos fua Fé , a qual quanto em 
mim for-, por parte d"ElRey David meu 
Senhor cumprirei , e afji o juro nejie final 
de nofja falvaçao. Diogo Lopes per leu mo- 
do feito outro tal juramento , tornaram- fe 
aíTentar ; e depois que hum pedaço eítive- 
ram praticando nas coufas da guerra , que 
aquelles dous Príncipes, (cujas peflbas elles 
alli reprefentavam , ) tinham com os Mou- 
ros , e Pagoes , efpedíram-fe hum do outro , 
por o tempo não fer pêra mais , por caufa 
da grande calma que fazia. Na qual vifta 
Diogo Lopes mandou dar algumas peças 
de armas ao Barnagax , e hum corpo intei- 
ro delias , com que eílava armado hum ho- 
mem , que elle pedio por fer a eíle coufa 
nova aquelle corpo de armas brancas. Em 
retorno das quaes peças elle mandou logo 
a Diogo Lopes hum cavallo , e huma mu- 
la , e cincoenta vaccas, que fe repartiram 
pelas náos j e ao feguinte dia o tornou Dio- 
go 



Década III. Liv. IV. Cap. III. 407 

go Lopes viíítar com mais algumas peças , 
e aífí ao Capitão de Arquico. Finalmente 
naquelles dous , ou três dias que o Barna- 
gax eííeve em Arquico depois deitas viílas , 
fempre de huma parte , e da outra houve 
vifitações , té que elle fe mandou efpedir de 
Diogo Lopes , dizendo , que lhe convinha 
partir-fe , e que ao Capitão de Arquico fi- 
cava recado pêra dar aviamento ao Embai- 
xador que havia de mandar. No defpacho 
do qual Diogo Lopes entendeo logo , e orde- 
nou irem em fua companhia té treze pefíbas , 
de que as principacs eram Jorge d' Abreu 
d'Elvas , fegunda peíToa depois de D. Ro- 
drigo , João Efcolar Efcrivão da Embaixa- 
da , Lopo da Gama , João Gonçalves Fei- 
tor , e língua , Manuel de Mariz tangedor 
de órgãos, por razão de huns que hiam-de 
prefente ao Prefte entre outras coufas da 
Igreja que lhe mandava , e Francifco Al- 
vares Sacerdote. O qual deita viagem em 
que foi , e aíli do que lá foube , e alcan- 
çou , fegundo a poflibilidade de feu enge- 
nho , compoz hum livro , mais puro que 
doutamente , que ora anda convertido em 
língua Italiana. Apercebido D. Rodrigo do 
neceflario a fua viagem , com hum honra- 
do prefente que levou , adi de armas , co- 
mo de ornamentos de caía , e principalmen- 
te das coufas neceíTarias ao culto Divino , 

fe- 



408 ÁSIA de JoXo de Barros 

fegundo o uíb Romano , foi elle , e fua 
companhia , e o Embaixador entregues ao 
Capitão de Arquico , fegundo a ordem que 
o Barnagax pêra iífo leixou ; e por teílemu- 
nho do aclo deita entrega, que fe em Ar- 
quico fez , no próprio lugar delia fe arvo- 
rou huma grande Cruz de páo. E parece 
queNoífo Senhor tinha limitada a vida de 
Mattheus no Mofteiro de Visão , onde elle 
defejava chegar ; porque chegados a elle, 
faleceo , e D. Rodrigo feguio feu caminho 
á Corte do Prefte , onde chegou : e do que 
lá fez adiante faremos relação, porque aqui 
convém continuar com Diogo Lopes. O 
qual em quanto ePteve naquella Ilha Ma- 
çuá , fempre hia ouvir MiíTa á mefquita da 
povoação , á qual mandou poer nome San- 
ta Marta da Conceição : e a primeira Mif- 
fa que fe nella diííe , foi das Chagas , por 
fer em feíla feira depois das oitavas da Paf- 
coa , em que houve muitas lagrimas de de- 
voção dosnoííos, vendo o lugar onde Noí- 
fo Senhor os tinha levado > e quanta mer- 
cê delle recebiam , pois em lugares onde 
elle era blasfemado per Mouros , e Gentios , 
elles eram miniftros daquellas oblações 5 e 
facriíicios a elle acceitos , por fer em me- 
moria do fangue de Chriílo Jefus. Por a 
qual obra fempre a nação Portuguez feria 
louvada 7 e trazida na boca das gentes de 



Década III. Ltv. IV. Cap.IIL 409 

geração em geração té o fim do Mundo ; 
e no outro teriam premio de Catholicos ne£ 
ta vinha militante do Senhor. Diogo Lo- 
pes , acabadas eftas coufas com grande pra- 
zer de todos , e feita a íua aguada nas cis- 
ternas que havia na Ilha , partio-fe via da 
outra chamada Dalaca , onde chegou , a 
qual fera de trinta léguas , quaíí todo efte 
comprimento lançado ao longo da terra fir- 
me de Africa chamada Abaíiia, A terra da 
qual Ilha he baixa , cheia de muitas ilhetas ? 
e baixos ; e fe não he tão doentia como o 
íitio delia moíira 3 he porque os ventos que 
aíli curfam , quaíl todos lhe vem por ci- 
ma da asfua, na qual ha fomente huma Ci- 
dade nobre , chamada como a mefma Ilha , 
a fora outras povoações pequenas á manei- 
ra de aldeãs. As quaes , por ferem maríti- 
mas , onde os noífos podiam ir , todas eíla- 
vam defpejadas , temendo eíía vifitação , que 
lhes havia de fer feita 3 e por iílo não hou- 
veram delias mais defpojo , que algum ga- 
do , que a gente commum matou , entre o 
qual eram camelos , a carne dos quaes ha- 
viam por bom refrefco. Diogo Lopes , por- 
que alii não havia mais que fazer, por fi- 
nal do que fizera aos moradores , fe os acha- 
ram , mandou derribar algumas cafas notá- 
veis de pedra , e cal , e poer fogo á CU 
dade. Partido dalli, foi haver viíta da ou- 
tra 



4io ÁSIA de JoÃo de Barros 

tra coíla da Arábia ; porque como aquella 
da Abadia era cheia de muitas Ilhas , e bai- 
xos , e ainda per nós não navegada , não 
quiz fahir do eftreito per aquelle canal ; e 
também pêra de lá mandar á Ilha Cama- 
rão hum navio faber fe foram lá ter dons 
galeões , que fe apartaram delle , Capitães 
Chriftovão de Sá , e Francifco de Mello , 
e não achando nova delles , que o feguiííe, 
Sahido do eftreito , foi ter onde perdeo a 
fua náo Santo António , de que ainda man- 
dou recolher três ancoras , que fe puderam 
haver , e daqui partio pêra Adem , onde 
foi viíitado com muito refrefco. E por mui- 
ta prefla que fe deo em fahir de enrre ef- 
tas duas terras que fazem o eftreito, temen- 
do poder fobrevir o tempo, que tanto dam- 
no fez a Lopo Soares , já quando começou 
defcubrir a garganta que faz o Cabo de 
Guardafd , e a terra Arábia , achou tama- 
nhas cerrações , e tempo do inverno , que 
não fe pode eípedir daquella paragem fem 
perder todolos bateis das náos que levava 
per popa , por os comerem os mares grof- 
ios. E aííi huma galé real , Capitão Jero- 
nymo de Soufa , que fe alagou junto da ter- 
ra Arábia , além do Cabo Fartáque onde 
morreo muita gente nobre , entre os quaes 
foi Manuel de Soufa Galvão , filho de Du- 
arte Galvão y com que aquelle eftreito ficou 

por 



Década III. Liv. IV. Cap. III. 411 

por fepultura de dous filhos , e hum pai , e 
aííi morreo Pêro da Silva de alcunha o Ca- 
fre: e milagrofamente no batel dagaléeica- 
pou o Capitão Jerony mo de Soufa com onze 
homens , de que os principaes eram Henri- 
que Homem , e Pêro Borges. E havendo 
dous dias que andavam na lingua das ondas a 
Deos mifericordia , chegaram a terra , onde 
paliaram outra tanta fortuna. Porque como 
roda aquella coita he de Mouros Arábios, 
per efpaço de cem léguas que fizeram ca^ 
minho fempre ao longo da praia , além da 
fome , fede , e outros trabalhos de tão com^ 
prida jornada , receberam delles tal compa- 
nhia de pancadas , vitupérios , leixando-os 
em coiro , que quando chegaram a Lalão , 
que eftá na fronteria do Cabo Rofcalgate , 
não levavam já figura de homens ; tão cor- 
ridos os tinha o Sol , e tão desfigurados os 
fizera a fome , fede , e trabalhos que paf- 
firam. E porque o Xeque defta Cidade era 
vizinho de Calayate per efpaço de quinze 
léguas , e mui familiar d'ElRey de Ormuz > 
por lhe parecer que nifto o comprazia , os 
teve aííi alguns dias pêra recobrarem fuás 
forças , e depois veftidos , e acompanhados 
de gente os mandou a Calayate , e dalli 
vieram os noífos , como veremos. Diogo 
Lopes de Sequeira correndo também fua 
tormento, veio com a Armada ter á Villa 

Ca- 



4*2, ÁSIA de JoXo de Barros 

Calayate , onde achou Jorge cPAÍboquer- 
que , que (como atrás fica) o veio aqui es- 
perar , e aífi ao Doutor Pêro Nunes , a quem 
deo poífe do officio de Veador da Fazenda 
que levava per EIRey. E ante que fe da- 
qui -partifle, lendo já no fim de Junho do 
anno de quinhentos e vinte , chegou huma 
náo , que deite Reyno partio aqueíle anno , 
Capitão e Piloto Pedro Eanes , Francez de 
alcunha, ao qual porfer homem diligente , 
e que fabia bem as coufas do mar , EIRey 
D. Manuel mandava com cartas a Diogo 
Lopes fobre algumas couías de íeu ferviço. 
E também com a nova do que tinha fabi- 
do da Armada que o Soldao fazia , e lhe 
tinha enviado dizer per Pêro Vaz de Vera > 
temendo que per algum acontecimento não 
paflafíe á índia com efte recado. E efta foi 
a caufa por que Pedro Eanes foi deman- 
dar aquella paragem , por em Moçambique 
achar recado corno Diogo Lopes mandara 
alíi chamar Jorge d\41boqucrque. E entre 
outras coufas, que EIRey mandava a Dio- 
go Lopes que fizeffe aqueíle anno, era, que 
na mefma náo com Pedro Eanes enviaiíe 
alguma peffoa , de que elle confiaffe efta ida 
a defcubrir as Ilhas do ouro , a través da 
Ilha Çamatra , de que já atrás efcrevemos , 
por lhe muitas peiToas , que andaram na- 
quellas partes da índia ; darem grande ef- 

pe- 



Década III. Liv. IV. Cap. III. 413 

perança cie fç poderem defeubrir. A qual 
ida Diogo Lopes logo aili deo a Chrifto- 
vao de Mendoça filho de Pêro de Mendo- 
ça Alcaide mor de Mourão , da viagem do 
qual adiante faremos menção. E pêra que 
ElPvey íbubeíTe o que elle Diogo Lopes fi- 
zera naquella entrada do eftreiro , que lhe 
mandara fazer , enviou com eíle recado a 
Pêro Vaz de Vera , coftumado levar as no- 
vas defte eftreito , o qual chegou a eíle Rey- 
no , onde a fua vinda foi mui celebrada, 
não fomente com feitas temporaes , mas ain- 
da eípirituaes de íblemnes procifsõès , dando 
louvores a Deos polo defeubrimento daquel- 
le Emperador da Abaffia , chamado Prefte 
João , tão defejado nefte Reyno. E porque 
eftas novas foflem mais celebradas em as 
Cidades , e Villas do Reyno , EIRey lhe 
efereveo , notificando-lhe o que Diogo Lo- 
pes fizera , tudo muito particularmente por 
dar noticia a todos do eirado daquelle Prín- 
cipe Chriftao té então mal fabida, da qual 
obra elle tinha tanto contentamento , como 
de fe defeubrir per elle a índia , por eíias 
duas coufas neílas partes da Chriílandade 
ferem muito incógnitas , e a noticia delias 
efeura , e em muitas coufas falfa. Diogo Lo- 
pes , defpachado Pêro Vaz , porque aquelle 
porto de Calayate não era tão bom como 
de Mafcate pêra as náos grandes invçrr. 

na- 



414 ÁSIA de João de Bakros 

liarem, pafTou-fe a elle, e alli leixou Jorge 
ePAlhoquerque por Capitão de todas , e el- 
le foi invernar aquelle anno a Ormuz , le- 
vando comfigo todas as velas de remo , ao 
qual leixaremos té dar conta do que fe par- 
lou na índia , em quanto elle fez efta via- 
gem do eílreito, e invernou em Ormuz. 

CAPITULO IV. 

Em que fe efcrevem algumas coufas dos ef- 
taãos d*ElRey de Narftnga , e Hidal- 
cão 5 e huma guerra que entre fi tive- 
ram em quanto Diogo Lopes foi ao 
eftreito , e o que delia refultou 
em proveito nojjò. 

NO princípio do livro quinto da fegun- 
da Década , tratando das coufas de 
Goa , e como os Mouros fe fizeram fenho- 
res da terra chamada Decan , e parte da Ca- 
riará , dêmos huma geral noticia dos Princi- 
pes que neilas havia, e as contendas que en- 
tre íi tinham. E como eíla guerra fempre 
foi entre eftes dous eílados , hum dos Mou- 
ros , e outro dos Gentios , e os mais pode- 
rofos no tempo em que nós entrámos na 
índia 5 neilas duas Províncias Decan , e Ca- 
rtará , eram o Hidalcão Mouro, e EIRey 
de Narfinga ,• ou Bifnagá Gentio , e deite não 
temos dado tanta noticia como do outro; 

por 



Década III. Liv. IV. Cap. IV. 41? 

polo que convém determo-nos hum pouca 
nilTo, pêra fe mais claramente ver a caufa 
que Ruy de Mello Capitão de Goa teve 
pêra tomar as terras firmes fujeitas ao Hi- 
dalcao , em quanto Diogo Lopes de Sequei- 
ra andou nas partes que efcrevemos. E tam- 
bém porque fe faiba a potencia deíle Prín- 
cipe , com que tínhamos vizinhança , e tan- 
tos negócios , como fe verá per o decuríò 
defta hiftoria : pofto que entre elle , e nós 
não houve rompimento de guerra, ante pro- 
curou fempre noiTa amizade , e de nós re- 
cebeo ajudas , com que alcançou vitorias de 
feus imigos , como fe logo verá. E pofto 
que dando nós noticia de como fe ferve , e 
dos apparatos de fua cafa , dávamos huma 
moílra em que fe podia julgar fua riqueza , 
e poder , por ferem coufas de Príncipes de- 
liciofos , e foberbos , que querem com ou- 
ro , prata , e muita policia fazer fuás cafas 
templos de adoração , e no ferviço de fuás 
peífoas huma maneira de idolatria , com que 
querem fer fervidos dos feus povos , leixare- 
mos todas eílas fuperíliçoes , que procedem 
dofobejo ter, e repoufo da vida , por tra- 
tar da maneira com que eíle Príncipe Gentio 
fe apercebeo pêra ir tomar huma Cidade , 
que era do Hidalcao ; porque em nenhuma 
coufa com razão fe pôde melhor notar a po- 
tencia ; e fer de hum Príncipe , que nos ap- 



4t6 ÁSIA de João de Barros 

paratos , e ordem das coufas do exercício 
militar. Porém porque eíte leu apparato náo 
pareça aos que tem pouca noticia dos Prín- 
cipes daquelle Oriente , maior neíla eícritu- 
ra , do que feria em verdade , diremos o 
modo que tem de fazer tanta gente de guer- 
ra. Segundo o que temos fabido dos Oífi- 
ciaes da fazenda daquelle Principe , quaíi re- 
gularmente em cada hum anno tem de ren- 
da doze contos de pardaos de ouro , cada 
hum dos quaes pardaos vai da noíía moeda 
trezentos e feíTenta reaes , e delles fomente 
enthefoura em cada hum anno três contos, 
ou do us e meio. Todo o mais difpende no 
governo de feu Reyno , eferviço de fua ca- 
fa; e principalmente em ter feira gente con- 
tra dous géneros de vizinhos , com que a 
maior parte do tempo tem guerra , hum he 
EIRey de Orixá , ou Oria 5 Gentio ; e os 
outros são os Capitães do Reyno Decan 
Mouros. E eíla gente de gueVra fe faz per 
duzentos Capitães que elle tem , aos quaes 
dá terras no Reyno com obrigação que te- 
nham ordinariamente feita certo número de 
gente de cavallo , e tanta de pé , e tantos 
elefantes pêra quando quer que forem cha- 
mados , acudirem logo. E pêra eííarem me- 
lhor apercebidos , certas vezes cada anno 
hão. de fazer alardo ; e fe lhe acham menos 
gente de lua obrigação , ou mal armada , 

man- 



Década III. Liv. IV. Cap. IV. 417 

manda-lhe EIRey tirar a capitania ; e aos 
que andam concertados com o número , e 
armas da fua gente vai-lhes EIRey accref- 
centando as quantias. E o rendimento das 
terras , que EIRey dá a eftes Capitães , fe 
reparte em terços ; EIRey leva hum , e os 
dous são pêra os foldados de fua capitania , 
e mantença de fua peííba. E ha Capitania 
deílas , que rende hum conto ecem miipar- 
daos , outra oitocentos , e daqui pêra baixo 
té cincoenta mil. E quem tem tal rendimen- 
to de feu Reyno , e aílí reparte com feus 
Capitães , e tem tal ordem na maneira de 
íèu governo , levemente põe em campo hum 
tão grande exercito como efte Príncipe le* 
vou pêra ir tomar a Cidade Rachol , e o 
fundamento diíTo procedeo defta caufa. Ha- 
vendo o Hidalcão , o principal fenhor do 
Reyno Decan , e EíRey Crifnaráo de Bif- 
nagá paz aíTentada pêra muitos annos das 
guerras que entre eftes dous eftados houve , 
e deíejando elle Crifnaráo cumprir o que feu 
pai Marfanay mandara em feu feftamento , 
que era tomar a Cidade Rachol , que o Hi- 
dalcão nas guerras pafladas tinha tomado, 
por não lhe mover guerra fem caufa, ufou 
de hum artificio com que apudeífe quebrar, 
e foi efte. Nas capitulações das pazes , que 
entre elles eram alíentadas , fe continha , que 
quando de Reyno a Reyno fogiífe algum 
Tom.lILP.L Dd ho- 



418 ÁSIA de João de Barros 

homem , cjue fizefle roubo y ou furto , era 
cada hum delles obrigado de entregar ao 
outro ; e não o entregando , e querendo-o 
defender ? quebrava a paz. A qual capitu- 
lação nunca o Hidalcão cumprio em mui- 
tos Gentios , e Mouros , que íe tinham aco- 
lhido a luas terras com íòmmas de dinhei- 
ro , que levavam d'ElRey 5 e de feus Ca- 
pitães , e com peitas que davam fe diííimu- 
lava com elles de maneira , que as partes 
nunca houveram o feu. Crifnaráo, como fa- 
bia que ncfte laço podia acolher o Hidal- 
cão , chamou hum Mouro per nome Cide 
Mercar , o qual andava em coufas de leu 
fervico havia muitos annos , e mandou-lhe 
entregar quarenta mil pardaos , com os quaes 
foffe a Goa comprar cavallos , dos que alii 
vinham de Ormuz. Efcre vendo elle Crifna- 
ráo cartas ao Capitão nolTo , em que lhe en- 
commendava , que pêra aquelle negocio lhe 
délíe todo favor , iíto a fim de o calo fer 
mais notório a todos pêra feu propoíito. 
Cide Mercar , ou que a fomma do dinhei- 
ro o tentou 5 ou que foi movido por huma 
carta , que dizem fer-lhe dada do Hidalcão 5 
em elle chegando a huma tanadaria chama- 
da Fondá três léguas de Goa, dalli fefoi a 
elle. O qual como o teve comfigo , o man- 
dou logo a Chaul , dizendo que lhe dava 
aquella tanadaria por fer homem honrado 

da 



Década III. Liv. IV. Cap. IV. 419 

da cafta de Mahamed , a que elle Hidalcao 
queria honrar ; peró dahi a poucos dias def- 
appareceo , e dizem que foi por elle o man- 
dar matar , depois de ihe ter tomado os qua- 
renta mil pardaos. Sobre o qual cafo , de- 
pois de recados de parte a parte > EIRey 
Griíharáo moveo leu exercito pera tomar a 
Cidade Rachol , denunciando, que o Hidal- 
cao per eíle modo tinha quebrado a paz , 
que entre elles havia : e ainda pera mais 
juftiíicaçáo íua , efereveo a alguns Capitães 
do eftado do Reyno Decan , aílí como ao 
Cota Maluco , Madre Maluco , e a Mcli- 
que Verido vizinhos delle Crifnaráo , por 
faber que não eftavam bem com o Hidal- 
cao , eque lhe haviam de approvar aquelle 
feu propoíito. Partido EIRey Crifnaráo da 
Cidade Bifnagá fua Metropoli , depois de 
ter feito muitos facrificios , e oblações aos 
feus deofes polo fucceífo daquella ida, co- 
meçou a caminhar nefta ordem. O feu Por- 
teiro ffiór chamado Camanaique levava a 
vanguarda com mil de cavallo , e dezefeis 
elefantes, e trinta mil homens de pé: e trás 
elle hia hum Capitão per nome Trimbecára 
com dous mil de cavallo , vinte elefantes, 
e cincoenta mil homens de pé : Seguia a ef- 
te outro Capitão per nome Timapanaique 
com três mil e quinhentos de cavallo , trin- 
ta elefantes . e feífenta mil homens de pé. 
Dd ii Ha- 



420 ÁSIA de JoÁo de Barros 

Hadapanaique , que feguia eíle , levava cin- 
co mil de cavallo , cmcoenta elefantes , e 
cem mil homens de pé; etrás elle hiaCon- 
doiiiára outro Capitão , que levava féis mil 
de cavallo ? ieflenta elefantes, e cento e vin- 
te mil homens de pé , ao qual íèguia o Ca- 
pitão Comóra com dous mil e quinhentos 
de cavallo , quarenta elefantes , e oitenta mil 
hoíncns de pé. Gendrajó Governador da Ci- 
dade Biíiiagá , que feguia a eíle, levava mil 
de cavallo , dez elefantes , e trinta mil ho- 
mens de pé ; e trás elle hiam dous capados pri- 
vados d'ÈlRey com mil de cavallo , quinze 
elefantes, e quarenta mil homens de pé. O 
page do betei d'E!Rey levava duzentos de ca- 
vallo , e quinze mil homens de pé , cem 
elefantes , ao qual feguia Comarbereá com 
quatrocentos de cavallo , vinte elefantes , e 
oito mil homens de pé. Vinha logoElRey 
com a gente de fua guarda , que eram féis 
mil de cavallo, trezentos elefantes, e qua- 
renta mil homens de pé , nas coitas do qual 
hia o Gim da Cidade Bengapor ; ao qual 
per razão do officio fe ajuntavam grande nú- 
mero de Capitães , com os quaes fazia fom- 
ma de quatro mil e duzentos de cavallo, 
vinte e cinco elefantes , e feífenta mil ho- 
mens de pé. Além deita gente poíta em tal 
ordenança hiam repartidos dous mil de ca- 
vallo, e cem mil homens em capitanias pe- 
que- 



Década III. Liv. IV. Cap. IV. 421 

quenas , os quaes á maneira de defcubrido- 
res pela dianteira , trazeira ? e lados de toda 
parte , duas , e três léguas defcubriam a ter- 
ra , e aíli ordenados , que per atalaias de 
huns á viíta de outros em hum inítante fe 
fabia o que havia naquella diítancia. E da 
provisão que cada hum deites Capitães le- 
vava de agua , por não perecer eíta gente á 
fede , hiam doze mil homens íbbrefalentes ^ 
repartidos pelo comprimento do fio deita 
gente , cada hum com feu odre de agua ás 
coitas , pêra que com neceffidade delia não 
fe fahilTem da ordenança que levavam. A 
recovagem deite exercito não fe podia nu- 
merar , porque fomente de mulheres públi- 
cas paliavam de vinte mil , e homens que 
lavam roupa 3 a que elles chamam Mainatos, 
e regatães , mercadores , officiaes mecânicos 
de todo officio ? era coufa maravilhofa ver 
o número delles, e a ordem que cada hum 
tinha de fe agazalhar quando EIRey fe apou- 
fentava em alguma parte dous , e três dias. 
Porque neíte arraial fe achavam praças cheias 
de todolos mantimentos , ruas , e tendas de 
mercadorias de toda forte , té ourivezes , que 
não fe contentavam de vender jóias feitas , 
mas ainda as faziam , e lavravam a pedra- 
ria pêra as fazer a contentamento dos com- 
pradores , como fe eltiveíFcm em fuás cafas 
dentro na Cidade Bifnagá. E em que fe notou 

o grau- 



422 ÁSIA de João de Babros 

o grande número de gente , e animaes , que 
foram nefte exercito , foi ao paiTar de hum 
rio , o qual aos primeiros dava por meia 
perna ; e quando veio aos derradeiros , que- 
rendo beber achavam arêa , onde faziam co- 
vas por recolher huma pouca de agua. E 
não era muito , porque além defte número 
de gente , cavallos , e elefantes de peleja- 
que diíTemos , havia tão grande multidão 
de bois , e bufaros , que feguiam eíle arraial , 
que cubriam os campos , e podiam efgotar 
hum rio por cabedal que foífe ; os quaes le- 
vavam todalas coufas que pêra tamanho exer- 
cito fe requeria 5 porque naquellas partes não 
de beílas , mas de bois , e bufaros fe fer- 
vem, em as coufas da carga. A EIRey em 
todo eíle caminho no lugar onde fe havia 
de alojar, per ordenança em meio de todo 
o exercito , quaíí per centro delle lhe havia 
de ler feita huma cerca de mato groífo , de 
liuma forte de efpinhos , que fe dam naquel- 
las partes, coufa mui afpera de romper, e 
que em circuito de muitas povoações fe plan- 
tam pêra lhe ficar em lugar de defensão, 
por ferem fempre verdes , de maneira, que té 
o fogo entra mal nelles. Dentro da qual cer- 
ca fe armavam as tendas do ferviço da peífoa 
d'ElRey ; e pegada á íúa eílava outra , que 
lhe fervia de templo , onde adorava feus 
ídolos* E todalas manhans , primeiro que ou- 
tra 



Década III. Liv. IV. Cap. IV. 423 

tra coufa fizeíTe , recebia as benções do feu 
principal facerdote Brâmane , e era per elle 
mefmo lavado com agua pura , e outras ce- 
remonias , em que ellespõem aremifsão dos 
peccados , e naquelle lugar recebia per efte 
Brâmane a refpoíta do que elle queria faber 
dos léus idolos fobre o lucceííò daquella 
guerra. Primeiro que moveffe a qual i per 
número de noves lhe tinha facrificado tantas 
mil aves , e tantas mil alimárias , dobrando 
cada hum deites nove dias o número de ca- 
da forte, de maneira, que no derradeiro dia 
dos noves matou de cada nove fortes das 
aves , e alimárias duas mil trezentas e qua- 
tro cabeças , que fazem todas vinte milfetc- 
centas e trinta e féis , que he bem difFerente 
número das Hecatombas , de que ufava o 
Gentio Grego , (tanto faz huma progrefsão 
dobrada , ) e a carne deíles animaes fe dava 
aos pobres por amor do idoio a que eram 
facrificados. Toda afaa gente de guerra, a 
de cavallo levava laudees de algodão em- 
butidos aífí no corpo , como na cabeça, e 
braços, tudo tão duro, que defendiam qual- 
quer bote de lança, corno fefoífem laminas 
de ferro. E os cavallos acubertados também 
hiam armados da mefma forte , e aíli os ele- 
fantes , cada hum dos quaes levava feu caf- 
tello , de que pelejavam quatro homens , e 
nos dentes poílas humas bifarmas em revés 

das 



424 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

das outras , aífi talhantes , que não fe lhe 
tinha coufa alguma. A gente de pé , que 
havia de pelejar > era repartida em frechei- 
ros , íanceiros , e outros de efpada , e adar- 
ga , as quaes adargas eram tão grandes , fe- 
gundo feu ufo , que cubriam todo hum ho- 
mem y e por iflb eftes não levavam outras 
armas defeníivas > como os outros que eram 
laudees» 

CAPITULO V. 

Como EIRey Chrifnaráo affentou feu ar~ 
raiai , e combate o a Cidade Racho/ , a qual 
tomou , depois que deo huma batalha ao 
Hidalcao em que o venceo , e ejla tomadcf, 
foi por favor dos nojfos que fe acharam 
com elle\ e do mais que fe pajfou entre efi 
tes dous Príncipes , no qual tempo Ruy de 
Mello Capitão de Goa tomou as terras fir- 
mes. 

CHegado EIRey com efte grande exer- 
cito á Cidade de Molabundim , que fe- 
ra pouco mais de huma légua da Cidade Ra- 
chol que hia tomar , affentou aqui feu arraial 
por dar repoufo á gente, e também porque 
era tão perto , que fegundo o número da 
gente que levava, em eftar aqui alojada fi- 
cava ao pé do muro de Racho! , onde lhe 
ainda veio muita gente de outras Comarcas, 

com 



Década ÍIL Liv. IV. Cap. V. 42? 

com que occupava as campinas daquellas Ci- 
dades , nas quaes delias feitas a mão , e ou- 
tras nadiveis havia grandes aiagoas de agua. 
E ainda pêra que a gente não perecefle com 
a neceffidade delia, eílava a Cidade Rachai 
aífentada entre dous rios cabedaes ; o maior 
dos quaes , que lhe ficava da parre do Norte , 
era da parte donde EIRey efperava que po- 
dia vir oHidalcão; e outro , que eílava da 
parte do Sul , era per onde elle viera , e 
dahi ao rio haveria efpaço de féis léguas , 
. ficando a Cidade Rachol quaíi no meio deita 
diítancia. A qual Cidade per natureza eílava 
mui bem fituada , porque era fobre hum ou- 
teiro feito como huma teta , que a natureza 
no meio daquelia campina creou , e de huma 
-certa parte era pena viva , e todo o mais 
terra ; e além deite íitio per íi fer mui de- 
fenfavel , os primeiros fundadores dobraram 
eíta defensão com três cercas de muros , que 
lhes fizeram , todo de tão grande cantaria , 
que eftando huma fobre outra fem ter cal , 
a grandeza das pedras, e largura delle fof- 
fria fer per dentro entulhado aífi da íltua- 
çao do monte que era bem Íngreme , como 
de terra fobrepoíla quafi té as ameias. E em 
torno deitas cercas pelo pé do monte tinha 
huma profunda , e larga cava , as torres da 
qual cerca eram tão bailas , que de huma a 
outra fe podia faltar^ e ouvir o que diziam; 

e en- 



426 ÁSIA de João de Barros 

e entre torre , e torre , principalmente nos lu- 
gares defufpeita, poíta muita artiiheria , de 
que fomente a groíTa eram duzentas peças, 
Além deftas coufas , o que fazia mais forte 
efta Cidade, era, que no bico alto defta te- 
ta , onde eftava feita huma fortaleza , alli 
arrebentava huma fonte de muita , e boa 
agua , a qual , e affi poços , e tanques feitos 
á maneira de cifternas defcubertas , que ef- 
tavam dentro das cercas , tinham tanta cópia 
delia , que bailava pêra quatrocentos homens 
de cavallo , vinte elefantes , e oito mil ho- 
mens de pé , que alii eftavam de guarnição , 
pêra os quaes havia tanta provisão de man- 
timentos recolhidos , que poderiam foffrer 
hum cerco por tempo de três annos. EIRey 
depois que per feus Capitães foi certificado 
deita defensão que a Cidade tinha , no dia , 
e hora , que os feus Brâmanes deram por 
eleição 5 a mandou combater : peró aífi nefte 
dia , como em outros , que foi combatida 
per efpaço de três mezes , eila fe defendeo 
á cuíla de muitas vidas de ambas as partes. 
E chegou o negocio a tanto , que pêra dar 
animo á gente de pé, que fe não chegava 
bem ao combate do muro , por a artilheria 
fazer muito damno , vieram os Capitães def- 
te combate comprar por dinheiro qualquer 
pedra , que hum homem trouxeífe do pé del- 
le y por os fazer chegar. No fim do qual 

tem- 






Década III. Liv. IV. Cap. V. 427 

tempo veio nova a EIRey , que o Hidalcao 
era chegado , e fe apoufentára além do rio , 
que eftava da parte do Norte , per onde çl- 
le efperava que podia vir , e que trazia de- 
zoito mil de cavalio , cento, e cincoenta ele- 
fantes , e cento e vinte mil homens de pé , 
archeiros , eípingardeiros , e outros de lan- 
ça , eefpada ao feu modo. Paliados alguns 
dias, nos quaes EIRey mandou fempre ter 
vigia no que o Hidalcao fazia de íi , ven- 
do que fe não mudava , mandou combater 
a Cidade pêra ver em que fe determinava. 
O Hidalcao havido feu confeiho , e vendo 
que EIRey , como quem não fazia muita 
conta delíe , não fe mudava da eílancia que 
tomara , nem menos lhe vinha defender o 
paífo do rio , e hia per feus combates em 
diante , quaíi como aíFrontado defta pouca 
eftima em que EIRey tivera fua chegada , 
foi tomar hum váo abaixo que o rio fazia. 
Paííado o qual , foi aiTentar de noite feu 
arraial logo na margem delle, porque não 
fomente lhe defendia as coitas , mas -ainda 
lhe fervia pêra beber o grande número de 
gente que trazia ; e per toda outra parte fi- 
cou cercado de huma cava , que mandou 
fazer , e vallos com fua artilharia , que era 
muita , e groíTa , em que elle trazia grande 
confiança , por faber que feu imigo não vi- 
nha tão provido delia. EIRey como não de- 

fe- 



428 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

lejava mais que vello , paíTado da parte don- 
de elJe efíava , ainda que leria de hum a 
outro efpaço de três léguas per as campinas , 
que diffemos , tomada eleição do dia per 
feus Brâmanes , com fuás azes ordenadas foi 
commetter o arraial ; o qual logo naquelíe 
primeiro Ímpeto da gente , quafí per todo 
foi tão bem commettido \ que muita delia 
era já dentro nas cavas, quando oHidalcao 
mandou defparar aartilheria, que té aquel- 
la hora de induítria mandou que não tiraf- 
fe. Ecomo o campo todo era coalhado de 
gente de pé, e cavallo, foi tamanho o ef- 
trago que fez em todos , e os elefantes aífi 
tornaram atrás furiofos do efpanto delia , que 
fomente elles fizeram grande parte do da- 
mno. Sobre o qual eftrago fahio hum corpo 
de gente dentro do arraial , que poz todo o 
Gentio emfogida per efpaço de meia légua. 
Quando o rumor da gente que fogia foi dar 
onde EÍRey vinha em fua batalha , como 
era cavalleiro de fua peflba , tirou hum an<- 
nel de hum dedo , e o deo a hum page , 
dizendo em alta voz : Trabalha por te fal- 
har , eleva efie \ final a minha principal mu- 
lher , e dize-lhe , que ella , e as outras , 
tanto que Couberem que eu fou morto , me 
acompanhem na morte , porque ante eu que-> 
ro que o Hidalcao fe glorie que me matou , 
-que venceo. E tornando virar o roíto , diííe 

aos 



Década III. Liv. IV. Ca?. V. 429 

aos principaes Capitães que eítavam com elle : 
Quero ver quem fegue minha fortuna. Aca- 
bando as quaes palavras , como homem of- 
ferecido a morrer , fez volta á gente que 
fogia , mandando matar nella , como nos 
próprios imigos ; porque lè fogiam de hum 
perigo , íoubeflem ter a morte no lugar on- 
de bulcavam amparo da vida. Finalmente 
com efte furor delRey aífí fe mudou o 
animo dos feus , que vindo fogindo como 
ovelhas , voltando fe fizeram leões , té que 
mettêram os Mouros em fogida ; e não cu- 
rando parar no arraial , lançavam-fe ao rio , 
onde morreo grande número de gente. E 
fe EIRey não fe moftrára piedofo , mandan- 
do aos feus que não fizefíèm mais mal , di- 
zendo que eram innocentes da culpa doHi- 
dalcao , quaíi toda aquella gente perecera 
na paífagem do rio. E vendo-fe fenhor do 
arraial , foi defcer a tenda do HidaJcão , 
dizendo que baftava a hum homem fazer-fe 
fenhor da cafa de feu imigo. No qual des- 
barato foram prezos cinco Capitães do Hi- 
dalcao 3 e o geral delles , que fe chamava 
Salebatecan , em guarda do qual andavam 
quarenta Portuguezes , que fe lançaram com 
os Mouros por crimes que tinham feito en- 
tre nós ; os quaes , por falvar a pelfoa de 
Salebatecan , morreram todos ; e elle depois 
de \\\q ferem mortos dous cavallos., com 

duas 



430 ÁSIA de JoÃo de Barros 

duas fendas foi tomado. O defpojo que íe 
tomou naquelle desbarato 5 foram quatro mil 
cavallos dos Arábios , cem elefantes , qua- 
trocentos tiros de artilheria groífa , a fora 
outra miúda , rocijs da terra , bois , bufa- 
ros , gado , tendas , pavilhões ; e cativos , 
e cativas foi coufa fem número , dos quaes 
cativos EIRey por grandeza mandou foliar 
muitos. PaiTado efte dia , deteve-fe EIRey 
no arraial do Hidaícão quatro , nos quaes 
mandou queimar dezefeis mil corpos de ho- 
mens dos léus , que alli morreram . e por 
fuás almas dar muitas eimolas pêra os léus 
templos , e pagodes , e d<3s Mouros que 
morreram não fe fez conta , porque a não 
tinha. O modo que oHidaicão teve de ef- 
capar deíle furor d'E!Rey , foiconfelho de 
Sufo Larij fenhor de Bilgão , que depois 
por accrcfcentamento de honra houve no- 
me Sadacan , com quem pelo tempo em 
diante tivemos muitos negócios. O qual co- 
mo era homem que fempre ufou de artifí- 
cios, e todos feus ferviços eram de caute- 
las , erefguardos á vida , aconfelhou ao Hi- 
daícão que fe lcixaíFe eftar dentro no arraial ? 
té paífarem os primeiros ímpetos de ambos 
os exércitos ; e como vio a fúria com que 
EIRey vinha com quatrocentos homens de 
cavallo , diífe ao Hidaícão : Senhor , hoje 
mo he o teu ãia ; fe queres viver , Jegue- 

me , 



Década III. Liv. IV. Cap. V. 431 

pie j que eu te porei emfalvo ; e affi o fez 5 
indo buícar outro váo , e caminhos que el- 
le trazia bem decorados pêra os taes tem- 
pos. E não fomente eile , mas hum capa- 
do Capitão , de dous que eílavam dentro 
na Cidade Rachol , fez outro tanto , o qual 
vendo que ElRey abalava pêra ir ao arraial 
do Hidalcão , fahio da Cidade nas coílas 
deile com duzentos decavallo , e elefantes, 
e alguma gente de pé; e como vio o def- 
barato , tornava-fe recolher á Cidade , mas 
não o quizeram recolher , com que lhe con- 
veio pôr-fe também em faívo. Tornado El- 
Rey ao feu arraial , depois de recolhido o 
deípojo do Hidalcão , ordenou de tornar ao 
combate da Cidade , no qual tempo acertou 
de ir ter com elle hum Portuguez per no- 
me Chriílovão de Figueiredo , que vivia em 
Goa, elevava huns poucos de cavallos Ará- 
bios a vender a ElRey, em companhia do 
qual iriam té vinte Portuguezes , deíles que 
também hiam lá fazer fua fazenda , e outros 
em fua companhia , e todos com efpingar- 
das , e armados como gente de guerra. El- 
Rey , porque Chriílovão de Figueiredo era 
já conhecido delle por razão deíles cavai- 
los que coftumava levar, e também por fer 
homem mui aprazível em toda parte , fez- 
lhe grande gazaihado. O qual per feu mo- 
do de comprazer a ElRey , pedio-lhe licen- 
ça 



43^ ÁSIA de Joio de Barros 

ça que lhe JeixaíTe ir ver o íitio da Cidade ,. 
o que lhe concedeo , dando-lhe alguma gen- 
te que foíTe com elíe em fua guarda. Che- 
gado Chriftovao de Figueiredo mui perto 
dos muros da Cidade per a parte mais en* 
cuberta que elle vio , efteve notando os lu- 
gares per onde lhe parecia fer a entrada me- 
nos pcrigofa ; e eftando affi com os Portu- 
guezes de fua companhia mais perto do mu^ 
ro , que o Gentio que lhe EIRey mandou 
dar, apparecêram per cima das ameias mui- 
tos Mouros. Chriílovao de Figueiredo co- 
mo levava fua efpingarda cevada, e affi os 
outros Portuguezes , diiTe-lhes : Amigos > 
mo percamos tiro ; e dizendo ifto , defcar- 
regáraín todos a primeira cevadura. E por- 
que cada hum derribou o feu 5 foi-fe por 
aqui ateando o fogo da oufadia , que quan- 
tos Gentios levava corníigo , fe achegavam 
ao muro ; e correo a nova tanto , que deo 
rebate em EIRey 5 que Chriftovao de Fi- 
gueiredo entrava a Cidade. Finalmente foi 
tanto o alvoroço no arraial , que acudio a 
genre toda ; e per aquelle dia tanta pedra 
fe tirou do muro , que quando veio aos 
combates que fe depois deram , o próprio 
Chriftovao de Figueiredo com os outros Por- 
tuguezes acabaram de rematar a vitoria do 
combate da Cidade. Porque querendo o 
Capitão delia olhar o damno que os feus, 

re- 



Década III. Liv. IV. Cap. V. 433 

recebiam pola parte onde andavam os Por- 
tuguezes , de que elle já tinha fabido ferem 
elles a caufa do mal que recebiam , em lan- 
çando a cabeça fora per entre as ameias , 
foi derribado de huma efpingarda dos nof- 
fos , e dizem fer a de Chrifto vão de Figuei- 
redo. Vendo a gente de dentro a morte de 
fcu Capitão 3 ao outro dia fe entregaram a 
ElRey , que lhe deo as vidas , e fazendas , 
fomente tomou a artilheria. E porque de- 
pois delie entrar na Cidade fe fizeram al- 
guns roubos aos Mouros , mandou caftigar 
os culpados 3 dizendo que pois çlíe tinha 
iegurado aquella gente pola lealdade que 
guardaram a feu Senhor em lhe defender 
aquella Cidade , não havia vaífallo feu olhar 
com ódio áquelles em quem elle punha os 
léus de piedade. Provida a Cidade de gen- 
te pêra fua defensão ; tornou-fe ElRey a 
Bifnagá , onde lhe vieram Embaixadores 
doYzamaluco, Cotamaluco , Verido, e de 
outros Capitães do Reyno Decan , dizendo y 
como tinham fabido o desbarato do Hidal- 
cão 5 que lhe pediam que fe contentaífe com 
a vitoria que houvera , por fer fortuna que 
todos áquelles que andavam na guerra eram 
obrigados foítrer. Peró porque a fazenda , 
e esDiílho não pertencia a tamanho Prínci- 
pe como elle era , lhe pediam houveífe por 
bem de o mandar tornar ao Hidalcão ; por- 
Tom. III. P.L Ee que 



434 ÁSIA de João de Barros 

que os cavallos , elefantes , artilheria , e ou- 
tras munições , que o Hidalcão perdera na- 
quelle desbarato > eram do eftado do Rey- 
no Decan , cujo Capitão o Hidalcão era , 
e não próprio delle. E porque elles também 
eram Capitães , e defenfores daquelle Rey- 
no 5 a elles competia por o bem commum 
delle pôr em fua fazenda, e peíToas : por 
tanto lhe pediam que não quizeíTc que fe 
ajuntaííem com mão armada avir bufcar o 
que como amigos pediam. Ao que EIRey 
relpondeo , que a elle lhe pezava ver ho- 
mens de tanta qualidade , como elles eram , 
mais triíles pola perda da fazenda , que da 
honra do Hidalcão , o qual lhe tinha rou- 
bada muito mais no que tinha tomado áquel- 
les ladrões , que do Reyno Bifnagá fe aco- 
lhiam a elle , do que lhe fora tomado no 
arraial : que quanto a fe ajuntarem todos 
com mão armada , que a elle lhe pezava 
de os perder de amigos por culpas alheias ; 
mas pois aífi queriam , que ante os queria 
juntos , que cada hum per fi , por os não 
andar bufcando por tão derramadas terras , 
como habitavam. Dada efta refpofta a eftes 
Capitães , não tardou muito outro tal reque- 
rimento do próprio Hidalcão per feu Em- 
baixador , dando grandes defculpas pola 
caufa daquelle rompimento, e culpando El- 
Rey por tão leve caufa quebrar a paz a£ 

fen- 



Deca-da III. Liv. IV. Cap. V. 43? 

fcntada per tantos. Ao que lilRey refpon- 
deo, que elle lhe perdoava ornais que lhe 
tinha merecido, e não queria outra fatisfa- 
çao delle, que vir-lhe a beijar o pé, corno 
a íupremo Senhor que era do império Ca- 
riará ; e feita efta obediência , lhe mandaria 
tornar tudo o que lhe fora tomado , porque 
elle não movia guerra por razão do esbu- 
lho , fenão por caftigar culpas > e gloria da 
vitoria. Partido o Embaixador do Hidal- 
cao , foi elle pofto em grande confusão acer- 
ca do que faria ; porque por huraa parte 
contendia a honra de fua peífoa , e pela ou- 
tra perder o eftado •, pois o não podia fof- 
ter , nem defender fenão com o que tinha 
perdido, que era o nervo de quanto fer el- 
le tinha. Finalmente depois de muitos con- 
felhos , e irem , e virem recados , elle fe de- 
terminou com EÍRey que era contente > com 
tanto que havia de fer efta reverencia no 
eftremo do eftado delle Hidalcão , junto de 
huma Cidade fua chamada Mudogal. EÍRey 
polo defejo que tinha de ver efte Mouro 
ante feus pés , feito feu exercito , chegou 
á Cidade , mas não achou o Hidalcão , e 
com lhe dizerem : Aqui ejid , alli ejld , en- 
trou tanto pela terra , que foi ter a outra 
Cidade por nome Bifapor, huma das mais 
populofas , e de melhores cafas que o Hi- * 
dalcão tinha. E porque ainda aqui o Hi-* 
Ee ii dal- 



436 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

dalcão não fe atreveo ir ante EIRey, e ta- 
manho exercito nos lugares por onde EIRey 
hia não fe achava agua , tornou-fe elle a 
Mudogai. O Hidalcão vendo o eftrago que 
ficava feito em Bifapor , e que elle fora cau- 
ia diífo polo modo que teve naquelle ne- 
gocio em mentir tantas vezes 5 mandou a 
EIRey Sufo Larij , per cujo confelho fe el- 
le então governava , e fora caufa de fe fa- 
hir do arraial , oíFerecendo-íb o mefmo Su- 
fo Larij a abrandar EIRey de toda a indi- 
gnação que tinha contra elle. O qual como 
era homem maiiciofo , e de grandes caute- 
las , offereceo-fe a EIRey pêra ir a eíle ne- 
gocio mais porque pertendia huma malda- 
de , que nefta ida conimetteo , que por de- 
fejo de fervir ao Hidalcão. A qual malda- 
de foi , que eftando ante EIRey Crifnaráo 
defculpando o Hidalcão de não ir a elle, 
diííe, que a caufa de o não ter feito, fora 
porque Salebatecan , que tinha cativo em 
Bifnagá , o avifava que em nenhuma ma- 
neira foífe ante EIRey ; porque a nenhum 
outro fim fe movera deBifnagá com tama- 
nho exercito , fenão pêra depois de o ter 
acolhido , e morto , entrar pelas terras do 
Decan , e as tomar ; e que homem que per 
hum feu Capitão mor era avifado deitas cou- 
fas 5 não lhe devia pôr culpa nas cautelas y 
e refguardos que té então tinha dado a fua 

vi- 



Década III. Liv. IV. Cap. V. 437 

vida, e efhdo. EIRey Criíharáo indignado 
de Salebatecan , parecendo-lhe fer affi como 
Sufo Larij dizia , e mais da parte do Hi- 
dalcao j a quem tanto importava dizer-lhe 
mais verdade do que té alii lhe tinha di- 
to , fem mais examinar o cafo , mandou a 
grão preíía recado a Bifnagá , que cortai- 
íèm a cabeça a Salebatecan , e dilatou a 
refpofta a Sufo Larij do que requeria té vir 
recado do que mandara fazer. Acaufa por 
que efte Sufo Larij ordenou a morte de 
oalebatecan , foi , porque íabia que dizia el- 
le em Bifnagá , onde eftava cativo , que nin- 
guém tinha deftruido o Hidalcão feu Se- 
nhor , afli na honra , como na fazenda , fe- 
não elle Sufo Larij , no confeiho que lhe 
deo que fogiíTe do arraial , e em outras cou- 
fas que ante , e depois tinha feito ; e que 
Principe que fe governava per parecer de 
hum feu elcravo como elle era , e não per 
confeiho de muitos Capitães homens nobres , 
e que haviam de pôr a vida por feu efta- 
do , como puzeram , merecia ver-fe em tal 
eftado , como eftava, Sufo Larij por fe vin- 
gar deitas palavras , e também temendo que 
no concerto do Hidalcão havia de entrar 
a liberdade delle Salebatecan , o qual tor- 
nando a feu eftado , pola valia que tinha 
como Hidalcão , o podia indignar contra 
elle, por fe fegurar delle bufcou efte mo- 
do 



438 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

do de o matar. E como veio a nova de 
fua morte , temendo que fe eflivefíe mais 
dias na Corte d'ElRey , fe poderia íabcr a 
maldade que tinha feito , íècretamente fo- 
gio , e foi-fe pêra o Hidalcao , dizendo , 
que EIRey o quizera matar , como matou 
a Salebatecan , por iflb lhe aconfelhava que 
em nenhuma maneira fe fíafíe delle. E dil- 
íimulando com EIRcy alguns dias , fingio 
huma fubita neceílidade com que fe veio 
pêra a Cidade Bilgam , que era fua , quin- 
ze léguas de Goa , e fe fez forte nella , lei- 
xando o Hidalcao , e EIRey travados em 
guerra , com caufa de maiores ódios , por 
a maldade que elle ordenou , que logo foi 
fabida de ambos eíles Príncipes , da qual 
guerra fe caufou tomar Ruy de Mello Ca- 
pitão de Goa as terras firmes delia , como 
diífemos ; e foi por eíia maneira. Entre 
a gente que habita aquellas Comarcas , e 
terras vizinhas a Goa , ha duas linhagens 
antigas , e nobres , que eram as cabeceiras 
de baixo de cujo governo citavam todas 
aquellas Tanadarias , ante que os Mouros 
as conquiftaffem da mão delles , (como já 
efcre vemos.) Huma linhagem deftas tinha 
por appellido Beras , que era a mais prin- 
cipal , e a outra Gijs. Deíles Gijs , dous ir- 
mãos , hum per nome Comogij , e outro 
Appagij , vendo como o Hidalcao fora def- 

ba- 



Década III. Liv. IV. Cap. V. 439 

baratado per EiRey Crifnaráo , e que lhe 
não ficava poíTe pêra poder defender as ter- 
ras da fralda do mar da ferra de Gate pê- 
ra baixo , que foram delles, ajuntaram obra 
de oito mil homens , e pouco , e pouco vie- 
ram tomando a terra aos Mouros de guar- 
nição que nellas havia , té virem dar nas 
Tanadarias , que foram de Goa , onde efta- 
va hum Capitão Mouro polo Hidalcao. O 
qual Capitão vendo o tempo difpoíto po- 
lo desbarato de feu Senhor , determinou na- 
quella agua envolta (como dizem ) ver , fe 
dos rendimentos que tinha recebidos das 
terras lhe podia ficar alguma coufa na mão. 
E pêra effeituar efte feu propoíito , mandou 
dizer a Ruy de Mello , que elle era mui 
perfeguido daquelies Gentios que fe levan- 
taram , os quaes andavam roubando a terra , 
donde fe caufava não acudirem tantos man- 
timentos á Cidade Goa , como acudiam no 
tempo que a terra eílava fem aquelles le- 
vantamentos : que lhe pedia por mercê , pois 
entre elle , e o Hidalcao havia tanta paz , 
e commercio , como vizinho , e amigo o 
quizeíTe ajudar com alguma gente contra 
aquelles ladrões 5 que tanto damno faziam 
a todos , em quanto o Hidalcao tardava com 
foccorro , por caufa das differenças que ha- 
via entre elle , e EIRey de Bifhagá. E que 
quando a eíla ajuda tiveíTe algum impedi- 

men- 



440 ASIÀ de JoXo de Barros 

mento , podia ir tomar as terras da mão 
daquelles Gentios , por quanto elíe fe não 
atrevia defendellas com quão pouca geme 
tinha ; e que pêra iffb daria qualquer aju- 
da , e induítria que neceflaria fofle , por ter 
fabido do Hidalcao feu Senhor , que mui- 
to mais havia de folgar eftarem as terras 
em mão delie Capitão , que dos Gentios. 
Ruy de Mello havido coníelho fobre eíle 
cafo , aíFentou com os principaes da Cida- 
de, (por D. Aleixo de Menezes naqueJle 
tempo eílar invernando em Cochij , a quem 
Diogo Lopes leixava o governo da índia , ) 
que quanto ás ajudas que pedia , fe lhe de- 
viam negar , dando a iíTo alguma honeíla 
efcufa ; e quanto a tomallas , pois o tempo , 
e cafo as trazia a caía , e a pouco cufto , 
que as havia de acceitar , e ir logo fobre 
ellas. Sabida pelo Mouro efta determinação 
que Ruy de Mello tomava , ficou mui con- 
tente, porque não defejava eíle outra coufa 
pêra conclusão de feu propoíito. Finalmen- 
te Ruy de Mello com mui pouco trabalKo 
em huma entrada que fez com té duzentos 
e cincoenta de cavallo , e oitocentos peães 
Canarijs da terra , em efpaço de dez , ou 
doze dias tomou as principaes Tanadarias, 
leixando nellas Ruy Jufarte por Capitão do 
campo com alguma gente de cavallo , e de 
pé em feu favor. Na qual çoufe os Gentios 
j ti-' 



Década III. Liv. IV. Cap. V- 441 

tiveram tanta prudência , vendo que a re- 
quefta era cotnnofco , que fomente faber que 
Ruy de Mello as hia tomar , as Jeixáram , 
e foram correndo toda aquella fralda do 
mar té Chaul , por ferem terras que já não 
eram do feuhorio de Goa , em que nós per- 
tendiamos ter direito, por a Cidade ler nof- 
fa ; e per efpaço de quatro annos andaram 
aquelles Gentios tão profperos , que come- 
ram os rendimentos da terra a pezar do Hi- 
dalcão. O Mouro feu Capitão , que teceo 
efta tea , de nós havermos as de Goa , por 
elle falvar o que tinha roubado delias , veio- 
fe a Goa , fingindo temor do Hidalcão por 
não defender as terras , confiando que alli 
lhe feria feito honra polo que fizera por 
nós. E não fe atrevendo per fi poder lalvar 
a preá do roubo , dizem que em dinheiro 
o entregou a huma peífoa , em cuja mão 
lhe parecia que o tinha feguro ; e porque 
depois , quando o pedio , lhe foi negado , 
çndoudeceo. O qual dcpoíito ainda que foi 
fecreto , o Mouro o publicava , andando 
por muito tempo pelas ruas de Goa com 
efta mania , e cá neíle Reyno menos o lo- 
grou a pelíoa de quem fe elle queixava , 
porque ajuftiça de Deos fe tarda em tem- 
po , não diííimula os exemplos de feu cafti- 
go , pêra que vejamos que tem conta com 
todos y e que fe lhe defapraz a maldade do 

in- 



44* ÁSIA de João de Barros 

infiel , por mais ofFcndido fe ha daquelles 
que profefsão ília lei ; porque quanto por 
ella são mais chegados á verdade , e cari- 
dade proximal , tanto mais obrigados de a 
guardar a todo género de peiToa , princi- 
palmente em caíos de confiança. E neíle de 
cubica, que começou noHidalcão, toman- 
do os quarenta mil pardaos que EIRey Crif- 
naráo entregou a Cide Mercar , pêra lhe 
comprar os cavallos , vemos hum notável 
exemplo , em que fe ve os frutos , que fe 
colhem delia, perdendo o que diííemos, e 
outras coufas que pelo tempo em diante os 
damnos da guerra em que ficava lhe trou- 
xeram. E pelo modo femelbante o feu Ca- 
pitão , que fe acolheo a Goa com o roubo , 
fe não foi morto , como elle matou Cide 
mercador , endoudeceo pêra maior pena. E 
quem lhe negou o depoíito , além de o não 
lograr , fegundo dizem , jazendo na cama 
de doença de que morreo , também falían- 
do com o dinheiro , teve quaíi outra mania j 
e depois de fua morte , pefíba em cuja mão 
elle confiou parte deita fazenda , ainda que 
não foi negada per elle a feus herdeiros > 
elles a não logram. E por não ficar fem 
pena o artificio , de que EIRey Crifnaráo 
ufou pêra romper a paz , depois tornou a 
perder per guerra o que naquella guerra ga- 
nhou» Finalmente y porque cada hum colhef- 

fe 



Dec. III. Liv. IV. Cap. V. e V I. 443 

fe o fruto da femente que femeou , té hum 
Manuel deSampayoTanadar dopado cha- 
mado Noroá , que he da mefma Ilha de 
Goa , o qual andou por medianeiro entre 
Ruy de Mello , e o Capitão do Hidalcão , 
que fe acolheo á Cidade , (fegundo fe dif- 
ie , ) elle houve efta paga da terçaria. Eftan- 
do doente de enfermidade de que morreo , 
temendo que por fua mulher ficar rica , o 
Capitão da Cidade que então era a cafaífe 
com peííoa de menos qualidade que a fua , 
eftando na cama, quizera per íl fazer osdef- 
poforios da mulher com hum feu amigo : 
peró ante que effeituafle efte deíejo , morreo , 
e a mulher cafou logo , como elle receava. 
E nós ainda que provocados tomaflemos 
aquellas terras firmes de Goa , não tardou 
muito que as não perdeífemos , (como fe 
adiante verá,) de maneira, que todos pa- 
garam na moeda que receberam- 

CAPITULO VI. 

Do que Lopo de Brito Capitão da fortaleza 
de Ceilão pajjòu com a gente da terra. 

NEíle mefmo tempo eftava por Capi- 
tão da fortaleza de Ceilão Lopo de 
Brito filho de João de Brito , o qual o an- 
uo paliado de dezoito EIRey D. Manuel or- 
denou que foffe fazer efta fortaleza com té 

oi- 



444 ÁSIA de João de Barros 

oitocentos homens, em que entravam mui- 
tos ofliciaes mecânicos deite mifter : acabada 
a qual obra , havia de ficar com a gente 
neceílaria pêra defensão delia , e officiaes da 
fazenda , e a mais fe havia de ir ás outras 
fortalezas. Succedeo que citando EIRey com 
eíta determinação , veio Lopo de Villa-lo- 
bos 3 que Lopo Soares defpachou pêra eíte 
Reyno quando fahio do eítreito , ( como 
efcrevemos atrás , ) per o qual elle efcreveo 
a EIRey , como tanto que chegaffe á índia , 
havia de ir fazer cita fortaleza de Ceilão. 
Com tudo o anno de dezenove EIRey o des- 
pachou para irfervir a capitania delia, efeu 
irmão António de Brito que lá andava foííe 
Alcaide mór ; e Feitor André Pvodrigues de 
Beja , e Efcrivaes João Rabello , e Gafpar 
cPAraujo , de alcunha Benimágre , ambos 
feus mocos da camará. Da qual fortaleza che- 
gado Lopo de Brito á índia foi entregue 
per D. João da Silveira , que eítava nella 
por Capitão. E como elle Lopo de Brito 
levava quatrocentos homens, em que entrar 
vam muitos pedreiros , e carpinteiros , e el- 
h eítava quafi pêra fe vir a terra , por fer 
feita de pedra , e barro , ordenou Lopo de 
Brito de a fazer de pedra , e cal. E porque 
alli perto não achou pedra , nem mariico 
pêra poder fazer a cal , mandou algumas 
çhampanas á pefcaria do aljofre de Calleca^ 



Década III. Liv. IV. Cap. VI. 44? 

re , que he dalli mui perto , carregar da o£- 
tra donde fe tira o aljofer , da qual fez quan- 
ta quantidade de cal lhe era neceífaria , com 
que não fomente fez a fortaleza , mas ainda 
algumas cafas ; e além deita obra guarneceo 
mui bem a cava , que atalhava o terrado 
mar a mar , com que a fortaleza ficava em 
Ilha pelo modo que já diífèmos. Os da ter- 
ra quando viram efta reformação da forta- 
leza , como gente aíTombrada do que lhe os 
Mouros diziam de nós , começaram temer 
mais aquella força , parecendo-lhes que tudo 
era pêra lhes tomar a terra. Finalmente a 
eíla fufpeita ajuntaram outras caufas , que 
importavam fua liberdade , porque os nofíòs 
jião lhes confentiam que vieífem alli os Mou- 
ros contratar com elles , de que recebiam 
muita perda , aíTi huns , como outros. Da 
qual defeza procedeo não acudirem aos nof- 
íòs com o mantimento da terra , que lhe 
vinham vender ; e fobre iílo fe achavam al- 
gum defmandado fora da noíTa fortaleza 5 era 
ferido , ou morto fe o podiam fazer. Lo- 
po de Brito por confervar a paz , que ef- 
tava aífentada per Lopo Soares , diílimu- 
lava algumas coufas deitas , levando-as per 
pontos tão brandos , que começou entre os 
noíTos haver murmuração , não chamando a 
efte foffrimento prudência , mas covardia : 
donde fe caufou querer elle cumprir ante com 

a YOn- 



446 ÁSIA de JoÁo de Barros 

a vontade da gente de armas , que com o 
lbffrimento feu , ainda que lhe parecia ler 
mais proveitofo pêra o governo da terra^ 
Finalmente eftimulado tanto dos imigos , co- 
mo dos amigos , huma féfta , tempo em que 
o Gentio da terra por fer depois de comer 
fe lança arepoufar, e menos lufpeitofo pêra 
efte cafo , com té cento e cincoenta homens 
efeolhidos , deo na povoação de Columbo y 
que era pegada com a nofla fortaleza. E co- 
mo efta íàhida foi de fobrefalto , ficaram os 
imigos tão cortados de medo , que fem lhes 
lembrar mulher , nem filhos , todos fe pu- 
zeram em fogida naquelle primeiro impeto» 
Lopo de Brito , porque fua tenção era af- 
fombrar. e não matar, pêra ficarem teme- 
rofos de commetterem mais o que tinham 
feito , mandou-lhes atar as mulheres 5 e filhos 
ás portas das cafas pêra verem que os tive- 
ram em feu poder , e não lhes quizeram fa- 
zer mal. Porém quando fe efpedio , mandou 
pôr fogo a huma rua larga , e direita , que 
era a principal da Cidade , e de maior con- 
curfo da gente > temendo que ao recolher 
dos noífos , por a rua vir direita demandar 
a nofla fortaleza , os imigos lhe vieflem dar 
nas coftas , com que recebeífe algum damno ; 
e aííi foi. Porque paíTado o primeiro Ím- 
peto do temor , que os fez pôr em falvo , 
vendo que lhes ficavam mulher 7 e filhos, 

vol- 



Década III. Liv. IV. Cap. VI. 447 

voltaram com o amor delles , como gente 
offerecida a morrer. E pofto que o fogo foi 
grande amparo aos nofibs , por fer já gran- 
de, e fe metter entre huns , e outros , toda- 
via com aquella fúria cuftou a vida a mui- 
tos delles, edosnoíTos: cá primeiro que íe 
efpediííem deita fua fúria , ficaram feridos 
mais de trinta , de que depois morreram al- 
guns. E verdadeiramente fe elles náo fe oc- 
cupáram em matar o fogo , e não acharam 
as mulheres , e filhos atados ás portas , em 
que entenderam que aquella fahida de Lopo 
de Brito fora mais ameaça , que vontade de 
os ofFender , fegundo acudiram muitos , e 
vinham furiofos , não fora muito entrar de 
envolta com os noífos na fortaleza. Toda- 
via com o damno que alli receberam em com- 
metter os noíTos , dobrou-fe fua indignação 9 
com que defcubertamente moftráram o ódio > 
que nos tinham , não tardando muitos dias 
em vir por cerco á nova fortaleza. Na pri- 
meira chegada do qual , peró que Lopo de 
Brito fe vio em muito trabalho , por ferem 
perto de vinte mil homens , como vinham 
mal ordenados , a cufta das vidas de muitos 
elle os aíFaftou , e fez induftriofos em aífen- 
tar feu arraial. Fazendo feus vallos de ter- 
ra , e repairo de muitas palmeiras , e pouco > 
e pouco como gente que vinha de vagar, 
foram-fe chegando á noífa fortaleza , té ar- 
ma- 



448 ÁSIA de JoXo de Barros 

marem dons baluartes das mefmas palmei- 
ras , em que aíTentáram alguma artilheria. 
A qual peró que não fofle tão furiofa como 
a noíía , o grande número fuppria a fúria , 
porque naquelle cerco haveria mais de feis- 
centos efpingardoes , de que alguns eram do 
tamanho de berços , que tiravam virotões de 
páo de dez palmos de comprido , com pen- 
nas de couro de porcos montezes , que a 
duzentos pados faziam mui grão paliada. E 
além deite trabalho , em verem de dia o ar 
coalhado deites virotões , de noite tinham ou- 
tro 5 que era fer alumiado com fettas de fo- 
go pêra lhes queimar as cafas de palha que 
tinham ; e o maior de todos era irem buf- 
car agua pêra beber fora da fortaleza , por- 
que toda cuftava muito fangue. O qual cer- 
co durou per efpaço de cinco mezes j por- 
que como era no tempo do inverno t e da 
índia não lhe podia vir foccorro, foi caufa 
de os noíTos padecerem muito trabalho ; té 
que de Cochij lhe veio em foccorro huma 
galé 5 Capitão António de Lemos filho de 
João Gomes de Lemos Senhor da Trofa, 
na qual trazia té cincoenta homens , e ain- 
da eítes com difficuldade fe puderam man- 
dar. Porque como nefte tempo Diogo Lo- 
pes de Sequeira era ido ao eílreito do mar 
Roxo , com a potencia de tantas velas , e 
gente 7 (como eicrevemos ; ) e as fortalezas 

da 



Década ÍIL Liv. IV. Cap. VI. 449 

da índia ficaram fomente com a ordenada 
pêra fua defensão , e a de Cochij , que era 
mais vizinha a Ceilão ', tinha menos gente 
que as outras ? por fer mais fegura , não fe 
pode mandar maior foccorro a Lopo de Bri- 
to. E efte que lhe foi ainda era mais por 
falvaçao delle, e das peflbas que alli eíta- 
vam y que por cauia da poíTe da mefma for- 
taleza : cá não fe havia por coufa importan- 
te ao eílado da Indiâ termos alli tomada 
aquella pofle , porque fem ella havíamos to- 
da a canella pêra carga das noíTas náos , e 
EÍRey da terra fem efte jugo que o aífom- 
brava , queria pagar fuás páreas. E depois 
Correndo o tempo , fe vio quão efcufado 
era , com que fe mandou desfazer , ficando 
fomente huma cafa de feitoria, com que o 
Rey da terra ficou defaífombrado de todo ; 
e ainda a alguns delles foi proveitofa , com 
ajuda que houveram de nós contra feus imi- 
gos com que tinham guerra , como adian- 
te efcrevemos. Lopo de Brito vendo quão 
pouco foccorro lhe viera , e fabendo as cau- 
fas porque determinou lançar dalli aquella 
vizinhança , de que tanto damno tinha rece- 
bido , primeiro que elles entendeíTem quão 
pouca gente lhes acudira. Fazendo conta > 
que quando mais não pudeífe fazer naquel- 
la fua fahida fora da fortaleza , que tomar 
os dous baluartes , que tanto damno lhe tí~ 
Tom. III. P. L Ff nham 



4^0 ÁSIA de JoÃa de Barros 

nham feito, ifto haveria por grande vitoria. 
Aííentado em confelho o modo que haviam 
de ter naquelía fahida , mandou Lopo de Bri- 
to a António de Lemos que com fua galé 
fe puzefle diante dos baluartes , moftrando 
que per alli lhe havia de dar bateria com as 
peças groíTas que levava na galé : e elle ao 
outro dia peia fôíia , que he o tempo do re- 
poufo do Gentio , (como já dilíemos , ) fei- 
to final com té trezentos homens , deo nas 
eftancias dos imigos. E aprouve a Deos que 
como elles fcntíram em fi o ferro dos nof- 
fos , deram lugar a que íè fízeíTem fenhores 
dos baluartes , tendo já nefte tempo António 
de Lemos a lua galé cuberta de frechas 5 e 
virctões , de que recebeo muito damno. 
Vendo o corpo da gente que eílava mais met- 
tida no arraial , e aíii a que fe alojava na 
Cidade , que era a principal , como eíles 
dous baluartes eram entrados per nós , e o 
grande arroido que havia por cada hum fe 
falvar , acudiram os Capitães de todas as 
partes, em que fefez hum grão número de 
gente , na qual entravam cento e cincoen- 
ta de çavallo, que pêra aquella Ilha Ceilão , 
onde não ha muito ufo delles , era huma 
grande cópia ; e aííi vinham té vinte e cin- 
co elefantes armados com feus caílellos , de 
que pelejavam muitos homens com frechas. 
Quatro dos quaes , como mais adeftrados no 

ufo 



Década III. Liv. IV. Cap. VI. 4^1 

ufo do pelejar 5 vinham diante fazendo gran- 
des montantes com humas elpadas , que tra- 
riam atadas em revés nos dentes. O qual cf- 
peétaculo de feras, por virem acompanhadas 
de tão grão pczo de gente , metteo os nof- 
fos em tamanha confusão , que muitos fize- 
ram pé atrás. Lopo de Brito recolhida to- 
da a gente a íl , ante que aquellas feras lhe 
arrombafíem tudo , juntamente em defparan- 
do todolos eipingardeiros , que levava com- 
íigo nos quatro elefantes dianteiros , deo 
Sant-Iago nelles , e com as lanças em tezo 
os feriram afperamente. Os quaes como fe 
acharam efcandalizados das efpingardas , e 
lanças , voltaram urtando contra os feus, 
fugindo tão fem tento ? que deram nos que 
vinham atrás , e huns nos outros de ma- 
neira , que o feu desbarato deo maior oufa- 
dia aos noílbs , levando-os ante li com gran- 
de grita ás lançadas. E porque no corpo dos 
Mouros , e Gentios da Ilha não havia tanta 
dureza como no couro dos elefantes , que 
quando embravecem, não faz mais o ferro 
de huma lança nelle , do que faz o ferrão 
de huma aguilhada no couro de boi quan- 
do o caftiga ? ficaram daquclla feita .mortos, 
e feridos. Lopo de Brito paliada huma rua 
larga , per que efta gente vinha , tanto que 
começou entrar por arvoredo , tornou-fe a 
recolher , temendo o lítio da terra , e con- 
Ff ii ten- 



4$2 ÁSIA de JoXo de Barrou 

tentou-fe da vitoria que Deos lhe dera , a 
qual também cuílou aliás do fangue dos noí* 
íòs. E porém fuccedeo deite feito, que ven- 
do EIRey alguma da fua gente nobre mor- 
ta , e que os Mouros que o mettiam neíta 
rebelião contra nós , não eram parte pêra o 
livrarem da nofla fujeiçao , como lhe elles 
promeítiam , pafladoeíie dia, não tardaram 
muitos que não mandaíTe pedir paz a Lopo 
de Brito, com que as coufas daqueila for- 
taleza ficaram no eftado da paz , como dan- 
tes eíiavam. 

CAPITULO VIL 

Em que fe da noticia do curfo dos tem- 
pos nas partes do Oriente que navegamos , 
donde fe caufa o verão , e inverno aos na- 
vegantes , e das fuás monções. E como Dio- 
go Lopes fe partio de Ormuz onde inver- 
nou , pajjando per Mafcate onde achou re- 
cado de huma Armada que aquelle anno 
partira dejie Reyno , e dalli fe foi pêra a 
índia : e o que lhe fucceãeo no caminho > e 
ajfi em Dio com Me li que Az. 

A Trás efcrevemos como o Governador 
Diogo Lopes de Sequeira , por razão 
do inverno que começava, emelle fahindo 
das portas do eílreito , perdera os bateis das 
náos da Armada, e deCalayate fe fora in- 

ver- 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 45*3 

vernar a Ormuz , fendo iíto no fim do mez 
de Junho. E porque a nós os que vivemos 
neftas partes da Europa, parecerá eítranho 
inverno em taes mezes , e muitas vezes nef- 
ta hiítoria tratamos de invernarem as náos 
em Moçambique , quando vam , e quando 
vem , e aífi outras Armadas noíTas , que de- 
correm per todos aquelles mares , dizemos 
invernarem em tal parte , fendo nos mezes 
do noíTo verão ? e também falíamos per mon- 
ções, que são os tempos que íá navegam, 
parece-nos bem tratarmos hum pouco da 
maneira dos temporaes daquellas partes do 
Oriente , poíto que algumas vezes o tenha- 
mos tocado ; pêra que aquelles , que defta 
coufa não tem experiência , por nós tenham 
alguma noticia delias , por não terem dú- 
vida na maneira de noífa elocução , que vai 
conforme a ufo dos navegantes daquellas 
partes , e iílo fera conferindo os tempos que 
nelias curfam com os defta noífa Europa , 
e principalmente da coita de Hefpanha. Não 
dividindo o curfo do anno em quatro tem- 
pos , como geralmente per todos he repar- 
tido , dando a cada quartel delle feu pró- 
prio nome, mas fallando em curfo- de na- 
vegação , na coita da noífa Hefpanha de 
onze de Março té quatorze de Setembro , 
que são os dous Equinócios , chamamos-lhe 
Verão , pêra partir delia , e tornar a ella 

fera 



454 ÁSIA de João de Barros 

fem tormenta alguma , porque nefte tempo 
anda o Sol da Equinocial pêra efta parte do 
Norte que nós habitamos. E porque nefía 
noffa região o movimento do Sol caufa o 
curlb dos ventos r como fe verá em o pri- 
meiro Livro da noíía Geografia , onde tra- 
tamos eíla matéria mais prccifamente , he 
coufa mui regular neiles mezes venta rem 
Noroeftes ,, Nortes , e Nordeftes \ e no In- 
verno os oppoíítos a eítes , e os outros a 
elles tranfverfaes 3 ou collateraes fe ven- 
tao , lie por accidente , e não per curfo de 
muitos dias. Na índia per experiência ve- 
mos , que os ventos não fe regulam com o 
acceffo , oureceílb do Sol , per o modo que 
faz acerca de nós - 7 porque os mezes do feu 
Verão não convém com os noilos acerca do 
navegar , pofto que toda a terra da Aíia jaz 
dáquem da linha Equinocial ,, como nós 
eftamos. E ainda na mefma coíla delia , pof- 
to que eftê em hum paraílelo , ha rama dif- 
ferença de hum tempo ao outro , que a hum 
chamam Inverno , e a outro Verão. E vem- 
fe efte modo , ou por melhor dizer , eíle 
curfo da natureza a particularizar tanto com 
feus efeitos , que fomente huma ponta , ou 
cotovello de terra , a xjue nós chamamos 
Cabo, cuja .diftancia ás vezes he pouco mais 
que o comprimento de huma náo ; em eífci 
mo chegando áquelle teimo da ponta, que 

he 



Década IIL Liv. IV. Cap. VIL 457 

he divisão , onde ella participa de duas coi- 
tas contrarias , na vela dianteira dá-lhe o 
embate do vento contrario , e na trazeira 
vai á popa. E aííi como acha eítes dous 
ventos. contrários em hum lugar tão pontual , 
aííi participa de dous tempos , hum he Ve- 
rão , e outro Inverno. E onde fe iílo mui- 
tas vezes per os noflbs experimenta , he no 
Cabo Rofcalgate , como fe vio vindo Dio- 
go Lopes do eílreito : cá eram já com ei- 
le tão grandes cerrações , que fe não viam 
os navios huns aos outros , vindo mui jun- 
tos , e fendo no mez de Junho. Dobrado 
o qual Cabo per mui pequena diítancia , 
achou a região da outra coíía , clara , fere- 
na , e com o Sol tanto na força de fua quen- 
tura , que da grande calmaria não feafaíla- 
vam as velas dos maílos. E em outro tem- 
po quem vem da cofta de Choromandel pê- 
ra o Malabar com tempo desfeito , e mares 
groffos 5 que parece que querem comer o 
navio , emparelhando onde elle participa da 
outra linha da coita tranfverfal , acha (co- 
mo dizem ) calma borralho , e a contrario 
rnodo , indo da índia pêra Choromandel : 
em tanto , que hum mefmo navio (como 
diífemos) na vela da proa tem hum vento 
geral , e na popa outro , e por a me fina 
maneira ha outras partes naquelle Oriente 
onde iílo acontece. Donde podemos ter qua- 

fi 



4$6 ÁSIA de João de Barros 

íi por regra geral, em as coftas marítimas 
daquellas regiões mais refponder o feu ve- 
rão , e inverno ao curfo dos ventos , que 
ao curfo do Sol ; e eítes ventos fe regulam 
mais por razão dos golfãos , eftreitps do 
inar , pontas, e torturas que a terra faz, 
que por caufa particular do mefmo Sol , 
poílo que delle depende a univerfal de to- 
dolos motos naturaes , pêra entendimento 
da qual regra neíle material exemplo fe po- 
de ver. O raio do Sol quando fere direi- 
to dando na terra , aquelle primeiro adio 
ièu he ; peró quando o corpo da terra o 
impede que não paífe mais abaixo , torna 
rebater efte raio , e faz outro , ao modo que 
vemos pullar a pella , a qual quando fahe 
da mão , quanto com maior força dá no 
chão , tanto mais alto pulla pêra cima , don- 
de podemos dizer que o movimento de ci- 
ma pêra baixo foi do braço que a lançou , 
ç o debaixo pêra cima fez a terra com o 
rechaço de fua dureza. Alfi neftas partes da 
índia o Sol caufa o movimento dos ventos ; 
peró quando elles correm com aquelle cur- 
ió natural dos grandes golfãos de mar da- 
quelle Oriente , e vem dar com aquelle Ím- 
peto em alguma çoíla da terra , principal- 
mente fe he montuofa , que os não leixa 
paflar avante , ella os torna rebater per ou- 
tro rumo , com que de hum vento proce- 
dem 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 45-7 

dem dous , hum caufado do Sol como 
prima caufa , e outro do rebate da terra , 
e daqui vem dizerem os mareantes algumas 
vezes : EJie vento não he geral , mas em- 
bate da terra. E como os ventos são o 
efpirito exterior do mar , que o move a hu- 
ma , e a outra parte , e a fúria , ou maníí- 
dão delle faz o verão, e inverno aos nave- 
gantes, acontecem naquellas partes grandes 
differenças de tempos em hum mefmo cli- 
ma , e parallelo. A demoflração da qual 
variação fazemos nos livros da noíTa Geo- 
grafia , onde a olho por razão da pintura 
da terra fe verá fer mui regular efte curfo 
do Sol, pofto que comparado o feu curíò 
ao deíla noíTa região o hajamos por vario. 
O qual curfo de todo anno , também como 
cá fe reparte em quatro tempos de Verão , 
Eítio , Autumno , e Inverno , mas não tão 
diftantemente como acerca de nós , por ra- 
zão de terem o Sol mui vizinho , princi- 
palmente nas terras que jazem entre os dous 
Trópicos , que em hum mefmo tempo mui- 
tas arvores tem juntamente frol , fruto ver- 
de , e outro maduro , e iílo mais notavel- 
mente nas terras que jazem debaixo da li- 
nha. Verdade hc que as que jazem da Equi- 
nocial pêra efta noíla parte , regularmente re- 
fpondem com fuás novidades nos mezes do 
ttofíò V erão .> hum pouco mais cedo ou tar- 
de, 



45S ASIÀ de João de Barros 

de, fegundo vemos em a nofía Europa nas 
terras que tem differença de mais , ou me- 
nos quentes. Porém acerca da navegação ao 
noíTo modo tem féis mezes de Inverno , 
c féis de Verão : não ern hum próprio tem- 
po , cá eíla he a differença de que tratamos. 
Porque o Inverno daquelle eílreito donde 
Diogo Lopes fahio té o Cabo Guardafú , 
€ de Roícalgate , que he a garganta delie , 
o feil Verão começa em Setembro, e aca- 
ba em Abril , e os outros mezes do anno 
são do Inverno. Nefte Verão ventam regu- 
lar , e geralmente Leite , Lefnordeíle , que 
entram pêra dentro do eílreito; e no Inver- 
no Oeftes , Oefnoroeftes , com que íahem 
de dentro. E o Inverno de Ormuz he co- 
mo nefta coíla de Heipanha , de Outubro 
té fim de Fevereiro ; porque o lançamento 
do mar Parfeo , em que efta Ilha jaz , per 
o rumo a que os mareantes chamam Aloef- 
coroefte , em comprimento de cento e cin- 
coenta léguas com as correntes dos rios Eu- 
frates , e Tigre , e terra efeampada , per que 
elíes paliam , quando fe já vem metter no 
mar , participa dos tempos do noíTo clima y 
e curfam per aquelle eílreito Noroeftes , Noi- 
tes , e Nordeíles o mais do tempo deíles 
mezes do Inverno , e os do Verão são os 
que falecem pêra doze do anno. E na cof- 
ia da Lídia, porque fe vai já mettendo en- 
tre 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 45*9 

tre o Trópico , e linha Equinocial , pêra 
poderem navegar , ha mais mezes de Ve- 
rão y que em outras partes , porque começa 
em Agoílo , e acaba per todo Abril , e os 
outros são do Inverno. E per toda a cofta 
de Melinde té Moçambique , nos mezes do 
>íeu Verão geralmente ventam Leites , Lef- 
nordeftes , que são da entrada de Outubro 
té rim de Março; os do Inverno são os que 
falecem , e ventam naquella paragem Oeftes , 
Oeíhoroeííes. E o Verão dp Cabo de Boa 
Efpcrança começa no principio de Janeira 
té quinze de Maio , e ventam Oeftes , Oef- 
noroeftes , e alguns Sudueftes , que he tra- 
veília no Cabo , e no feu Inverno os con- 
trários. Eííes taes tempos por ferem geraes 
pêra navegar a certas partes , e não a ou- 
tras 3 commummente os mareantes nofíòs , 
conformando-fe com os daquelle Oriente i 
chama m-lhe monção , que quer dizer tem- 
po pêra navegar pêra taí parte. Dizem tam- 
bém monção grande , monção pequena ; a 
grande he tempo que curfa a maior parte 
dos féis mezes do Verão feu , e a pequena 
a menor. Porque fallando propriamente , 
não he hum vento tão contino , que per 
todolos féis mezes curíe de hum rumo ; mas 
venta ao modo que vemos em a noffa cof- 
ta de Hefpanha , que o geral , no tempo 
do feu Verão (como diílemos) pela maior 

par- 



460 ÁSIA de João de Barros 

parte curfam Noroeftes , Noites, e Nordef- 
tes. Porém neíles mezes também per alguns 
dias ventam Levantes té meio dia ; e delle 
té o poer do Sol Ponentes, a que chama- 
mos virações do mar por virem com a 
maré , e de noite vam bufcar a eftrella do 
Norte , e eíle he o curfo natural da cofta 
de Hefpanha. E por a continuação de hum 
rumo durar em huns mezes mais que em 
outros , efta duração de tempo fe chama 
monção maior , e a de menos menor. E 
como a de Ormuz pêra a índia era em 
Agofto , tanto que veio eíle mez , Diogo 
Lopes que alli invernou , (como diflemos ) 
fe efpedio d'ElRey , leixando algumas cou- 
fas ordenadas na Cidade pêra bem da fazen- 
da delle Rey , que foram, caufa do damno , 
que adiante veremos. Partido com fua fro- 
ta , chegou a Calayate , onde leixára Jorge 
d'Alboquerque com a frota das náos , e 
achou alli Jeronymo de Soufa com feus com- 
panheiros 5 que (como atrás diflemos ) mi- 
lagrofamente Deos osfalvou dos trabalhos, 
e perigo que paflaram , aos quaes proveo 
fegundo fuás neceílidades. E ante que fe 
dalli partiíTe, chegou Ruy Vaz Pereira filho 
baftardo de João Rodrigues Pereira fenhor 
de Bailo , o qual partio deíle Reyno por 
Capitão de hum galeão em companhia da 
frota de nove velas ; que EIRey D. Manuel, 

aquel- 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 461 

aquelle anno de quinhentos e vinte mandou 
á índia , Capitão mor Jorge de Brito filho 
de João de Brito , o qual hia fazer huma 
fortaleza em as Ilhas de Maluco ; e os ou- 
tros Capitães eram elle Ruy Vaz Pereira , 
Lopo d' Azevedo filho de Ruy Gomes d' Aze- 
vedo , Gafpar da Silva filho de Diogo Go- 
mes da Silva 3 que hia pêra fervir de huma 
fortaleza , que EIRey mandava fazer em 
Chaui , Pêro Lopes de Sampayo , que hia 
pêra fervir outra nas Ilhas de Maldiva , Pe~ 
ro Lourenço de Mello , que havia de fazer 
huma viagem pêra a China , Pedro Paulo 
filho de Bartholomeu Florentim , António 
d 5 Azevedo, e André Dias Alcaide de Lif- 
boa , que havia de feitorizar a compra de 
quanta pimenta aquelle anno fe carregafíe 
para efte Reyno , D. Diogo de Lima filho 
de D.João de Lima Bifconde de Villa no- 
va de Cerveira. Partida efta frota do por- 
to de Lisboa , peró que os tempos que le- 
vou fizeram que huns chegaflem primeiro 
que outros emdiverfas partes, todos foram 
a falvamento. Na qual viagem a Ruy Vaz 
Pereira aconteceo hum maravilhofo cafo , e 
de grão perigo em hum galeão em que hia ; 
porque pafTado o Cabo de Boa Efperança , 
indo huma noite com todalas velas metti- 
das , fubitamente efteve quedo , como fe en- 
calhara em alguma cabeça de arêa , e por 

en- 



462 ÁSIA de João de Barros 

encalhado o houveram todos , fegundo o 
rojo grande que fez. E acudindo logo á 
bomba pêra ver fe abrira , e fazia agua , 
e também aos prumos , lançando-os de hu- 
ma , e de outra parte , acharam que o ga- 
leão nadava i e que quem os detinha era 
hum monftro do mar , o qual jazia pegado 
na quilha do galeão per todo o comprimen- 
to delle , fendo de vinte e hum, rumos , que 
são cento e cinco palmos , e com o rabo 
retinha o leme , e com as azas , ou perpe- 
tanas abraçava os dous coílados de manei- 
ra , que chegavam té meza da guarnição , 
€ alguns dos noífos lhe tocaram com a mão. 
A cabeça do qual , que foi a derradeira cou- 
fa que elle moítrou , feria do tamanho de 
huma pipa, e junto delia tinha humas trom- 
bas , per que efpirava , lançando maior ef- 
padana de agua que huma Baiea , a qual 
coufa como era mui nova , e nunca viíía 
dos noffos, fez nelles tão grande efpanto 5 
emais por fer de noite, que lhes não leixa- 
va bem diviíar a figura deite monftro , que 
alguns houveram fer efpirito máo , que es 
vinha foçobrar. Outros querendo-lhe fazer 
arremedo de lanças , fifgas , e arpões pêra 
o fazer mudar, havendo fer algum peixe, 
não o confentio o Capitão , porque com a 
fúria da dor ao efpedir-lè não foçobraíTe o 
galeão. Finalmente depois de muitas, dúvi- 
das 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 463 

das perefpaço de hum quarto de hora , que 
eítiveram neíle temor , veio o Capellao da 
náo , que o efconjurou , e com alguns ex- 
orciímos elle abaixou as prepetanas , e e£ 
pedio-fe per baixo , iem fazer mais que ref- 
pirar grande quantidade de agua per as trom- 
bas ; e iegundo diziam alguns mareantes , 
era peixe Sombreiro , chamado aíli per el- 
Jes , por haver hum no mar mui grande , 
que fobre a tefta tem huma cubertura a ef- 
te modo. E delles eram lembrados andar 
outro tal, (ainda que não tão grande,) na 
paragem da Villa Atougia , o qual mettia 
a cabeça dentro nas barcas , que hiam a peP* 
çar, por tomar homens, com que tinha íb- 
çobrado já duas ; e de maneira afíbmbrou 
a gente , que não oufavam ir pefcar , té 
que orações, e preces do povo o trouxeram 
morto á coíla. Ruy Vaz paíTado cfte peri- 
go j e chegado a Moçambique , por nelle 
achar nova que o Governador Diogo Lo- 
pes invernava em Ormuz, leixando a der- 
rota da índia , quiz ir buícallo , porque le- 
vava huma via das cartas que lhe ÈlRey 
çfcrevia. Per as quaes , e per o mefino Ruy 
Vaz foube das náos , que aquelle anno hiam 
pêra a carga , as quaes lhe deram grão cui- 
dado por caufa das outras da Armada de 
Jorge d'AIboquerque , que faziam grande 
número , e não fabia íe poderia haver tan* 

ta 



464 ÁSIA de João de Barros 

ta efpeciaria , que pudefle haver carga pêra 
todas. E parece que o efpirito lhe dizia o 
que eíte anno havia de fucceder fobre a car- 
ga deita efpeciaria ; porque mandando El- 
Rey a André Dias por Feitor deita carga , 
por fer homem que fabia bem os negócios 
da compra , e carregação da pimenta , por 
citar muito tempo em Cochij fervindo de 
Efcrivão da Feitoria, ou que fofle por os 
Officiaes , que então lá eítavam tomarem por 
injúria ir deite Reyno peíToa fomente áquel- 
le negocio, em que parecia terEiRey des- 
confiança delles , ou que André Dias não 
teve refpeito á bondade da pimenta , fomen- 
te a carregar muita , foi toda a que elle 
trouxe tão verde , e mafcabada , e falecida 
em pezo , que algumas náos quebraram a 
trinta , e quarenta , a feílenta , e a fetenta 
por cento 5 e outras mais de cento por cen- 
to. Porque havendo trinta e três annos que 
iíto paífou , ainda hoje na cafa da índia em 
Lisboa , que nós feitorizamos , eítam paióes 
cheios delia , tão mafcabada , que parece 
haver ainda de cuítar dinheiro lançalla ao 
mar, em que fe tem perdido grão fomma 
de dinheiro. Além deite negocio da carga 
da efpeciaria , aíli/ pela Armada de Jorge 
d'Alboquerque , como na de Jorge de Bri- 
to daquelie anno , mandava EIRey muitas 
coufas a Diogo Lopes , fegundo via por 

fuás 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 465- 

fuás cartas , que lhe davam grande cuida* 
do 5 vendo concorrerem tantas em hum tem- 
po , pêra que lhe convinha muita gente de 
armas , muitas náos , e grande número de 
mareantes , e munições. Cá EIRey queria 
que fe fizeííe huma fortaleza em Maluco , 
outra em Çamatra , outra nas Ilhas de Mal- 
diva , outra em Chaul , e que entraífe no 
eílreito , e trabalhaífè por tomar Dio , on- 
de também fizeíTe outra fortaleza , e que 
mandalTe á China , e defcubrifíe as Ilhas 
do ouro , e a outras partes \ cuidar nas quae3 
coufas canfava oefpirito, quanto mais poe- 
las em effeito. E por quanto a em que El* 
Rey então mais apertava que elle Diogo 
Lopes commetteííe , era fazer huma forta- 
leza em a Cidade Dio per vontade d'ElRey 
de Cambaya , e de Melique Az Capitão i 
e fenhor delia , e quando o não confentifc 
fe , a tomaíTe per força de armas , e a ca- 
pitania da fortaleza déíTe a Diogo Fernan- 
des de Beja , de que já levava Alvará feu i 
logo dalli quiz elle Diogo Lopes tentar eí- 
te cafo , mandando o mefmo Diogo Fernan- 
des com três velas diante que o foíTe efpe- 
rar á ponta de Dio , á qual geralmente vant 
demandar as náos , que vam do eílreito de 
Meca , e de toda a coita da Arábia , pêra 
nellas fazer as prezas que pudeíTe. Peró co- 
mo Diogo Lopes , depois que efpedio Dio- 
Tom.IILP.L Gg go 



466 ÁSIA de João de Barros 

go Fernandes , fe deteve pouco , logo o 
alcançou , e juntamente com toda a frota 
ícguio fua viagem , a qual indo junto da 
colía de Dio , acharam huma mui grande , 
e poderofa náo 5 que confiada na muita gen- • 
te , e artilheria que levava ? fe quiz defen- 
der a dous navios pequenos , que por ferem 
leves de vela , foram os primeiros que lhe 
chegaram. Mas como elia era alterofa , e 
elles lhe ficavam muito a baixo da marea- 
gem , o mais dam no que lhe puderam fa- 
zer 5 em perpaflando ao longo do coitado 
delia , foi de cima da gávea lançar-lhe al- 
gumas panellas de pólvora fobre a ponte 
que levava , as quaes foram queimar mui- 
tos Mouros que vinham de baixo. E com 
todo efte damno pola muita artiiheria que 
trazia , e gente bem armada , os navios fe 
não podiam melhorar , té que veio Ruy 
Vaz Pereira com o leu galeão , em que le- 
vava trezentos homens , que a ferraram , 
e entrando ás lançadas com elles , começa- 
ram alguns Mouros com temor do ferro 
lançar-fe a agua. Andando já os noífos co- 
mo fenhores da náo bufcando o esbulho 
delia , huns dizem que foi obra dos Mou- 
ros , outros defaílre de faifcas do fogo , que 
os navios lançaram , que foram dar em jar- 
ras que traziam pólvora , com que a náo 
lançando as cubertas pêra o ar ; fe foi ao 

fun- 



Década III. Liv. IV. Cap. VIL 467 

fundo 5 onde morreram alguns dos noífos, 
entre os quaes foi o contrameftre. Diogo 
Lopes quando chegou á náo , e não vio dei- 
la mais que huns poucos de Mouros meios 
afiados do fogo , os quaes os nofíbs bateis 
andaram tomando 3 e foube dos mefmos 
Mouros que por razão das paneilas de pól- 
vora , que lhe os navios lançaram , fora a 
náo queimada ; affi por a perda delia , co- 
mo por ferem caufa de os noííbs , que en- 
traram dentro , ficarem queimados , mandou 
prender os Capitães dos navios , e também 
por dar melhor cor ao que efperava fazer 
chegando aDio, como fez. E foi rnandal- 
Jos em prefente aMeliqueAz fenhor delle,. 
dizendo , como topara aquelles feus hoípe- 
des , que vinham pêra fua cafa , e que fe 
hiarn tão mal tratados , fora por fua culpa , 
por não quererem amainar á bandeira d'El- 
Rey de Portugal feu Senhor , e fobre iíTo 
elles mefmos puzeram fogo á náo , com que 
ficaram naquelle eftado , aos quaes ainda el- 
le mandara falvar que fe não afFogaíTem, 
como lhe elles diriam , e efte bem lhe fize- 
ra por amor delle. Melique Az como era 
prudente , lançou o feito a termos de paço , 
refpondendo , que ainda aquelles Mouros 
hiam pouco aífados pêra o que mereciam y 
pois foram tão mal enfinados , que em ven- 
do fua Senhoria não fe vinham lançar a feus 
Gg ii pés. 



468 ÁSIA de João de Barros 

pés. Paliados eííes primeiros recados , Fer- 
não Martins Evangelho , que alli eftava por 
Feitor em Dio já do tempo de Aífonfo d*AÍ- 
boquerque , (como atrás efcrevcmos , ) veio 
ver Diogo Lopes , per o qual íoube do ef- 
tado da Cidade. E pelas práticas que deite 
tempo de Affonib d ? Alboquerque eram paf- 
fadas , fobre EIRey de Cambaya dar lugar 
pêra fe alli fazer huma fortaleza em modo 
de feitoria 5 em que elíe Melique Az mos- 
trava ter muito contentamento , ( poíío que 
fe fabia quanto elíe trabalhara que não hou- 
vefle eíFeito , ) mandou Diogo Lopes tentar 
a Melique Az per elle Fernão Martins deíle 
calo, trazendo-ihe á memoria quanta pala- 
vra elle , e EIRey de Cambaya já fobre if- 
fo tinham dada , e que importava a bem 
delle Melique Az eílar alli aquella cafa ; por- 
que depois que elle Fernão Martins feitori- 
za va as couías d'ElRey feu fenhor naquela 
la Cidade , elle Melique Az neíle trato ti- 
nha recebido muito proveito. E porque de 
huma , e de outra parte fe paliaram muitos 
recados , que tudo eram palavras defatadas , 
por as cautelas que cada hum tinha em não 
defcubrir nellas fua tenção > principalmente 
Diogo Lopes ^ a quem EIRey aquelle anno 
efcrevia , que quando lhe não déífe Melique 
Az lugar de fortaleza , trabalhaífe por tomar 
% Cidade •> não lhe queria elle moílrar ter 

mui- 



Década III. Liv.IV. Cap.VIL 469 

muita fede do negocio , polo fcgurar de a 
não fortalecer mais , em quanto fe elle hia 
fazer preftes aCochij pêra vir fobreella com 
Armada poderofa , como lhe EIRey man- 
dava que a commetteíTe. E o em que elle 
Melique Az fe refumio acerca daquelle re- 
querimento de Diogo Lopes , foi , que por 
haver já muitos annos que per AfFonfo d' Al- 
boquerque fora requerido a EIRey de Cam- 
baya , e niífo fe não fallára mais , era necef- 
fario elle Diogo Lopes mandar-lhe feu Em- 
baixador fobre iíTo , e que elle Melique Az 
daria logo ordem como partiíle dalli ; e ha- 
vida a vontade d'ElRey, na ília pouco ha- 
via que fazer 3 porque lempre eftivera pref- 
tes pêra o fervir. Finalmente Diogo Lopes , 
por não moftrar a Melique Az que de pro- 
poíito vinha áquelle porto de Dio a efte ne- 
gocio , e também polo fegurar , diffe , que 
da índia mandaria aquelle recado a EIRey , 
porque então abaílava faber a boa vontade 
delle Melique Az , moílrando-fe muito con- 
tente delle. E aquelles dias que fe alli de- 
teve veio ter com elle Gafpar da Silva Ca- 
pitão da náo Nazaré , que foi hum a das mais 
formofas defte Reyno , em que elle levava 
quatrocentos homens , o qual também com 
nova , que podia achar Diogo Lopes naquelJa 
paragem , fez o caminho de Ruy Vaz Pe^ 
reira , que no feu galeão levava trezentos 

ho- 



470 ÁSIA de JoÁo de Barros 

homens ; e fegundo toda efta gente hia fref- 
ca do Reyno , e bem difpofta , com ella , e 
com mil e quinhentos homens , que Diogo 
Lopes trazia nas outras náos , bem le pude- 
ra tomar a Cidade Dio. Cá fegundo íè de- 
pois foube 5 ella efta v a mui pobre de gente 
eílrangeira , de que Melique Az fempre fez 
mais cabedal , que dos naturaes Guzarates , 
por fer gente fraca ; e a eílrangeira em que 
elle confiava eram Mouros Arábios , Tur- 
cos , Parfeos , e Rumes , que naturalmente 
todos nos tinham ódio , por lhes termos to- 
mada aquella navegação , e mais eram ho- 
mens animcfos , e mui aftuciofos nas coufas 
da guerra , e íòbre iflb mui offendidos de 
noflas Armadas. E porque com a entrada 
que Diogo Lopes fez no eftreito , e mais 
invernar aquelle anno em Ormuz , e Jorge 
d 5 AIboquerque em Calayate , não ouíáram 
as náos do eftreito de Meca vir aquelle an- 
uo a Dio , e aquella que Ruy Vaz aferrou 
houve o fim que diífemos : aífi qtie com def- 
falecimento de gente , e mercadorias que eí- 
tas náos traziam , que também he nervo da 
guerra , efta v a a Cidade pobre 5 e Melique 
Az afíbmbrado. Peró como era fagaz , con- 
trafazia as coufas de maneira , que ninguém 
lhe fentia neceílidade , nem defconfiança ; e 
naquclles dias que Diogo Lopes alli efteve , 
fez vir tanta gente da terra com mantimen- 
tos. 



Década III. Liv.IV. Cap.VIL 471 

tos , e coufas de refrefco , que mandou em 
abaítança a toda noíTa Armada , que com o 
muiro povo , que vinha das aldeãs a trazer 
eftas coufas , náo fe podiam revolver petas 
ruas da Cidade. E inda pêra contentar a to- 
dos , não fomente a Diogo Lopes , mas a 
todo o Capitão mandou peças de prefente , 
e per derradeiro como homem feguro, e que 
fe não vigiava de nos , mandou dizer a Dio- 
go Lopes , que lhe diíTeram que naquella 
náo , que alli então chegara de Portugal , vi- 
nham algumas mulheres , que lhe beijaria as 
mãos mandar-lhe moílrar huma, porque de- 
fejava ver as fêmeas que pariam homens tão 
cavalleiros , e gentis homens , como eram 
os Portuguezes. Diogo Lopes além das pe- 
ças que lhe também enviou em retorno das 
luas, mandou-lhe moftrar huma mulher Mou- 
rifca , que alli vinha cafada , pêro mefmo 
feu marido ; e poflo que era mulher de bom 
parecer , em a vendo Melique Az era tão 
difcreto , que diíTe : Não he efta a que pare 
Porluguez ; e quando lhe diíTeram de que 
nação era y refpondeo , que bem parecia fer 
da linhagem daquella gente Arábia. Depois 
que fe Diogo Lopes efpedio delle , e partio 
pêra a índia, ficando alli Rafael Pereílrello 
com fama de carregar a fua não de roupa 
pêra levar a Malaca, ondeelle efperava ir, 
comoveremos, pêra nefce tempo elle poder 

no- 



472 ÁSIA de JoXo de Barros 

notar bem as forças , e entradas daquella Ci- 
dade , pêra Diogo Lopes vir fobre ella , co- 
mo lhe EIRey nas canas daquelle anno man- 
dava y acertou que entre algumas coufas que 
Rafael Pereftrello mandou a MeliqueAz de 
prefente , ( pêra com mais facilidade poder 
fazer feus negócios , ) ir hum panno de ar- 
mar de figuras , o qual em fe abrindo , que 
Melique Az vio âs figuras das mulheres , dif- 
fe aos que eílavam prefentes : E/las são as 
mulheres que parem os Portuguezes , e não 
me efpanto agora da cavalleria . e parecer 
delles , pois procedem ãejias. 

CAPITULO VIII. 

Como Diogo Lopes de Sequeira , depois 
que âefpachou as nãos , que o anno de qui- 
nhentos e vinte vieram com carga deejpe- 
çiaria pêra efte Reyno , fez huma grojja 
Armada , em que foi pêra Dio com tenção 
de fazer ahi huma fortaleza. 

logo Lopes de Sequeira tanto que che- 
gou a Goa , providas algumas coufas 
neceíFarias ao governo da Cidade , princi- 
palmente as terras firmes , que achou que 
Ruy de Mello tinha tomado , pela maneira 
que atrás efcre vemos , paífou-fe a Cochij a 
dar aviamento á carga das náos , que aquel- 
le anno haviam de vir com efpeciaria pêra 

efte 



Década III. Liv.IV. Cap. VIII. 473 

efte Reyno , e affi ordenar as coufas necef- 
farias pêra com huma poderofa Armada 
tornar fobre Dio , como lhe EIRey manda- 
va. E porque da frota que Jorge d'Albo- 
querque levou , que invernou em Moçam- 
bique , ficaram na índia muitas náos , que 
com as daquelie prefente anno da Armada 
de Jorge de Brito fazia hum grande núme- 
ro pêra todos tornarem com efpeciaria , des- 
pachou fomente aquellas a que pode dar car- 
ga , de que veio por Capitão mor António 
de Saldanha , que chegou a efte Reyno a 
falvamento , e as outras ficaram pêra ir com 
elle ao feito de Dio ; e por efta caufa , e lhe 
EIRey mandar que foíle o mais poderofa- 
mente que pudeííe , reteve todolos Capitães 
que hiam ordenados pêra aquellas partes 
de Malaca, com fundamento, que acabado 
efte negocio os efpediria , como fez ; e fe- 
gundo o que depois fuccedeo , per ventura 
lhe fora mais proveitolo ir ao mefmo feito 
fem elles , que levallos em fua companhia , 
como fe verá. Melique Az como não eftu- 
dava em outra coufa fenao em fe vigiar de 
nós , e fobre iífo trazia grandes efpias } tan- 
to que foube dos grandes apparatos que Dio- 
go Lopes fazia , (ainda que a fama delles 
eram pêra tornar ao eftreito do mar Roxo 
fazer huma fortaleza,) mandou hum Mou- 
ro per nome Camallo viíitar Diogo Lopes 

com 



474 ÁSIA de JoÁo de Barros 

com hum prefente i levando per inftrucção 5 
que depois que o viíitaííe da lua parte , e 
lhe déííe o prefente , fe leixafíe andar de 
vagar efpreitando o que elie fazia ; e nefte 
tempo como de feu lhe diflefle , que elle Me- 
lique Az eftava efperando que mandafle al- 
guma peflba a EIRey de Cambaya fobre a 
cafa de feitoria que queria fazer , como 
com elle aíTentára ; porque iegundo elle Ca- 
mallo tinha entendido de Melique Az , em 
chegando não haveria muito que fazer nef- 
te negocio. E depois que eíte Mouro per 
tal modo tentou Diogo Lopes , porque fen- 
tia neíle que o não queria defpachar, fendo 
eíla a coula que elle mais defejava pêra me- 
lhor notar tudo o que elle fazia , de que 
logo avifava Melique Az 5 diffe-lhe hum dia 
que tinha cartas de Melique Az feufenhor, 
que fe foíTe o mais preftes que pudeífe ; e 
que também lheefcrevia, que quanto a cafa 
da feitoria que elle Capitão mor defejava ter 
em Dio , que elle Melique Az tinha cartas 
da Corte d'E!Rey de Cambaya , em que lhe 
efcreviam alguns feus amigos , a quem elle 
Melique Az tinha encommendado efte ne- 
gocio da cala , que EIRey de Cambaya não 
leixava de dar eíla licença fomente por ef- 
perar que Diogo Lopes íha mandaífe pedir: 
que de feu confelho elle o devia logo fa- 
zer , por fer coufa geral a todolos Prínci- 
pes 



Década III. Liv.IV. Cap. VIII. 475- 

pes quererem-fe rogados ao modo das mu- 
lheres , pofto que muito defejem fazer a mef- 
ma coulà. E pois que efte negocio eítava em 
tal eítado, a eJleCamaJlo lhe parecia, eaíli 
lho efcrevia feu fenhor Melique Az que lho 
diíTeíTe , que clle Diogo Lopes devia man- 
dar algum Capitão com náos , munições , 
e officiaes pêra logo poer mão a obra , por 
não fe perder tempo em irem , e virem re- 
cados. Diogo Lopes ainda que não entendia 
naquelle tempo todos eíles artifícios de Me- 
lique Az, o que então alcançou delles era, 
que de aííbmbrado da Armada que lhe di- 
ziam que elle fazia, lhe mandava aconfelhar 
que mandalTe lá hum Capitão , porque elle 
Diogo Lopes deíiftifle do que ordenava , 
com que poderia poer o peito em terra, c 
tomar a Cidade que clle Melique Az recea- 
va , o que não podia fazer qualquer outro 
Capitão , que elle lá mandaíTe $ e por o mais 
aflTombrar , entretinha a Camallo , porque 
viíTe o grande apparato da Armada , e Ca- 
mallo não andava olhando outra coulà. Fi- 
nalmente vindo o tempo em que podia par- 
tir , elle fe poz em caminho com huma fro- 
ta de quarenta e oito velas , entre náos , ga- 
leões , galés , furtas , bargantijs , e outros 
navios de remo , a qual frota foi a maior que 
té aquelie tempo fe ajuntara naquellas par- 
tes, os Capitães da qual eram eíles , D. Alei- 
xo- 



476 ÁSIA de JoÃo de Barros 

xo de Menezes , D. João de Lima , Jorge 
d' Alboquerque , António de Brito , Fernão 
Gomes de Lemos , António de Lemos feu 
irmão , Chriftovão. de Sá , Francifco de 
Mendoça , André de Soufa Chichorro , D. 
Jorge de Menezes , Miguel de Moura , Lo- 
po d' Azevedo , Jeronymo de Soufa , Antó- 
nio Ferreira , Francifco Pereira de Berredo , 
Francifco de Soufa Tavares, Pêro Louren- 
ço de Mello , Francifco de Mendoça de 
Murça, Simão Sodré, Diogo Fernandes de 
Beja , Rafael Catanho , Rafael Pereílrello , 
Pêro da Silva , Chriftovão Corrêa, Nuno 
Fernandes de Macedo , António Rapofo , 
Ruy Vaz Pereira-, António de Brito de Sou- 
fa i António Corrêa , Aires Corrêa feu ir- 
mão , Gonçalo Pereira , Chriftovão Jufarte , 
Francifco de Mello Gallego , Duarte d' Afon- 
feca , André Dias Alcaide de Lisboa , Diogo 
Pereira , Gafpar Doutel , Álvaro d' Almada , 
Gonçalo de Loulé , Paulo Machado , Tho- 
mé Rodrigues , Aires Dias , Lourenço Go- 
dinho o Pireirinha , Pêro Gomes de Sequei- 
ra Malabar , João Fernandes Malabar, o 
Panical de Cochij , que depois defta vinda 
íe fez Chriftão , MaluMocadam dos Cana- 
rijs de Goa , que também fe fez Chriftão , 
e ora ha nome Manuel da Cunha. Na qual 
frota hiam té três mil homens Portuguezes , 
e oitocentos Malabares , e Canarijs de bai- 
xo 



DecadaIIL Liv.IV. Cap. VIII. 477 

xo do governo dos Capitães Gentios da ter- 
ra que nomeamos. Seguindo Diogo Lopes 
ília viagem com efta grande frota , foi to- 
mar o rio Banda cinco léguas áquem de 
Chaul ; porque como he rio largo , e fem 
banco algum na barra , podia dentro fem 
perigo agazalhar toda a frota. No qual lu- 
gar Diogo Paes , que eítava por Feitor em 
Chaul , lhe trouxe toda a provisão de man- 
timentos 5 que lhe Diogo Lopes tinha man- 
dado fazer preftes pêra aquella viagem. E 
recebidos os mantimentos , denunciou a to- 
dos os Capitães a tenção d'E!Rey D. Ma- 
nuel fobre. aquella ida lua, que era mandar- 
lhe que naquella Cidade Dio fizeíTe huma 
fortaleza ; e quando Melique Az lho não 
quizeííe dar lugar pêra iíTo 5 que então a 
tomaíTe elie per força de armas , polo mui- 
to que importava ao eflado da índia fer fei- 
ta naquelle lugar, por evitar fer aquella Ci- 
dade Dio huma acolheita de quantos Tur- 
cos , Arábios , e Rumes hiam áquellas par- 
tes. E porque além de EIRey D.. Manuel 
encommendar a elle Diogo Lopes , que tra- 
balhafíe muito per todolos modos que a 
fortaleza lèfizefle ante per vontade d'ElRey 
de Cambaya , e de Melique Az, que per 
força de armas , e o Mouro Camallo por 
parte do mefmo Melique Az (como ora dif* 
femos) lhe dizia que mandaffe alguma pe£- 

103 



478 ÁSIA de JoÃo de Barros 

foa a EIRey de Cambaya , por quão facil- 
mente havia de conceder naquella fortaleza , 
e que bailava mandar a iflo hum Capitão 
com alguma gente 5 e munições , pêra em 
vindo o recado fe poerem logo mãos á obra , 
aíTentou Diogo Lopes no confelho que teve 
com os Capitães de mandar diante D. Alei- 
xo com té vinte véiás entre grandes , e pe- 
quenas , pêra tentar a tenção de Melique Az , 
quaíi pelo modo que o elle mandara acon- 
felhar per feu criado Camallo , por moílrar 
que naquelle negocio em tudo queria feguir 
feu confelho. Porque quando elle Diogo Lo- 
pes chegaífe o poder mais culpar fe fizef- 
fe o contrario do que aconfelhava ; e que a 
voz da outra frota, que com elle ficava , fe- 
ria que era pêra Ormuz , por elle com gran- 
de inítancia fer chamado por EIRey , que 
lhe foffe dar vingança d'ElRey Mocrim , 
que por clh governava a Ilha Baharem , o 
qual eílava meio levantado , e não lhe queria 
acudir com os rendimentos. E poriílo paf- 
far aílí em verdade do levantamento deite 
Mouro , e requerimento d'ElRey de Ormuz , 
e fer já fabido em Cambaya pola vizinhan- 
ça, e communicaçao que hum Reyno tem 
com outro , podia-fe bem diffimular o mais 
que elle hia fazer. E querendo elle Diogo 
Lopes mandar o Mouro Camallo em compa-* 
nhia de D. Aleixo , não foi achado , e fou- 

be 



Década III. Liv.IV.Cap. VIII. 479 

be que á íua partida de Goa com toda a 
frota fogíra em huma fufta ; o que deo má 
fufpeita a Diogo Lopes , parecendo-lhe que 
não refpondiam fuás palavras , e confelhos 
com o adio da fogida. Finalmente elle fe 
partio dalli com toda fua frota ; e tanto que 
foi na paragem da ponta de Damão . don- 
de fe pode atra vedar de lagar mais perto a 
enfeada de Cambaya pêra Dio , efpedio Dom 
Aleixo , ficando Diogo Lopes com toda a 
mais frota hum pouco de vagar por dar 
efpaço ao que D. Aleixo havia de fazer. 
Mas como seitas coufas fempre fe acha hu- 
ma pouca de inveja , dizem que partido Dom 
Aleixo , não faleceo quem fizeííe crer a Dio- 
go Lopes que não convinha muito a fua hon- 
ra mandallo diante. Porque fe era verdade 
o que Diogo Lopes dizia, que lheMelique 
Az mandava dizer quão facilmente fe podia 
impetrar aquella licença d'ElRey de Cam- 
baya ; per ventura pitaria efta matéria tão 
difpoíía na vontade d 5 E!Rey , e delle Meli- 
que Az , que em elle vendo D. Aleixo com 
aquella frota , ou por vontade d'ElRey 5 e 
delle Melique Az , que em elle vendo Dom 
Aleixo com aquella frota, ou por vontade, 
ou por temor acabaria logo tudo de manei- 
ra 3 que quando elle Diogo Lopes chegaf- 
fe , iria (como diziam ) ao atar das feridas , 
e ficaria D. Aleixo com a honra daquelle 

fei- 



480 ÁSIA de João de Barros 

feiro. Diogo Lopes como lhe tocaram nefta 
parte da honra do cafo , parece que o re- 
anoveo de maneira , que não lhe levou Dom 
Aleixo mais que hum dia fomente. No qual 
dia não era mais feito , (por Melique Az 
não fer na Cidade ,) que terem entrado den- 
tro nella Pêro Lourenço de Mello Capitão 
de huma náo , e Jorge Dias Cabral 3 hum 
cavalleiro que andara muito tempo em Itá- 
lia nas guerras de Nápoles com o grão Ca- 
pitão Gonçalo Fernandes , donde trouxe 
honrado nome de feitos que lá fez , aos quaes 
Diogo Lopes encommendou , que tanto que 
D. Aleixo chegaífe , em habito de mari- 
nheiros foflem dentro á Cidade, como que 
hiam pedir algum mantimento ao Feitor Fer- 
não Martins , e que notaífem bem a entra- 
da do rio , e do modo que Melique Az ti- 
nha provida a defensão da Cidade. 



CA- 



Década III. Liv. IV. 48r 

CAPITULO IX. 

■Como Diogo Lopes de Sequeira com fua 
frota chegou fobre a Cidade Dio y onde não 
fez fortaleza , e a caufa porque ; e coma 
foi invernar a Ormuz , efpedindo os Ca- 
pitães que hiam ordenados pêra as par- 
tes de Malaca , os quaes foram em com- 
panhia de D. Aleixo de Menezes > que os 
havia de defpachar em Cochij. 

CHegado Diogo Lopes ante o porto da 
Cidade Dio cm nove de Fevereiro do 
anno de quinhentos e vinte e hum , achou 
o negocio a que elle hia bem differcnte do 
que cuidava ; e em duas coufas logo notou 
fer falíb quanto lhe Melique Az mandava 
dizer da facilidade do cafo. A primeira , 
porque o não achou na Cidade , e fegundo 
lhe contaram Pêro Lourenço , e Jorge Dias, 
que o fouberam de Fernão Martins , elle era 
ido á Corte d'EiRey de Cambaya; e poílo 
que lançou fama que EÍRey o mandara cha- 
mar , a elle Fernão Martins parecia o con- 
trario. Porque quanto elle pode alcançar da 
fua ida , ella fora a impedir a vontade d'El- 
Rey de Cambaya , que em nenhuma manei- 
ra déíle palavra pêra fe fazer a x fortaleza , 
fe elle Diogo Lopes lá mandaíle com efte 
requerimento alguma peflba. Cá eíta fua ida 
Tom.IILP.L- ^Hh fora 



482 ÁSIA de João de Bakkos 

fora depois que foubera 5 que elle Diogo Lo- 
pes partira cora aquella grande frota , e que 
o Mouro Camallo 5 que lá andava neftes en- 
ganos , havia poucos dias que chegara 5 e 
logo fe partira em bufca delle ; e polo que 
elle contou a Melique Saca feu filho que alli 
eílava , e a feus Capitães , a Cidade ardia 
afií no mar, como na terra 3 provendo toda 
parte per onde podia ler entrada. Afegunda 
coufa , em que também Diogo Lopes no- 
tou que não o queriam hoípedar neíla ? foi , 
que lhe diííe D. Aleixo que no dia de fua 
chegada 5 e depois no feguinte , o porto da 
Cidade eílava deípejadô , e aberto pêra fa- 
hir , e entrar, e a manha que elle Diogo 
Lopes apparecêra ao mar , logo fe atravef- 
fára a cadea que vio , e as náos que eíla- 
vam junto delia. E mais , que mandando el- 
le chamar aquelle dia Fernão Martins pêra 
praticar com elle as coufas que lhe manda- 
ra y não viera , e que lhe dera a entender 
per hum recado , que lhe mandara de efcufa , 
que eílava quaíi reteudo fem oufar commet- 
ter o caminho , por não defcubrir a vonta- 
de dos Mouros , té que elle Diogo Lopes 
vieífe , porque vendo ília peíToa diante , to- 
mariam melhor confelho. Havida eíta primei- 
ra noticia das coufas da Cidade no dia que 
Diogo Lopes chegou , não teve nelle tempo 
pêra mais > que mandar ancorar as náos, 

ga- 



Década III. Liv. IV. Cap. IX, 483 

galeões , e galés nos lugares que convinham , 
íegundo a ordem que já pêra iíío tinha dado 
aos Capitães. E primeiro que algum recado 
mandate a Melique Saca , filho de Melique 
Az , quiz tomar alguma mais informação de 
como a Cidade eftava provida, e achou que 
com Melique Saca ficaram eílas três peíToas , 
per cujo conlelho fe haviam de fazer, e or- 
denar todalas coufas affi da paz 9 como da 
guerra. Hum dos quaes era o Capitão prin- 
cipal de Melique Az chamado Maga Maha- 
med , Tártaro de nação , e parente feu ; o 
outro havia nome Sufo Turco, Capitão da 
fua Armada ; e o terceiro chamado Sedalim , 
que fervia de Capitão mor delia , os quaes 
eram homens de que tinha muita experiên- 
cia de feu faber, e cavalleria. E além deitas 
três cabeças ficava a gente da terra , de que 
a Cidade eftava atulhada , e mais muita gen- 
te eftrangeira de Arábios , Parfeos , Turcos , 
e muitos arrenegados de varias nações, del- 
les a foldo , e outros que eram vindos a feus 
tratos de mercadoria em náos , que alli es- 
tavam. E de hum baluarte que eílava no 
meio do rio , que era á entrada do porto 
da Cidade , atraveífava huma groífa cadea 
de ferro, enroladas nelía amarras de cairo, 
por o ferro não desfazer huns barcos , fo- 
bre que ella fe foftinha naquelle grande váo 
do canal que havia entre o baluarte , e a 
Hh ii ter- 



4S4 ÁSIA de João de Barros 

terra onde ella eftava preza. E junto delia 
nomeio deite canal eftavam três náos gran- 
des carregadas de pedra com rombos dados , 
pêra ao tempo da neceíFidade as encherem 
de agua , e as calarem no fundo , com que 
o canal fícaííe de todo atupido. Ealém def- 
tas náos eílava toda a fuftalha que Melique 
Az fenhor da Cidade tinha preftes, que fe- 
riam té cento e oitenta peças , a fora muitas 
náos de carga fuás , e dos mercadores que 
aíli eram vindos , as quaes náos elie tinha 
arèftado pêra efta defensão. E ainda pêra im- 
pedir mais aquella paíTagem , tinha feito hu- 
ma eftacada de grofía , e efpeíTa madeira ? 
aíli ordenada , que parecia a quem entrava 
per ella entrar per as torturas que contam 
do labyrintho. Tinha mais feita outra obra 
derredor do baluarte , que eftava no meio 
do rio , que era muita pedra groíía quaíi 
penedos lançada derredor deile á maneira de 
recife , porque não pudeííem a9 noiTas galés 
pela banda de fora abalroar com elle. As 
quaes pedras fe naquelle tempo nos impedi- 
ram entrar na Cidade , depois no anno de 
quinhentos e trinta e oito nos aproveitaram 
muito , quando Soleimao Baííá Capitão do 
Turco veio febre efta Cidade á inftancia de 
Soltáo Badur Rey de Cambaya em ódio nof- 
fo , tendo nós já feito nella fortaleza , de 
que era Capitão António da Silveira de Me- 

ne- 



Década IIL Liv. IV. Cap. IX. 48? 

nezes , como fe verá em feu tempo. Entre 
o qual baluarte , e a terra firme fronteira 
á Cidade , onde eftá a povoação a que cha- 
ma mos dos Rumes , (legundo fica atrás na 
defcripçãq que fizemos do íltio deíla Cida- 
de , ) era aquelle lugar tão aparcelado , e 
baixo , que não podia per aili paíTar hum 
navio por leve , e rafo que foífe. Final- 
mente , no mar , na terra , e per todo o 
muro eram artifícios , e artilheria , como 
que os noíTos eram aves que haviam de 
fubir pela agrura da penedia , fobre que o 
muro eílava feito , naquella parte do mar , 
per que os noííos podiam ter alguma fubi- 
da. Diogo Lopes vendo que a entrada da- 
quella Cidade eílava mui diíTerente do que 
elle cuidava, e que com a ida deMelique 
Az ficavam fuás prometias desfeitas , man- 
dou chamar Fernão Martins Evangelho , que 
já eílava com mais liberdade , do que teve 
na chegada de D. Aleixo , do qual teve ain- 
da mais particular informação da força , e 
defensões , que a Cidade tinha., E primeiro 
que paílaife mais tempo , depois que entre 
elle , e Melique Saca houve viíltações , man- 
dou-lhe dizer , como elle hia caminho de 
Ormuz ao negocio que lhe Fernão Martins 
diria ; e que por não perder tempo , e feu 
pai lhe mandar muitos recados per Camal- 
lo feu meífageiro fobre a fortaleza que alli 

que- 



4#6 ÁSIA de João de Barros 

queria fazer , em que elle Melique Saca já 
citaria mui prático , por haver tanto tempo 
que fe niííb tratava , folgaria que lhe man- 
daífe dizer o lugar que feu pai pêra iflb que- 
ria dar , porque elle vinha apercebido de 
munições , officiaes , e gente pêra tudo o que 
áquella obra havia miíter. Emais, que co- 
mo elle fabia , os Portuguezes em poucos 
dias punham huma fortaleza em pé ? e iíto 
quando tomavam a peito de a fazer, como 
fizeram outras que tinham feitas na índia. 
Melique Saca como de feu pai ficara inf- 
truílo do que havia de refponder a elle Dio- 
go Lopes íè alli vieíTe com tal requerimen- 
to 5 e mais tinha á ilharga os três meftres 
que diífemos , refpondeo , que por elle Fer- 
não Martins fua Senhoria podia faber como 
feu pai fora chamado d'ElRey de Cambaya , 
e que havia poucos dias que lhe efcrevêra ; 
que huma das coufas que o ainda lá deti- 
nha , era eftar efperando que elle fenhor Go- 
vernador mandaíTe alguma peífoa a ElRey , 
como lhe muitas vezes tinha mandado di- 
zer , porque em quanto elle Melique Az lá 
eftivefte , com íèus amigos podia aproveitar 
muito neíle negocio. E pois feu pai eíiava 
efperando que elle fenhor Capitão mor man- 
daíTe alguém a eíle negocio , que o devia 
logo fazer , por nãò perder tempo , como 
elle dizia j e que elle Melique Saca daria avia- 

men- 



Década III. Liv. IV. Cap. IX. 487 

mento a fua partida pêra em breve ir 5 evir 
com recado , porque elle não tinha outro de 
feu pai , e por fer filho não podia tomar mais 
licença por haver a benção delle , que quanta 
lhe dera \ e que ainda que em mais elle qui- 
zeííc fervir fua Senhoria , tinha as mãos ata^ 
das per três velhos que feu pai leixára em 
guarda daquella Cidade. Que pêra qualquer 
outra coufa de mantimentos , e provisão pêra 
aquella Armada , a Cidade eííava tão abaíh- 
da delles, que niíTo lhe faria pouco ferviço. 
E além deitas palavras , que eram a força 
de fua refpoíla , diífe outras a Fernão Mar- 
tins 5 que também- tinham outro entendimen- 
to , ao modo das que lhe Diogo Lopes man- 
dou dizer , quaíi que não lhe havia de cuf- 
tar a entrada na Cidade tão barato , como 
cuftáram as outras , em que elle dizia que 
os Portuguezes tinham feito fortaleza. Dio- 
go Lopes com efta refpofta de Melique Saca 
teve logo confelho com os Capitães , dian- 
te dos quaes elle quiz que Fernão Martins 
diíTeííe o que lhe parecia de Melique Saca , 
c aíli da força que a Cidade tinha , e fe era 
coufa que fe devia commetter. E aíli per el- 
le , como per Pêro Lourenço , e Jorge Dias 
foi dito , que pêra commetter a Cidade per 
alguns lugares que parecia poder-fe entrar, 
havia mifter mais de dez mil homens , e com 
menos era coufa impoífivel. Diogo Lopes % 

de- 



488 ÁSIA de João de Barros 

depois que ouvio a prática que fe teve íb* 
frre o tomar a Cidade per força de armas , 
como houve rnui diíFerentes votos , não quiz 
tomar final conclusão fem primeiro mandar 
mais alguns recados a Melique Saca 3 fem 
lhe dar a entender que o entendia , pêra en- 
tre tanto examinar efte cafo. O qual exame 
foi pedir elle a alguns Capitães , e Fidalgos 
principaes que em habito de marinheiros fof- 
íem á feitoria , como que hiam bufcar algu^ 
ma provisão , e notaíTem bem tudo , pêra de 
vifta poderem dar feu voto naquelle cafo. 
E porque no cabo da Cidade , que eftava 
rnais ao mar fobre a entrada do rio 5 efta^ 
ya hum lanço de muro . que não era ma^ 
çiço como o outro que eftava feito na pe^ 
na viva , e efte dizia João de la Camará Con-- 
deílabre mor que daria em duas horas com 
elle em terra , foi elle Diogo Lopes em hum 
batel com o Condeftabre , e alguns Fidal- 
gos ver eíle lugar , e fe era coufa poííivel 
o que elle dizia. A qual vifta não aprovei- 
tou pêra mais , que pêra depois > como em 
lugar de fufpeita , fazer Melique Az hum ba- 
luarte mui forte , que fegurou aquella par- 
te , ao qual ora chamam o baluarte de Dio- 
go Lopes , por elle com efta vifta íer caufa 
de fe fazer. Feitas todas eftas diligencias, 
e elle Diogo Lopes eftar deíènganado de 
Melique Saca ? por recados que foram 5 e 

yiç* 






Década IIL Liv. IV. Cav. IX. 489 

vieram, dizendo elle que não podia naquel- 
le caio mais fazer , que dar aviamento ao 
Embaixador, que elle podia mandar a El- 
Rey de Cambaya fe quizeífe , teve Diogo 
Lopes outra vez confelho fobre a determi- 
nação daquelle calo ; e a conclusão delle acer- 
ca dos mais , foi, que não era coufa pêra com- 
metter tomar aqueila Cidade a efcala vifta. 
E porque toda a gente da Armada eílava 
com grande alvoroço da vifta do muro , que 
Diogo Lopes foi ver, per onde João dela 
Camará dizia que daria com elle em terra > 
houve por toda a Armada rumor que por 
alíi haviam de commetter. Peró quando ao 
outro dia fe dííTe que não fe havia de com- 
bater a Cidade , foi a trifteza tão grande na 
gente de armas , e tanta a murmuração con- 
jtra Diogo Lopes , que não faleceo coufa que 
lhe não levantaífem; c a caufa difto foram 
duas coufas. A primeira , que em dous , ou 
ires dias , que andaram aquelles tratos per 
meio de Fernão Martins entre elle Diogo 
Lopes , e Melique Saca, temendo Fernão 
Martins pelo que fentia em elle Diogo Lo- 
pes que a Cidade foífe commettida, e que 
fe podia perder huma íbmma de dinheiro , 
que elle tinha feito na fazenda d'ElRey , que 
alli feitorizava , e em que com algum feu , 
e doEfcrivão de feu cargo podia fer té trin- 
ta mil cruzados ; huma noite yeio com cU 

ies 



490 ÁSIA de JoÂo de Bakros 

les a náo de Diogo Lopes aos pôr em co- 
bro , e elle os mandou entregar a Baítião 
Rodrigues Lagues de alcunha , da qual cou- 
fa fe logo affirmou fer aquillo peita, • E a 
outra coufa , porque a mais da gente de ar- 
mas julgava mal Diogo Lopes, foi, que mui- 
tos dos Capitães , que no confelho palia- 
do votavam que lhe não parecia ferviço de 
Deos, nem d'ElRey D. Manuel , cornmette- 
rem aquella Cidade á elcala vifta , cites mef- 
rnos por fora , cada hum na fua náo de que 
era Capitão , por fe congraçar com a gen- 
te delia , e habilitar faa peíloa , diziam fer 
a mais malfeita coufa que podia fer não 
commetterem aquella Cidade , e que feu 
voto não fora outro , com outras mil cou- 
fas deíla qualidade. Diogo Lopes tanto que 
foube o que eítes Capitães diziam , tornou 
outra vez aos ajuntar, como que fe queria 
ratificar em feu parecer ; e mandou ao Se- 
cretario que tomafle o voto de cada hum 
per efcrito , e os fez aílinar. E com tudo 
nefte cafo de Diogo Lopes mais verdadei- 
ramente fe pode dizer eítar a culpa em ou- 
tras duas coufas , que nelle. Huma foi , ter 
Diogo Fernandes de Beja hum Alvará d'El- 
Rey D. Manuel , que levou deite Reyno , 
per que lhe fazia mercê da fortaleza, que 
fe fizeífe alli em Dio ; e outra , haver mais 
de vinte Capitães que eítavam todos orde- 
na- 






Década III. Liv. IV. Cap. IX. 491 

nados pêra fazer fuás viagens de mais feu 
proveito , que ir tomar experiência da pól- 
vora das bombardas de Melique Az fe ti- 
nha muito , ou pouco faiitre \ e quaes eftes 
foram , adiante na eípedida delles fe verá. 
Aífi que tendo todos mais refpeito á con- 
ta que cada hum fazia de feu proveito , que 
á honra que Diogo Lopes ganhava naquel- 
le feito , os mais delíes alfináram o que 
d'antes tinham dito. E as caufas que hou- 
ve pêra fe refolverem todos no que tinham 
votado, foram: que naquelle negocio não 
fe havia de ter tanto refguardo ao perigo 
das bombardas , e artifícios , com que Me- 
lique Az tinha provido aquelia Cidade , e 
número de gente , com que elle efperava 
de a defender , como Capitães que era del- 
ia ; quanto refpeito convinha que fe tiveífe 
a EIRey de Cambaya , que era fenhor del- 
ia. O qual fe haveria por muito offendido 
naquella força , que lhe foífe feita ; e não 
havia mais miíler pêra começarem abrir hu- 
ma guerra de novo , que era a coufa que 
EIRey mais defendia a todolos Governado- 
res. E pois EIRey nas cartas que aquelle 
anno efcrevia , encommendava a elle Dio- 
go Lopes , que primeiro tentaífe todolos 
meios , e que o derradeiro foííe commetter a 
Cidade , e ifto ainda com grandes cautelas íò- 
bre o rifco da gente , o qual todos viam 

eítar 



49^ ÁSIA de João de Barros 

pitar ante os olhos , devia-íè primeiro ten-í 
tar efte modo , em que Melique Az tantas 
vezes repetia , que era mandar alguma pef- 
foa a EIRey. E quando efte feu confelho 
folie falfo, então tempo ficava pêra lhe fa- 
zerem a guerra ; porque depois das pazes 
que tinham feitas , em que então citavam , 
erros linha elle Melique Az çommettido 
em tempo de Lopo Soares com fuás furtas : 
donde fe podia tomar a caufa de lhe tazer 
a guerra , e aííi do recolhimento que não 
havia de dar ao? Turcos, e Rumes, como 
.ficara aíTentado peio Vifo-Rey D. Francif- 
co d 5 Almeida : quanto mais que bailava 
quanta mentira nefte cafo tinha dito. E en- 
tre tanto devia ficar fobre aquelle porto Dio- 
go Fernandes de Beja, (que era o noivo ,- 
que havia de fer defpofado com a fortale- 
za , ) com algumas velas efperando o reca- 
do cPElRey \ e vindo mandado que havia 
por bem que fe fizeífe , começaria logo abrir 
alicerces, em quanto levavam recado a elle 
Diogo Lopes a Ormuz. E quando folie o 
contrario , elle mefino podia logo denunciar 
a guerra , não leixando entrar, nem fahir 
hum barco ; e efte era o maior damno qua 
lhe podiam fazer , pôr-lhe a mão na gar- 
ganta per onde elle recebia vida ; e depois 
que elle Diogo Lopes tornafte de Ormuz , 
então lhe ficava lugar pêra o mais que o 

tem* 



Década III. Liv. IV, Cap. IX. 493 

tempo défle de ÍL Tanto que Diogo Lo- 
pes ficou fatisfeito dos Capitães perefle mo- 
do , não houve mais que dizer , fomente 
diffimular elle com Melique Saca , e man- 
da r-lhe dizer , que naqiielle caio da forta- 
leza que alli queria fazer , fempre elle , e 
os Governadores paílados fe quizèium con- 
formar com o parecer , e vontade de íèit 
pai : e pois a elle lhe parecia bom confe- 
jho o recado que elle Diogo Lopes devia 
mandar a EIRey , que afli o queria fazer» 
Que lhe pedia, que a Ruy Fernandes, que 
elle alli leixava com o Feitor Fernão Mar- 
tins Evangelho, pêra ir a EIRey de Cam- 
baya com feu recado , lhe mandaíTe logo 
dar aviamento pêra iíío. E que em quanto 
elle fofle , leixava Diogo Fernandes de Be- 
ja com alguns navios , e munições , pêra , 
tanto que viefle recado , começar logo poer 
mãos á obra : que elle lho encommendava 
que lhe fizeífe bom gazalhado , porque ha- 
via de ficar alli porhofpede alguns dias na 
fortaleza. Melique Saca ouvida efta deter- 
minação de Diogo Lopes , como homem 
defabafado daquella Armada , que lhe tinha 
pofto a mão na vida , não teve que dizer 
a Diogo Lopes , fenão mandar-lhe louvar 
tão bom confelho , e fazer grandes promet- 
ias de fi acerca do aviamento do homem, 
que queria mandar, dando o negocio por 

acar 



494 ÁSIA de JoÃo de Barros 

acabado por parte de feu pai em eftar lá? 
e afli a diligencia que fe daria ao que Dio- 
go Fernandes houveíTe mifter , tanto que 
viefle recado. Finalmente, poftas eílas cou- 
fas em eíFeito, Diogo Lopes entregou Ruy 
Fernandes ao Feitor Fernão Martins que o 
proveíTe do necefíario pêra aquella jornada , 
e leixou Diogo Fernandes naquelle porto 
em huma náo , e com cile Nuno Fernandes 
de Macedo em hum navio , e feu irmão 
Manuel de Macedo em outro com o re- 
gimento do que haviam de fazer. E efpedio 
todos os Capitães que faiam ordenados pê- 
ra vir com as nãos que deftelleyno foram 
pêra trazerem a carga da pimenta , e aíli os 
ordenados pêra as partes de Malaca , e ou- 
tros que tinham náos , e navios , que haviam 
mifter corregimento , aosquaes mandou que 
fe foífem a Cochij com D. Aleixo , ao qual 
deo todos os poderes que elle tinha de Go- 
vernador pêra prover neftas coufas , e em 
todos os negócios daqueílas partes em quan- 
to elle Diogo Lopes hia a invernar a Or- 
muz. E por quanto elle efperava tornar al- 
li fobre Dio acabar de rematar as coufas 
daquella fortaleza , ou fazer outra em Ma- 
defadar cinco léguas de Dio , onde elle já 
tinha mandado António Corrêa , e o Pilo- 
to mor João de Coimbra ver o íitio , e dif- 
polirão do lugar j mandou elle a D. Alei- 
xo 






Década III. Liv. IV. Cap, IX, 49$ 

xo que foíle alli naquellc tempo com quan- 
tos navios, e gente pudeííe ajuntar. E man- 
dou também dalli Fernão Camelo , que já 
eílivera por Feitor em Chaul , que da fua 
parte folie ao Nizamaluco hum dos princi- 
paes Capitães do Reyno Decan , que era 
fenlior daquella Cidade , pedir-lbe licença 
pêra alli fazer huir.a fortaleza, porque feu 
fundamento delle Diogo Lopes era eílar 
também provido per efta parte ; que quan- 
do o negocio da fortaleza de Dio , ou Ma- 
defadar não fuecedeflem bem, ter lugar pê- 
ra iflb neíta Cidade Chaul ? onde noffas cou- 
fas eram bem recebidas. E mais fabia elle 
Diogo Lopes que o Nizamaluco defejava 
ter alli efta fortaleza noíTa , por cauíà do 
grande intereíTe que lhe diííb vinha , e de 
outros fundamentos que elle fazia ; de que 
adiante daremos conta. Donde procedia con- 
fentir elle pagarem os moradores da Cida- 
de dous mil pardaos de páreas , que lhe o 
Vifo-Rey D. Francifco d 5 Almeida poz , era 
penitencia de não ferem em ajuda de feu 
filho D. Lourenço quando os Rumes pele- 
jaram com elle , e foi morto polo modo 
que atrás fica , e também EIRey D. Manuel 
encommendava a elle Diogo Lopes que ten-* 
taíle efte Nizamaluco defta licença. Final- 
mente acabadas eílas coufas , Diogo Lopes 
fe partio pêra Ormuz P e Diogo Fernandes 

ficou 



496 ÁSIA de João de Barros 

ficou íobre Dio , e D. Aleixo fez fua via- 
gem caminho da índia com toda a mais : 
frota , com o qual nós iremos hum pouco 
de tempo j por dar razão do que fizeram: 
tantos Capitães como hiam ordenados pê- 
ra aqueílas partes de Malaca. 

CAPITULO X. 

Do que aconteceu a Simão Sodré ao lon- 
go da cojia caminho de Goa , e houvera de 
acontecer a D. João de Lima que fe com 
elle achou : e do defpacho que D. Aleixo 
cie o , depois que chegou a Cochij , aos Capi- 
tães 3 que levava em fua companhia. 

COmo em companhia de D. Aleixo hiam 
velas diíFerentes , que eram náos , ga- 
leões , fuftas , c catures \ húns haviam miíler 
huma navegação , e outros outra. As náos , 
e galeões , por ferem de grande porte , to- 
mavam o golfão do mar por atraveílarem 
mais cedo á índia ; e as outras velas de re- 
mo , ' que eram pequenas vafilhas , feguiam 
a coita da terra , que foi caufa de efta fro- 
ta ir hum pouco derramada, E também co- 
mo muitos hiam defeontentes daquella via- 
gem , de que levavam as mãos vazias 5 e 
íèmpre ao longo da cofia fe achava algum 
navio de Mouros > que de hum porto ao 
outro furtados de nós andavam fazendo luas 

com- 



Década IIL Liv. IV. Caí. X. 497 

commutaçóes , e aíli havia alguns ladroes, 
que os noflbs fabiam andarem alli ao falto , 
e fe acolhiam a cerras guaridas , com efta 
tenção alguns fe leixavam efquecer da com- 
panhia dos outros , e outros não podiam 
mais andar. E peró que neíte caminho al- 
guns tiveram que contar delíe , tomamos nós 
fomente hum cafo, que aconteceo a huma 
fufta , de que era Capitão Simão Sodré , e 
o que houvera de acontecer a D. João de 
Lima em hum bargantim , por razão do que 
elle paliou na barra deDio com Diogo Lo- 
pes de Sequeira, de quem elle hia aggrava- 
do , e o cafo foi elle. Como os homens no- 
bres nos lugares de honra , como era com- 
metter o combate da Cidade Dio , todos fe 
querem moftrar , trabalhava cada hum de to- 
mar bom pofto. D. João de Lima , porque 
naquella jornada hia por Capitão de hum 
galeão , que era das melhores peças de to- 
da a frota , e por as qualidades de fua pef- 
foa pertencia-Ihe aquelle pofto que elle to- 
mou , o qual era no meio do canal junto , 
onde a cadea de ferro que diífemos eftava 
atraveífada : veio d'outra parte Chriftovão 
Corrêa filho de Chriftovão Corrêa Commen- 
dador dos Colos com outro galeão peque- 
no , e com o mefmo defejo de ganhar hon- 
ra , como mancebo, e novo no officio de 
Capitão . 7 femterrefguardodeD.João, pa£ 
Tom. Ill P.L li fou- 



49^ ÁSIA de João de Barros 

fou-fe diante delle. Gonçalo de Loulé, (de 
que atrás fizemos menção , ) fendo homem 
que (fegundo diziam ) de mareante viera a 
eftado de Capitão de hum navio , não ten- 
do refpeito a quem elles eram , perpaílou 
per ambos , e vai-íé por diante de Chriílovao 
Corrêa junto com huma lagea contra a Ci- 
dade. Donde D.João de Lima, quando vio 
Gonçalo de Loulé naquelle lugar , ainda que 
folgou polo que Chriílovao Corrêa lhe fez , 
levantou-fe do poufo em que eftava , e foi- 
fe pôr diante cie Gonçalo de Loulé; e co- 
mo o galeão demandava muita agua , e Dom 
João com a indignação que tinha fazia com 
o meftre delle que fofíe mais avante , foi dar 
com elle quafi íòbre a lagea , em que fe hou- 
vera de perder , fe lhe logo não acudiram 
muitos batéis. No qual cafo houve tirar com 
huma bombarda do mefmo galeão que lhe 
acudiífem ; e foi tanta a revolta em toda a 
Armada , que cuidavam todos que começava 
já o galeão dar bateria á Cidade. Também 
os Mouros acudiram acima ao muro, que 
ficava fobre o galeão , e travou-fe huma 
união que acudio Diogo Lopes , parecendo- 
lhe fer outra coufa. E porque naquelle tem- 
po fe tratava entre elle , e Melique Saca o 
negocio da fortaleza , e houve da Cidade 
recados que x:oufa era aquella , como que 
fe aggravavam de fe romper a paz y eftanda 

em 



Década III. Liv. IV. Cap. X. 499 

em requerimento de fortaleza , pafíbu Dio- 
go Lopes palavras com D.João lbbreaquel- 
le defmancho j donde lhe tirou a capitania 
do galeão. Tanto polo feito , como porque 
D. João retorcido pêra os que citavam per 
derredor , diíTe que o Diogo Lopes , que 
havia de tomar Dio, ficava em Portugal, 
a qual palavra dizem que ouvio Diogo Lo- 
pes. E a peíToa , por quem D. João dizia 
aquilio, era por Diogo Lopes de Lima leu 
irmão , o qual tinha aquella capitania mor 
da Índia ; e a frota, que Diogo Lopes de 
Sequeira levou , pêra elle Diogo Lopes de 
Lima íe ordenava. Mas como a Corte dos 
Reys he cheia de muitas mudanças , foi Dio- 
go Lopes de Sequeira , e Diogo Lopes de 
Lima foi fatisfeito da mercê que lhe era feita 
a dinheiro de contado ; e per eíla maneira 
vem os Reys deípender mais em pagar in- 
júrias , que fazer honras. Paliada aquella pri- 
meira indignação, que Diogo Lopes de Se- 
queira teve, tornava depois a dar o galeão 
a D. João , mas elle o não quiz acceitar; 
e quando veio á partida pêra Goa em com- 
panhia da outra frota , não quiz irfenáo em 
.íum bargantimj ecomo homem deígoítpío 
.lia mui mal provido de remeiros , e íem 
lhe parecer que podia achar couía , que lhe 
impediíTe feu caminho. O qual fendo tanta 
avante como huma enfeada , que eftá além 

li ii de 



'5*00 ÁSIA de JoÃo de Barros 

de Dabul , foi dar de íiibito com huma fufc 
ta de Turcos , que eflavam em refguardo de 
huma náo , que fealli carregava de Adem, 
a qual era de hum Mouro arrenegado per 
nome A!!e Frange, que eftava em Dabul,, 
a quem como a noííb amigo Diogo Lopes 
tinha dado licença pêra poder navegar com 
aquella náo íuas mercadorias ; e poíto que 
tinha efte ieguro , como cauteloíb poz a fuf- 
ta em refguardo delia. E verdadeiramente 
fegundo D.João hia defcuidado , emal pro- 
vido pêra aquelle officio de lançadas , per 
ventura aíli acabaram feus defgoftos. Peró 
como Simão Sodré hia diante íèm D. João 
o faber , nelle empregaram os Turcos fua 
fúria , mettendo-íe com elle tão rijo no pri- 
meiro impeto , que lhe entraram a fufta , 
por todos irem tão defcuidados , e com as 
armas poftas em parte , que foi muito terem 
tempo pêra as veftir : tão fubitamente deram 
os Turcos nelles detrás de huma ponta , on- 
de os eftavam efperando, como gente que 
vigiava a cofta. Eram com Simão Sodré na- 
quella fufta Trilião d' Ataíde , filho baftardo 
de Álvaro d 5 Ataíde Senhor de Penacova , 
Paio Corrêa filho de Fr. Paio Corrêa Com- 
mendador da Ordem de S.João, JoãoCer- 
regeiro moço da Camará d'ElRey , João de 
Góes calado emCananor, e outros que fa- 
riam número de té quinze peíToas P os quaes 

de- 



Década III. Liv. IV. Cap. X. 5*01 

deram de íi tal conta , quemettêram os Tur- 
cos em fugida 5 porque viram elles vir Dom 
João de Lima em o feu bargantirn 5 e cui- 
daram ferem mais velas. Ainda que não fe 
haviam muito de gloriar deite commettimen- 
to , por irem bem feridos ; e dos noíTos os 
que ficaram mais frechados foram Simão 
Sodré , e Paio Corrêa. Vendo todos que a 
coita não eítava tãofegura, como elles cui- 
davam , ajuntáram-fe ambos , e foram a fal- 
vamento , como os outros daquella frota de 
D. Aleixo. O qual tanto que chegou a Co- 
chij , começou a entender em o defpacho 
das náos , que haviam de vir aquelle anno 
de quinhentos e vinte hum com a carga da 
efpeciaria pêra efte Reyno. E como acabou 
de as deípachar , entcndeo no aviamento das 
outras , que haviam de partir pêra as par- 
tes de Malaca ; e por ferem muitos Capi- 
tães ordenados pêra diíFerentes negócios , fa- 
remos huma pequena detença em tornar re- 
petir algumas coufas , que ficam atrás 9 por- 
que convém fer aífi pêra levarmos enfiada 
noífa hiítoria. Atrás efcrevemos como deite 
Reyno partira Jorge d 5 Alboquerque por Ca- 
pitão mor de toda a frota , que aquelle an- 
uo partio deite Reyno , o qual levava a ca- 
pitania de Malaca , onde já eítivera em tem- 
po de AfFonfo d'Alboquerque , e que em 
quanto nella não entraíte ; (porque a fervia 

Dio* 



502 ÁSIA de João de Babros 

Diogo Lopes d' Acoita 5 ) que pudefle fazer 
huma viagem á China. E como por razão 
de não paflar á índia , e invernar em Mo- 
çambique , e depois andar em companhia 
de Diogo Lopes de Sequeira , não houve 
lugar de ir fazer fua viagem ; nefte meio tem- 
po faleceo AfFonfo Lopes d'Acoíla , e fervia 
de Capitão de Malaca Garcia de Sá , que 
lá foi ter pelo modo que efçrevemos , de 
maneira, que eítava ella vaga pêra elle Jorge 
d\Alboquerque a poder logo fervir , fem pri- 
meiro ir á China. Por a qual razão ante que 
Diogo Lopes em Dio o efpediííe , mandou- 
lhe que levaffe hum Príncipe herdeiro do 
Reyno Pacem na Ilha Çamatra ; o qual fen- 
do elle Diogo Lopes no eftreito do mar Ro- 
xo , lhe viera pedir ajuda contra hum tyran- 
no , que lhe tomara o Reyno , encommen- 
dando-l.he muito que trabalhaííe por lançar 
o tyranno fora do Reyno , e metter o Prín- 
cipe em poffe deíle , por quanto fe fazia vaf- 
fallo d'ElRey D. Manuel , e o queria ter 
por fenhor. E acabado efte feito , no lugar 
de Pacem fizefíe huma fortaleza , na qual 
havia de ficar por Capitão mor António de 
Miranda d' Aze vedo com mais outros offi- 
ciaes , e gente ordenada a ella pêra fua de- 
fensão , e favor do Príncipe. E pêra iífo le- 
varia duas , ou três náos , além de outra 
companhia que té li o haviam de feguir, 



Década III. Liv. IV. Cap. X. 5*03 

pêra ferem naquelle feito de lançar o tyran- 
110 fora , e metter o Príncipe em poíle do 
feu. E a outra companhia que té li o haviam 
de feguir ; eram Cbriftovão de Menciona 
com três navios a defcabrir as Ilhas do Ou- 
ro , e com elle Pedro Eanes Francez , como 
também efcrevemos , e Rafael Pereftrcllo em 
huma náo pêra a China , e Bengala , e Ra- 
fael Catanho pêra Malaca , e ambos haviam 
de fazer em Pacem carga de pimenta. E aífi 
Diniz Fernandes de Mello com hum navio 
hia fazer huma viagem a Malaca, efe apro- 
veitar por fer homem de ferviço ; e Pêro 
Lourenço de Mello também em outra náo 
havia de fazer outra viagem pêra Bengala., 
depois de Rafael Pereftreíio. Todos eftes Ca- 
pitães mandava Diogo Lopes de Sequeira 
que parriffem juntos ; porque ainda que cada 
hum tinha leu lugar limitado a que hiam or- 
denados , podiam mui bem fer no feito de 
Pacem , fem perder tempo ; e mais os orde- 
nados pêra a China , e Bengala , por força 
haviam de ir tomar carga de pimenta , e de 
outras mercadorias em Pacem. Havia mais 
outro Capitão ordenado contra aquellas par- 
tes do Oriente , o qual era Jorge de Brito , 
que 5 (como também efcrevemos ? ) EiRejr 
mandava que com certas velas foííe fazer hu- 
ma fortaleza em Maluco , o qual aquelle an- 
no de quinhentos e vinte partira como Jorge 



5T04 ÁSIA de JoÃo de Barros 

cTAlboquerque por Capitão mor de toda a 
frota , que deite Reyno foi > e por a meíma 
caufa do negocio de Dio foi detido como 
os outros. Aífi que neíle anno podemos dizer 
que na índia fe acharam dous Capitães mo- 
res da carreira daqui pêra a índia , ambos 
ordenados pêra irem fora da índia , que jaz 
dentro do Gange , com outros muitos Ca- 
pitães a differentes negócios , e todos fe acha- 
ram juntos em o negocio de Dio , fern fazer 
jnais do que vimos , e todos defpachou Dom 
Aleixo, e o Doutor Pêro Nunes Veador da 
fazenda , os quaes levariam dezefete velas 
entre grandes , e pequenas , em que iriam 
jnil homens , dos quaes não tornaram á Ín- 
dia cento , e a efte Reyno vinte , todolos 
mais o mar , e aquellas barbaras terras gai- 
taram : da qual trifte Tragedia alguma re- 
lação faremos em fomma , porque defcer ao 
particular delia o animo entriftece , e a pen- 
na recea entrar. E porque todos fe foram 
ajuntar em a Ilha Çamatra , primeiro que 
entremos na relação dos feitos , faremos huma 
/digrefsão, dando conta delia. 



DE- 



DÉCADA TERCEIRA. 
LIVRO V: 

Dos Feitos, que os Portuguezes fizeram 
no defcubrimento y e conquifía das ter- 
ras y e mares do Oriente: em que fe 
contém parte das coufas , que fe 
nelle fizeram , em quanto Diogo 
Lopes de Sequeira gover- 
nou aquellas partes. 

CAPITULO I. 

Em que fe ãefcreve a fituaçao da Ilha 
Çamatra , e Reynos delia , e de algumas 
coufas que nella aconteceram aos nojfos : 
e a caufa por que o Príncipe do Reyno Pa- 
cem mandou d índia pedir ajuda ao Go- 
vernador contra hum tyranno , que lho ti* 
nha tomado. 

NO princípio do fexto Livro da íegun- 
da Década , efcre vendo da fundação , 
e princípio que teve a Cidade Ma- 
laca , diííemos a caufa por que fe engana- 
ram os antigos Geógrafos , chamando a eíla 
liha Çamatra, Cherfonefo. O lançamento 
da compridão delia jaz pela noíTa navega- 
rão per o rumo 7 a que os mareantes cha- 
mam 



£06 ÁSIA de João de Barros 

mam Noroefte , Sueíle , e tomada quarta do 
Sul , e terá duzentas e vinte léguas de compri- 
do , e de largo feflenta , ou íetenta na maior 
fua largura. A qual fica tão vizinha á ter- 
ra de Malaca , que no lugar mais eftreito 
do canal que ha entre ellas não fera mais 
que té doze léguas , quafi na fronteria da 
Cidade Malaca ; e dalli aíli pêra a parte 
do Levante , como Ponente , vai eíla terra 
da Ilha affaftando-fe da firme de maneira , 
que faz eftas duas entradas daquelle eftrei- 
to mais largo que no meio. E porém per 
todo elle tudo são baixos , reftingas , ilhe- 
tas com canaes , os quaes errados fe per- 
dem as náos qua per alli navegam : e da- 
qui (como atrás diífemos ) procedeo naquel- 
]e antigo tempo de Ptolomeu , e dos outros 
Geógrafos não fer aquelle traníito navegá- 
vel , como ora he , porque a cubica dos 
homens todolos atalhos bufca , ainda que 
perigo íbs y pêra confeguir feu intento. Fica 
eíla Ilha com a linha Equinocial , que a 
corta pelo meio em figura de huma afpa, 
donde a ponta mais Oriental eftá em íeis 
gráos da parte do Sul , e com eila vai vi- 
zinhar na terra da Jaiia , fazendo ambas 
hum eftreito per que antigamente fe na- 
vegava pêra aquellas partes Oricntaes ; e 
pôr efta parte ao prefente fica ella menos 
povoada y e em torno mui cheia de Ilhas y 

e bai- 



Década III. Liv. V. Cap. I. 507 

te baixos. E pela parte do Ponente , que efi- 

lá em quatro gráos e três quartos da ban- 
da do Norte , he mais limpa , principal- 
mente da banda de fora , mas muito mais 
povoada . por nella haver grande concurfo 
de navegantes , e a terra em fi ter muitas 
fortes de mercadoria. Geralmente per toda 
a fralda domar he terra alagadiça , e de 
grandes rios , e pelo fertao montuofa , on- 
de eílá hum lago , de que alguns delles pro- 
cedem. E como jaz de baixo da linha Equi- 
nocial , he a terra tão húmida com as aguas , 
e quente do Sol, que cria grandes arvore- 
dos , com que ella fica mui fumofa de tão 
groffos vapores , que ardendo o Sol per ci- 
ma delia , não tem força pêra os gaílar, 
nem os ventos livre entrada pêra os lançar 
daquelles lugares fombrios da efpeífura do 
arvoredo , que a fazem doentia , principal- 
mente aos eftrangeiros. Além da muita quan- 
tidade de ouro que nella ha ? também fe 
acha muita cópia de eftanho , ferro , e al- 
gum cobre , falitre , enxofre , tintas de mi- 
nas , e huma fonte de que mana óleo , a 
que chamam napta em o Reyno de Pacem , 
e no meio tem hum monte como o cha- 
mado Ethna em a Ilha Sicília , per que lan- 
ça fogo , a que os da terra chamam Bala- 
luam. Entre o grande , e diverfo número de 
arvores , e plantas que cria > delias de frui- 

tos 



5o8 ÁSIA de JoÁo de Barros 

tos de que agente commum fe mantém, e 
outras que a natureza deo pêra feu ornamen- 
to , tem as do fandalo branco , aguiia , bei- 
joim , e as que dam a cânfora , como a da 
Ilha Burneo , pofto que alguns digam que 
a daqui lie mais fina , e de outro género da 
que vemos que vem da China , que he com- 
pofiçao , e eftoutra he coufa natural de outra 
-efpecie. Das efpeciarias tem pimenta com- 
mum , pimenta longa , gengivre , canella ; 
e cria feda em tanta quantidade , que ha lií 
grande carregação pêra muitas partes da ín- 
dia. As feras , e bichas que cria he tanta a 
variedade delles , que falece nome a nós , 
e aos naturaes da terra pêra per elle po- 
der fazer a diíFerença que huns tem dos ou- 
tros. Os rios como são cabedaes , tem gran- 
de variedade de pefcado , e peixes ; e em 
alguns , aíli como no rio de Siaca , onde le 
■pefcam faves menores que os deílas partes y 
não lhes aproveitam mais que as ovas , e 
deílas ha maior carregação do que nós cá 
temos dos mefrnos faves. O geral mantimen- 
to da gente he milho , e arroz , e muitas 
fomentes , e fruitas agreftes do mato , por- 
que per razão do clima não pode crear 
•outras fementes , que venham com fruito ma- 
duro , como aqueilas de que nós ufamos. 
A terra he povoada de dous géneros de 
gente > Mouros, e Gentios, eítes são na- 

tu- 



Década III. Liv. V. Cap. I. 509 

turaes , e os outros no princípio foram es- 
trangeiros , que per via de coromercio co- 
meçaram povoar o marítimo , te que mul- 
tiplicando , de pouco mais de cento e cin- 
coenta annos a efta parte, íe vieram fazer 
fenhores , e intitular com nome de Reys. 
O Gentio, leixando o .marítimo , recolheo- 
fe pêra o interior da Ilha ; e o que vive 
naquella parte da Ilha , que cahe contra 
Malaca , he aquella geração a que elles 
chamam Bátâs , os quaes comem carne hu- 
mana , gente mais agrefte , e guerreira de 
toda a terra. Os que habitam a parte con- 
tra o Sul chamados Soturnas , são mais 
converfaveis ; e affi efte Gentio , como os 
Mouros que vivem pelas fraldas da Ilha que 
vizinham ornar, peró que huns dos outros 
differem na língua própria , quaíi todos fal- 
iam Malayo de Malaca por ler a mais 
commum daquellas partes. E aíli eíles co- 
mo os de dentro do íertao da Ilha , todos 
são baços , de cabello corrido , bem difpo£ 
tos , e de bom afpeito , e não do parecer 
dosjáos, fendo tão vizinhos, que he mui- 
to pêra notar em tão pequena diítancia va- 
riar-fe tanto a natureza. E principalmente 
chamando-fe per nome commum toda a gen- 
te deita Ilha Jaiiijs , por fe ter entre elles 
por caufa mui certa ferem já os Jáos fe- 
nhores defta grande Ilha - 7 e primeiro que 

OS 



5TO ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

cs Chijs ? tiveram o commercio delia , e 
da índia. E com eíla variedade tão nota- 
yel no afpeito do roftro , parece ficar veri- 
ficado o que já diííemos deita gente da Jaiia , 
não fer natural da terra que habitam 3 mas 
gente vinda das partes da China , por imi- 
tarem os Chijs no parecer , e na policia, 
e engenho de toda obra mecânica. Ante 
que conquiítaííemos a índia , as armas def- 
tes habitadores de Çamatra eram frechas 
de zervatanas hervadas , como os meímos 
Jáos uíam ; mas depois que tomámos Ma- 
laca , com a continuação da nofla guerra 
fe fizeram induílriofos em pelejar , e em to- 
do género de armas , té artilheria de ferro , 
e bronze , principalmente com alguma nof- 
fa , que houveram de náos , e navios , que 
alli foram ter , e com outros cafos de má 
fortuna , que alli tivemos ,. de que ao dian- 
te faremos relação. A terra das fraldas do 
marítimo deita grande Ilha , ao tempo que 
nós entrámos na índia , eítava repartida em 
vinte e nove Reynos ; mas como nós mu- 
dámos \todos aqueiles eítados Orientaes , fa- 
vorecendo huns , e fupprimindo a outros , 
fegundo recebiam noíías coufas , deites vin- 
te e nove que abaixo nomeamos , alguns 
eítam já encorporados no vizinho mais po- 
derofo. E começando da ponta da Ilha mais 
:0ccidental, eauítrah eindo rodeando-a. pe- 
la 



Década III. Liv. V. Caí. I. 5T1 

Ia parte do Norte , o primeiro fe chama 
Dáya ; e os que fe feguem , aíli como a 
coíla vai , são Lambrij , Achem , Biár , Pe- 
dir , Lide , Pirada , Pacem , Bára , Darú , 
Areat , Ircan , Rupat , Purij , Ciáca , Cam- 
par , Capocam , Àndraguerij í Jambij , Pa- 
limbam, Taná, Malayo , Sacampam , Tu- 
lumbavam , Andalóz" , Piriáman , Tico , 
Barros , Qu inchei , e Mancópa , que vem 
cahir fobre Lambrij , que he vizinho de 
Dáya , o primeiro que nomeámos. Dentro 
no fertão da Ilha , como he grande , ha 
muitos Príncipes , e fenhores , de que não 
temos noticia em particular , e por iíío tra- 
taremos fomente daquelies , com que tive- 
mos commercio , ou guerra i cujo eílado de 
alguns delles não tem mais que huma Ci- 
dade , de que fe intitulam por Reys ; e ou- 
tros tem ao prefente tanto poder , que nos 
tem cuftado fangue , como no decurfo dela- 
ta noíla hiítoria fe verá. De todos eíles Rey- 
nos o de Pedir foi o maior , e mais cele- 
brado naquellas partes , e ifío antes que Ma- 
laca foííe povoada. E a elle concorriam 
todalas náos , que hiam do Ponente , e vi- 
nham do Levante, como a empório, e fei- 
ra , onde fe achavam todalas mercadorias > 
por eíte Revno fer fenhor daquelle canal 
entre cita Ilha Çamatra , e a terra firme. 
Peró depois que Malaca fe fundou , e prin- 

ci- 



flt ÁSIA de João de Barros 

cipalmcnte com nofía entrada na índia , co- 
meçou creícer o Reyno de Pacem , e di- 
minuir efte de Pedir. E fendo o de Achem 
feu vizinho o fomenos em poder , ao pre- 
fente he o maior de todos , tanta variação 
tem os eftados , de que os homens fazem 
tanta conta; e quem a efte Reyno deo prin- 
cípio de fer o que ora he foi a chegada 
de Jorge de Brito, como logo veremos. O 
Reyno de Pacem, a que Jorge d'Alboquer- 
que hia a metter de pofle o Príncipe que 
diffemos , tinha hum novo coftume , e tai , 
que não era pêra alguém defejar fer Rey 
delle , porque o povo não lhe dava muito 
tempo vida. E de quão mal affortunado era 
o herdeiro defta herança , que o povo da- 
va a quem queria , tinha hum bem , que 
não fe concedeo a todo homem , que era 
faber a hora da fua morte ; e fe não era a 
hora , era o dia , e quando muito incerta , 
não fahia da femana. Porque como efta dou- 
cice , ou fúria faltava no povo , todos an- 
davam pelas ruas quaíl em modo de canti- 
ga : Ha de morrer EIRey , fem haver quem 
contrariaíTe efta voz , nem ella fazer nojo 
ás orelhas de alguém , fomente a EIRey, 
e a alguns feus privados, que logo como 
ouviam cantar efte canto de morte, reco- 
lhiam-fe com elle , e ás vezes juntamente 
pareciam. De maneira P que quando Fernãa 

Pe- 



Década III. Liv. V. Cap. I. 5*13 

Peres d 3 Andrade foi á China , e eíleve allí 
em Pacem fazendo carga de eípeciaria , ma- 
taram dous Reys , e não fe fez mais con- 
ta diíTo 3 nem houve mais rebuliço 3 e alvo- 
roço na Cidade como fe não fora morto 
hum Rey , que os governava , e levantado 
outro que elegiam pêra os governar. E tem 
elles pêra íi que eíle. feu coílume , ( o qual 
approvam por mui bom , ) que Deos o or- 
denou , dizendo que tão grande coufa co- 
mo he hum Rey, que governa na terra em 
lugar de Deos , não oufaria alguém de o 
matar 5 fe Deos o nao permittilfe ; e que 
quando o permitte he por elle ter taes pec- 
cados , que não merece fer Rey , e quer 
que o feja o matador. E por eíla caufa , 
como eíle matador he da linhagem real , 
tanto que mata o Rey , e fe aííenta em fua 
cadeira , e eftá nella hum dia aífentado pa- 
cificamente , he entre elles havido por legi- 
timo Rey. E ás vezes ha fobre eíle reinar 
tanta revolta $ que já aconteceo em hum 
dia fazerem três Reys , hum per morte do 
outro. E fabendo o Principe 3 que Jorge 
d'Alboquerque levava , eíle cruel coílume , 
he tão doce coufa reinar , que não fomente el- 
le 3 que não tinha idade pêra temer, mas 
outros de maior juizo , procuravam de ha- 
ver eíle Reyno. E o cafo que obrigou a 
eíle Principe ir á índia pedir foccorro nof- 
Tom.lILP.I. Kk lo, 



5*14 ÁSIA de JoÂo de Barros 

fo procedeo daqui» Atrás fica efcrito co- 
mo indo Affbnfo d 5 Alboquerque pêra to- 
mar Malaca, tomou* na cofta deita Ilha Ca- 
matra hum junco , a que os noííos chama- 
ram Bravo , pelo grande trabalho que lhes 
deo primeiro que o tomaííem , no qual jun- 
co hia hum Príncipe herdeiro do Reyno 
Pacem 5 por fe lhe levantar contra clle hum 
íeu tio , que era Governador delle ; e como 
Affbnfo (TAlboquerque , depois que foube 
fua fortuna , o levou comíigo a Malaca , 
dando-lhe efperança de o reftituir em feu 
Reyno ; o que elle não quiz efperar , e def- 
appareceo ao tempo que Affbnfo d'Albo- 
querque eílava de partida pêra a índia. Ef- 
te Príncipe chamado Geinal , ou porque lhe 
pareceo que Affbnfo d'Alboquerque o que- 
ria levar comíigo a índia , ou por qualquer 
outra coufa ; quando lhe fogio , foi-íè a 
EIRey que fora de Malaca , que naquelle 
tempo andava tão desbaratado 5 como elle. 
O qual Rey o foi entretendo com efperan- 
ças , que comoacabaífe deaíTcntarfuascou- 
ías , lhe daria ajuda pêra cobrar feu Rey- 
no. Sendo já paliados féis , ou fete annos 
neíías efperanças , no qual tempo EIRey o 
cafou com huma filha fua , tanto que fe vio 
em Bintam com algum repoufo por caufa 
de algumas vitorias que houve em noífo 
damno , ordenou de o mandar com huma 

fro- 



Década III. Liv. V, Cap. I. 5-15* 

frota , porque também no mefmo Reyno 
de Pacem fuccedêram coufas pêra iíTo , e 
foram eftas. O tio , de que efte Príncipe 
Geinal fogia , fegundo fe depois foube 5 era 
irmão de fua mãi, e Rey de Arú vizinho 
de Pacem , o qual fe apoderou do Reyno , 
e ficou fenhor de ambos. Os Pacens por 
terem por coftume o que diífemos , que co- 
mo fe anojavam de hum Rey > logo lhe 
procuravam a morte , como eíle era cftran- 
geiro , não tardaram muito em lha dar, e 
levantaram outro natural , o qual também 
não durou muito tempo. Porque como já 
havia alguns Arús em Pacem , que ficaram 
do Rey paífado feu natural 5 trabalharam 
por lhe dar a morte , e affi o fizeram ; e 
levantado outro em feu lugar , chegou o 
Príncipe Geinal poderofamente com o favor 
de feu fogro , e matou o que então reina- 
va 3 cujo filho era o moço que Jorge d'Al- 
boquerque trazia. Do qual moço , que feria 
de té doze annos , lançou mão hum Mou- 
ro per nome Moulana , que naquellas par- 
tes entre os Mouros era como o fupremo 
Califa de fua fedia , e efte o trouxe á ín- 
dia pedir ajuda a Diogo Lopes. Fazendo 
conta , que como Geinal pela ajuda que 
trouxe d'E!Rey de Bintam tomara o Rey- 
no de Pacem ? que muito melhor o pode- 
ria haver aquelle Orfacam, fazendo-fe va& 

Kk íí fel- ' 



çi6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

falio d'ElRey de Portugal; e mais reque- 
rendo ajuda contra hum imigo dos Portu- 
gúezes, afli porfer genro d'ElRey de Bin- 
tam , como polo que elle tinha feito a al- 
guns Ponuguezes , que aíli foram ter 5 de- 
pois que tomou o Reyno , pelo qual cita- 
va pofto em ódio com elies ; e o cafo foi 
efte. Ao tempo que efte Geinal chegou a 
Pacem , eftava alli feitorizando algumas cou- 
fas hum Gafpar Machado per mandado do 
Capitão de Malaca , o qual Gafpar Ma- 
chado temendo que poderia receber algum 
anal , por ler genro d'ElRey de Bintam 
noflb imigo , efeapulio o mais encuberta- 
mente que pode naquelia revolta de fua 
chegada , e foi-fe pêra Malaca , leixando 
em terra muita fazenda. EIRey Geinal quan- 
do foube que citava alliaquelle Portuguez , 
e que fogíra com temor feu , pezoii-lhe 
muito ; porque ainda que entre elle , e EI- 
Rey de Bintam eftava aííentado que ambos 
haviam de fazer guerra a Malaca , e por 
efte refpeito lhe dera EIRey fua filha 9 e 
mais ajuda pêra cobrar feu Reyno, fua ten- 
ção era ao prefente não offender, rnas fa- 
vorecer noflas coufas , temendo que fe nos 
indignaíTe, não eftava feguro em feu Rey- 
no. Com o qual fundamento como algum 
navio noflb per alli paífava , fazia-lhe quan- 
to gazalhado podia de maneira , que pro- 
vo- 



Década IIL Liv. V. Cap. I. 517 

vocou a que Garcia de Sá Capitão de Ma- 
laca mandaíTe lá Duarte Coelho aflentar pa- 
zes com elie. E correndo o trato do com- 
mercio entre os nolTos, eelle em toda paz, 
e concórdia , acertou de ir áquelle feu por- 
to hum Diogo Vaz homem de má cabeça, 
e de peior confciencia > que fez quebrar ef- 
ta paz per efta maneira* Efte Diogo Vaz 
fora com João Gomes ás Ilhas de Maldi- 
va por Capitão de huma fufta , (fegundo 
atrás efcrevemos , ) o qual chegando ás Ilhas, 
dizem que fefez efgarrado delias com tem- 
po , e correntes , e deo comílgo na cofia 
de Choromandel 3 onde tomou huma náo 
carregada de muita roupa , que hia pêra 
Çamatra , e Malaca , não levando mais gen- 
te que a do mar , que mareava a náo. Mor- 
ta a qual gente \ metteo a fufta no fundo 
do mar , paflando-fe á náo , e deo comfigo 
110 porto de Pacem , onde foi bem recebi- 
do d'E!Rey Geinal f que já reinava. E por- 
que per coftume de todos aquelles Reynos , 
qualquer mercadoria que vem a feu porto 
primeiro que venda , os officiaes d'ElRey 
hão de tomar por os preços da terra a que 
EIRey houver mifter 3 tomaram a efte Dio- 
go Vaz a mais da mercadoria que levava 
pêra EIRey. O qual Geinal com os traba- 
lhos de aíTentar as coufas do Reyno , não 
eftava ainda com tanta fubftancia , que logo 



5*i8 ÁSIA de Joio de Barros 

pudeíTe pagar o que tomaram para elle : cá 
primeiro havia de mandar vender na terra 
as coufas , pêra da venda delias lhe pagar , 
ç elle ficaria com ganho. No qual modo 
de paga houve alguma detença, que Dio- 
go Vaz mal foffria ; e como homem ale- 
vantado , e pouco paciente , muitas vezes 
requerendo feu pagamento a ElPvey , tinha- 
Ihe dito algumas palavras tão foltas , que 
anojados alguns homens acceitos a EIRey, 
tornando elle outra vez requerer o feu com 
efta foltura de palavras , foi alíi morto ás 
crifadas diante d'ElRey. E com efta indig- 
nação alvoroçou-fe a gente da Cidade com 
voz : Matallos , matallos , em que morre- 
ram alguns Portuguezes , aíli dos que foram 
com Diogo Vaz , como os de huma náo 
que hi eílava de Goa do Feitor Ruy d'Aco£- 
ta , de que era Capitão hum João de Bor- 
ba, Porém como aquella morte foi mais ac- 
cidente , que ordenada , mortos os primei- 
ros , que acharam pelas ruas da Cidade , 
não curaram de ir á náo de João de Bor- 
ba. O qual pofto que em terra tinha ainda 
muita fazenda por recolher , acolheo-fe an- 
te que mais foífe , com a qual náo elle che- 
gou a Goa , onde foi notificado por nofíò 
imigo efte Rey Geinal. Sobre o qual cafo 
fuccedeo vir o Príncipe , que levava Jorge 
dPAlboquerque ; pedir foccorro contra elle , 

que 



Dec. III. Liv. V. Cap. I. e II. 5-19 

que lhe foi concedido , e fez fobre iflb o que 
veremos neíte feguinte Capitulo. 

CAPITULO II. 

Como Jorge cVAlhoquerque chegou ao Reyno 
de Pa cem , onde pelejou com o tyranno 
que o tinha , e o tomou com quanta 
gente comfigo tinha em huma fortale- 
za ) e depois metteo o Príncipe 
cm pojfe delle. 

DEfpachado Jorge d'Alboquerque em 
Cochij coma ordem que diflemos , que 
pois todolos Capitães hiam pêra aquellas par- 
tes , e forçadamente haviam de tomar o por- 
to de Pacem , pêra fe alli prover de fuás 
mercadorias , todos foíTem em íua conferva > 
tirando Jorge de Brito, que levava armada 
de oito velas pêra Maluco j quando veio ao 
feguir a bandeira de Jorge d'Alboquerque , 
huns ficaram diante , outros atrás , e outros 
foram furgir em outro porto, e não ao de 
Pacem. Peró quando chegou a elle, achou 
já furto Rafael Pereílrello na barra , e das 
féis velas que eram da fua conferva, eílafoi 
diante , e fomente o feguio D. Affonfo de 
Menezes , D. Sancho Henriques íèu genro > 
que hia por Capitão mor do mar de Mala-* 
ca, e aífi Diniz Fernandes, e Rafael Cata- 
oiho chegou depois que o feito do negocio. 

a que 



$20 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

a que foi era acabado. Achou mais com Ra- 
fael Pereftrello Manuel da Gama , que Gar- 
cia de Sá Capitão de Malaca alli mandara 
em liuma caravella armada em favor de hum 
junco y o qual o Feitor d'EiRey , e alguns 
mercadores de Malaca mandavam com fa- 
zendas , pêra com eljas fazerem commuta- 
ção de outras , como fe entre elles ufa. Achou 
também outro junco , de que era Capitão 
hum João Pereira , o qual fora ter ao porto 
de Arú fazer fua fazenda. E como o Re/ 
daquelle Reyno tinha guerra com os de Pa- 
cem pola morte do feií Rey , que (como ef- 
crevemos) era tio do Príncipe Geinal , que 
ora eftava em poífe do Reyno , concertou-fe 
com elle que vieífe per mar com alguma gen- 
te fua , e elle iria per terra com toda a mais, 
A qual ida João Pereira acceitou , por faber 
o que efte Geinal tinha feito aos Portuguezes , 
que fe acharam com Diogo Vaz. Donde fuc- 
cedeo que eíle Rey de Arú , o dia ante que 
Jorge cr Alboquerque chegaífe , era vindo ; 
e quando foube de fua chegada á barra de 
Pacem , deteve-fe té ver o que elle Jorge 
d' Alboquerque faria , pofto que logo enten- 
deo o caio, por ter já nova que ao Princi- 
pe Orfacam era concedida ajuda , e que po- 
dia fer efta. O que elle logo foube per meio 
de João Pereira , per quem mandou vifitar 
Jorge d 5 Alboquerque ,. dando-lhe conta da 

cau- 



Década III. Liv: V. Cap. II. 5:21 

caufa de fua vinda , e que eílava alli com 
aquella gente junta a feu ferviço , por elie 
ler grande fer.vidor d 5 ElRey de Portugal. E 
poíto que o feu porto de Arú nao foííe tão 
celebrado dos Portuguezes , como era aquel- 
le de Pacem , íempre os Capitães de Ma- 
laca delle receberam boas obras. Jorge d'Al- 
boquerque lhe mandou agradecimentos dei- 
ta lúaofFerta, e denunciar como vinha met- 
ter de pofle aquelle Príncipe , e lançar fora 
do Reyno a Geinal , que o tinha indevida- 
mente , e mais era imigo dos Portuguezes : 
Que fe elle Rey de Arú vinha tomar vingan- 
ça delle , ante de pouco tempo elle Jorge 
d'Alboquerque efperava de lha dar [ por tan- 
to fe quizeíle efperar , que o podia fazer. 
Ao qual recado refpondeo que lhe pedia por 
mercê 5 que havendo o negocio de vir a de- 
terminar-fe per armas , houveífe por bem que 
elle foífe com fua gente niíTo ; e por o tra- 
balho que niffo puzeífe , nao queria mais por 
honra fua , que levarem os cavalleiros , que 
comfigo trazia , o defpojo que engeitaííem 
os feus delle Jorge d'Alboquerque. O que 
lhe elie concedeo , quando o cafo eítivefle 
neíTes termos , e que entretanto elle fe foíTe 
pôr á vifta da fortaleza , onde eílava o ty- 
ranno 5 e que alli lhe mandaria dizer o que 
fizeííe. EIRey Geinal quando fobre íi vio 
hum exercito per terra , e armada noífa per 

mar, 



5*22 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mar , e tudo contra íi , bem entendeo que o 
fim daquelle negocio havia de fer íeixar elle 
o Reyno , ou perder a vida y fe o quizeíTe 
defender 5 pois na terra , e no mar tudo era 
contra elle , té o natural povo da Cidade 
Pacem , por ter morto o Rey que elles ti- 
nham levantado. Porque como elles tem em 
pouca conta matar hum Rey pelo modo que 
diífemos , aííi tem em pouco morrerem to- 
dos por defenderem aquelle que elles ale- 
vantam , ou vingar fua morte. E fe té então 
o não tinham feito , era porque Geinal co- 
mo fabia o coílume delles , não fe quiz apou- 
fentar na Cidade , que efíá obra de meia lé- 
gua per hum rio acima , que vem de den- 
tro da terra , por não ficar fujeito a elles, 
e aos noífos navios , que alli foífem ter. E 
fez pêra feu apouíènto á vifta da mefma Ci- 
dade em hum efcampado huma grande cer- 
ca de groffa madeira , ao modo de muro de 
villa , com huma cava em torno , ficando fo- 
mente duas portas pêra fiia ferventia. E den- 
tro deíla grande cerca fez outra mais forte 
como caíielío, onde elle tinha fuás cafas da 
mefma madeira , e canas da terra fegundo 
feu ufo , nas quaes tinha fua fazenda , e mu- 
lheres. E a cerca de fóra ficava em povoa- 
ção de gente , que tinha da fua guarda , da 
qual ao tempo que Jorge d'Alboquerque che- 
gou y feria pouco mais de té três mil homens 

da 



Década III. Liv. V. Cap. II. 523 

da mais efcolhida gente , e mais fiel que elle 
pode haver. E ainda como homem não con- 
fiado delles , temendo que fe fuccedeíTe algu- 
ma coufa , pêra que lhe conviefle pôr-fe em 
defensão , e que elles o podiam defamparar , 
fez-lhes recolher dentro na grande cerca luas 
fazendas , e parte das mulheres. Finalmente 
elle eftava como homem ? que determinava 
não fahir dalli fenão perdendo a vida ; e 
diffimulando efta fua determinação, em Jor- 
ge d 5 Alboquerque lançando ancora , o man- 
dou logo vifitar. As palavras da qualviíita- 
çao foram de homem , que não fe temia ter 
leito coufa , per onde efperaífe delle Jorge 
cPAlboquerque poder receber algum damno , 
dizendo , que fua vinda foífe mui boa ; e 
que pois hia pêra Malaca , onde tinha fabi- 
do que elle havia de eílar por Capitão , lhe 
pedia por mercê que quizeífe delle algum 
ferviço de mantimentos , ou de qualquer cou- 
fa que houveíTe miíler ; porque pois haviam 
de íer vizinhos , que fe começaífem de pref- 
tar hum com o outro. Ao que Jorge d'Al- 
boquerque refpondeo , que ao prefente não 
havia miíler delle mais , que defpejar aqueí- 
le Reyno , pêra metter de poífe delle o Prín- 
cipe herdeiro , que alli trazia comíigo , o 
qual. era feito vaífallo d ? EJRey de Portugal 
feu Senhor ; e também mandar-lhe entregar 
a fazenda dos Portuguezes que alli ficou, adi 

dos 



5*24 ÁSIA de JoXo de Barros 

dos mortos , que os feus alli mataram , co- 
mo dos vivos que fogíram com temor feu. 
E que porquanto elle tinha pêra fazer mui- 
tos negócios em Malaca , e fe não podia alli 
deter , que fe determinaíTe logo , pêra elle 
poer em execução o que naquelle cafo lhe 
mandava fazer o Governador da índia. Gei- 
nal não ficou mui efpantado defta refpofta de 
Jorge d 5 Alboquerque , porque bem fabia elle 
que efta havia elle de fer ; porém parecendo- 
Ihe que per aqui podia fahir fora daquella 
aíFronra, mandou-Jhe outro recado per Nina 
Ctmapam ? o Gentio noffo amigo , que eftava 
alli por Xabandar , aquelle que refgatou Gaf- 
par d'Acofta , António Pacheco , e outros 
que efcapáram em Achem , (como atrás con- 
támos.) Per meio do qual Nina Cunapam , 
por caufa defta amizade que tinha comnof- 
co , lhe parecia poder moderar a indigna- 
ção que tinham delle ; e a fubftancia das pa- 
lavras eram , que elle não fabia que caufa 
haveria pêra aquelle moço de tão pequena 
idade fer mais verdadeiro herdeiro do que 
elle era , como todo mundo fabia ; que fe era 
por dizer que fe fizera vaífallo d'ElRey de 
Portugal , elle o queria fer da maneira que 
bem pareceífe , e que aííás moftrava delejar 
ifto na paz , e amizade em que eftava com 
o Capitão de Malaca , como podia faber per 
elk mefmo Nina Cunapam 5 pois fora me- 
dia- 



Década III. Liv. V. Cap. II. Ç25 

dianeiro em algumas coufas , que entre elles 
paliaram por razão defta amizade , e de ou- 
tras que eile Geinal tinha feiras por fervir 
a EIRey de Portugal. Que fazenda de Por- 
tuguezes elle não fabia de tal parte , que ver- 
dade era vir alli ter hum homem de má ca- 
beça , e peior lingua , o qual foi morto ha- 
vendo razões com os léus 5 e a fazenda que 
alli trouxera , depois da lua morte foubera 
que a roubara elle de huma náo , que vinha 
dirigida a certos mercadores , que refidiam 
naquella Cidade , aos quaes a mandara en- 
tregar , depois que fizeram certo fer fua. E 
quanto a elle leixar o Reyno , que fora de 
leu pai , iílo não podia fer íènáo perdendo 
a vida , e eíla tinha elle oíferecido polo de- 
fender, quando as outras coufas que oífere- 
cia lhe não foíTem a elle Jorge d 5 Alboquer- 
que acceitas. Finalmente, porque de huma, 
e de outra parte houve mais recados , fem 
Geinal vir a conclusão que Jorge d'Albo- 
querque queria , conforme ao que trazia per 
regimento j havido confelho , fem embargo 
da pouca gente que com elle eftava , que não 
feriam mais que trezentos homens , eosimi- 
gos três mil , Jorge d'Alboquerque fe de- 
terminou ir dar huma vifta á fortaleza em 
feus bateis ; e vifta , fe determinaria de to- 
do , porque como não tinha mui certa in- 
formação no lugar , e íitio delia, não po- 

dk 



5*20 ÁSIA de JoÃo de Barros 

dia fazer outra coufa. Poílonefte caminho y 
tanto que fe poz cora ília gente junta ao pé 
de huma arvore já hum pouco fobre a tar- 
de j, por fe não poder dar maior aviamen- 
to , veio logo Nina Cunapam com recado 
de Geinal , pedindo-lhe por mercê que fo- 
breftiveíTe hum pouco da indignação que tra- 
zia contra elle , porque elle queria conceder 
no que mandava, e que pêra iíToeílava em 
coníèlho com os feus no modo que feria me- 
lhor fazer- fe. Tornado Cunapam com a re- 
fpofta, veio, e tornou outra vez, tudo por 
elle Geinal ter efpaço de defpejar as mulhe- 
res , e fe recolher pouco , e pouco pêra o 
mato per outra porta que tinha naquella par- 
te. E porque a refpofla que lhe Jorge d' Al- 
botjuerque mandava era mui apreíTada , e 
elle Nina Cunapam entendia que Geinal a 
não havia de cumprir , e que depois ficaria 
em ódio deJorged'Alboquerque , não quiz 
tornar mais dentro , dando a entender que 
fizefíe o que havia de fazer, porque Geinal 
eftava em outro propoíito. Finalmente Jorge 
d 1 Alboquerque praticando aíll em pé com os 
Capitães , e principaes peíToas , aííentou que 
por quanto não traziam efcadas , nem cou- 
fa pêra commetter aquella força , fomente 
efpadas , lanças , e efpingardas , deviam 
dormir com boa vigia aquella noite ao pé 
daquella arvore, eque entretanto viriam as 

mu- 



Década III. Liv. V. Cap. II. 5^7 

munições das nãos , e dariam combate pela 
manhã. A efte tempo citava EIRey de Aru 
á vifta delle Jorge d'Alboquerque efperando 
que lhe mandaíTe recado do que faria , entre 
os quaes houve alguns recados ; e no fim dei- 
tes Jorge d'AIboquerque lhe mandou dizer 
que eftivefle preftcs 3 e não commetteíTe en- 
trar a fortaleza , fenão depois que viííe que 
os Portuguezes tinham feito portal pêra iíTò. 
E porque na entrada dos feus podia haver 
alguma defordem , lhe pedia que fe mudaíTe 
dalli pêra a outra banda do mato , porque 
como elles fabiam bem a terra , podiam fie- 
guir melhor o alcance dos imigos ; cá (fe- 
gundo via) não tinham outra acolheita , e 
mais que mandaíTe logo pôr aos feus hum 
ramo verde na touca da cabeça per a diffe- 
rença dos imigos , por não receberem algum 
mal dos Portuguezes , fem o qual final o 
puderam padecer. Em quanto fe cites reca- 
dos pairavam , acertou que de dentro da cer- 
ca dos Mouros fe tirou hum , ou dous ti- 
ros de huma efpingarda , hum dos quaes veio 
quebrar huma perna a Francifco Quatrim cri- 
ado do Conde de Portalegre D. João da Sil- 
va, Quando a noífa gente vio eíle damno , 
começaram de fe queixar , dizendo contra 
Jorged'Alboquerque: Senhor , que fazemos 
aqui} quereis que nos matem a todos ejia 
noite ? que aguardamos mais efcadas ? nao 

te- 



528 ÁSIA de João de Barros 

temos nós mãos ? E com ifto começou hum 
rumor entre a gente , alvoroçando-íe pêra o 
combate. Vendo Jorge d'AÍboquerque efte 
alvoroço fer a verdadeira conjunção que os 
negócios da guerra querem, porá não per- 
der, difle contra os Capitães : Pois que nos 
Deos chama , Jus fenhores , a elles ; e em 
dizendo ifto , mandou dar ás trombetas , e 
diíTe : Nome de Jefus , Sant-Iago. Bem co- 
mo quando huma preza de groíla agua , cu- 
jo pezo quer romper o impedimento que 
a detém , quando lho talham , ou tiram , 
fahe com hum Ímpeto que ninguém pode 
efperar fua força ; aííi a noíTa gente dado 
Sant-Iago , íahio em corrida tão impetuo- 
famente , que nenhum parou fenão com as 
mãos nos páos > que faziam aquella cerca ; 
trabalhando huns por fubir per dks aci- 
ma , outros por os arrincar , aluindo dous , 
e três homens a hum páo , outros fazendo 
vai e vem dos que achavam foltos , de 
maneira , que todos eftavam occupados no 
em que traballiavam , e não no que lhes fa- 
ziam , que era de dentro tirarem-lhes os Mou- 
ros muitas frechadas , zargunchadas de ar-- 
remedo , e todo género de armas, como 
- que os podiam apartar. E como a gente 
do mar he mais déftra , e leve em trepar 
por razão de feu ofiicio , o primeiro homem 
que trepou per aquelles páos acima foi 

hum 



Década III. Liv. V. Cap. II. P9 

hum calafate da náo de Rafael Pereftrello , 
de alcunha Marquez 5 e o fegundo Peita na 
marinheiro , e trás eíles hum mulato tam- 
bém homem do mar. Per outra parte Diniz 
Fernandes de Mello com a gente de feu 
navio , correndo ao longo daquella baftida 
de madeira , achou em hum canto hum 
páo abalado , e tanto aluio com ajuda de 
outros , que entrou com aquelles que o fe- 
guiam , e veio per dentro ao longo da ba£ 
tida demandar a porta da entrada delia pê- 
ra a abrir aos noífos ; mas quando che- 
gou , eíhva já aberta. Porque como alli 
concorreo o maior pezo da gente , por fer 
a entrada , e nelía a maior defensão , tra- 
balharam os noífos , que hiam em compa- 
nhia de Jorge d'Alboquerque , por defpejar 
aquelle lugar , no qual lhes quiz Noífo 
Senhor moílrar o princípio de íua vitoria. 
Havia fobre eíle lugar da porta huma ma- 
neira de guarita aíli ordenada , que podiam 
de cima vinte , ou trinta homens pelejando y 
e lançando pedras , e outros rios , defen- 
der poer-fe alguém de baixo pêra arrom- 
bar a porta , no qual lugar foram alguns 
dos noífos dos primeiros que fe a ella che- 
garam bem efcalavrados. Soltam Geinal co- 
mo eíle era o lugar, em que elle tinha pof- 
to maior defensão , andava em cima man- 
dando , e animando os feus té que per 
Tom.IILP.L LI acer- 



5^0 ÁSIA de João de Barros 

acerto , fem faber fer tão illuílre peííoa , fo- 
mente pelo ver mais diligente naqueih\ de- 
fensão , apontou nelle Cide Cerveira huma 
efpingarda que levava , com que logo veio 
abaixo , como fe fora huma ave derribada 
do caçador , por lhe dar o pelouro no meio 
datefta. Com a morte do qual os feus def- 
amparáram a porta , e o primeiro que per 
ella entrou foi hum Barthoiomeu Caiado 
criado do Duque de Bragança D. Gomes 5 
e trás elie entrou todo o corpo da noíTa 
gente. Peró não foi muito avante , porque 
aquelíe grande terreiro de povoação de den- 
tro eílava coalhado de Mouros , que co- 
mo homens offerecidos á morte , por fer 
lugar mais defpejado , começaram de ferir 
animofamente os noíTos , com que conveio 
a Jorge d'Alboquerque recolher em hum 
corpo os feus. Porque com aquelle primei- 
ro impeto da entrada da porta , os que fo- 
ram com elle , e outros que entraram per 
outra parte , começaram de fe efpalhar de 
maneira , que fe não enxergavam entre tan- 
ta multidão de Mouros ; e feitos em hum 
corpo , deo outro Sant-Ingo , onde fe fa- 
zia huma maneira de rua larga , que hià 
dar na outra fortaleza. No qual rompimento 
começaram alguns dos noílos a cahir mor- 
tos : os primeiros foram Chriftovão d'Acof- 
ta criado da Rainha D, Lianor^ e AíFon- 

fo 



Década - III. Liv. V. Cáp. II. 5-31 

fo de Freitas natural de Alcácere do Sal. 
E querendo Heitor Henriques de Santarém , 
como homem de animo , poer a lança na 
tefta de hum elefante, dcdous que aili an- 
davam pelejando , defviou o elefante a lan- 
ça com a tromba , e apanhou-o com ella 
per antre as pernas i e lançou-o pêra o ar 
como fe fora huma laranja : e quiz-lhe Deos 
bem , que indo armado cahio em lugar , e 
de maneira que o não matou. A outro ele-* 
fante cómmettêram também Domingos de 
Seixas , e João do VaJle , mas tiveram ou- 
tra induftria ; que Domingos de Seixas po£ 
a lança em o negro , que governa de cima 
o elefante, e o derribou, e João do Vai- 
le nelle. O elefante tanto que fentio o fer- 
ro da lança em li, e não teve quem o go- 
vernafle , com a dor da ferida > e efpanto 
das noíTas efpingardas , que tiravam como 
hum trovão , tornou contra os feus , e foi 
derribando , e trilhando nelles. Andando 
a fúria da guerra em eftado , que os Mou- 
ros começavam de fe ir apinhoando , e re- 
colhendo á outra Gerca pequena , que dif- 
femos que tinham em lugar de fortaleza ^ 
quaíi como homens que efperavam de fe 
recolher per detrás per huma porta , que 
ella tinha pêra o mato ; acertou D. AfFon- 
fo de Menezes com a gente da fua não 
andar per de fora buícando entrada 7 por-* 
LI ii que 



£32 ÁSIA de João de Barros 

que não fe achou no que fe fez pela por- 
ta. Os Mouros quando fentíram que de 
fora queriam entrar com eiles , parecendo- 
lhes que os tinham cercado de todo, e que 
não tinham outra falvaçao fenao o íeu bra- 
ço , pois detrás, e diante tudo era ferro y 
e morte, a pé quedo íeleixavam ataííalhar, 
e elles também refpondiam com retorno. 
Finalmente , a eíta entrada de D. AíFoníb 
per aquella parte , onde EIRey de Arú ti- 
nha olho , por fer o lugar per que feus 
imigos fe haviam de acolher ao mato , acu- 
dio eíle com toda fua gente, a qual como 
vinha folgada , acabaram de rematar o ca- 
fo com morte de feus imigos , ficando aquel- 
las duas cercas cubertas com mais de dous 
mil corpos mortos , de que fomente na pe- 
quena pa{Tavam de fetecentos eílirados em 
terra , a mais fea coufa que podia fer. E 
dos noíTos além dos nomeados foram mor- 
tos Barthoíomeu Fernandes criado do Du- 
que de Bragança , e hum grumete da náo 
de Jorge d'AÍboquerque , e feridos hum 
grande número delles , de que os principaes 
foram Jorge de Mello , Gafpar d' Acoita , 
Jorge Lobo , e Jorge d'Alboquerque , de 
duas frechadas , huma no roílro, e outra 
no corpo. E porque a gente daquella ter- 
ra ufa muito de peçonha , mandou elle lo- 
go que lhe foíTem chupadas > porque fe a 

1c- 



Década III. Liv. V. Cap. II. 5*33 

levavam , que lhe não impediíle ; e de íi 
mandou hum recado a EIRey de Arú , que 
elle vira vingança de feu imigo , que lhe 
entregava aquella fortaleza pêra ao outro 
dia lha entregar, por quanto elie fe reco- 
lhia ás náos por fer já tarde. Peró quando 
veio ao dia feguinte , que Jorge d'Alboquer- 
que lhe mandou que a defpejaffe , andavam 
os Arus tão encarniçados no defpojo delia , 
que eram máos de fahir : com tudo EIRey 
os tirou fora , e fe mandou efpedir de Jor- 
ge d 5 Alboquerque com grandes oferecimen- 
tos de fua peííoa , e eftado. Acabado efte 
feito de armas, entrou Jorge d'Alboquer- 
que em outro de poíTe ao Príncipe , man- 
dando concertar hum elefante com pannos 
de feda , em que o menino foi pofto ; e 
com os principaes Mouros da Cidade dian- 
te , e os noííos detrás, em que entravam 
muitos Fidalgos , foi levado com efta pom- 
pa , e muitas trombetas per toda a Cidade , 
denunciando-o porRey daquelle Reyno , e 
que elle Jorge d 5 Alboquerque em nome del- 
Rey D. Manuel de Portugal o mettia de 
poííe , e o havia por enveítido neile , como 
coufa que elle tomara per jufto titulo de 
armas daquelle tyranno que o poííuia , e 
ifto como obrigação de feu vaííallo. Feita 
efta ceremonia de poíTe , de que elie Jorge 
d 5 Alboquerque mandou fazer hum auto , em 



534 ÁSIA de João de Barrou 

que também dava por Governador delle ao 
Mouro Moulana , e por feu Xabandar a Ni- 
na Cunajpam , havendo refpeito aos ferviços, 
e boas obras , que tinha feito aos Portu- 
guezes , e a elle já fervir o mefmo cargo 
em vida do pai do novo Rey. No qual 
auto também fe continha como EIRey de 
Pacem recebia da mão deíle Jorge d 5 Aíbo- 
querque aquelle Reyno , o qual elle ganha- 
ra per força de armas ; e que elle em no- 
me d'ElRey D. Manuel de Portugal , cujo 
Capitão era, lho entregava com obrigação 
de vaííallagem , e que pagaria de tributo 
todolos ordenados dos officiaes daquella for- 
taleza , que alli havia de fazer pêra legu- 
rança do mefmo Reyno , e aíli os foldos 
da gente de armas : e toda a pimenta , que 
EIRey houveíTe mifter pêra a carga das 
fuás náos , elle Rey de Pacem lha daria a 
razão de dous cruzados o bahar de quatro 
quintaes cada hum. E da madeira , que ef- 
tava na cerca que os noffos tomaram aSol- 
tão Geinal , mandou Jorge d'Alboquerque 
fazer huma fortaleza junto da barra do rio 
no lugar mais conveniente , e eíla em quan- 
to fe bufcaíle algum modo pêra ler de pe- 
dra , e cal , por quanto em tão breve tem- 
po não fe pedia fazer mais. Pêra guarda 
da qual leixou cem peíToas , e os officiaes 
eram António de Miranda d' Azevedo, que 

hia 



Dec III. Liv. V. Cap. II. e III. 53? 

liia já ordenado pêra Capitão , António Bai> 
reto Alcaide mor , Feitor Pêro Cerveira , 
com íèus Efcrivães , e os mais OíEciaes , 
como as outras fortalezas da índia. Haven- 
do poucos dias que Jorge d'Alboquerque 
tinha havido efta vitoria , chegou António 
de Brito com a frota de leu irmão Jorge 
de Brito bem desbaratada de gente , a qual 
com elie foi morta em o porto de Achem 
per hum dcfaítrado cafo que lhe aconteceo 
no próprio dia da vitoria dclle Jorge d ? Al- 
hoquerque , como fe verá neíle íeguinte 
Capitulo. 

CAPITULO III. 

Como Jorge de Brito com fua Armada 
foi ter ao Reyno Achem , onde elle r e ou- 
tros Capitães com muita gente foram mor- 
tos em huma peleja , qpe tiveram com o 
Rey da terra ; e vindo feu irmão António 
âe Brito com os navios a Pedir 5 onde os 
achou , tornou pojje da capitania delles : e 
do mais que elle , e Jorge d? Alhoquerque 
pafjãram té chegarem a Malaca , e o que 
aconteceo aos outros Capitães , que ficaram 
em Pacem. 

JOrge de Brito , porque fe não pode dei- 
pachar tão brevemente como Jorge d ? Al- 
boquerque, não íáhio cô!m elle deCochijj 

e pO- 



^36 ÁSIA de João de Barros 

e porém não tardou ir logo na fua efteira , le- 
vando íeis velas , de que eram Capitães Chrif- 
tovao Corrêa , Chriftovão Pinto , Francifco 
Godiz , Lourenço Godinho , Pêro Fernan- 
des , e Gafpar Gálio em huma fuíla , e as 
outras velas eram navios redondos , e lati- 
nos. A fora hum navio , de que era Capi- 
tão António de Brito irmão delle Jorge de 
Brito , que por não eftar de todo appare- 
lhado , não fahio naquelle dia , e depois foi 
ter no porto da Cidade Achem na Ilha Ça- 
matra y onde foi herdar a capitania mor de 
toda a Armada , pelo que alli aconteceo a 
feu irmão , como fe logo verá , na qual 
frota iriam paílante de trezentos homens 
de armas , além da gente mareante. Com as 
quaes cinco velas elle Jorge de Brito che<- 
gou ao porto da Cidade Achem , que efiá 
abaixo de Pacem obra de vinte léguas con- 
tra o Sul. Na qual Cidade achou hum João 
de Borba natural defta vílía de que tinha 
o appellido , homem que fabia bem a lín- 
gua Arábia , e algumas daqucllas partes > 
por a qual razão era conhecido dos Mou- 
ros dalli 3 onde elle já fora quando fogio 
de Pacem por califa da morte de Diogo 
Vaz , como no Capitulo atrás contámos. O 
qual por razão do proveito que achava na- 
queílas partes , alguns officiaes d'ElRey de 
Goa o tornaram armar com outra náo , qm 

foi 



Década III. Liv. V. Cap. III. 5*37 

foi carregar de moxama a Mafcate , que 
era mercadoria em que fe ganhava muito 
em Çamatra ; pêro a náo com hum tem- 
poral que lhe deo no meio do golfão an- 
tro as Ilhas de Maldiva , e aquella Ilha Ça- 
matra ? abrio , e fe foi ao fundo. Da gen- 
te da qual quinze peííoas fe falváram no 
batel , e elle com nove em huma almadia ; 
e eram os mares tão groíTos , que não po- 
de elle haver o batel á mão , e foi ter com 
toda eíla gente a Pegú 3 os quaes depois 
houve Rafael Pereftrello eílando em Benga- 
la , per meio de hum Mouro que alli tra- 
tava por nome Alie Aga. E elle João de 
Borba com as nove peííoas correo contra 
Çamatra per efpaço de nove dias , e foi ter 
naquelle porto de Achem milagrofamente y 
porque em todo eíle tempo elle ^ e as ou- 
tras oito peííoas não comeram 5 nem bebe- 
ram , fomente cada hum tomava hum grão 
deAnfião tamanho como hum grão de pi- 
menta , o qual acertou de levar no feio hum 
Mouro que alli hia , por fer entre elles tão 
coftumado oufo daquella mezinha . , que não 
fabem andar fem ella , do qual Anfiao par- 
ticularmente falíamos em os livros do noí- 
fo Commercio. Chegado João de Borba a 
eíle porto de Achem 3 como era homem 
de bom faber , e naturalmente loquaz em 
qualquer das linguas que fobia 3 EIRey da 

ter- 



538 ÁSIA de J0X0 de Barros 

terra o recebco em graça , principalmente 
fabendo que fe perdera com huma náo de 
mercadoria, que vinha peraaquelle leu por- 
to. Efte, tanto que Jorge de Brito chegou, 
logo o foi vifitar á náo em companhia de 
huns meflageiros , per os quaes o EIRey 
mandou vifitar de ília boa chegada com al- 
gum refrefco da terra , e leixou-íe ficar , dan- 
.do-Ihe conta de fua fortuna 3 e do eftado 
da terra , e de algumas coufas que alvoro- 
çaram os noíTos , e moveram a Jorge de 
Brito pêra commetter o que fez. Huma das 
quaes foi dizer-lhe que alii havia hum tem- 
plo dos Gentios, no qual (fegundo fama) 
havia muito ouro ; e mais que aquclle Rey 
tinha tomado toda artilheria , e fazenda da 
náo , em que alli veio ter Gafpar d' Acoita 
irmão de Affònfo Lopes d'Acofta Capitão 
de Malaca 5 a qual fe alli perdeo. E tam- 
bém tinha havido á fua mão a fazenda de 
Jium bargantim , que fe perdeo junto de 
Dáya , que era perto dalli , no qual hia pê- 
ra defeubrir as Ilhas de Ouro Diogo Pa- 
checo , e era Capitão delle Francifco de Se- 
queira ; e mais tinha tomado huma náo y 
que D. João de Lima mandara de merca- 
doria ás Ilhas de Maldiva , e dahi havia 
■de ir a Malaca; e andando em calmaria á 
viíta deite porto Achem , fahíram as lancha- 
ras d'ElRey a elia y e a tomaram, e ma- 
ta- 



Década III. Liv. V- Cap. III. 5-39 

taram féis Portuguezes , que nella hiam 3 
porque a mais gente era Malabar. Jorge 
de Brito , depois que fe aHirmou bem defr 
tas coufas , e do eftado delRey , e força 
que tinha pcra fe defender, quiz-femais cer- 
tificar delias per hum Diogo Lopes , que 
levava comílgo pêra Maluco , onde elle ef- 
tivera com Francifco Serrão , o qual tam- 
bém vindo com Gafpar d 5 Acofta em a náo 
que fe alli perdeo , fora cativo , e refgata- 
do com elle per Nina Cunapam, como ora 
eícrevemos , do qual cativeiro fabia a lín- 
gua da mefma terra, como João de Borba. 
E movido elle Jorge de Brito pereftas duas 
línguas , que o peccado lhe oírereceo , e 
deíviou de fua jornada, per o mefmojoao 
de Borba , que eftava na terra , e era o mais 
linguaraz , mandou dizer a ElRey como 
hia de caminho pêra Malaca ; e por o Go- 
vernador da índia ter fabido como elle re- 
colhera toda a fazenda , e artilheria , que 
fe alli perdera de huma náo , e bai*gantim , 
lhe mandara que paíTafle per alli , e arreca- 
daífe tudo delle Rey , em cujo poder efta- 
va , que lhe pedia que lhe mandaífe entre- 
gar tudo. Ao que o Rey da terra refpon- 
deo , que elle não fabia outro mais certo 
author , em cujo poder efiiveífem aquellas 
coufas , que no fundo do mar , cm que fe 
a náo., ebargantim perderam 7 íegundo oiir 

vio 



54o ÁSIA de JoXo de Barros 

vio dizer , por tanto com elle devia ter ef- 
te requerimento. Que havendo elle mifter 
alguma coufa daquelle feu Reyno , que de 
mui boa vontade folgaria de a dar , como 
fazia aos Portuguezes que alli chegavam , 
de que elle João de Borba era teílemunha 
em que eítado alli veio ter , e como foi per 
elle agazalhado. Em quanto efte , e outros 
recados andaram entre BIRey , e Jorge de 
Brito , veio alli ter Rafael Catanho , que 
fe apartara no mar com tempo da conferva 
de Jorge d'Alboquerque 5 e quizera ficar al- 
li com Jorge de Brito, o qual elle não con- 
fentio; porque eftavam já todos tão cheios 
da eíperança do ouro daquelle pagode , que 
jhe parecia que eram muitos pêra a repar- 
tição , e elles foram poucos falvos do pe- 
rigo , que lhes aconteceo. Ou quiz Deos 
livrar a Rafael Catanho delle ; porque co- 
mo era cavalleiro , per ventura ficara alli 5 
como ficaram outros defte nome. E vendo 
que não queriam fua companhia , por não 
íer daquella conferva , foi correndo a cofta 
caminho de Pacem , e no porto de Pedir 
achou Chriftovão de Mendoça , que hia 
ordenado ao defeubrimento do ouro , tão 
incerto , e perigo íb , como era o 'do pago- 
de ; e ambos fe partiram dalli , e foram ter 
com Jorge d'Alboquerque , que eftava or^ 
denando a fortaleza de madeira que diUe* 

mos. 



Década III. Liv. V. Cap. III. 5*41 

mos. Jorge de Brito , depois que aquelle 
urdidor do peecado João de Borba andou 
teffcndo com recados de huma , e outra par- 
te aquelJa tea de morte ? já com indigna- 
ção de quão pouca razão fazia de íi aquel- 
le bárbaro, determinou perconfelho de to- 
dolos Capitães entrar na Cidade. E porque 
do poufo onde eílavam as nács a ella ha- 
veria huma légua per hum rio acima , or- 
denou de ir em os bateis , e aííí na fufta 
Capitão Gafpar Gallo , na qual embarcação 
podiam ir té duzentos homens. E por a 
fuíta fer maior vaíilha de todas , mandou 
que foíTem neila quaíi todos os béíieiros , 
e cfpingardeiros , que feriam té feíTenta y 
com alguma artilheria , fazendo fundamen- 
to que ao tempo da fahida em terra efta 
fufta aíTi provida lhe podia fervir em lugar 
de baluarte 3 que defendeííem a ribeira, por 
lhe não fer impedida lua embarcação em 
algum aperto , em que fe podia ver. Orde- 
nada efta ida , partio Jorge de Brito ante 
manha , e fendo quaíi a meio caminho , 
achou huma povoação de poucas cafas ao 
fobpé de hum tefo , que vinha beber na 
agua , a qual quebrava em huma rebancei- 
ra alta de barreiras , onde eftava feito huma 
força de madeira ao modo de baluarte com 
alguns berços pêra defender a palíagem. 
Chegado Jorge de Brito já dia bem claro 

a ef- 



$4& ÁSIA de João de Barros 

a efte lugar , deteve-fe hum pouco efperan* 
cio pola fufta de Gafpar Gallo que não vi* 
nha , por vir mais carregada que os bateis 
afii de gente , como artiiheria ; e fobre tu- 
do ventava o terrenho da terra enfiado pe- 
la madre do rio , que lhe era ainda maicr 
inconveniente. Eftando afli quedos , pareceo 
aos do baluarte que ília detença era por te- 
merem pa(Tar per diante delle , por fer tão 
perto, que lhe podiam chegar com os ber- 
ços que tinham : e por dar moítra de íi , e 
aflora brar os noflbs , fizeram alguns tiros. 
Vendo a gente que lhe tiravam , começou 
de íè agaítar , dizendo a Jorge de Brito , 
pêra que era mais efperar , porque não ía- 
hiam em terra tomar aquelles tiros ante 
que os mataflem alli fem fazer alguma cou- 
fa ; e mais que pêra paíTar por diante, de 
força os haviam de tomar. Importunado Jor- 
ge de Brito da gente , e vendo que não ap- 
parecia Gafpar Gallo , mandou a Lourenço 
Godinho com alguns béfteiros , e efpingar- 
deiros , que ficaram nos bateis , que rodeaf- 
fe o tefo que a terra fazia , por fer huma 
encuberta per onde podia vir gente , que 
lhe tomaííe a embarcação , e lha feguraífe* 
Dado efte refguardo áquelle lugar de fuf- 
peita , foi elle commetter o outro , em que 
a tinham menos , onde acharam maior pe- 
rigo j não tanto por culpa do lugar, quan- 
to 



Década III. Liv. V. Cap. III. 543 

to da leviandade de hum dos que levava 
comfigo chamado João Serrão. Porque ten- 
do já entrado o baluarte levemente , e lan- 
çado fora os Mouros que eftàvam dentro, 
e tomados três , ou quatro berços com que 
tiravam, eftava Jorge de Brito determinado 
de fe fazer alli forte té que vieííe Gafpar 
Gaiío , e Lourenço Godinho pêra juntamen- 
te fazer feu caminho. E porque os Mou- 
ros da povoação > que eftava ao fobpé do 
baluarte , e aíli dos que fogíram delle , ti- 
ravam de baixo 5 cfte João Serrão , a que 
os outros chamam Pêro de Gião , ou por 
lhe dar mais certo nome , homem eme le- 
vava o aguião de Jorge de Brito na mão > 
e na cabeça os fumos do vinho , em que 
fe entregara aquella madrugada , por lhe 
dar coragem ao commetter , defattentada- 
mente lança a correr pelo tefo abaixo , e 
não parou lenao entre os Mouros , onde 
logo foi morto , e trás eííe Aires Botelho , 
que o feguia. Ao correr dos quaes acudiram 
outros 5 e travou-fe huma peleja de manei- 
ra ? por verem perder o aguião de Jorge 
de Brito , que lhe conveio a elle fahir do 
baluarte com toda a outra geme. Na qual 
conjunção chegou EIRey que vinha com 
té oitocentos , ou mil homens , e féis ele- 
fantes armados a feu modo. E a primeira 
coufa de que fe quiz ajudar dos noílos , fo- 
ram 



5*44 ÁSIA de JoÃo de Barros 

ram huns bufaros bravos , que naquelle lu- 
gar tinha encerrados [ porque dando os nof- 
íos nelle , achaífem alli aquellas feras , de 
que podiam receber damno , como recebe- 
ram , e aíli dos elefantes que vieram trás 
elles. Hum dos quaes querendo-lhe Gafpar 
Fernandes pôr o ferro da lança, elle com 
a tromba o lançou tão alto , que quando 
cahio , por ir muito armado , embaçou , 
de maneira , que a mão tenente o mataram 
os Mouro?. Jorge de Brito vendo o dam- 
no que lhe faziam eftas feras , a grão pref- 
fa mandou per hum pagem feu chamar Lou- 
renço Godinho , que acudifle com os bes- 
teiros 5 e eípingardeiros , e o defabafaííe 
delles , porque com a gente bem fe haveria ; 
e efpedido eíle recado , veio-fe retrahendo 
contra o baluarte , onde efperava de fe fa- 
zer forte. Porém era já tanto Mouro fobre 
elles com zargunchos, frechas, epáos tof- 
tados de arremeíTo , que nao havia coura- 
ça , ou adarga , que nao paffaíTem , com 
que derribaram alli alguns dos noíTos. Por 
acudir aos quaes trafpaflaram com huma 
azagaia de arremeíTo as queixadas a elle Jor- 
ge de Brito ; e vendo alguns dos Capitães 
que o acompanhavam naquelle eftado , co- 
meçaram de o obrigar a que fe recolheíTem , 
pois não vinha Lourenço Godinho , nem 
Gafpar Gallo. Ao que elle refpondeo , co- 

niQ 



Década III. Lxv. V. Cap. III. 5*45- 

mo cavalíeiro que era , já mal pronuncian- 
do a palavra: Fera que he vida J em hon- 
ra ? adiante , fenhores , que nos taes tra- 
balhos acode Deos. Mas não tardou muita 
que fobre eíla ferida veio hum daquelles páos 
toílados , que lhe atraveílbu as pernas , com 
que cahio , e dalli acabaram de 'o matar. 
E como aqui foi o maior conflito dos nof- 
íòs , ficaram naquelle lugar mortos com Jor- 
ge de Brito Chriftovao Corrêa , Chriílovão 
Pinto , João Pereira , Francifco Godiz , e 
outros , em que entravam quatro , ou cin- 
co muílcos , que por fer coufa nova áquel- 
la jornada de Jorge de Brito ,. e elle fer da- 
do a iílb , folgou de os levar. Entre os 
quaes era hum chamado Gomes , moço da 
Capella d'EiRey D. Manuel , que não fe 
podia bem determinar qual era o maior eí- 
tremo deíle , a voz , e a fuavidade , e mo- 
do do leu cantar, ou os vicios a que era 
inclinado. Ouvindo Luiz Pvapoíb , e Pêro 
Veloíb ambos criados d'ElRey , os quaes 
foram da creaçao de Jorge de Brito, como 
elle ficava entre os Mouros , começaram 
bradar : Volta , volta , fenhores , acudi ao 
vojjo Capitão. Mas todos eíles íeus brados 
não aproveitaram pêra mais , que pêra am- 
bos fe irem offerecer em íàcrificio , por acu- 
dir áquelle de que tinham recebido crea- 
çao , cuidando de o achar vivo. Finalmen- 
Tom.IILP.L Mm te, 



5*46 ÁSIA de JoÃo de Barros 

te , elles houveram de perecer alii todos y 
fenão Íobrevieram Lourenço Godinho , e 
Gafpar Gallo , que com os béíleiros , e ef- 
pingardeiros , que fizeram praça , íe puderam 
embarcar as relíquias , que ficavam de obra 
de cento e vinte homens , que eram com 
Jorge de Brito j porque os mais , que fazia 
o número de duzentos 3 com que elle par- 
tio das náos , andavam com eftes dous Ca- 
pitães ; e naquelie bárbaro , e eílranho lu- 
gar ficaram mais de cincoenta homens fi- 
dalgos , e cavalleircs da mais nobre 5 e 
limpa gçnte , que bia naquella Armada , a 
fora outros que foram no conto dos feri- 
dos , que faleceram depois. Recolhidos aos 
navios , não tiveram mais certo coníelho , 
que fazer-íè á vela ao longo da cofia com 
fundamento de acharem Jorge cPAltfoquer- 
que em Pacem , onde fabiam que havia de 
ir com o Príncipe que levava. E fendo tan- 
to avante como o porto de Pedir , acharam 
Rafael Catanho , e Chriílovão de Mendo- 
ça com os três navios do feu defcubrimen- 
to pêra as Ilhas do Ouro. O qual quando 
vio aquella Armada aífi desbaratada , e fem 
Capitão , quizera lançar mão delia ; peró 
como ainda alli hiam alguns homens Fidal- 
gos , e de conta , o não confentíram , efpe- 
rando que viefle António de Brito irmão 
de Jorge de Brito , que ( como diíTemos ) 

fica- 



Década III. Liv- V. Cap. III. 5*47 

ficara concertando o navio , com a vinda 
do qual ceifou tudo. Porque entregando-fe 
dos papeis que íeu irmão levava , foi acha- 
da huma Provisão d'ElRey D. Manuel , em 
que havia por bem que elle fuccedeffe na- 
quella capitania , falecendo feu irmão. O 
qual a primeira coufa em que entendeo , tan- 
to que teve poíTe delia , foi prover as capita- 
nias , e officios em lugar dos que faleceram* 
De Capitão mor do mar , que elle havia de 
fervir , proveo a Simão d' Abreu , e a Pêro 
Botelho irmão de Lourenço Godinho , e a 
Prancifco de Brito de Capitães de dous na- 
vios s> e de Feitor a Ruy Gago, e de Al- 
moxarife a Gafpar Rodrigues , e a outros 
de outras coufas , que vagaram por morte 
de outros. Partidos eítes Capitães , foram a 
Pacem , onde acharam Jorge d'Alboquer- 
que , que tinha já provido deíles mefmos 
cargos a outras peííoas , e de Capitão em 
lugar de Jorge de Brito , a D. Sancho por 
ter Alvará d'EíRey D. Manuel v que todo- 
los officios que vagaíTem em Malaca , e na- 
quellas partes , em que elle tinha jurdição , 
havia por bem que os proveííe té vir pef- 
foa que elle mandaífe que o ferviíle. E pê- 
ro que houve razões de huma parte , e ou- 
tra como fe haviam de entender eftas duas 
provisões , a fua, e a de António de Bri- 
to, todavia António de Brito ficou com a 
Mm ii fua 



^48 ÁSIA de João de Barros 

íua capitania. E porque tinha algumas cou- 
fas , de que fe havia de aperceber em Ma- 
laca pêra fazer íua viagem ? foi-fe diante 
de Jorge d'Alboquerque , por elle ainda 
ter que prover naquella fortaleza de Pacem , 
o qual não tardou muitos dias que não foi 
trás elle. Porque como o acabamento da 
fortaleza havia mifter muito tempo, e Ra- 
fael Catanho , Rafael Pereftrcllo , e Chrif- 
tovão de Mendoça alli fe haviam de pro- 
ver , e carregar de pimenta 5 e de outras 
coufas pêra fazerem fuás viagens , e tam- 
bém o tempo não era da monção pêra on- 
de cada hum havia de ir , principalmente 
a de Chriílovao de Mendoça , que era já 
paliada , mandou a todos que ficaffem alli 
em ajuda , e favor daquella fortaleza em 
quanto eíla não citava em eílado pêra fe 
poder defender. Finalmente , acabadas eílas 
coufas \ elle fe pardo pêra Malaca , onde 
chegou a falv amento , e achou António de 
Brito , e Garcia de Sá , que lhe entregou 
a capitania. E verdadeiramente fe eíles Ca- 
pitães não ficaram em favor daquella for- 
taleza de Pacem , ella não durara em pá 
muitos dias ; e per ventura fora melhor na- 
queíle tempo , que durar té outro , que a 
fez mais cuíloía , e com muito damno nof- 
fo. Porque tanto que Jorge d'Alboquerque 
fé partio , Melique Ladií hum Mouro , que 

di- 



Década III. Liv. V. Cap. TIL 5-49 

dizia pertencer-lhe aquelle Reyno de Pacem , 
per hum rio, que vem cortando dentro pe- 
lo fertao té fe metter no que vem dar na 
Cidade , vinha com lancharas 3 (que são os 
navios de remo , que naquellas partes de Ma- 
laca fe mais ufa , ) e dava muitos faltos nel- 
la , com que a gente recebia muita oppref- 
sao. E o que peior era , que lhe não leixa- 
va vir os mantimentos , que per aquelle rio 
abaixo fohiam vir , de que fe ella manti- 
nha ; e xúo fe contentando com efte dam- 
no que fazia , por andar mui poderofo com 
treze lancharas , e cevado nos faltos que fa- 
zia a feu falvo , atreveo vir á noíía forta- 
leza dar rebates de noite , té lhe vir pôr 
fogo, e acolhia-fe logo a hum eftreito que 
tomava por acolheita. Os Capitães vendo 
efta fua oufadia , fízeram-íè preftes , e foram 
trás elle ; o qual depois que começou a feu*- 
tir o feu ferro 5 largou as lancharas , met- 
tendo-fe pelo mato > com que ficou de to- 
do desbaratado , trazendo os Capitães to- 
dalas lancharas pêra ferviço da fortaleza , 
a qual depois que foi poíta em eftado que 
bem fe podia defender , Chriftovão deMen- 
doça , e Diniz Fernandes foram-fe pêra Ma- 
laca. E Pêro Lourenço de Mello 5 que al- 
li depois também veio ter , foi-fe perder 
nas Ilhas que chamam de Andramú , a gen- 
te das quaes come carne humana, indo el- 
le 



$$o ÁSIA de João de Barros 
le pêra Bengala carregado de pimenta , que 
tomou alli em Pacem. E o mefmo rííco de 
fe perder correo Rafael Pereftreílo , indo 
também pêra Bengala , onde chegou ; e do 
que alli fez, ao diante daremos razão. 

CAPITULO IV. 

Como Jorge d/ Alboquerque foi d Ilha de 

Mintam pêra deflruir a povoação que 

ElRey nella tinha , e o que lhe fucce- 

deo nefta^ ida , no fim da qual António 

de Brito fe par tio pêra Maluco. 

JOrge d'Alboquerque tanto que foi entre- 
gue da fortaleza de Malaca, quiz logo 
entender nas coufas d'EIRey de Bintam , o 
qual (fegundo lhe diííeram) eílava mui prof- 
pero na Ilha Bintam , e dalíi mandava com 
fuás lancharas correr a Malaca , e não Ici- 
xava vir pelo eílreito de Cingápura navio 
algum , com que tinha a Cidade poíta em 
neceííidade de todaías coufas. Ao que Gar- 
cia de Sá não podia acudir por eílar mui 
desfalecido de gente ; e alguma que tinha , 
nao a queria aventurar, cá podia com iífo 
pôr-fe em eftado que perdelfe a fortaleza; 
tão pouca era a gente que nella havia. E pof- 
ro eílc cafo em confelho dos Capitães que 
alli eílavam , vifta a necellidade em que a 
Cidade eílava poíla , e quão poderofo ElRey 

de 



Década III. Liv. V. Cap. IV. 571 

de Bintam fe hia fazendo com fazer arribar 
quantos juncos vinham peroeftreito deCin- 
gápura , por elle eítar na garganta delle , e 
quanta , e boa gente então alli eílava , aíli 
da Armada de António de Brito , como dos 
outros Capitães , que per ventura paliariam 
muitos annos em que não houveííe outra 
tal conjunção , acordaram de o fazer poio 
muito que efte negocio importava ao eftado 
daquella Cidade. E porque António de Bri- 
to , que havia de ir pêra Maluco , nãofofle, 
e tornafle outra vez a Malaca y ordenou elle 
com Jorge d'Alboquerque , que efta ida a 
Bintam foíTe indo elle já de caminho , cá 
não faria mais que chegar a Bintam com elle , 
e dahi fe defpedir. Porque chegara António 
de Brito em conjunção a Malaca , que tanto 
importava a fua ida ler logo , como aquelle 
negocio de Bintam. A qual conjunção era 
haver pouco tempo que era partido de Ma- 
laca hum Mouro per nome Cachiláto , pa- 
rente d'ÈlRcy Boleife de Térmite das Ilhas 
de Maluco , enviado per elle Rey* ao Capi- 
tão de Malaca em hum junco , que pêra if- 
fo armou, em companhia do qual (fegundo 
elle contou) partira também outro junco , 
em que vinha por Capitão Francifco Ser- 
rão , que Aífonfo d'Alboquerque , quando 
tomou aquella Cidade Malaca (fegundo eícre- 
vemos) mandou com António d' Abreu , e 

ha- 



?;5z AS1A de JoXo de Barros 

havia annos que lá eítava. E por as coufas 
que diííe a EIRey , e outras que depois fuc- 
cederam aíli da nofla , como da íua parte ,. 
defejava elleBoIeife que EIRey D. Manuel 
mandaííe lá fazer huma fortaleza. E quan- 
do vio que com cartas , que per vezes elle, 
e Francifco Serrão tinham eferito aos Ca- 
pitães de Malaca , e Governadores da ín- 
dia , per juncos que lá hiam carregar de cra- 
vo , não eram refpondidos ; determinou EI- 
Rey , como homem prudente que era , man- 
dar o mefmo Francifco Serrão em hum jun- 
co , e efte Cachiláto feu parente em outro ; 
porque acontecendo alguma fortuna a hum , 
que o outro podia vir a Malaca ; e affi 
foi , (como fe depois foube , ) que o de Fran- 
cifco Serrão tornou arribar a Malaca. Ao 
qual Cachiláto Garcia de Sá fez muita hon- 
ra , e deo muitas dadivas pêra elle , e pef- 
foa d'ElRey ; reípondendo , que as cartas 
que lhe dera pêra EIRey D. Manuel , e feu 
Governador da índia, elle as enviara. E po- 
lo que elle Garcia de Sá fentia d'ElRey , 
e do feu Governador , pelas cartas que lhe 
efereviam da maneira que elle Garcia de Sá 
fe havia de,haver com as coufas de Malu- 
co , a elle lhe parecia que não tardaria mui- 
to mandarem hum Capitão pêra fazer a for- 
taleza , que EIRey Boleife tanto defejava. 
Sobre o qual % negocio o anno paífado era 

par- 



Década III. Liv. V. Cap. IV. 573 

partido pêra lá hum Capitão per nome Dom 
Triftao de Menezes , o qual fe os tempos 
o não contrariaram , elle eftaria já com EI- 
Rey JBoleife, ou feria de lá partido. Parti- 
do efte Cachilato mui contente de Garcia de 
Sá , chegou o mefmo D. Triftao , que lho 
elle dizia , o qual vinha muito mais conten- 
te d'ElRey Boleife, e das coufas daquellas 
partes eftarem poftas no que EIRey D. Ma- 
nuel quizeííe ordenar daquelle Rey Boleife , 
e de todo feu eftado. Peró efte contentamen- 
to não o trazia elle de li , porque como era 
cavalleiro , e de muito primor nas coufas da 
honra por o que lá paflbu , que não foi por 
defeito de fua peflba , mas defaftre , gerou- 
fe-lhe hum a poftema (fegundo dizem) d efta 
paixão , de que morreo de fua chegada a 
Malaca a poucos dias ; da viagem , e iuc- 
cedimento do qual, por pertencer ás coufas 
de Maluco , daremos adiante razão. Com 
efta preífa que EIRey Boleife dava a que os 
noíTos lá foífem , e coufas que António de 
Brito , e os de fua Armada ouviam das ri- 
quezas , e variedade daquellas tantas mil 
Ilhas, que havia naquelle Oriente, era ta- 
manho o alvoroço nelles de fe partir, por 
chegar aonde eram chamados , que o mef- 
mo António de Brito era o que mais aprec- 
iava que foílem ao feito deBintam por fa- 
zer efta fua viagem. Do qual lugar deBin- 
tam, 



574 ÁSIA de JoÂo de Barros 

tam , que hehumallha, fera neceíTario dar- 
mos primeiro noticia do fitio delia , e po- 
voação que EIRey alli fez , e quanto impor- 
tava fer totalmente deftruida. EIRey que foi 
de Malaca ? (como temos efcrito) andou de 
huma a outra parte bufcando íitio de fua ha- 
bitação o melhor 5 e mais feguro , e também 
proveitoíò para nos fazer a guerra , como 
fazia. E deftruida a que fez em o Pago per 
António Corrêa , não achou outro mais con- 
veniente 3 que a Ilha Bintam , ainda que 
hum pouco longe de Malaca , porque dif- 
tava delia per efpaço de quarenta léguas. 
Porque (como atrás he efcrito) a navegação 
de iodo aquelle Oriente pêra vir a Malaca 
he per dous canaes , a que chamamos eftrei- 
íos , que fe fazem entre a terra da coita Ma- 
laca , c a Ilha Çamatra ; hum corre ao lon- 
go deita Ilha , que fe chama de Sabam , e 
o outro ao longo da coita de Malaca cha- 
mado de Cingápura ? por razão da Cidade , 
que alli efteve antigamente , onde fe fazia o 
commercio de Malaca , como atrás efcreve- 
mos. E o que faz eítes dous eítreitos em tan- 
ta largura , como ha da terra firme a Ça- 
matra , que poderão fer vinte léguas , he 
metterem-fe no meio deite efpaço tantas 
ilhas , baixos , e reftingas , que não fe pode 
navegar per alli, e ficam ao longo deitas duas 
coitas que dizemos dous canaes y per onde 

a for- 



Década III. Liv. V. Cap. IV. 5-57 

a força da agua entrou mais liberalmente , 
per os quaes fe communicam , e navegam 
todalas mercadorias daquelie Oriente do mar 
da China , e do Ponente do mar da índia. 
Per o canal chamado de Sabam navegam to- 
dalas que vam , e vem pêra a Jaiia , Ban- 
da 3 Maluco , e a todas aquellas Ilhas a el- 
las adjacentes, que jazem da linha Equino- 
cial pêra o Sul ; e pelo da banda de cima 
chamado de Cingápura navegam da linha 
contra o Norte , em que entram as Ilhas de 
Japam , Lequios , Luçoes , e outras mil 
Ilhas com todos os Reynos da coita da Chi- 
na té a ponta de Ugentana ; e eíte em par- 
tes he tão eítreito, que vam as entenas das 
velas roçando com o arvoredo da ferra. Fi- 
nalmente per eítes dous canaes fe navegam 
as partes Orientaes além de Malaca , na en- 
trada de hum dos quaes , que he o de Cin- 
gápura , EIRey que foi delia, por lhe tirar 
todo o commercio daquellas partes , fe foi 
apoufentar junto em huma Ilha chamada Bin- 
tam , onde naquelle tempo era intitulado 
Kcy. A qual Ilha da entrada defte canal ef- 
tara pouco mais de féis léguas , cuja forma 
he como quando a Lua tem a terça parte 
cheia do Sol. E porque os Mouros naquel- 
la lingua Malaya chamam á figura da Lua , 
quando aífi eítá , Bintam , houve a Ilha eíte 
nome. O circuito delia fera pouco mais de 

' trin- 



$$6 ÁSIA de JoÃo de Babros 

trinta léguas ; e per meio daquella angra , 
ou enfeada que tem , corre hum no de agua 
doce , per que a maré entra hum bom pe- 
daço , por a Ilha per as fraldas fer baixa , 
e alagadiça , e no meio montuoía , e per 
toda cheia de muito arvoredo. Cortada efta 
Ilha em duas partes com eíte rio , ao mo- 
do de Malaca , em huma onde a terra era 
mais fragoía per dentro , e alagadiça na en- 
trada , alii junto ao rio que a cortava , fez 
huma povoação grande , onde fe apoufen- 
tou. Atravcífando o rio com huma ponte de 
mui groíTa , e forte madeira de páo , a que 
os noííbs chamam ferro , por fer mui durá- 
vel , que per nome próprio he chamado Bar- 
buíanOj e no fim da ponte da outra banda 
deípovoada hum baluarte do mefmo páo en- 
tulhado de terra de maneira, que ficava to- 
do maciço, onde poz grande número dear- 
tilheria. È leixando a madre , per onde cor- 
ria o rio , porque quando a maré era va- 
zia ficava tudo huma vaia defcuberta , per 
que não fe podia fahir ern terra fenão de 
maré cheia , toda aquelía parte que ficava 
em vafa , começando da ponte té a barra , 
onde o rio entrava no mar , que era hum 
grande efpaço , de huma banda , e da ou- 
tra mandou metter eftacadas de madeira de 
nove ordens , que occupavam toda a vafa 
defcuberta. E na foz do rio mandou lançar 

mui- 



Década III. Liv. V. Cap. IV. 577 

muita pedra folta , por a fazer mui eftrei- 
ta 5 e per elJe acima metter outra eftacada 
á força de maço, aíli fortes, e compridos, 
que parecia nafeerem alli. Os quaes hiam 
mettidos per tal ordem, que ficava a ferven- 
tia da Cidade per hum canal tão eftreito , 
e retorcido , que parecia huma cobra feri- 
da , de maneira , que fubir hum navio per 
elle té chegar á ponte com boa paz era 
com muito trabalho. Efiava mais a Cidade 
cercada de madeira per dentro boa altura , 
toda em pannos á femelhança de dentes de 
cerra , que huns defendiam os outros com 
a artilheria nelles pofta ; pois querer ir á Ci- 
dade per outra parte era impoílivei , por 
a Ilha em torno ler alagadiça , e tão cuber- 
ta de arvoredo , que per dentro não fe anda- 
va fenao per humas certas veredas. Final- 
mente , aíli per fitio , como per arte aquel- 
la Cidade eftava tão defenfavcl , que qual- 
quer homem que anotafíe bem, o faria du- 
vidoíò de fe poder commetter, quanto mais 
entrar. Jorge d'Alboquerque peró que fou- 
befie muita parte deitas coufas per algumas 
peflbas que o informaram , não era aífi par- 
ticularmente como o cafo requeria. Com tu- 
do , porque a eftacada que hia pofta per meio 
da madre do rio havia de fer o maior im- 
pedimento pêra chegar á ponte , mandou 
ante de fua partida três navios mui bem ar- 



5^8 ÁSIA de Joio de Barros 

tilhados, e providos pêra iííò, que lhe fof- 
fem pouco , e pouco tirando aquellas efía- 
cas , pêra que quando elle chegaíTe com to- 
da a frota , achar o canal delpejado , e ir 
logo avante com hum dos navios mais altos 
dos caftellos a fe igualar com a ponte. Dos 
quaes navios eram Capitães D. Rodrigo da 
Silva , Joáo Fogaça , e Henrique Leme ; e 
chegados á barra do rio , começaram íua 
obra , arrincando as eftacas pequenas a ga- 
viete com hum batel , e as maiores ao ca^- 
breftante do navio de Henrique Leme. Ao 
qual paliaram muita parte da gente dos ou- 
tros , por o muito trabalho que nelle havia 
de haver, e fe revezarem a elle, ordenado 
logo com fuás arrombadas , que também ha- 
via de fazer emparo ao batel. A qual obra 
lhe foi mais trabalhofa , e perigofa , do que 
lhe pareceo no princípio ; porque como fo- 
ram per dentro do canal , começaram rece- 
ber muitas bombardadas de alguns lugares , 
onde os Mouros vieram pôr fua artilheria 
pêra lhe impedir o que faziam , com que 
mataram dons, ou três homens, e feriram 
muitos com as rachas do navio , que a ar- 
tilheria quebrava. Havendo já féis dias que 
continuavam eíla obra , aíli de noite , como 
de dia , eílando huma noite o navio amar- 
rado a quatro cílacas , por ferem aguas vi- 
vas, foi tamanlja a força da agua, quando 

va- 



Década III. Liv. V. Cap. IV. ^9 

vafava , que quebraram as eftacas , e amar- 
ras. Com que o navio foi dar a través fo- 
bre huma foíTa alcantilada , que quando a 
maré acabou de vafar , ficou enforcado , fem 
os noílbs entenderem o perigo , em que ef- 
tavarn 5 fenao quando fentíram outro maior 
já no quarto da alva , que eram muitas lan- 
charas , que demandam pouca agua y que co- 
meçaram querer entrar. E quando fe viram 
cercados , e o navio poílo de maneira que 
não fe podiam ter empe, fem eftar apega- 
dos , eelíes nefte tempo haviam miíler qua- 
tro mãos 3 houve alli alguns que commet- 
têram querer-fe recolher ao batel , que ti- 
nham a hum cortado do navio. Porém co- 
mo o perigo era commum , em que fe tra- 
tava da vida de todos ; e não fe podiam re- 
colher fera leixarem a artilheria , e a honra 
com ella , e ainda o não podiam fazer a feu 
faívo , por quão rodeados eftavam dos Mou- 
ros , não acharam melhor remédio , que fj- 
bir-fe aos caftellos da popa delle , donde co- 
mo de baluarte começaram defender que não 
entraiTern os Mouros dentro ; té que em ama- 
nhecendo viram os outros navios feu peri- 
go , e acudíram-lhe , recolhendo a gente , e 
artilheria fem os imigos oufarem de os com- 
metter , porque acertou a eíía hora de ap- 
parecerJorged'Alboquerque, que fubia pê- 
ra cima da barra , onde tomara o poufo, 

com 



560 ÁSIA de João de Barros 

com temor do qual ie recolheram. Na qual- 
frota vinham eíles Capitães , Jorge cPAlbo- 
querque , D. Sancho , e D. Garcia Henri- 
ques íeus cunhados , e Jeronymo d 5 Albo- 
querque leu filho , D. Affonfo de Menezes , 
Garcia de Sá > D. Eíievao de Caítro , Ma- 
nuel Pacheco 5 Henrique de Figueiredo , 
Jorge Botelho. E das outras era António de 
Brito , e os que hiam com elle pêra Malu- 
co , cujos nomes já difíemos. Em que ha- 
veria com a gente que já alli eílava dos três 
navios té feiscentos homens , muita parte 
dos quaes eram Fidalgos cavallciros , e cria- 
dos d'EiRey com outra gente limpa. Vifto 
o lugar , e a difficuldade de fua entrada , e 
o damno que os primeiros navios tinham re- 
cebido , e quão pouco era feito no tirar das 
eftacas , pêra o que fe ainda havia de fazer 
com parecer dos Capitães ; aíTcntou Jorge 
d'Alboquerque mudar o propcíito que tra- 
zia á cerca de commetter aquelle feito , que 
era ir com os navios acima té abarbar na 
ponte , pois o íítio , e difEculdades do lu- 
gar não dava de 11 tanta ciperança 9 quanta 
Manuel Pacheco lhe deo , e per cuja infor- 
mação commettêra aquelle negocio do mo- 
do que vinha. Todavia , porque elle Ma- 
nuel Pacheco dizia que andara já per alli em 
outro tempo de armada , e fabia as entradas 
daquelle lugar ; acceitou Jorge d'Alboquer- 

que 



Década III. Liv. V. Cap. IV. $6i 

que levallo por guia per entre hum arvore- 
do de mangues , que nafciam na vafa , e da- 
li i haviam de ir fahir diante da fortaleza. E 
per outra parte em bateis iriam demandar 
abaixo hum pouco do baluarte pêra com- 
metter efte combate per dous lugares : a dian- 
teira de hum dos quaes Jorge d'Alboquer- 
que deo a António de Brito , que era o da 
parte da Cidade , e o da ponte a Garcia de 
Sá , e elle iria com o corpo da outra gente 
pêra acudir onde mais neceíTario foíTe. Pofta 
em obra cila fahida , foi ella tal , principal- 
mente per onde guiou Manuel Pacheco 5 por 
tudo fer vafa, que dava pela coixa aos ho- 
mens ; que quando chegaram a hum canto 
da fortaleza per onde quizeram entrar, tan- 
to damno lhe fazia a vafa , que levavam em 
íi pêra com metter , como pêra ferefguardar 
da artilheria , porque andavam tão pegados , 
que não fe podiam revolver. Com tudo de- 
pois que os homens começaram de fe efquen- 
tar em fúria , houve alguns que começaram 
a trepar pela tranqueira acima ; mas foram 
logo derribados , porque tudo eram pelou- 
ros de artilheria , efpingardas , fettas 5 zar- 
gunchos, e de tudo tanto, que o ar anda- 
va coalhado deitas coufas. Com as quaes lo- 
go alli ficaram mortos quinze homens , de 
que os principaes eram D. Efte vão de Ca£ 
iro , Fernão da Gama , e Jorge de Mello 
Tom. III. P.I. Nn tara- 



<TÓ2 ASIA de JoAo de Barros 

também ficou de maneira , que dahi a pou- 
cos dias morreo ; e feridos D. Rodrigo da 
Silva , Henrique Leme , Jorge Botelho , e 
outros muitos. Garcia de Sá na outra parte 
do baluarte onde chegou , também foi rece- 
bido com outra tal nuvem de tiros j e aper- 
fiou tanto por fubir ao baluarte per cima dos 
páos 3 que querendo-fe ajudar de dous ho- 
mens feus , que o tomaííem ás coitas , hou- 
ve duas lançadas, huma no rofto pequena, 
e outra per huma perna , que o derribou a- 
baixo , e affi foram feridos outros, que o 
feguiam. Finalmente em toda parte tinham 
os noflbs tanto que fazer , fcm terem a!gum 
artificio de efcadas , machados , ou outra 
coufa , de que fe pudeíTem ajudar , que ven- 
do Jorge d'Àlboquerque quanto damno re- 
cebia 5 e quão pouco podia fazer á mingua 
deitas coufas , fe recolheo com parecer dos 
outros Capitães. E em dous dias que eítive- 
ram no porto , tiveram confclho , no qual 
fe afientou tornarem-le pêra Malaca , vilto 
quanto mais lhe alli fervia o artificio de ef- 
cadas, machados, e de outras coufas deita 
qualidade, que ofeuanimo. Porque eíte co- 
mo era de peiTcas nobres , que defejavam 
honra , matavam nelles como em homens 
decepados, fem poder chegar aos imigos , 
por eítarem debaixo , e elles em cima. E ef- 
perarem alli té que foffem a Malaca bufcar 

ai- 



Década III. Liv. V. Cap. IV. 5^3 

algumas deitas coufas , era dar mais animo 
aos Mouros deterem-fe tantos dias iem os 
commetter ; e mais convinha que António 
de Brito íe partiffe fazer fua viagem , que 
começava tardar por razão da monção , e 
também por caufa das novas , que achou em 
Malaca. A1T1 que havendo reípeito a eílas 
coufas , Jorge d^lboquerque fe tornou 5 
nao com tanta vitoria como a de Pacem ; 
no commetter da qual efperando também por 
efeadas , e machados pêra cortar aquella tran- 
queira 5 que era os muros que lhe defendiam 
aquella entrada , pelo cafo que contámos , 
Deos o chamou pêra lhe dar aquella vito- 
ria. E quanto pela parte do feu animo , on- 
de quer que fe elle achara 3 a houvera de 
levar , porque elle era muito cavalleiro ; e 
peró como virtuofo 3 e confiado no que lhe 
os homens diziam , nao era muito previílo 
nas cautelas , e cafos da guerra. E daqui pro- 
cedeo nao levar eíle feito avante , porque 
fiou-fe no que lhe Manuel da Gama diíTe de 
quão fácil era a entrada do rio , e aíii a de- 
fensão da madeira da fortaleza , e baluarte , 
que fem efeadas podia hum homem fubir per 
ella. E poílo que noíTò officio não feja con- 
demnar , ou aííolver eftes feitos , apontamos 
as coufas delles pêra doutrina das que eílam 
por vir , por efte fer o frufto da hiftoria > 
em os negócios prel entes fempre os applicar 
Nn ii aos 



564 ASIÀ de João de Barros 

aos cafos palTados daquelle género , de que 
ella faz menção. Chegado Jorge d\Alho- 
querque ao Cabo de Cingapura , pêra dalli 
eípedir António de Brito , vinha Jorge de 
Mello tal das luas feridas , que alli ficou fe- 
puitado ; e António de Brito proveo da ca- 
pitania do feu navio a António de Mello 
feu irmão , e affi proveo outras peílbas de 
cargos per morte de alguns homens , que 
morreram naqueíle commettiolcnto. E lei- 
xando Jorge d 3 Alboquerque , que dalli fe 
foi pêra Malaca , onde chegou a falvamen- 
to 5 continuaremos com António de Brito , 
que fez fua viagem caminho das Ilhas de 
Maluco , dando primeiro nefte feguinte Ca- 
pitulo huma geral noticia delias pêra enten- 
dimento da hiíloria. 

CAPITULO V. 

Em que fe defcrevem as Ilhas chamadas 

Maluco . e fe dá noticia de algumas 

coufas delias. 

TOda aquella parte do Oriente , que jaz 
além da Ilha per nós chamada Cama- 
tra , e dos antigos Geógrafos Áurea Cher- 
fonefo , não foi fabida per elles. E peró que 
affi feja , e Ptolomeu o confeífe na defcrip- 
ção defuasTaboas, todavia elle faz a todo 
aquelle Oriente huma tcíta de terra contínua , 

e yem 



Década III. Liv. V. Ca?. V- $6ç 

e vem defcendo com ella té nove gráos da 
parte do Sul. Com a qual tefta fe aparta da 
Ilha Çamatra contra o Oriente per efpaço 
de dous gráos e meio , em que cerra , e 
acaba o número dos cento e oitenta gráos 
da quarta parte do mundo pouco mais , que 
em feu tempo era fabido ; e naquelle canto 
onde fecha efta longura , e largura , fitúa 
huma Cidade chamada Caltigara ? que pare- 
ce mais pêra o termo deita ília computação > 
como ponto celefte imaginado , que por fer 
aífi. E ainda pêra mais tefteniunhar efte pon- 
to por verdadeiro , per toda efta tefta vai 
íituando outras Cidades , e deliniando rios y 
nomeando eníeadas , e promontórios , como 
fe alli houvera alguma coufa deftas. Parece 
que aífi defta parte , como de outras muitas , 
por o mundo naquelle tempo não fer mui 
curfado , e navegável , elle foi mal informa- 
do , com que cahio nos erros , que fuás Ta- 
boas tem , como nós ao preíente , tendo tan- 
to navegado , e defcuberro , também per bo- 
cas alheas vimos a cahir em outros taes. Po- 
rém quanto a efte , fabemos per noíías na- 
vegações fer mar , e terra retalhada em mui- 
tas mil Ilhas , que juntamente elle , e ellas 
contém em fi grande parte da redondeza da 
terra , do que ante de nolfos tempos era ía- 
bida j e no meio defte grande número de 
Ilhas eílam as chamadas Maluco , de que 

que- 



566 ÁSIA de JoÃo de Barros 

queremos dar noticia por caufa da noffa 
Jiiítoria. Por ifíb leixando a divisão geral def- 
te Oriente repartido em duas partes , Bo- 
real 3 e Auftral por caufa da linha Equinocial , 
rematando tudo no meridiano lançado entre 
Portugal T e Caftella por razão de fuás con- 
quiftas , (como fazemos em a noífa Geogra- 
fia , ) quanto a eílas Ilhas do Maluco , o feu 
íitio he de baixo da linha Equinocial. Per 
o qual parallelo diítam contra o Oriente da 
noífa Cidade Malaca pola navegação dos nof- 
fos , efpaço de trezentas léguas pouco mais , 
ou menos ; e não per íltuação Geográfica de 
eclipfes , e outras obfervaçoes de conjunção , 
e oppoíiçao d'outros Planetas com o Sol , e 
com a Lua , que pêra verificação das noffas 
Taboas temos fabido. Eílas cinco Ilhas ja- 
zem huma ante outra pelo rumo de Norte 
Sul ao longo de outra Ilha grande : o com- 
primento da qual per eíle mefmo rumo fera 
té feílenta léguas , e ifto pela cofia defta gran- 
de Ilha , que eílá da parte do Ponente, a 
qual elies chamam Batochina do Moro. E 
de quão direita ella corre com efta face do 
Ponente , tão curva , e efeachada he do Le- 
vante 5 lançando três braços , hum na cabe- 
ça , que tem contra o Norte, o. qual corre 
ao Nordeíle , e dous no meio que correm 
direito a Oriente > e ifto fegundo a pintam 
sas Cartas de navegar , com a qual figura 

quer 



Década III. Liv. V. Cap. V. 5*67 

quer parecer hum troço de páo lifo per hu- 
ma face , e três efgalhos pela outra. As ou- 
tras cinco chamadas Maluco , que jazem ao 
longo deita , todas eílam huma á viíta da 
outra per diftancia de vinte e cinco léguas. 
E não dizemos ferem cinco porque naquel- 
le contorno da Batochina , e entre ellas não 
ha já hi outras , nem menos lhe chamamos 
Maluco , por não terem outro nome ; mas 
dizemos ferem cinco , porque naturalmente 
neílas ha o cravo , e em três ha Rey pró- 
prio de cada huma. E também juntamente to- 
das fe chamam Maluco , como cá dizemos 
entre nós , Canárias , Terceiras , Cabo- ver- 
de , havendo de baixo deite nome muitas 
Ilhas , que tem o feu próprio. E o de cada 
huma deitas começando da parte do Norte 
vindo pêra o Sul , o da primeira he Ter- 
nate , que fe aparta meio gráo da linha Equi- 
nocial , e a fegunda fe chama Tidore , e as 
feguintes Moutel , Maquiem , e Bacham. 
As quaes antigamente per nome do Gentio 
natural da terra fe chamavam Gape , Duco , 
Moutil 5 Mara , Seque. Todas são mui pe- 
quenas , porque a maior não paífa de féis 
léguas em roda : a figura delias ao longe quer 
parecer hum curucheo redondo , e pelas fral- 
das ha alguma terra chã. E porém todo o 
feu marítimo he de muitos recifes de pedra , 
em que as náos que alli eílam furtas com 

qual- 



^68 ÁSIA de JoÃo de Bakhos 

qualquer vento trave fsão correm muito rif- 
co fenão eílam á de dentro de algumas ca- 
lhetas , com que o mar quebra no recife , 
e não em o coitado delias. A terra delias 
Ilhas em íi he mal aíTombrada , e pouco 
graciofa ; porque como o Sol fempre anda 
anui vizinho , ora parte ao Solílicio Boreal , 
ora ao Auftral , com a humidade da terra 
cobre-a de tanto arvoredo , plantas , e her- 
vas , que ifto faz aquella terra carregada 
no ar, e vifta delia com as exhalaçóes dos 
vapores terreftes , que fempre andam perci- 
ma delias , que faz nunca as arvores efta- 
rem fem folha. Porque ainda que mudem 
Jmma , já per outra parte eftá com outra 
nova , e outro tanto he nas hervas ; e com 
tudo cada coufa vem com fua novidade a 
hum certo tempo cada armo. Somente as 
arvores que dam o cravo refpondem com 
novidade de dous em dous annes, porque 
no apanhar quebra m-lhe o novo , onde el- 
la lança os cachos delle á maneira de ma- 
dre íiiva , como vemos que a oliveira , fe 
he muito açoutada da vara , dahi a dous 
annos não refponde com novidade porque 
ha mifter aquelle tempo pêra crear rama 
nova , em que dê azeitona. Geralmente per 
a fralda deftas Ilhas a terra he fadia , e if- 
to a que he alta ; a que tem efte marítimo 
(alagadiço, como a Ilha Baçham, he doen* 

tia, 



Década III. Liv. V. Cap. V. 5^9 

tia. A terra de todas pela maior parte lie 
preta 5 grafia , foffa 5 e tão fequiofa , e po- 
ro fa em íi , que por muito que choiva , lo- 
go he bebida toda aquella agua ; e íè al- 
gum rio tem que venha do alto das ferra- 
nias , primeiro que chegue ao mar , a terra 
o bebe todo. E aííi difpoz a Natureza íuas 
fementes , que fendo a Batochina maior que 
eftas cinco juntas , e todas dentro em hum 
pequeno efpaço de mar , nefta grande não 
ha cravo ? e tudo o que tem he mantimen- 
tos 5 e nas cinco cravo fem elles. Finalmen- 
te veio a Natureza a particularizar tanto a 
difpoíição de lua efpecifica virtude , que té 
barro pêra louça deo fomente em huma 
que jaz entre Tidore , e Moutel , chamada 
Pullo Caballe , que quer dizer Ilha das pa- 
nellas , polas que fe alli fazem do barro 
que tem , cá entre elles , Pullo íignifica Ilha , 
e Caballe panella. E não fomente nas cou- 
fas naturaes , mais ainda nas artificiaes aííi 
eftam repartidas na inclinação , e ufo dos 
homens pêra huns pola neceíTidade delias 
fe communicarem com os outros , que na 
Ilha Batochina em hum lugar chamado Gei- 
lolo fe fazem os faccos , em que fe enfar- 
delia todo o cravo , que dam todas as cin- 
co pêra fe carregar pêra fora , quando o não 
querem trazer a granel em fuás peitacas , 
como çlles coftumam. Algumas deitas Ilhas 

lan- 



57o ÁSIA de JoÃo de Barros 

lançam fogo no cume de ília maior altura , 
aíli como a Batochina do Moro , e a Ba- 
tochina de Muar , e outras a eftas vizinhas. 
E o mais notável aos nofíbs he o da Ilha 
Ternate , de que fomente daremos noticia 
pola que houvemos de António Galvão ; o 
qual fendo Capitão deitas Ilhas o anno de 
quinhentos e trinta e oito , reíidindo neíta 
Ilha Ternate em a fortaleza S. João que hi 
temos , quiz ir ver aquelle myfterio da Na- 
tureza , porque daquella fortaleza viam no 
cume da Ilha vaporar fogo , ao modo que 
vemos hum forno de cal quando começa 
cozer, fem luz alguma de dia; e de noite 
era coufa efpantofa ver as cores, e faifeas 
do fogo 5 e refcaldo que lançava em torno , 
cubrindo muita parte do arvoredo , da ma- 
neira que fe elle cobre quando neílas nol- 
ías regiões neva. Peró ifto não he em todo 
o anno, fomente nos mezes de Setembro, 
e Abril quando o Sol fe muda de huma par- 
te a outra , que paíTa a linha Equinocial , 
que corta meio gráo defta Ilha : cá então 
vençam huns ventos , que accendem aquel- 
le natural fogo na matéria que lhe dá nu- 
trimento per tantas centenas de annos. Su- 
bido António Galvão áquella altura , onde 
viam efte fogo , achou toda a coroa daquel- 
le monte efcaldada , e a terra delle foffa y 
não feita em cinza ; mas ligada huma á ou- 
tra , 



Década III. Liv. V. Cap. V. 5-71 

tra 5 e leve. E per toda aquella coroa havia 
huns redemoinhos á maneira que vemos fazer 
a agua , quando eííando eílanque lhe lan- 
çam huma pedra , que vai fazendo aquelles 
circos ; e porém os que eítavam feitos neíla 
terra eram profundos em modo de algar, 
a que podiam defcer per aquelles degráos 
circulados , que a terra fazia. Contou mais 
António Galvão , que do meio do monte 
pêra baixo tudo eram grandes arvoredos , 
e a terra adi fragofa , e cuberta delle , que 
em muitos paíTos elle , e os de fua compa- 
nhia fubiam per cordas : e de entre eíla fra- 
ga cornam ribeiros que vinham regar o chão 
delia , como que o fogo que andava no cen- 
tro daqueile monte fazia eíliliar , e íuar 
aquellas aguas. E fe Plinio , quando quiz 
ver o outro tal fogo do monte Vefuvio em. 
Itália, bufcára outra tal conjunção, como 
António Galvão bufcou , não ficara elle lá 
pêra fempre , como ficou , fegundo dizem. 
O cravo que per todo o Mundo corre , naf- 
ce neílas cinco Ilhas que diífemos , e não 
fe acha notavelmente em outras ; e as arvo- 
res que o dam , como coufa de menos ufo 
das gentes , veio Deos , univerfal diftribuidor 
do creado , encerrar neílas cinco ilhetas ; e 
a maífa, e noz em outra chamada Banda, 
que também he íenhorio deitas , da qual 
adiante faremos relação- Geralmente ainda, 

que 



572 ÁSIA de JoÃo de Barros 

que tem algum milho , e arroz , toda a gen- 
te deitas Ilhas de Maluco comem de hum 
mantimento , a que chamam Sagum , que 
lie o miolo de huma arvore á femelhança 
da palmeira , fenão que a folha lie mais bran- 
da , e maília , e o verdor feu he hum pou- 
co elcuro , cujo toro tem altura de vinte 
palmos , e no cima lança huns cachos co- 
mo palmeira de tâmaras , e nellas nafce hum 
fruko como maçans de arcipreííe , dentro dos 
quaes eílam huns pós , que fe tocam em 
carne eícaldam. Quando efte ramo he ten- 
ro , podam hum pedaço delle , e mettem- 
no em hum vaio de boca pequena ; e per 
eípaço de huma noite eftilla tanta quantida- 
de do feu licor , que fica o vafo cheio , cu- 
ja côr he de leite anaçado , ao qual licor 
elles chamam 1 uáca ; e bebido cm frefco , 
fegundo dizem os noífos que ufam delle , 
lie fadio , e engorda muito , e o fabor he 
doce , e goftofo. E per modo de cozimen- 
to , fegundo nós uíamos do moílo das uvas , 
fazem defte licor vinho , e vinagre; e de- 
pois que a arvore he já bem fangrada , com 
eflas podas he velha , em tempo que tem 
groflò tronco , a decepam rente com o chão. 
Do qual tronco feito em achas , com huns 
fachos de páo cavam huma maífa branca, 
e tenra , que he o miolo da arvore , a qual 
jaz entre os nervos que a foílem. E toma- 
da 



Década III. Ljv. V. Cap. V. 573 

da aqueila maíTa , a diluem na agua á ma- 
neira de pohne , porque fe aparte bem dos 
nervos ; e depois que faz pé em baixo , e 
os nervos vem acima , apartam elles , e ef- 
coam a agua clara , e a mafla fica aparta- 
da , e limpa. Efta , tomada aífi em poime 
grofla , he lançada em humas formas qua- 
dradas de barro quente , onde fe coze , o 
qual mantimento em frefco tem mui bom 
fabor ; e pêra levar fobrc mar em viagem 
comprida , dizem alguns dos noflbs que del- 
le uíaram 3 fer melhor que o noílb bifcoi- 
to. E quando querem fazer depoíito defta 
farinha , he primeiro muito enxuta', e de- 
pois mettida em vaíilhas que lhes não entre 
a humidade por não arder j e ao tempo do 
comer 5 geralmente aífi como cozem outra 
vianda , afli fazem quente efíe pão. E por- 
que o hão por bom mantimento , ainda que 
na Ilha de Moro fua vizinha haja arroz y 
e cufte mais barato que o Sagum , ante que- 
rem eíle , porque o acham de melhor digef- 
tão , e mais faborofo. Tem outras duas es- 
pécies de arvores , huma chamada Nipa 5 e 
outra . . . ambas lhes dam pão , e vinho , e 
vinagre como o Sagum ; e porém entre el- 
las he mais eftimado o pão defta , que das 
outras. .Finalmente deftas três arvores ao 
modo de palmeira , (como atrás efcreve- 
mos ; ) delia tem ufo pêra comer ; beber y 

vef- 



574 ASIÀ de João de Barros 

veíiir, cubrir cafas , e outros muitos ufos\ 
Tem mais outro licor que fe eftilla de h li- 
mas canas groíías pêra beber , muito mais 
fbave , e efiimado que os outros , e por i£- 
lò fomente as pcíToas nobres , que foffrem o 
cuiio das coutas de muito preço, ufam dei- 
le , o qual licor fe cria dentro de huns ca- 
nudos de huma cana groífa , que terão de 
comprido de nó a nó cinco palmos. Além 
deíles fruitos , e licores tem outras mui 
varias coufas , aíli de fementes , pannos , e 
fruitas que lhes fervem de mantimentos , 
que he mui eítranho a nós os que vivemos 
em Europa ; e peró que não temos cá ufo 
deile , quando nos vemos naquellas partes 
algum fe come com mais goíto que o na- 
tural com que nos creamos. E poíío que 
na terra haja animaes quejervem de man- 
timento, aíli como porcos, carneiros, ca- 
bras , e outras fortes de animaes montezes , 
e aves cafeiras , e bravas , geralmente mais 
níàm aqueiles povos do peícado , que da 
carne. Do qual pefcadoellcs tem grão abaf- 
tança , affi do que fe pefca neíla nofla cof- 
ia de Hefpanha , como de outro género a 
nos mui eftranho. Metal algum não fe acha 
naquellas Ilhas , peró que alguns querem 
dizer que ha ouro ; mas os noííòs nunca o 
viram , fendo a coufa porque o geral dos 
homens mais trabalha. Os povos deitas Ilhas 

he 



Década III. Liv. V. Cap. V. 575* 

he de cor baça , e cabello corredio , de cor- 
po robufto , e fortes membros , carregados 
em fua acatadura , muito dados a guerra , 
e pêra todo outro exercício mui preguiço- 
fos ; e fe alguma induftria ha , aííi no mo- 
do de agricultar o mantimento de que vi- 
vem , e trato de vender, e comprar, eíle 
trabalho he das mulheres : envelhecem cedo 
em cans , e vivem muito : são mui ligeiros 
na terra , e muito mais no mar , porque em 
nadar são peixes ? e em pelejar aves , em 
toda parte gente malicioía , mentirofa , e 
defagradecida , e abil pêra aprender qual- 
quer coufa ; e fendo pobres em fazenda y 
he tanta a fua foberba , e prefumpçao , que 
fe não abatem per neceffidade alguma , nem 
fogeitam fenao per ferro que os efcala, e 
fangra na vida. Finalmente aquellas Ilhas , 
fegundo dizem os noffos , são hum vivei- 
ro de todo mal , e não tem outro bem le- 
ilão cravo ; e por fer, coufa que Deos creou , 
lhe podemos chamar boa ; mas quanto a 
fer matéria do que os noífos por elle tem 
paífado 3 he hum pomo de toda difcordia. 
E por elle fe podem dizer mais pragas, 
que fobre o ouro ; e fe fora em tempo dos 
Poetas Gregos , ou Latinos , elles tiveram 
mais que dizer , e fabular delias , que das 
Ilhas Gorgondas. E duas coufas dam argu- 
mento pêra fe poder affinpar ? que os ha- 

bi- 



5j6 ÁSIA de João de Barros 

biradores deitas são de mui varias , e di~ 
verias nações : a primeira , a inconftancia > 
cdio , fufpeitas , e pouca fé que entre íi tem , 
como gente que fempre fe vigia entre ílhu- 
ma da outra ; e a fegunda , a grande varie- 
dade de fuás linguagens , cá não lhe chega 
o vafconço de Biícaya , de maneira , que 
hum lugar fe não entende com outro , e 
como são varias , aíli he o tom , e modo 
diverfo \ porque huns formam a palavra no 
papo * outros na ponta da lingua , outros 
entre os cientes , outros no paldar ; e o can- 
tar , pelo qual ainda que fe não entenda a 
palavra, baila para pelo tom dclle fer co- 
nhecido. E fe tem alguma lingua commum 
per que fe pofTam entender 3 he a Malaya 
de Malaca , a que a gente nobre fe deo 
de pouco tempo pêra cá , que he depois 
que os Mouros foram a ellas por caufa do 
cravo. E ante delles não havia conta do 
anuo , pezo , ou medida , e viviam fem co- 
nhecente de hum fó Dcos , ou noticia de 
alguma certa religião : fomente tomavam 
alguns delles pêra fua adoração o Sol , 
Lua , e Eílreilas , per que Deos quiz cha- 
mar o entendimento de todo racional a olhar 
pêra cima eftas primeiras noticias , e finaes. 
E outros adoravam qualquer coufa da ter- 
ra , como ainda hoje tem os que habitam 
o fertão ; que o marítimo já eítá em poder 

de 



Década III. Lív. V. Cap* V. 577 

de Mouros intitulados em Reys 5 como ve- 
remos. Da antiguidade da povoação daquei- 
Jas Iihas , como he gente beílial fem letras > 
e das coufas paíTadas não tem mais noticia ^ 
que trazerem algumas em cantares á ma- 
neira de rimances , que nós ufamos , por 
memoria de algum feito , entre elles não 
ha couía certa ; e porém, todos confefTarn 
ferem eílrangeiros , e não próprios indíge- 
nas 3 e naturaes da terra. E ante que entre 
elles houveffe Senhor , ouRey, que os go- 
vernaífe , viviam de baixo dos mais velhos , 
repartidos em parentelas. Depois dizem que 
aportaram alli juncos deitas três nações , Chi- 
js , Malayos , ou Jáos , e mais fe affirmam 
em Chijs , que em outros 3 porque ainda 
agora fica a fua noticia em o nome que 
tem a grande Ilha chamada Batechina do 
Moro. Ao longo da coita da qual eítam 
eíloutras , porque acerca dos feus morado- 
res geralmente Bate quer dizer Terra , e 
compoíto com China , chama-fe a Terra da 
China, edam-lhe por denotação Moro , no- 
me próprio da terra , á diíferença de outra 
chamada Batechina de Muar. E té á vinda 
deites não houve noticia do cravo pêra fe 
aproveitarem delle em mais , que quando 
eítavam doentes pôr em o feu pó pela tef- 
ta , e roíto , ao modo que fazem os Negros 
de Guiné de Malagueta : e deita entrada 
Tom. III. P.L Oo dos 



578 ÁSIA de JoÁo de Barros 

dos Chijs , que foram monarcas daquelíe 
Oriente , começou haver noticia do cravo , 
e entrou nelles a cubica de o pofíuir , ven- 
do que porelle lhe davam coufas pêra fuás 
neceíTidades. E principalmente huma moe- 
da de cobre do tamanho dos no fios ceitijs , 
fem figura , ou carafter algum , fomente 
hum buraco no meio per que enfiam nú- 
mero de mil em cada fio 5 á qual moeda 
elles chamam caixas , de que mil e duzen- 
tas fazem ora em noííòs tempos hum cru- 
zado em valia , e efta he a moeda que cor- 
re per todo aquelle Oriente de Malaca por 
diante. E poílo que os naturaes daquellas 
Ilhas com feu juizo , e memoria não tor- 
nem tanto atrás em tempo , que dem no- 
ticia de outra maior antiguidade ; parece 
que cftas Ilhas pequenas, que jazem ao lon- 
go da Batochina , foram a maior parte del- 
ias, ao menos o baixo, e não o alto dei- 
la , cuberto do mar. Porque legundo os nof- 
fos dizem , cavando a luperficie daquella 
terra preta , e foffa que tem , onde tcdalas 
arvores lançam fuás raizes á frol delia , lo- 
go acham arêa 3 e muito cafcalho do mar: 
donde parece que o tempo foi tomando 
aquella pofie ao mar, e a deo á terra pê- 
ra creaçao do fruito , que em íi contém. 
Depois que eíles Chijs (como diífemos ) co- 
meçaram continuar a navegação deitas Ilhas, 

e gof- 



Década III. Liv. V, Cap. V. 579 

e goftáram deite feu cravo , e da noz , e 
ínaíTa de Banda , á fama deíle commercio 
acudiram também os Jáos , e ceifaram os 
Chijs. E fegundo parece, foi per razão da 
]ei , que os Reys da China puzeram em to- 
do ku Reyno , que nenhum natural feu na- 
vegaífe fora delle , por importar mais a per- 
da da gente , e coufas que fahiam delle , 
que quanto lhe vinha de fora , como já 
atras efcrevemos fallando das coufas da Chi- 
na , e conquiíta que tiveram na índia por 
razão das efpeciarias. Ficando o commer- 
cio daquelle Oriente per hum curfo de 
tempo em os Jáos , como fenhores da fua 
navegação , fegundo também efcrevemos 
fallando da Ilha Çamatra j veio-fe fundar 
á Cidade Cingápura , e depois a Cidade Ma- 
laca , com a navegação do feu eftreito , com 
que os Malayos também começaram a ter 
eftado , e poíte pêra navegar aquelle gran- 
de número de Ilhas. Finalmente ao tem- 
po que nós entrámos na índia eíías duas 
nações , Jáos , e Malayos navegavam toda 
a efpeciaria , e coufas Orientaes , trazendo 
todo aquelle illuftre empório , e lugar de 
feira , que he Malaca ; tomada a qual , fi- 
cou em noflb poder. E porém já neíle tem- 
po havia nas Ilhas de Maluco muita gente 
convertida á fedia de Mahamed ; porque 
como pela navegação , que os Parfeos , e 
Oo ii Ara- 



5H0 ÁSIA £>e JoÁo de Barbos 

Arábios tiveram na Ilha Çamatra , e Ma- 
laca , trouxeram o natural Gentio á fua fèéta , 
aíli csjáos, e Malayos já convertidos, na- 
vegando ás Ilhas de Maluco , e Banda , con- 
verteram as povoações marítimas com que 
tinham commercio. E de quatorze Reys que 
havia em as de Maluco, de que logo fal- 
laremos , o primeiro que fe fez Mouro foi 
o de Ternáte , per nome Tidore Vongue , 
pai d'ElRey Boleife , o noílb amigo , que 
agazalhou Francilco Serrão. E fegundo a 
conta que elles dam, ao tempo que osnof- 
fos defcubríram aquellas Ilhas , haveria pou- 
co mais de oitenta annos , que nellas tinha 
entrada efta peite \ e ainda quando António 
de Brito (como veremos ) chegou a Ter- 
nate , como em cabeça daquellas Ilhas , ef- 
tava hum Caciz , que lhe deo efta infernal 
doutrina. E he tanta a divindade , que o 
eítado real quiz em toda parte do Mundo 
attribuir a íl mefmo , que té neftas Ilhas 
Maluco , entre gente benial , bufcou fabu- 
las de fua genitura , e princípio por mos- 
trar aos fubditos ,' que não vem de tão vil 
comportara como os outros homens , na 
qual fabula a gente tem tanta fé, que ain- 
da hoje ha lugares deita religião dos feus 
primeiros Reys. E fabulam per efta manei- 
ra : que no tempo que fe governavam aquel- 
las iíhas per os mais velhos y hum deites 

prin- 



Década III. Liv. V. Cap. V. 581 

principal per nome Bicocigará , que vivia 
na Ilha Bacharn , andando hum dia em hum 
barco ao longo da terra , vio entre huns 
penedos huma grande moura de rotas , que 
são humas canas mociças chamadas rotas , 
que quando são delgadas , fazem delias cor- 
das , e pêra atar qualquer coufa fervem-fe 
muito delias. Bicocigará parecendo-lhe bem 
eftas canas , do batel donde eftava mandou 
aos léus familiares , que as foíTem cortar , 
e trouxeííem ao batel. Peró elles chegados 
ao lugar delias , tornáram-fe , dizendo , que 
a vifta o enganara, porque não havia alli 
taes canas. O qual como do batel em que 
eftava as viíTe , quaíi em modo de perfia 
com elles fahio em terra; e chegando a el- 
las , que as vio , com grande indignação 
dos fervidores que aperfiavam lhas mandou 
cortar. Fazendo a qual obra começou a cor- 
rer fangue da cortadura delles , e viram ja- 
zer entre as raizes. quatro ovos, que pare- 
ciam de cobra : e juntamente ouvio huma 
voz que lhe diffe , que tomafle aquelles ovos , 
porque delles haviam de nafcer os princi- 
pães que os haviam de governar. Toman- 
do eíles ovos com grande admiração , e re- 
ligião, os levou pêra cafa, c guardou em 
lugar feguro , e fechado. Dos quaes dahx 
a pouco tempo diffe que nafcêram quatro 
peíToas ; três de homens , e huma de mu- 
lher ; 



582 ÁSIA de J0X0 de Barros 

lher: os homens foram havidos por Reys 
com grande religião da gente , hum reinou 
na mefma Ilha Bacham ? outro na de Bu- 
tam 5 e outro nas Ilhas chamadas Papuas , 
que eftam ao Oriente de Maluco. A mu- 
lher cafou com o fenhor de Lolóda , lugar 
na Batochina do Moro junto da grão Bo- 
conóra : deites dizem elles que procederam 
os feus Reys. E eítá entre elles tão arrin- 
gada eíla opinião , que hoje tem os pene- 
dos , onde foram achados os ovos , por 
coufa fagrada , e o Bicocigará por homem 
fanto. Peró a verdade , fegundo parece per 
outras coufas que elles contam deite Bico- 
cigará y he que elle era homem prudente , e 
bufcou eíte artificio pêra leixar quatro filhos 
que tinha tão honrados como leixou. E 
quando os noílos lá foram , que foi em vida 
de Boleife , tinham reinado naquella Ilha 
Ternate treze Reys , e o primeiro que fe fez 
Mouro foi o pai deite Boleife , ao qual chac- 
inaram Cachil , Tidore , Vongue , porque 
os mais delles fe nomeam per três nomes 
ao modo noffo , pronome , nome , e cog- 
nome. E dizem que a caufa de fe fazer 
Mouro foi huma mulher nobre da Jaiia , 
com que cafou 5 que era Moura ; e ao tem- 
po que António de Brito lá chegou , rei- 
nava hum menino de idade de fcte annos 
per nome Cachii Bphaát filho d'ElRey Bo- 
lei- 



Dec. III. Liv. V. Càp. V. e VI. ?8 5 

leife , o qual Boleife fe tinha moftrado tan- 
to noíío amigo , e de fua amizade proce- 
deram taes coufas , que obrigou a EIRey 
D. Manuel mandar Jorge de Brito fazer lá 
huma fortaleza ; das quaes coufas , e caufas 
nos feguintes Capitulos queremos dar razão. 

CAPITULO VI. 

Das coufas que fucceâêram a António 
$ Abreu , e Francifco Serrão , que Ajfonfo 
$ Alboquerque na tomada de Malaca man- 
dou defcubrir as Ilhas de Maluco , e Ban- 
da: e o que fuccedeo em todo aquelle tem- 
po té a partida de António de Brito , que 
hia fazer huma fortaleza por caufa das 
razoes precedentes , que eram requerimen- 
tos delRey de Térmite , que he a princi- 
pal delias. 

AFfonfo d'Alboquerque tomada a Ci- 
dade Malaca no anno de onze , (fe- 
gundo atrás efcrevemos , ) como ellc era hu- 
ma feira do Oriente , e Ponente , onde con- 
corriam as mercadorias daquellas Provindas , 
e tantas mil Ilhas , e a ella vinham todalas 
nações por razão defte commercio , porque 
não tive/Tem algum receio , fabendo que ci- 
tava em noílb poder , determinou pelo mui- 
to que importava á confervaçao delia , man- 
dar per aquellas partes Orientaes notificar, 



$84 ÁSIA de Jo/vo de Barros 

que todos vieíTem fem receio algum : cá lhes 
feria guardada fua juftiça , e feito todo fa- 
vor em feus negócios. Sobre a qual coufa 
pêra a mais favorecer, mandou António de 
Miranda d ? x\zevedo a Sião ? a Pegú Ruy 
d ? Acunha, e á Jaiia , e a Maluco António 
d 5 Abreu, indo diante delle hum Mouro na- 
tural de Malaca per nome Nehodá Ifmael 
com hum junco de mercadoria de alguns 
Mouros Jáos 4 e Malayos , que tratavam 
rieftas partes , pêra que quando António d' 
Abreu chegaíTe áquelies portos , que foíTe 
bem recebido : cá fegundo o noíTo nome era 
efpantofo entre áquelies povos , não feria 
muito fer elle mal recebido. Eavoz da ida 
defte Nehóda era ir bufear cravo a Maluco , 
e noz a Banda ; e que como de feu denun- 
ciaífe quão pacifica ficava Malaca , e quan- 
to favor o Capitão mor mandava fazer a to- 
do mercador eftrangeiro , fem lhe ferem fei- 
tas astyrannias de que ufavaElRey de Ma- 
laca. Partido efte António d' Abreu com os 
três navios que diíTemos , fez fua viagem ca- 
minho da Jaiia , levando , além de Pilotos 
Portuguezes 5 alguns Malayos , e Jáos , que 
andavam naquella navegação. E o primei- 
ro porto que tomou foi da Cidade Agacim , 
que he na Jaiia , e dahi foi ter á Ilha de 
Amboino , que he já do fenhorio de Ma- 
luco ? que fera delia obra de feíTenta léguas : 

e aíli 



Década III. Liv. V. Cap. VI. 58? 

e aífí aqui , como nos outros portos que to- 
mou , em todos poz feus padrões ordinários , 
pela maneira que os noíTos Capitães tiveram 
no primeiro defcubrimento que faziam. E íe- 
guindo feu caminho , com tempo que tive- 
ram , fe perdeo o navio de Francifco Ser- 
rão ; mas aprouve aDeos que fe falvou to- 
da a gente > a qual António d 5 Abreu reco- 
Iheo , e dahi foram ter a Ilha de Banda , 
que he do fenhorio de Maluco. E bem co- 
mo neíle nome Maluco fe comprendem as 
cinco Ilhas , cada huma das quaes tem pró- 
prio nome , afli nefte nome Banda fe con- 
tém outras cinco Ilhas juntas. Verdade he 
que a principal delias fe chama Banda , onde 
todalas outras acodem a hum lugar chamado 
Lutatam , por a eíle concorrerem todolos na- 
vios 5 que vam ao commercio da noz ; e as 
outras fe chamam Rofolanguim , Ay , Rom , 
e Neira , e todas eílam em altura de qua- 
tro gráos e meio da parte do Sul , e a Luta- 
tam hiam cada anno os povos Jáos , e-Ma- 
layos carregar de cravo , noz , e maíTa. Por- 
que como eílava em paragem que fe podia 
melhor navegar , e lhe era mais fegura , e 
aqui ordinariamente em juncos da terra fo- 
hia vir o cravo que havia em Maluco , não 
trabalhavam polo lá ir bufcar. Neftas cinco 
Ilhas nafce toda a noz , e máfia , que fe leva 
per todalas partes do Mundo , como em Ma-* 



5*86 ÁSIA de Joio de Barros 

iuco o cravo. E a chamada Banda he a mais 
frefca, e graciofa coufa, que pode fer em 
deleitação da vifta : cá parece hum jardim > 
em que a Natureza com aquelle particular 
fruito que lhe deo fe quiz deleitar na íua 
pintura. Porque tem huma fralda chã cheia 
de arvoredo que dá aquellas nozes , as quaes 
arvores no parecer querem imitar huma pe- 
reira. E quando eílam em frol , que he no 
tempo que a tem muitas plantas , e hervas , 
que nafcem per entre ellas , faz-fe da mis- 
tura de tanta frol huma compoííção de chei- 
ro , que não pode femelhar a nenhum dos 
que cá temos entre nós. PalTado o tempo 
das flores , em que as nozes já eílam coa- 
lhadas , e de cor verde , (principio de todo 
vegetavel,) vai-íè pouco , e pouco tingin- 
do aquelle pomo da maneira , que vemos 
neíte Reyno de Portugal huns peffegos 3 a 
que chamam calvos , que parecem o arco 
do Ceo chamado íris , variado de quatro 
cores elementaes , não em circulos , mas em 
manchas defordenadas , a qual deíbrdem na- # 
tural o faz mais formoíb. E porque neíle 
tempo que começam amadurecer , acodem 
da ferra , como a novo pado , muitos pa- 
pagaios , e paíTaros diverfos , he outra pin- 
tura ver a variedade da feição , canto , e 
cores , de que a Natureza os dotou. Paliada 
eíia fralda tão graciofa y levanta- fe nomeio 

da 



Década IIL Liv. V. Cap. VL 5:87 

da Ilha huma ferra pequena , hum pouco 
íngreme , donde correm algumas ribeiras, 
<que regam o chão de baixo ; e como fe íb- 
be com trabalho o afpero daquella fubida, 
fica huma terra chã , aífi cuberta , e pinta- 
da como a debaixo. A figura deíla Ilha he 
á maneira de huma ferradura , e haverá de 
ponta a ponta , que jazem Norte , e Sul , 
quaíí três léguas , e de largura huma ; e na 
angra , que ella faz com fua feição , eftá a 
povoação de íèus moradores , e as arvores 
da noz. Na Ilha chamada Gunuápe não ha 
arvores de noz , mas outras pêra madeira , 
e lenha , de que fe os moradores das que 
tem eíle fruito fe fervem em feu ufo ; na 
qual também ha outra garganta de fogo , 
como a de Ternáte em as Ilhas de Malu- 
co , e por eíla razão lhe deram o nome que 
tem , porque Guno quer dizer aqueile fogo , 
e Ape he o próprio nome da Ilha. O qual 
Guno por fer pouca coufa , os noííos varai 
a elle , e da fua boca apanham enxofre , de 
que fe aproveitam por o acharem bom - y e 
toda a noz , que ha nas outras três ilhetas , 
a trazem a eíla Banda como a fua cabeça , 
por a ella acudirem os mercadores. A gente 
delias he robufta , e a de peior acatadura da- 
quellas partes , de tôr baça , e cabeilo cor- 
redio : fegue a feita de Mahamed , e mui 
dada ao negocio do commercio ; e as mu- 

lhe- 



^88 ÁSIA de JoXo de Barkos 

Iheres ao ferviço das coufas da agricultura. 
Não tem Rey , ou Senhor , e todo o feu 
governo depende do confelho dos mais ve- 
lhos ; e muitas vezes porque os pareceres 
são diveribs , contendem huns com os ou- 
tros. E a gente que os mais enfrea he aquel- 
la que povoa os portos de mar , per onde 
lhe entra o neceííario pêra feus ufos, e tem 
fahida fuás novidades , que he maíTa , e noz , 
porque aterra não tem outra, que faia pê- 
ra fora. O arvoredo do qual pomo he tan- 
to , que a terra he cheia delle , fem íèr plan- 
tado per alguém , porque a terra o produ- 
zio fem beneficio de agricultura. Querem 
imitar eílas arvores o parecer dasnoífas pe- 
reiras , e porém a fua folha tem femelhança 
de nogueira , e o pomo deite tamanho he , 
e a noz em verde o mefmo parecer tem. Ef- 
ias matas não são próprias de alguém , co- 
mo herança particular , são de todo o po- 
vo; e quando vem Junho té Setembro, em 
que efte pomo eftá de vez pêra fer colhido , 
eílam já eílas matas repartidas per os luga- 
res , e povoações , e cada hum acode a apa- 
nhar ; e quem mais apanha mais proveito 
faz. Como acerca de nós são as matas do 
confelho, aífi da bolota , como as ferras do 
carrafco da grã, que no* tempo do apanhar 
geralmente fedefcouta aos da villa daquelle 
teimo, António d' Abreu , depois que neíta 

Ilha 



Década III. Liv. V. Cap. VI. $%9 

Ilha Banda poz padrões de feu defcubrimen- 
to , porque havia carga pêra iffò de noz , mai- 
fa , e affi de cravo que os juncos de Ma- 
luco coílumam trazer alii , (como diíTemos , ) 
comprou hum junco da terra pêra vir nelle 
Francifco Serrão ; e por lhe o tempo fervir 
pêra Malaca , houve por mais ferviço d'El- 
Rey tornar-fe com nova do que tinha del- 
cuberto , e mais vindo tão carregado , que 
ir adiante a Maluco pêra onde lhe não fer- 
via , e principalmente por os navios citarem 
já tão desbaratados daquella comprida via- 
gem , que não fe atreveo andar com elles 
tanto tempo no mar. Finalmente , partido 
daquellas Ilhas de Banda muito contente 
de quão bem fora recebido da gente da ter- 
ra , porque não chegafle com efte contenta- 
mento a Malaca , com hum temporal que 
lhe íòbreveio apartou-fe delle Francifco Ser- 
rão. Com tudo elle António d'Abreu che- 
gou a Malaca ; e depois vindo em compa- 
nhia de Fernão Peres a eíleReyno pêra dar 
conta do que defcubríra naquella viagem, 
faleceo no caminho. Francifco Serrão quan- 
do fe apartou delle , foi-íè perder em hu- 
mas Ilhas , a que os da terra chamam de 
Luco Pino , que quer dizer Ilha das tartaru- 
gas , por cauía das muitas que alli ha, quefe- 
rão de Banda té trinta e fete léguas pouco 
mais , ou menos. E eílando em terra com 

to- 



590 ÁSIA de João de Barros 

toda a gente naqueile cflado , e mais em 
Ilhas deípovoadas fem provisão pêra fe man- 
ter , quiz Deos que houveííem remédio per 
quem lhe queria fazer mais mal , e foi per 
elia maneira. Como naquellas Iihas , porque 
eftam em lugar pêra iíTo , fe perdem muitos 
navios , fempre são vifitadas de certos la- 
droes , que per alli andam a roubar os que 
fe perdem nellas , os quaes por haverem vif- 
ta do naufrágio dos noííos , acudiram logo 
em hum navio de remo chamado eóracóra. 
Da qual coufa Francifco Serrão foi logo avi- 
fado per os Mouros Pilotos , que vinham 
com elle , dizendo , que fe apercebeífe , por- 
que havia de fer commettido per elles; mas 
deita feita ficaram no laço que vinham ar- 
mar ; porque tanto que Francifco Serrão os 
vio vir , poz-fe em filada , e fahidos elles 
em terra defejofos de prear , remettêram os 
noííos ao navio , e tomaram pofle delle. Os 
ladrões vendo-fe afli falteados , como fabiam 
que a Ilha não tinha agua , nem coufa de 
que fe mantiveííem ; e ficando nella eram 
logo mortos , vieram a tratar com os nof- 
fos que os recolheíTem comfigo , que elles 
os levariam áIlhaAmboino em hum porto 
chamado Ruçotello , onde os agazalháram 
tão bem, que porcnufa delles tiveram con- 
tenda com os moradores da Cidade Veranu- 
la , que he a principal da Ilha Batochina 

de 



Década III. Liv. V Cap. VL 5-91 

de Muar , que feria de hum a Iiha á outra 
pouco mais de duas léguas, com quem por 
razão da vizinhança fempre tinham compe- 
tência. Os quaes imigos vindo em fuás córa- 
córas armados, com efte requerimento que 
lhes fizeííbm entrega delles , vieram em rom- 
pimento de pelejarem ; e como osnoílos fo- 
ram em ajuda dos da terra , pois por elles 
era a contenda , Jiouveram vitoria deites de 
Veranula. E porque a gente daquellas par- 
tes he mui gloriofa de qualquer vitoria , e lo- 
go levantam alguma obra por memoria del- 
ia , fizeram eíles de Ruçotello hum bailéu 
de madeira , que naquellas partes ferve o 
que anos varandas, cu eirados de viíla. Na 
qual obra , que toda era mui bem lavrada 
afeumodo, efculpíram as Armas deite Rey- 
110 , e a Cruz de Chriílo da ordem da fua 
milícia , que ha neíte Reyno , de baixo da 
qual infignia os Portuguezes militam na guer- 
ra , o qual bailéu ainda hoje dizem os no£ 
fos que eftá em pé. Efta vitoria foi logo de- 
nunciada per todas aquellas Ilhas , que fe 
houve por grande coufa , por os de Ruço- 
tello não virem a conto em poder , e ca- 
valleria com os de Veranula. Porém quan- 
do fouberam que fora por razão da ajuda 
dos noiTos , confirmaram a fama que lá ti- 
nham delles da tomada de Malaca, que af- 
fombroii todo aquelle Oriente , por fer a 

mais 



59?' ÁSIA de João de Barbos 

mais célebre couía que havia entre os Moih 
ros Orientaes. Havia neíle tempo naquellas 
Ilhas , (como ha em todalas partes , ) al- 
guns Reys , e Senhores , que contendiam 
com feus vizinhos ? entre os quaes eram os 
Reys de Ternate , e Tidore das Ilhas de 
Maluco ; os quaes tanto que fouberam ef- 
tarem os noílbs alli , deíejou logo cada hum 
dê os haver em fua ajuda , e principalmente 
EIRey de Ternate , por já eítar informado 
das noíTas couías per Nehodá Ifmael , que , 
(como efcrevemos , ) AíFonfo d'Alboquerque 
mandou diante, e fora alli ter. OqualRey 
de Ternate temendo que o de Tidore envi- 
afle também em bufca delles , primeiro que 
o elíe fizeííe , mandou armar dez navios , 
em que iriam té mil homens , de que era 
Capitão hum Cachil Coliba. Nas coitas do 
quai também EIRey de Tidore mandou lete 
navios ; pcró quando chegou , já Cachil Co- 
liba os tinha levado a EIRey de Ternate, 
com o qual Francifco Serrão folgou ir , por 
a Tua viagem fer áquellas Ilhas de Maluco. 
Havia nome eíle Rey de Ternate Cachil Bo- 
leife , homem de muita idade , e grão pru- 
dência , e havido entre os Mouros quaíi por 
profeta nas couías que dizia , as quaes elle 
alcançava com o difcurfo que tinha de mui- 
tos annos 7 mais que por a fantidade que eí- 
les punham ncile. JL como em todalas par- 
tes 



Década III. Liv- V. Cap. VI. ^93 

tes commummente vemos andar entre o po- 
vo humas efperanças futuras de bem ou mal , 
que ha de fobrevir á terra , onde cada hum 
vive ; aííi havia huma opinião entre a gen- 
te daquellas Ilhas , que a ellas haviam de 
vir huns homens de ferro de mui remotas 
partes do Mundo , os quaes haviam de fa- 
zer alli morada ; e per o poder , e força 
delles o Reyno de Ternate fe eítenderia per 
todas aquellas Ilhas , a qual opinião diziam 
proceder d'ElRey Boleife quaíl que a de- 
nunciava em modo de profecia aos feus vaf- 
fallos. Donde quando elle vio Francifco Ser- 
rão ante fi armado em humas armas bran- 
cas inteiras , acompanhado dos outros Por- 
tuguezes também armados das armas que ti- 
nham , levantou as mãos dando louvores a 
Deos , pois lhe moílrára ante de fua morte 
os homens de ferro , em cujas forças eítava 
a feguridade de leu Reyno , e per cujo fa- 
vor os feus defcendentes haviam de perma- 
necer per muitos annos com titulo de Reys 
daquella terra. Parece que oefpirito de ho- 
mem em as couías que defeja , ou teme , o 
fervor que o enleva á contemplação delias , 
o faz prognofticar em futuro parte ao fea 
fuccelTo. Porque como os cuidados de dia 
fazem que o efpirito entre fonhos de noite 
efteja maginando muitas coufas , que nós de- 
pois vemos polias em effeito por razão de 
Tom.IILP.L Pp hu- 



5"94 ÁSIA de JoXo de Barros 

huma fympathia natural , a que a Natureza 
obedece ; aííi em futuro efta mefma fympa- 
thia 5 que he obediente aos influxos celeftes , 
faz aftírmar não per fé , mas per temor , ou 
efperança parte do que teme , ou defeja. Por- 
que fabemos que os Aftrologos pêra o prog- 
noftico de qualquer pergunta que lhes fazem , 
fazem a raiz da interrogação na hora que 
a parte concebeo o defejo de fazer a tal per- 
gunta , pêra a calcular com o afcendente do 
Planeta , que então he predominante. E co- 
mo os Arithmeticos de dous termos notos 
tiram hum terceiro per que julgam a ver- 
dade da conta proporcionai; aííi oAftrolo- 
go naturalmente per dous termos notos , 
hum fuperior , que he atHvo , e outro infe- 
rior paffivo , que cftá na concupilcivel , ou 
irafcivel do homem , vem a íyllogizar as 
refpoftas que da. E fe efte terceiro operan- 
te julga os cafos alheios per eíte modo , em 
que muitas vezes fe engana por não cal- 
cular bem os termos notos ; como não fera 
mais certo o animo de hum homem pruden- 
te , que he mais fiel pêra fe julgar , do que 
o pode fer o juizo alheio ? Seja como for , 
pois deitas couíàs não podemos mais alcan- 
çar, que andar apalpando pêra achar a ra- 
zão delles , como faz o cego , que quer ati- 
nar o caminho. O que fabemos em certo 
lie, que muitas coufas primeiro que fevief- 



Década III. Liv. V. Cap. VI. 595 

fem a efFeituar , andaram muito tempo na 
boca das gentes , fem faber donde nafceo 
a tal opinião ; e affi aconteceo a efta da gen- 
te de Ternate, ora que procedefle da ima- 
ginação d'ElRey Boleife , ora de outra qual- 
quer caufa. E ainda que por razão deitas ar- 
mas , com que elle vio armado a Franciíco 
Serrão , e feus companheiros , a nós não 
competiíTe fer havidos pelos homens de fer- 
ro , que elle efperava ; fomente pela conf- 
tancia 5 e contínuos trabalhos 3 e perigos , 
que padecemos em tão comprida viagem fem 
canfar , propriamente a nós convém o tal no- 
me. Quanto mais que por razão da efpe- 
rança , que efte Boleife tinha na continua- 
ção do feu Reyno nós de fua linhagem té 
hoje 5 os noíTos por enfiar efta fua herança 
de herdeiro em herdeiro , tem veftido mais 
vezes as armas , do que ha de cravos na fua 
Ilha. Té que vindo a reinar Cachil Taba- 
rija em tempo que lá em Terna te refidia 
Triftão d' Ataíde por Capitão da fortaleza 
que alli tínhamos, o anno de trinta e qua- 
tro , per alguma fuípeita que teve delle , o 
prendeo ? e com os autos de fua prizão o 
mandou á índia ao Governador Nuno da 
Cunha. E por as culpas não ferem de qua- 
lidade de mais caftigo , que o trabalho de 
tão comprido caminho , elle foi livre , e per 
fua própria vontade fe fez Chriftão y e hou- 
Pp ii ve 



$()6 ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

ve nome D. Manuel em memoria d'ElRey D. 
Manuel author do defcubrimento daquellas 
Ilhas. Parece que permittio NoíTo Senhor 
efta opprefsão , que lhe foi feita de fer pre- 
zo , e fazer tão comprida jornada pêra dous 
effeitos : hum pêra fe falvar na acceitação 
do Baptifmo , em que fe moftrou fua inno- 
cencia ; e o outro efFeito foi na obra que 
fez no caminho de ília tornada , eílando na 
hora da morte. Porque indo eíteRey Dom 
Manuel de Ternate em companhia de Jor- 
dão de Freitas , que havia de fervir de Ca- 
pitão da fortaleza que alli ternos , adoeceo 
o mefmo Rey em Malaca , com o qual fi- 
cou fua mãi, e hum Patê Sarangue., e ou- 
tros homens nobres Mouros feus vaífailos , 
que o acompanharam. E Jordão de Freitas 
partio-fe via de Maluco por não poder ef- 
perar por elle , e fer mui neceífaria ília ida 
por caula das revoltas que lá havia. Parti- 
do elle , eEIRey poílo em eftado de mor- 
rer , fez todolos aítos de Catholico Chri- 
ílao j e em feu teíla mento , por não ter legi- 
timo herdeiro que ofuccedefle, fez univer- 
fal herdeiro daquelle Reyno de Ternate com 
todolos fenhorios das outras Ilhas a elle fub- 
ditas aElReyD. João o Terceiro NoíTo Se- 
nhor , que hoje reina. O qual teftamento le- 
vado á Cidade Ternate cabeça daquelle Rey- 
no, os principaes, e povo delle receberam 

com 



Década III. Liv. V. Cap. VI. 5^7 

com folemnidade, eacceitáram porRey, e 
Senhor ao ditoRey D.João , fegundo for- 
ma do teítamento ; e pêra mais confirma- 
ção , todos per modo de eleição pêra os 
reger , e governar 5 o quizeram , e acceitá- 
ram por Rey. O qual aíto foi feito com 
a bandeira Real deite Reyno , e pregões per 
toda a Cidade > com poíTe aétual daquella 
herança , e com toda outra folemnidade , 
iegundo quer o Direito , poílo que ante tí- 
nhamos eíla poíTe já adquirida per armas y 
como confta pelos eftromentos que Jordão 
de Freitas Capitão daquella fortaleza tirou 
o anno de mil e quinhentos e quarenta e 
fete , fegundo mais particularmente irá eí- 
crito em íeu lugar. Per eíla maneira que 
acima contámos , ficou Francifco Serrão na- 
quella Ilha Ternate com os outros Portu- 
guezes de fua companhia tão acceito a El- 
Rey , que affi eítimava fua peíToa , como 
feu eftado , porque havia que nelle o tinha 
feguro pêra feus herdeiros pola efperança 
que lhe o efpirito promettia pola caufa que 
diflemos. Sendo já nefte tempo Nehodá Is- 
mael , que viera diante delle Francifco Ser- 
rão carregado de cravo , o qual vindo pela 
Jaiia , fe perdeo em hum porto da Cidade 
Tumbam governada per hum fenhor , a que 
elles chamam Sangue de Patê , dignidade 
entre elles como acerca de nós o Duque, 

E 



598 ÁSIA de João de Barros 

E em Março do anno de quinhentos e tre- 
ze , Ruy de Brito Patalim Capitão de Ma- 
laca , fabendo como a fazenda daquelle jun- 
co fe falhara , mandou que foíTe por ella 
João Lopes Alvim com quatro navios. Na 
qual viagem foi elle mui bem recebido em 
todolos portos da Jaiia , principalmente em 
a Cidade Sindayo, que era de Patê Unuz , 
aquelle Príncipe que Fernão Peres desbara- 
tou em Malaca. E nefte mefmo anno , de- 
pois da vinda de João Lopes Alvim , foi 
António de Miranda d' Azevedo com huma 
Armada ás Ilhas de Maluco , e Banda car- 
regar de cravo , na qual viagem perdeo hum 
junco ; e ambos os Reys affi de Ternate , 
comoTidore contendiam a quem lhe faria 
mais favor no defpacho da carga do cra- 
vo que havia de trazer, por entre elles ha- 
ver contendas , e invejas de vizinhos que 
nunca falecem , poíto que o de Ternate fof- 
fe genro do outro, caiado com huma fua 
filha. Em concertar os quaes António de 
Miranda fe metteo ; e por derradeiro temen- 
do-fe elles que aquelle feria mais poderofo , 
que nos tiveífe em fua terra , cada hum ef- 
creveo a EIRey D. Manuel , pedindo-lhe 
houveífe por bem de mandar fazer em fuás 
terras huma fortaleza ò dando razões cada 
hum per íi do ferviço que lhe fariam. E 
quando o requerimento de ambos o puzef- 

fe 



Década III. Liv. V. Cap. VI. 5*99 

fe em confusão , e fofle caufa de fe não de- 
terminar neíta fortaleza que pediam , em tal 
cafo elles tinham huma Ilha commum de 
ambos , que fe chamava Maquiem , na qual 
a podia mandar fazer, e não ficariam com 
efcandalo da obra. Vindo António de Mi- 
randa tão carregado de cravo , como do 
requerimento deites Reys , trouxe comfigo 
os Portuguezes , que eftavam com Francif- 
co Serrão , e elle não veio a requerimento 
d'E!Rey Boleife , porque lhe parecia que 
vindo-íè elle , perdia a efperança que tinha y 
(como difTemos , ) e quali como penhor del- 
ia o retinha, em quanto não via a fortaleza 
que defejava. E deita vinda de António de 
Miranda d 5 Azevedo , per hum Pêro Fer- 
nandes , que veio com elle , que era hum 
homem dos que eftavam com Francifco Ser- 
rão , houve EIRey D. Manuel as cartas, 
que lhe eíles Reys efcrevêram , e foi in- 
formado particularmente dascoufas daquel- 
las partes , e per outras cartas do mefmo 
Francifco Serrão. O qual além de efcrever 
a EIRey, eícreveo a feus amigos, e prin- 
cipalmente a Fernão de Magalhães , que já 
na índia , e em Malaca tinha particular ami- 
zade de poufarem ambos ; e pòr dar maior 
admiração áquella fua viagem , engrande- 
ceo o modo , e trabalho delia , fazendo a 
diítancia daquellas Ilhas dobrado caminho 

do 



6oo ÁSIA de JoÂo de Barros 

do que havia de Malaca a ellas , dando en- 
tender que tinha deícuberto outro novo mun- 
do maior , e mais remoto , e rico , do que 
defcubríra o Almirante D. Vafco da Gama. 
Das quaes cartas começou efíe Fernão de 
Magalhães tomar huns novos conceitos , 
que lhe caufáram a morte , e metteo cite 
Reyno em algum defgoíto , como logo ve- 
remos. Nefte mefmo tempo que António 
de Miranda partio pêra aquellas partes , e 
Jorge d'Alboquerque pêra Malaca fervir de 
Capitão delia , mandou AfFonío d'Alboquei> 
que com elle a Duarte Coelho , que viera 
de Sião, que tanto que chegaííe a Malaca , 
o enviaííe logo em hum navio com vinte 
Jiomens , além dos mareantes , e foííe fazer 
huma caía de madeira em modo de feito- 
ria na Ilha de Banda pêra ter feita a carga 
da noz , maíla , e cravo pêra os navios , 
que de Malaca a foíTem buícar , a qual ida 
3ião houve eífeito por haver neceííidade de 
ir á China , como foi. Peró bailaram as 
cartas , que António de Miranda trouxe , 
pêra EIRey D. Manuel fe determinar em 
mandar fazer huma fortaleza naquellas Ilhas 
de Maluco ; porque na Armada que partio 
defte Reyno o anno de quinhentos e deze- 
fete , Capitão mor António de Saldanha, 
efcreveo elle a Lopo Soares , que então era 
Governador naquellas partes ; que enviafle 

a et 



Década III. Liv. V. Cap. VI. 601 

a eíle negocio huma pelToa apta pêra a tal 
obra. Com o qual fundamento D. Aleixo , 
eítando em Malaca , mandou D. Triílão de 
Menezes , como atrás fica , o qual fez feu 
caminho pela Jaiia , e per Banda ; e a pri- 
meira Ilha das de Maluco que tomou, foi 
Ternate , onde eftava Francifco Serrão. E 
porque eíles dous Reys Boleife de Ternate > 
e Almançor de Tidore (como diffemos ) an- 
davam em competência a quem nos teria 
em fuá companhia ; tanto que EIRey de 
Ternate vio D. Triílão no feu porto , mai> 
dou-lhe fazer de madeira huma caía forte 
em hum porto chamado Talangame 5 que 
fera da Cidade Ternate huma légua , por 
fer o melhor que a Ilha tinha pêra eftancia 
das náos , cuidando que hia elle pêra eftar 
alli de aííento. Feita efxa força , começou 
entre os Reys nova defa vença ; e mais po- 
lo que tinham efcrito per António de. Mi- 
randa 5 que foíTe eíta fortaleza em a Ilha 
Maquiem que era de ambos. Com o qual 
requerimento de também nos querer em fua 
terra , veio Cachil Landim Rey da Ilha 
deBacham de maneira, que D. Triílão era 
importunado com requerimentos , e parti- 
dos que lhe faziam. E vendo elle que fe 
começava entre eíles Principes diíFerenças, 
que podiam vir a tanto rompimento de guer- 
ra, com que não houveífe a carga do era* 

vo 



602 ÁSIA de João de Barros 

vo que hia bufcar , metteo-fe entre elles pê- 
ra os concertar , ou ao menos quietar por 
então. E com feu trabalho , e as cartas que 
levava delRey D. Manuel pêra eftes Reys , 
e principalmente com não fazer a fortaleza , 
que cada hum receava fer feita na terra de 
feu competidor, os teve contentes. Dando 
por eícufa , que fua vinda era fomente le- 
var aquellas cartas d'E!ReyD. Manuel feu 
Senhor , e notar a difpofiçao da terra , e fe 
era fádia pêra feus vaííallos nella eílarem , 
pêra com a refpofta , que elle D. Triftão trou- 
xeíTe , EIRey fe determinaria niífo. Prati- 
cando o qual negocio mais particularmente 
com EIRey Boleife de Terna,te , difle-lhe , 
que pêra EIRey D. Manuel feu Senhor mais 
em breve fe determinar em fazer alli forta- 
leza , convinha que Francifco Serrão vief- 
fe com elle D. Triftão. Porque como era 
homem que fabia bem a terra , e podia dar 
a EIRey inteira noticia do que delle qui- 
zeífe faber , e amigo , e fervidor delle Bo- 
leife , devia confentir que vieífe com elle. 
Eíte requerimento affi corado teve D. Trif- 
tão com EIRey Boleife , porque fentia del- 
le que per outro modo não viria Francifco 
Serrão, eelle mefmo não fe matava muito 
por vir , como homem que tinha efperan- 
çã que havendo-fe de fazer lá fortaleza , e 
eíiando elle ainda lá , EIRey D. Manuel o 

en- 



Década III. Liv. V. Cap. VL 603 

encarregaria niífo. Finalmente D. Triftao fe 
partio daquellas Ilhas com cinco velas , o 
íeu navio , e quatro juncos carregados de 
cravo , em hum dos quaes vinha Francifco 
Serrão , e com elle hum homem nobre per 
'nome Cachilato , que EIRey Boleife man- 
dava por Embaixador a EIRey D. Manuel 
com efte requerimento da fortaleza , que 
queria ter naquella Ilha. Mas não tardou 
muitos dias que com hum temporal que ti- 
veram , elle D. Triílao chegou no princí- 
pio de Abrii do anno de quinhentos e vin- 
te á Ilha de Banda com trcs juncos menos , 
Capitães Francifco Serrão , Simão Corrêa , 
e Duarte d 5 Acoita. E quando fe vio fera 
elles , parecendo-lhe que arribaram ás Ilhas 
de Maluco, por já partir tarde, tornou em 
bufca delies , por o tempo lhe fervir mais 
pêra iíTo , que pêra Malaca , e achou Fran- 
cifco Serrão no porto de Talangame da 
Ilha Ternate , onde eftava a cafa de ma- 
deira , que EIRey mandara fazer, e Simão 
Corrêa eftava no outro de Bacham , e de 
Duarte d'Acoíla não teve nova. Vendo el- 
le D. Triftao como por a monção fer pafc 
fada lhe convinha invernar alli , defcarre- 
gou alguma parte do cravo em terra pêra 
dar pendor aos navios , e os concertar. E 
ante de o tornar a recolher , fendo já no 
fim do inverno a mandou-lhe dizer Simão 

Cor- 



604 ÁSIA de JoÂo de Barros 

Corrêa que lhe foíTe foccorrer , por quanto 
os Mouros o queriam matar. D. Triílão 
com efte recado , però que EIRey de Ter- 
nate lhe dizia que não fofle , que elle o 
mandaria trazer feguramente , porque náo 
quiz confiar ifto fenão de íi mefmo , foi a 
Bacham , e achou fer defmando de féis , ou 
ktQ Portuguezes, que eftavam em compa- 
nhia de Simão Corrêa , porque a mais gen- 
te do junco eram Mouros Malayos marcan- 
tes. E porque com eíla ida de D. Triílão 
alguns Mouros cativos, que andavam nos 
juncos , fogíram pêra a ferra , e elle quiz 
culpar a EIRey em o negocio por cujo ref- 
peito alli viera chamado Simão Corrêa , e 
também em não mandar fazer a entrega dos 
efcravos fogidos , de que ambos não efta- 
vam contentes hum do outro ; aconteceo que 
fe armou hum arroido (ordenado pêra iíTo ) 
com os Portuguezes do junco de Simão Cor- 
rêa , que eftavam em terra , fobre que fora 
a paixão , aos quaes mataram os Mouros 
fem efcapar mais que hum fò , que fe aco- 
Iheo a nado ao junco. D. Triílão porque 
ifto foi em conjunção que faltou o vento 
traveíTia , foi forçado fazer- fe á vela , e por 
muito que depois trabalhou , não pode to- 
mar a Ilha ; e foi tanto o tempo , e tão 
continuado per alguns dias , que lhe con- 
v.eip ir-fe á Ilha de Amboino , onde aca- 
bou 



Década III. Liv. V. Cap. VI. óo? 

bou de carregar o navio , com que fe veio 
a Malaca : da paixão do qual cafo dizem 
que fe lhe gerou huma pofthema , de que 
morreo em chegando a Malaca , como dif- 
femos. Aífi que havendo tantas caufas pre- 
cedentes , e mais irem ordinariamente de 
Malaca áquellas Ilhas de Banda, e Malu- 
co buícar efpeciaria , dobrando fempre efte 
requerimento daquelles Reys ; ordenou EI- 
Rey D. Manuel enviar huma Armada a ef- 
te negocio , que foi a de Jorge de Brito* 
E por fua morte fuccedeo feu irmão Antó- 
nio de Brito, como atrás efcrevemos , com 
a viagem do qual tornaremos a continuar 
nefíe feguinte Capitulo. 

CAPITULO VIL 

Da viagem que António de Brito fez nas 

Ilhas de Banda , e Maluco : e o que paf- 

fou té fazer huma fortaleza em 

a Ilha Ternate. 

Artido António de Brito do Cabo de 
Cingápura , onde fe eípedio de Jorge 
d'Alboquerque , fez fua viagem per o ef- 
treito de Sabam , levando féis velas com a 
cm que elle hia , de que eram Capitães Fran- 
eifco de Brito , Jorge de Mello , Pêro Bote- 
lho , Lourenço Godinho , Gafpar Gallo, 
nas quaes velas levaria mais de trezentos ho- 
mens. 



6o6 ÁSIA de JoXo de Barros 

mens. E a primeira terra que tomou , foi a 
Cidade Tumbam da Iíhajaíia, e daqui foi 
á outra chamada Agacim ; onde por fer ef- 
cala da navegação daquellas partes ? e a ella 
concorrerem muitas mercadorias , e man- 
timentos , deteve-fe dezefcte dias , proven- 
do-fe de algumas coufas. E porque a Ilha 
Madura , que naquellas partes tem nome, 
eílava defronte daquella Cidade Agacim , e 
eile defejava ter informação das coufas dei- 
la , mandou lá hum navio de remo com dez- 
efete homens. Os quaes entrando per hum 
graciofo , e frefco rio , per a margem do 
qual havia muitas fruitas da terra, aíli como 
duriões , e jacas , vianda aliás golofa a quem 
começa de a goííar , aíli enganou os do ba- 
tel 5 que fahindo todos em terra a comer del- 
ia , os moradores vendo feu defcuido , lhes 
tomaram o batel , e os prenderam a todos , 
que não deram pouco trabalho a António de 
Brito per via de refgate havellos á mão ; e 
iílo ainda com favor do fenhor da Cidade 
Agacim , que niíío enterveio. Recolhida to- 
da eíla gente, eílando já António de Brito 
pêra partir , chegou D. Garcia Plenriqucs 
com quatro velas , hum navio em que elle 
hia , e três juncos 5 de que eram Capitães 
Henrique de Figueiredo hum Fidalgo de 
Coimbra , Duarte d'Acofta , e Franciíco de 
Lantar ; o qual D, Garcia hia bufcar carga 

de 



Década III. Liv. V. Cap. VIL 6of 

de efpeciaria á Ilha de Banda , como or- 
dinariamente os Capitães de Malaca cada an- 
no mandavam os juncos da terra. Chegado 
elle 5 veio naquella conjunção hum junco da 
mefma Ilha Jaúa , que também fora a Ban- 
.da bufear efpeciaria 3 o qual deo nova co- 
mo lá achara gente branca ao modo dos nof- 
fos , entrada novamente na terra , e que lhe 
deram aellesjáos huma carta pêra navega- 
rem feguramente , fe pelo mar achaífem ou- 
tra gente da fua companhia. António de Bri- 
to j havida a carta , achou fer de letra Caf- 
telhana , e dada per Caftelhanos em nome 
d'ElRey de Caftella : tão pompofa , e co- 
piofa em palavras , como efta nação coftu- 
ma em fua eferitura , principalmente em cou- 
fas defta qualidade , em que cila efpraia mui- 
to. E porque na índia , quando elle Antó- 
nio de Brito partio , havia nova que Fer- 
não de Magalhães , (de que atrás faliámos , ) 
fe fora a Caftella com fundamento de ir ter 
áquellas partes ; aííentou com D. Garcia que 
podia fer eíla gente de fua companhia ? e 
que convinha ambos irem em huma confer- 
va pêra qualquer cafo que fuccedeíTe naquel- 
le caminho. Mas como as coufas do mar 
são mui incertas , principalmente per entre 
aquelle número de Ilhas , que he hum la- 
byrintho acertar os feus canaes , e fobre iífo 
muitas correntes > e mares revefíòs da diffe- 

ren- 



608 ÁSIA de JoÃo de Barros 

rença dos ventos ; tendo já paliada a Cida^ 
de Tumbaya , onde fe detiveram três dias , 
emparando no boqueirão de Anjane , alli 
lhe apanharam as correntes hum junco de 
Duarte d'Acoíta. O qual indo com a força 
da corrente , fem lhe poder valer , efgarrado 
contra o Sul , o melhor que pode , elle , e 
os Portuguezes que levava , acolhêram-fe 
em huma champana , na qual foram ter á 
Jáoa , e dahi a Malaca , íèm do junco fe 
faber onde fora parar. Paliadas eftas corren- 
tes > fendo já na paragem deAmboino, deo- 
ihe huma trovoada que os apartou de ma- 
neira , que António de Brito correo contra 
a Ilha Banda , aonde chegou fomente com 
Lourenço Godinho. Porém depois poucos , 
c poucos vieram ter com eile , achando já 
na mefma Ilha D. Garcia , o qual lhe deo 
mais certas novas da Armada de Caítella , 
e o que fizera naquelias Ilhas , de que adian- 
te faremos relação. António de Brito, por- 
que os navios pequenos que levava haviam 
xnifter corregimento por haver muito que 
andavam no mar , deo-lhes pendor ; e en- 
tretanto por ainda não fer acabado deaífen- 
tar per nós o preço da efpeciaria , e coufas 
que dávamos a troco delia aos da terra , fez 
contrato com elles ao modo de Cochij , pê- 
ra aífi o que elles tinham , como o que lhe 
nós havíamos de dar eítiyeíTe fempre em 

hum 



Década III. Liv. V. Cap. VIL 6o 9 

hum preço , porque com a ida de muitos 
navios que alli hiam ter de Maiaca , depois 
que foi noíTa , tinham os noílos damnado 
aquelle trato emdamnofeu, e proveito dos 
naturaes da terra ; por ferem os Portuguezes 
homens neíle -negocio do commercio tão 
apreflados , e defcuberros em feus conceitos , 
que lhe eftá a parte vendo o animo de feu 
appetite. E como os Gentios , e Mouros 
daquelíe Oriente em comprar , e vender são 
os mais delgados , e fotijs homens do mun- 
do , e fobre iífo tão pacientes, e frios em 
defcubrir feus appetites , e neceílidades , que 
ninguém lhas fente ; fempre neile adio do 
commercio nos levam debaixo , como nós 
em os da guerra os fòpeamos. Acabadas e£- 
tas coufas , e tomada carga pêra os juncos , 
que D. Garcia levava , partíram-fe ambos 
via de Maluco , leixando alli algumas velas , 
que Jfe não puderam tão brevemente aviar, 
por acudirem ás coufas que lhe contavam 
íercm feitas com a chegada dos Caftelha- 
nos. E porque na Ilha Bacham , de que era 
Rey Landim, foram mortos os Portuguezes 
do junco de Simão Corrêa , como fe vio 
nefte paíTado Capitulo ; paíFando António de 
Brito per ella , deteve-fe em quanto man- 
dou Simão d' Abreu com alguma gente que 
fahifle em huma aldeã fua , e a queirnaífe , e 
mataíTe os quepudeíTej porque íòubefleEl- 
Tom.lILP.L Qg Rey 



6io ÁSIA de Joio de Barros 

Rey Laudim que não ficavam fem emenda 
os damnos , e mal que íe faziam aos Por- 
tuguezes : e que como aquella íua Ilha fora 
a primeira daquellas partes , que os encetou 
com ferro de morte , com outro tal per el- 
lcs foííe ella a primeira caítigada. Dado ef- 
te caíligo a feu íalvo , foi-íe António de 
Brito á Ilha Tidorc , de que era Rey Al- 
mançor : a chegada do qual foi. a tempo , 
que as coufas daquellas Ilhas , principalmen- 
te as do Reyno deTernate, eftavam emef- 
tado de fe perder , pêra que convém fazer- 
mos huma pequena demora na relação dei- 
tas coufas , pois tudo he neceííario ao pro- 
feguirrienro da hiftoria. Ao tempo que An- 
tónio de Brito chegou a eftas Ilhas , era fa- 
lecido EJRey Boleife de Ternate, e dizia- 
fe fua morte fer de peçonha , induftriada per 
Mouros que andavam naquelle trato do cra- 
vo ; vendo quanto efte Rey defejava termos 
alli fortaleza, e quanto eiles perdiam fealli 
foííe. Sendo já a efte tempo , poucos dias an- 
te do falecimento d'ElRey, morto Francif- 
co Serrão , e também per meio dos Mou- 
ros , e fegundo os noííos depois fouheram , 
quaíí na conjunção que mataram Fernão de 
Magalhães, comoveremos. Parece que per- 
mittio Deos que ambos não viíícm o rofto 
hum do outro , nem o dos nofíbs , por fe- 
rem cauía do que depois fuecedeo a efte 



Década III. Liv. V. Cap. VIL 611 

Reyno; e nos papeis que ficaram delleFran- 
ciico Serrão fe acharam cartas de Fernão de 
Magalhães , em que dava conta de íi , e do 
que efperava fazer em refpofta de outras 
que houvera delle , como adiante fe dirá. E 
• ao tempo que EIRey CachiJ Boleife fe vio 
no aéto da morte , (poílo que não entendeo 
a caufa delia,) como homem prudente, e 
que via na imaginação o fucceflò do feu Rey- 
no nas differenças que havia de ter depois 
de feu falecimento, por leixar dous filhos 
lidimos , o maior dos quaes chamado Bo- 
Jinat era de té fete annos , que o havia de 
fucceder , e outro havia nome Dayalo , e 
baftardos fete , os mais delles homens ; or- 
denou feu teílamento , em que mandou que 
a Rainha fua mulher , que era filha d'E!Rey 
Almançor de Tidorç, íiçaffe por Tutor de 
feus filhos menores, e Governador do Rey- 
no. Porque com o favor de feu pai EIRey 
Almançor poderia fer temida , e acatada , e 
não ou fariam os feus mover alguma novi- 
dade contra feu filho ; e affi encornmendou 
a ella , e ao filho fucceífor , e todolos prip- 
cipaes do Reyno no próprio teílamento , que 
trabalhaíTcm muito por haver noíía amiza- 
de. E não contente com as palavras do tes- 
tamento , em que fazia eíla encommenda- 
ção , depois que o teve cerrado, mandou 
vir ante li a Rainha, filhos menores, e os 
Qc[ ii baf- 



6iz ASIiV de João de Barros 

"feaftardos , com as principaes peíToas de feu 
Reyno , e fez-lhes hum arrazoamento , en- 
commendando-lhes a paz , e concórdia en- 
tre li 5 porque em o eípirieo ellc os via to- 
dos com a mão armada , não por defensão 
do Reyno , mas em deftruiçao delle , com- 
petindo a quem o havia de governar em 
quanto feu filho Bohaat legitimo herdeiro não 
tinha idade pêra iíío. Por evitar as quaes 
differenças , elle leixava o governo delle á 
Rainha , por confiar na virtude , e prudên- 
cia delia que o podia bem fazer, aíli pêra 
bem delle , como a prazer dos bons. E quan- 
do ella pela oceupação da creação de feus 
filhos , e outras coulàs próprias das mulhe- 
res , não pudefle acudir a tudo , ella de an- 
tre elles elegeria algum , que aajudaífe neíle 
trabalho do governo ; e cita era a primeira 
coufa que pedia a todos , com a qual fua alma 
iria defeançada. E a fegunda coufa , por 
também depender da confervaçao , e au- 
gmento do feu Reyno , e bem commum de 
todos era , que fizeíTem grande fundamento 
da amizade dos Portuguezes , porque eftes 
os haviam de defender de feus imigos , eftes 
lhes haviam de dar fahida ás novidades do 
feu cravo, eftes lhes haviam de trazer toda- 
las coufas , de que tinham neceíTidade pêra 
feu ufo , e finalmente nelles haviam de achar 
paz , fé, verdade, e outras virtudes, que 

na- 



Década III. Liv. V. Cap. VIL 6i 3 

naquelias Ilhas fe não achavam : com tal que 
lhes guardaílem as meímas coufas , porque 
com eílas partes fe ganhava o animo dos 
homens ; e ainda que foíTem differentes em v 
lei , confervar-fe-hiam no fer, e fuftenta- 
' mento da vida. E peró que naquella hora 
em que EIRey propoz eftas , e outras cou- 
fas , que todas vinham a concluir neítas duas , 
os prefentes tiveflem animo de as cumprir, 
como elle faleceo logo fe revolveo tudo ; 
de maneira 5 que faleceo pouco pêra huns 
com os outros virem a rompimento de guer- 
ra. E o que mais os accendeo a cada hum 
procurar por fer Governador do Reyno , e 
a ter em poder o novo Rey Bohaat , foi a 
vinda de Cachiláto parente d'ElRey Bolei- 
fe , que (como atrás fica ) veio a Malaca por 
íèu mandado a Garcia de Sá Capitão delia , 
e quando achou EIRey falecido, trabalhou 
também por fer hum dos que governaífem. 
Porque como levava recado que noífa Ar- 
mada não tardaria muito em ir áquellas par- 
tes , e naquella Ilha faríamos fortaleza ; que- 
ria que o achaííem em poífe pêra com nof- 
fo favor ficar mais firme nella. A Rainha neí- 
te tempo não fomente era atormentada com 
eftas públicas differenças , mas ainda com ou- 
tras que ella fecretamente fentia de feu pai 
EIRey Almançor , o qual não efperava mais 
pêra com titulo de acudir a ella, e ao ne- 
to. 



6i4 ÁSIA de JoÂo de Barros 

to, tomar o Reyno pêra íí , que ver trava- 
dos em armas os filhos baftardos , e paren- 
tes d'ElRey, que eram os que competiam 
nefte cafo. A qual coufa ella como mulher 
prudente diíiimulava , fem dar a entender a 
feu pai que o fentia na maneira , que clle 
tinha com ella nos confelhos que lhe man- 
dava acerca de como fe havia de haver com 
os filhos d'ElRey naquellas competências que 
tinham , porque tudo hia ordenado pêra el- 
le pôr em effeito feu propofito. E como ef- 
tava aconfelhada da prudência de feu mari- 
do , peró que contra fua natureza ella mo- 
veíle iílo , por fer mui amiga de mandar, 
todavia conftrangida da neceffidade , mandou 
chamar todos íeus enteados , e os principaes 
do Reyno a copfelho , fingindo fer occupa- 
da na creção de feus filhos , e por fua fra- 
queza natural não poder acudir aos negó- 
cios do Reyno, diífe, que ella os mandara 
chamar pêra que foubeífem que daquelle 
dia em diante elegia pêra feu ajudador no 
governo daquelle Reyno a Cachil Daroez ; 
porque além de fer irmão de feu filho , e 
ter qualidades pêra iffo , era homem de que 
todos haviam de fer contentes , por tanto a 
elle obedeceífem , como á própria peífoa dei- 
3e , e de feu filho. E os negócios da defen- 
são , e couías da guerra , quando o cafo o 
reguereíTe , ella os punha nas mãos delle , e 

con- 



Dec/vda III. Liv. V. Cap. VIL 615- 

confelho de todos , por os taes exerci cios 
pertencerem a elles , e não a ella. Pofto o 
Reyno ern aíTocego com eíla obra da Rainha , 
ibbrevieram os Caftelhanos áquellas Ilhas y 
os quaes peró que chegaífem a eíla Ilha Ter- 
'nate , ella , nem Cachil Daroez os quizeram 
receber, e paífáram-fe a Tidore, onde fo- 
ram bem recebidos d'EiRey Almançor. Por- 
que vendo elle quão inclinados nós eftava- 
mos ás couías d'ElRey Boleife por razão 
das obras que delle tinhamos recebido , e 
Embaixador que mandara a Malaca i de que 
já tinha recado não tardarem muito ir noí- 
ías Armadas áquellas Ilhas , temendo que nos 
poderíamos mais affeiçoar por eftas caufas ao 
outro , e não a elle ; e que tendo aquelle 
Reyno de Ternate fortaleza noíTa , elle Al- 
mançor ficava mui acanhado > determinou re- 
colher os Caftelhanos , que lá foram ter com 
duas náos. Porque além deitas razões , que 
EiPvey Almançor por parte de feu proveito 
punha ante fi , deram elles outras em abona- 
çao da grandeza, eeftado do feu Príncipe , 
com que houve Almançor que nefta parte de 
adjutorio , e favor não tinha menos forte em 
ter comligo os Caftelhanos , que os de Ter- 
nate terem Portuguezes. Finalmente , elJe 
lhe deo carga de cravo pêra duas náos , e 
recolheo comílgo certos homens , que alii 
leixáram em modo de feitorizar cravo pêra 

tor- 



6i6 ÁSIA de João de Barros 

tornarem as outras a efle comroercio. Hum 
dos quaes homens chamado João de Cam- 
pos , que ficara alli com nome de Feitor, 
tanto que vio António de Brito ao mar , pa- 
recendo-lhe ferem as náos fuás , que dalJi 
eram partidas , ou de alguma outra Armada 
de Caftella , metteo-fe em hum paráo veia- 
do em hum faio de veludo , e huma gorra 
na cabeça com outras infignias de trajo , que 
logo de longe deo fufpeita aos nolfos fer Caf- 
telhano. Ao qual ante que houveífe reconhe- 
cimento das noílas náos , António de Brito 
mandou hum calaluz efquipado que trazia, 
cm que o trouxeram , e delle foube todo o 
proceífo de fua vinda , e como carregara 
alli duas náos , huma das quaes era partida 
per via danofía navegação em bufca do Ca- 
bo de Boa-efperança. E a outra , que tam- 
bém partio cm fua conferva , por lhe abrir 
huma grande agua , tornara arribar a Tido- 
re ; e depois que foi concertada , partira com 
fundamento de ir demandar a terra firme , 
que'eítá na cofia das Antilhas , e alli def- 
carregar , por fe não atreverem a tornar pe- 
lo eftreito per onde vieram. António de 
Brito porque eílas coufas fe conformavam 
com outras , que elle foubera de outro Caf- 
teihano per nome Alonço d'Acofta , que 
trazia já em a náo tirado de hum junco, 
onde o dh achara naquelle caminho , o qual 

ei- 



Década III. Liv. V. Cap. VIL 617 

eile não quiz que apparecelfe em quanto pra- 
ticava com eftoutro , pêra ver fe concorda- 
vam ambos; levou também comfigo a João 
de Campos, e foi íurgir no porto da Cida- 
de Tidore d'ElRey Almançor , e naquelle 
clia não houve mais entre ambos que viíita- 
çoes. E quando veio de noite , ouviram os 
noíTos grande eílrondo de tambores 9 e huns 
finos de metal, que fe uíam naquellas par- 
tes , inventados na Jaiia pêra os remadores 
ao compaíío , e tom delles irem cantando , 
e remando ao modo que os Alemães de or- 
denança lançam os paífos remiííos , ou apref- 
fados , fcgundo o fentem no pifaro , e tam- 
bor; ecoineíles finos, e cantares , e outros 
inílrumentos daqueíle mifter em frota de re- 
mos de muita gente, lie coufa muito pêra 
ouvir , principalmente de noite. E porto que 
alguns dos noííbs tinham já vifto , e ouvido 
aquelle feu modo de remar , como fentíram 
grande número de navios no rumor de can- 
tar , e eílrondo dos finos , e não íabiam com 
que propofito vinham , metteo-os em alvoro- 
ço ae fe aperceber pêra pelejar; té que An- 
tónio de Brito foi certificado que era Cachil 
Daroez Governador de Ternate , que per 
mandado da Rainha vinha bufcar a elie An- 
tónio de Brito , fabendo que chegara a Ilha 
Bacham. Entre os quaes houve grande fef- 
ta de falva de artilheria , e peia manha na 

vif- 



618 ÁSIA de João de Barros 

viíla de ambos muito maior, o qual prazer, 
e fefta foi pêra ElPvey Almançor grande con- 
fusão , e trifteza. Porque bem vio elle que 
a diligencia da Rainha de Ternate fua filha , 
e de Cachil Daroez em vir tomar noíta Ar- 
mada ao caminho com tão grande fefta , tu- 
do era em feu damno , principalmente polo 
que tinha feito contra nós no gazalhado , e 
carga , que tinha dado aos Caftelhanos. E 
como homem que queria remediar o paira- 
do ante que mais foííe , veio logo ver An- 
tónio de Brito áfuanáo, defculpaiído-fe de 
o nao ter feito o dia de antes ; e porém que 
cm todo o tempo que foííe , elle o vinha buf- 
car como homem mui deíejofo de ter Por- 
tuguezes naqueile feu porto , por fer a cou- 
ià que elle tanto tempo havia que procura- 
va com cartas , e recados que tinha enviado 
a EIRey de Portugal , e aos feus Capitães , 
que eftavam em Malaca. António de Brito 
per o mefmo modo lhe refpondeo ; e que EI- 
Rey de Portugal feu Senhor por caufa def- 
íes recados , e cartas , que elle tinha envia- 
do , o mandava com aquella frota a fazer na- 
quellas Ilhas huma fortaleza no feu porto de 
Tidore , ou Ternate , onde # elle António 
de Brito bem parecefle ; havendo refpeito á 
difpoíiçao do íitio do lugar , e faude delie , 
e também onde achafle melhor gazalhado, 
e mais verdade ; e fé. Porque os Portugue- 

zes 



Década III. Liv. V. Cap. VIL 619 

'zes quando edificavam alguma cafa , em que 
efperavam viver muito tempo , a duas cou- 
ías principalmente tinham refpeito , ao lí- 
tio , e diipoliçao do lugar , e á boa ; ou má 
vizinhança ; porque na primeira feguravain 
alaúde corporal, e na fegunda paz, e ver- 
dade, de que dependem todolos bens da vi- 
da. E porque elle achava aquella fua Ilha 
occupada com os novos hoípedes , que nel- 
la agazalhára , vindo elles alli mais acafo que 
por os elle procurar , ou chamar , como ri- 
nha feito aos Portuguezes , a elle lhe pare- 
cia eícufado bufcar porto naquella fua Ilha , 
pois elle Almançor eftava fatisfeito daquel- 
les novos amigos. E que por ilTo fe queria 
partir pêra Ternate , onde efperava recado 
do que EIRey de Portugal feu Senhor lhe 
mandava que fizeífe naquelle caio , fobre que 
lhe logo efereveria em a primeira monção. 
EIRey Almançor ficou tao confufo com ef- 
ías palavras, que rodas as fuás foram humas 
defeulpas mal atadas , ás quaes Cachil Da- 
roez refpondeo , porque via que EIRey re- 
torcia rudo a que era mais razão fazer elle 
Anronio de Brito fortaleza naquella fua Ilha , 
que em Ternate. E foi entre elles a perfia 
tão travada, e Cachil Daroez fallava com 
huma liberdade de fé, que nos rinha guar- 
dada , e rão confiado em fua pefíba , como 
cavalleiro que elle era , que foi neceífario 

lan- 



620 ASIÀ t>E JoXo de Barros 

lançar António de Brito o baítão no meio. 
E depois que de huma parte , e de outra fe 
altercou mais brandamente , diffe eile a El- 
Rey , que queria mandar ver os portos da- 
quella fua Ilha j porque viílos os delia , e os 
de Terna te , conforma r-fe-hia com o regi- 
mento , que lhe pêra ilTo dera EIRey feu Se- 
nhor. EIRcy já mais contente de íi , efpe- 
dio-fe de António de Brito , dizendo , que 
elle fe hia a terra pêra lhe mandar entregar 
aquelles hofpedes , por cuja caufa ante elle 
tanto rinha perdido ; cá não os queria ter 
comfigo , pois elle fe defcontentava diífo. 
João de Campos o Feitor dos Caílelhanos 
como fentio o cafo , não lhe falcceo diferi- 
ção pêra requerer a António de Brito que 
mandaíTe pôr em cobro a fazenda ? que alli 
tinha y e que a não leixaíTe em poder d'El- 
Rey. Ao que António de Brito refpondeo , 
que a foífe elle recolher ; e que pois as pef- 
foas , que com ella eítavam haviam de vir , 
e eram de mais preço , onde elles eíliveífem , 
eílaria ella com elles feguramente. E pêra if- 
ío mandou com elle a Lifuarte de Lix , que 
era Efcriváo da Feitoria , pêra que além do 
inventario que os Caílelhanos fizeífem dei- 
la ? íizeife elle outro por mais fegurança da 
fazenda d'ElRey de Caílella , que elles di- 
ziam ter alli. Finalmente recolhida ella , e 
os Caílelhanos que a trouxeram em feu po- 
der, 



Década III. Liv. V. Cap. VII. 621 

der , António de Brito fe foi com Cachil 
Daroez a Ternate , onde o novo Rey , e 
fua madre com todolos principaes o rece- 
beram com grande apparato , e tanto pra- 
zer , e fefta , como que entrava naquella 
terra hum remidor de feus trabalhos , e de- 
fenlbr de todas. António de Brito , pofto 
que mais por contentar EIRey Almançor, 
que por defejar fazer fortaleza em Tidore y 
elíe mandaffe lá correr todolos portos; to- 
davia fe achara outro melhor que o de Ter- 
nate, por então eile o acceitára té aíToce- 
gar o animo daquelle Mouro fobre as cou- 
ías em que os Caítelhanos o tinham metti- 
do , poílo que elle fe moílrava diíTo muito 
arrependido. Mas como o de Ternate , ain- 
da que foífe recife, era melhor que todo- 
los de Tidore , teve elle apparente efcufa 
de não fazer lá fortaleza , que não foi pou- 
ca dor pêra EIRey. Elegido efte lugar , por 
não haver outro melhor , e mais efcar pe- 
gado na Cidade Ternate, começou Antó- 
nio de Brito entender na obra ; e a primei- 
ra enxadada que fe deo no feu alicerce, e 
pedra que fe nelle lançou , foi per mão de 
António de .Brito a vinte e quatro dias de 
Junho do anno de mil e quinhentos e vin- 
te dous , eftando elle , e todolos noífos com 
capellas na cabeça , e grande fefta por a 
folemnidade do dia > que era de S. João 

Bap- 



Ó22 ASIÀ DE JOÃO DE BARROS 

Ba-ptifta ; e todolos outros Fidalgos , caval- 
ieiros , e gente de armas fizeram outro tan- 
to > e por memoria deite fanto houve a for- 
taleza nome S. João. 

CAPITULO VIII. 

Como Fernão de Magalhães fe foi a Caf- 
tella em deferviço delRey D. Manuel , e 
as caufas porque : e como ElRey D. Car- 
los de Caftella , que depois foi Emperador , 
ãcceitou feu fervi ço , e fe determinou em 
o mandar ás Ilhas de Maluco per nova 
navegação. 

A Trás efcrevemos como Franciíco Ser- 
rão das Ilhas de Maluco onde foi ter 
efcreveo algumas cartas a Fernão de Ma- 
galhães , por íèr leu amigo do tempo que 
ambos andaram na índia , principalmente 
na tomada de Malaca, dando-lhe conta das 
Ilhas daquelle Oriente. Ampliando ifto com 
tantas palavras , e myfterios , fazendo tanta 
diíiançia donde eílava a Malaca , por fazer 
em íi pêra méritos de feu galardão ante 
ElRey D. Manuel , que parecia virem aquel- 
las cartas de mais longe que dos Antípo- 
das, e de outro novo mundo, em que ti- 
nha feito mais ferviço a ElRey , do que 
fizera o Almirante D. Vafco da Gama no 
delcubrimento da índia. As quaes cartas fo- 
ram 



Década III. Liv. V. Cap. VIII. 623 

ram viítas na mão de Fernão de Magalhães 5 
porque fe prezava cl!e muito da amizade 
de Francifco Serrão , e cm as moftrar de- 
nunciava aquelle grande ferviço que tinha 
feito a ElFvey ; e também elie eftribou le- 
go tanto nelías para o propofito que delias 
concebeo, que não fallava em outra couíà. 
O qual propofito fe vio depois em cartas 
fuás , que fe acharam entre alguns papeis , 
que ficaram per falecimento de Francifco 
Serrão lá em ?^aluco , que António de Bri- 
to mandou recolher , e eram refpoífos das 
que lhe elle Francifco Serrão eferevia - y (co- 
mo ora veremos , ) nas quaes dizia , que 
prazendo a Deos , cedo fe veria com elle ; 
e que quando não foífe per via de Formi- 
gai , feria per via de Gaílella , porque em 
tal eílado andavam fuás coufas : por tanto 
que oefperaífe lá, porque já fe conheciam 
da pouíada pêra elle efperar que ambos fe 
haveriam bem. E como o demónio fempre 
no animo dos homens move coufas pêra 
algum mão feito, e os acabar nclle, orde- 
nou caio pêra que efte Fernão de Maga- 
lhães fe defcontentaííe de feu Rey , e do Rey- 
no , e mais acabaííe em máos caminhos y 
como acabou, ç foi per efta maneira. Ef- 
tando elle Fernão de Magalhães em Aza- 
mor, fendo Capitão daquella Cidade João 
Soares > em huma corrida que fe fez contra 

os 



62A ÁSIA de João de Barros 

os Mouros a hum repique, foi elle Fernão 
de Magalhães ferido com huma lança de 
arremeííb ; e parece que lhe tocou em al- 
gum nervo da juntura da curva , com que 
depois manquejava hum pouco. Sobre o 
qual caio fuccedeo em huma entrada que 
fez João Soares , por fer coufa notável , 
fegundo contamos em a noífa parte Africa , 
te chama a de Lei de Farax , em que fe to- 
maram oitocentas e noventa almas, e duas 
inii cabeças de gado vacum , da qual ca- 
valgada João Soares por razão de lua alei- 
jão , e lhe dar algum proveito , fez quadri- 
lheiro mor a efte Fernão de Magalhães , e 
com elle a hum Álvaro Monteiro. Os quaes , 
fegundo fe depois os moradores da Cidade 
aqueixavam , por razão das partes que ha- 
viam de haver da cavalgada , ambos met- 
têram bem a mão nelia , principalmente no 
gado, dizendo que venderam aos Mouros 
de Enxouvia quatrocentas cabeças. E o con- 
certo foi , que vieííem de noite por elle 
por o terem ao longo do muro da Cida- 
de ; e depois de fer levado , e que os Mou- 
ros o teriam já pofto em faivo , fizeram re- 
picar , dizendo , que furtavam o gado , e 
ao outro dia foram pela trilha deite , cui- 
dando que eftava ainda daquém do rio , e 
foram dar no vão per onde o pairaram. Fer- 
não de .Magalhães , paliado efte ímpeto da 

mur- 



Década IIL Liv. V. Cap. VIII. 625- 

murmuração , como era couía de muitos 5 
a que ninguém quiz acudir, principalmen- 
te por fe vir João Soares de Azamor, e ir 
de cá por Capitão D.Pedro de Soufa , que 
depois foi feito Conde do Prado , neíla en- 
volta de Capitão novo veio-le elle também 
pêra efte Reyno fem licença de D. Pedro. 
E como elle Fernão de Magalhães era ho- 
mem de nobre íangue , e deferviço, e tam- 
bém manquejava da perna , começou ter lo- 
go alguns requerimentos com EIRey Dom 
Manuel , entre os quaes dizem que foi ac- 
crefeentamento de fua moradia : coufa que 
tem dado aos homens nobres deite Reyno 
muito trabalho; e^parece que he hmna ef- 
pecie de martyrio entre os Portuguezes , e 
acerca dos R. eys cauí a deefcandalo. Porque 
como os homens tem recebido por opinião 
commum , que as mercês do Príncipe da- 
das per mérito de ferviço são huma juíliça 
commutativa , que íe deve guardar igual- 
mente em todos , guardada a qualidade de 
cada hum , quando lhe negão a lua porção > 
peró que o foíírao mal , ainda tem. paciên- 
cia ; mas quando vem exemplo em feu igual y 
principalmente naquelles a que aproveitou 
mais artifícios , e amigos 5 que méritos pró- 
prios 3 aqui fe perde toda paciência , daqui 
nafee a indignação , e delia ódio , e final- 
mente toda defefperação , té que vem cora- 
Tom. III. P. I. Rr met- 



626 ÁSIA de JoÃo de Barbos 

rnetter crimes , com que damnam a fi , e a 
outrem. E o que* mais damnou a Fernão 
de Magalhães , que mais meio cruzado de 
accrefcentamento cada mez em fua mora- 
dia , que era feu requerimento , foi, que 
alguns homens , que fe acharam em Aza- 
mor no tempo que elíe lá efteve , fobre a 
fama que trouxe do furto do gado , come- 
çaram dizer que a fua manqueira era fingi- 
da j e artificio pêra feu requerimento. As 
quaes coufas com outras , que elle loirava 
como homem indignado , vieram á noticia 
d'E!Rey , com que Jhe entreteve feu des- 
pacho* Accrefcentou-fe mais em feu damno 
efcrever D. Pedro de Soufa Capitão de Aza- 
mor a EIRey , como elle Fernão de Ma- 
galhães fe viera fem fua licença , e o que 
tinha feito na cavalgada, fegundo fe os mo- 
radores queixavam , que pedia a Sua Alte- 
za mandaífe fabcr como paífava pêra lhe 
dar a emenda que merecia. Fernão de Ma- 
galhães , poíio que com palavras fe queria 
juftifícar ante EIRey , não lhasquiz receber, 
e mandou que fe foífe logo a Azamor li- 
vrar por juítiça , pois lá era accufado. Che- 
gado lá , ou porque elle feria limpo deíla 
culpa , ou ( fegundo fe mais affirma , ) os 
fronteiros de Azamor polo não avexar o 
não accufárara , elle fe tornou a efte Rey- 
no com a fentença de feu livramento ; pê- 
ro 



Década III. Liv. V. Ca?. VIII. 627 

ró fempre lhe EIRey teve hum entejo. E 
quando veio ao defpacho de feus requeri- 
mentos , porque nao foram á fua vontade , 
poz elle em obra o que tinha eferito a Fran- 
cifeo Serrão feu amigo, que eftava emMa- 
' luco ; donde parece que fua ida pêra Caf- 
tella andava no feu animo de mais dias, que 
movida de accidente do defpacho. E pro- 
va-fe , porque ante de o ter, fempre anda- 
va com Pilotos , Cartas de marear , e altura 
de Lefte , Oefte ; matéria que tem lançado 
a perder mais Portuguezes ignorantes , do 
que silo ganhados os doutos per ella , pois 
ainda nao vimos algum que o puzeífe em 
effeito. Da qual prática que tinha com efta 
gente do mar, e também por elle ter hum 
engenho dado a iflb , e experiência do tem- 
po que andara na índia com moítrar as 
cartas , que lhe Francifco Serrão efereveo , 
começou femear nas orelhas deita gente , 
que as Ilhas de Maluco eftavam tão Ori- 
entaes , quanto a nós , que cahiam na de- 
marcação de Caftella. E pêra confirmação 
deíla doutrina , que femeava nas orelhas dos 
mareantes , ajuntou-fe com hum Ruy Fa- 
leiro Portuguez de nação Aftrologo judiciá- 
rio , também aggravado d'ElRey , porque 
o nao quiz tomar por eftc oííicio , como fe 
fora coufa de que EÍRey tinha muita ne- 
ceílidade. Finalmente, avindes ambos nefle 
Rr ii pro- 



628 ÁSIA de Joio de Barkos 

propofito de darem algum defgofto a Eí- 
Rey , deram coiníigo em Sevilha , levando 
alguns Pilotos também doentes defta fua en- 
fermidade , e lá acharam outros amorados 
deite Reyno 5 com que fizeram corpo de 
fua abonação por naquella Cidade concor- 
rer muita gente defie miíler domar porcau- 
fa das Armadas que fe alli faziam pêra as 
^Antilhas. Na qual Cidade achou elle Fer- 
não de Magalhães gazalhadò , e favor pê- 
ra fuás coufas em cafa de hum Diogo Bar- 
bofa natural Portuguez , que no anno de 
quinhentos e hum , (como atrás elcre ve- 
mos , ) na primeira Armada foi com João 
da Nova-^por Capitão de hum navio , que 
era de D. Álvaro irmão do Duque de Bra- 
gança D. Fernando. E no tempo que elle 
D. Álvaro andou em Caftella , efte Diogo 
Barbofa teve por ^llc , como Alcaide mor , 
o caftello de Sevilha, Do qual gazalhadò, 
que Fernão de Magalhães recebeo delle Dio- 
go Barbofa , e parentefco que também en- 
tre elles havia , veio o mefmo Fernão de 
Magalhães cafar com huma filha fua , já 
acreditado por EIRey D. Carlos de Caftel- 
la , que depois foi eleito por Emperador, 
e Rey dos Romanos. Ao qual Rey Álva- 
ro d 5 Acofta Camareiro , e Guarda-roupa mor 
d'E!Rey D. Manuel, que então eftava em 
Caftella por feu Embaixador fobre o cafa- 

men- 



Década III. Liv. V. Cap. VIII. 629 

mento da Infante D. Lianor , requereo que 
não quizeíTe "intentar atai empreza , por fer 
coufa que pertencia a efte Reyno , dando 
pêra iflb as razões , e caufas da antiga de- 
marcarão feita entre eftes Reynos de Por- 
tugal , e- Caftella. E primeiro que com elle 
tiveffe efta prática , a tivera com o mefmo 
Fernão de Magalhães , provocando-o a que 
deíiíliíTe daquella opinião , pois no que com- 
mettia não fomente offendia a Deos , e a 
leu Rey , mas ainda maculava perpetuamen- 
te fua honra , e damnava a feus parentes , 
e finalmente era caufa de haver paixões , e 
defgoftos entre dous Reys tão amigos , lia- 
dos j e parentes. Ás quaes razões deo por 
eícufa ter já dado palavra deli aElRey de 
Caílelía , como que em não ir avante com 
ella oíFcndia mais a fua alma , e menos em 
feguir fua indignação. EIRey de Caftella 
como eftava namorado das cartas , e pomas 
de marear , que Fernão de Magalhães lhe 
tinha moftrado , e principalmente da carta 
cjue Francifco Serrão efcreveo a elle Fer- 
não de Magalhães de Maluco , em que el- 
le mais efcorava , e aíli das razões delle , e 
do Faleiro Aftrologo , tiveram eftas pintu- 
ras , e palavras de homens indignados mais 
força pêra EIRey fe determinar em mandar 
huma Armada a efte negocio , que quantas 
razões lhe aprefentou Álvaro d' Acoita 9 fen- 
do 



630 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

do no maior fervor da liança que EIRey 
queria rer com elle , que era tratando o ca- 
famento da Infante D. Lianor com elle , 
que fe então fez , como particularmente ef- 
crevemos em fua própria Chronica. As quaes 
vodas por ferem neíta conjunção , parece que 
trocaram a ordem de todalas dos Príncipes , 
porque as mais das pazes que fe entre el- 
les fazem, paííadas muitas difFerenças , guer- 
ras , e contendas , a paz deíias coufas fe re- 
mata per cafamentos á maneira de Come- 
dias : eeíle cafamento, e nova liança d 'EI- 
Rey D. Manuel , por guardar o decoro das 
Reaes peífoas com que fe tratava , e fazia ; 
houvefíe mais refpeito ao modo , que á cou- 
fa , e caufa de tanto parentefco , porque te- 
ve o princípio no fim das Tragedias , que 
acabam em trabalhos , e defgoftos , como 
daqui procederam. Porque o interefle he tão 
próprio a íi mefmo , que como faz aífènto 
no animo de alguém , poucas vezes dá lu- 
gar a outras razões, por mui conjuntas, e 
obrigatórias que fejam. Finalmente EIRey 
D. Carlos de Caftella pêra efte novo defcu- 
brimento , que Fernão de Magalhães pro- 
mettia , mandou armar cinco velas , de que 
o fez Capitão mor , e os outros Capitães 
haviam nome, Luiz de Mendoça , Gafpar 
de Quexada , João de Cartagena , e João 
Serrão , todos naturaes Caíielhanos ; e aífi 

to- 



Década III. Liv. V. Cap. VIII. 631 

toda a mais gente da Armada , que feria 
té duzentas ecincoenta peííbas 5 em que en- 
travam alguns Portuguezes , delles parentes 
deJle Fernão de Magalhães , aílí como Duar- 
te Barbofa feu cunhado , e Álvaro de Mef- 
quita , e Eílevao Gomes , e João Rodrigues 
Carvalho , ambos Pilotos , e outros homens 
induzidos per elles. E não foi o Aílrologo 
Ruy Faleiro , ou porque fe arrependeo da 
jornada , ou por ver per fua aítrologia em 
que fim havia de parar aquella Armada , 
e fegundo dizem fingio doudice ; mas per- 
mittio Deos que foíTe ella verdadeira 3 com 
que ficou prezo em Sevilha na cafa dos dou- 
dos , e em feu lugar foi outro Aítrologo 
chamado Andres de San Martin , homem 
douto na fciencia de Aílronomia , fegundo 
vimos nas operações que fez nefta viagem , 
de que adiante faremos declaração. Mas 
parece que também eíle não calculou bem 
a hora do dia que a Armada partio de São 
Lucar de Barrameda , que foi a vinte e hum 
dias de Setembro do anno de quinhentos e 
dezenove , pois não vio como elle , e Fer- 
não de Magalhães haviam de acabar na 
Ilha de Subo ; nem menos vio a juftiça , 
que fe fez entre elles dos Capitães , nem 
quanta fortuna aquella Armada paífou , co- 
mo fe verá nefte feguinte Capitulo. 



632 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

CAPITULO IX. 

Da viagem que Fernão de Magalhães fez 

com ejía frota : e o que fuccedeo a elle , 

e a ella té defcubrtr hum eftreito , que 

paffava ao mar do Ponente. 

PArtida efta frota de S. Lucar de Barra- , 
meda , foi ter ás Canárias , onde fe de- 
tiveram quatro dias; e aqui veio a Fernão 
de Magalhães huma caravella, na qual di- 
zem que lhe veio aviío que tiveíTe tento em 
li , por quanto os Capitães que levava hiam 
com propoíito de lhe não obedecer. E peró 
que ao diante elles vieram commetter eíle ea- 
fo , mais parece que procedeo das caufas do 
caminho , e do modo que elie Fernão de 
Magalhães fe havia com elles , que de o le- 
varem em propofito. Porque paliados o Rio 
de Janeiro da nofla Província de Santa Cruz , 
a que vulgarmente chamam Brafil , tanto que 
começaram achar os mares frios , principal- 
mente do rio da Prata por diante , que eílá 
em trinta e cinco gráos , quizeram os Ca-? 
pitães pedir razão a elle Fernão de Maga- 
lhães do caminho , e do que efperava fazer , 
vendo que não achava cabo , nem eftreito , 
cie que elle fazia tanto fundamento. Aos quaes 
elle refpondia ? que o leixaífem fazer , que 
elle o entendia mui bem, dando-lhes enten- 
der 



Década III. Liv. V. Cap. IX. 633 

der que fobre feu confelho pendia todo 
aquelle negocio, e não dellcs. Seguindo feu 
defcubrimentò , chegaram a dous dias de 
Abril do anno de quinhentos e vinte a hum 
rio a que chamaram de S. Julião , que eftá 
em cincoenta gráos , e ifto já com tantas tor- 
mentas , e frios , que os mareantes não po- 
diam marear as velas ; porque naquellas par- 
tes o inverno em proporção de clima he mais 
frio que da parte do Norte , afli por razão 
do auge do Sol , como querem os Aílrono- 
mos, como porfer defabrigado de terra fir- 
me da parte do pólo. No. qual rio houve 
entre o Capitão mor , e os outros coníulta 
fobre a navegação que fizeram , e tinham por 
fazer , da qual procederam algumas paixões 
entre todos. Cá Fernão de Magalhães não 
recebeo bem nenhum de quantos inconve- 
nientes lhe puzeram fobre irem mais avan- 
te, ante fe determinou que havia de inver- 
nar alli , e como vieíTe o verão , proíeguir 
no defcubrimentò do cabo , ou eítreito té fe- 
tenta e cinco gráos , dizendo, que pois os 
mares da coita de Noruega , elslanda, que 
eftavam em maior altura , no tempo do feu 
verão eram tão faciles de navegar , como os 
de Hefpanha , aífi o feriam aquelles. E por- 
que Fernão de Magalhães neila prática fe 
moftrou izento , e não fujeito aos votos dos 
Capitães, e Pilotos, houve entre todos mur* 

mu- 



634 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

maração : os principaes , e de melhor juizo 
affirmando-fe que aquelle defcubrimento não 
era proveitofo aos Reynos de Caítella ; por- 
que ainda que onde elles etlavam , que era 
em cincoenta gráos de altura , fora cabo., 
ou eftreito , já não era clima pêra fe nave- 
gar de tão longe, E fe os mares de Noru- 
ega , e Islanda fe navegavam , como elle 
Fernão de Magalhães dava por razão , ifto 
era per gente natural da mefma terra , ou tão 
vizinha a elles , que em efpaço de quinze 
dias de navegação podiam chegar ao mais 
remoto delles. Mas vir de Caítella, epaífar 
a linha Equinocial, e correr a coita de to- 
do o Braíil , que haviam mifter mais de féis , 
ou fete mezes de navegação , e em tão di- 
veríbs climas que na mudança de hum fe mu- 
davam os tempos , eram todos eítes perigos 
perdição denáos , de gente, e de tanta fub- 
ítancia de fazenda , que importava mais em 
proveito commum , que todo o cravo de 
Maluco , quando tão fácil foífe o caminho , 
que eítava por paliar da banda do outro 
mar, que ainda tinha por defcubrir. A ou- 
tra gente commum , que não tinha eíte dif- 
curfo , dizia , que elle Magalhães por fe res- 
tituir na graça d'ElRey de Portugal , a quem 
tinha oíFendido naquella empreza que toma- 
ram , os queria a todos ir metter em parte 
onde morreífem, e depois tornar-fe a Por- 

tu- 



Década III. Liv. V. Cap. IX. 635: 

tugaL Finalmente como todos não fe po- 
diam amparar do frio , e padeciam trabalhos 
incomportáveis , ajuntando efta impaciência 
ao eícandalo , copiláram eíles rres Capitães 
João de Cartagena , Gafpar de Quexada , e 
Luiz de Mendoça de prender 5 ou matar a 
Fernão de Magalhães , c tornar-fe pêra Caf- 
tella , e dar razão do que té li tinham paf- 
fado , e da contumácia delle. Fernão de Ma- 
galhães íabendo efta fua confulta , teve mo- 
do como mandou matar Luiz de Mendoça 
dentro na fua náo , que eftava de fora da bo- 
ca do rio 5 per hum Gonçalo Gomes de E£- 
pinhofa , que fervia de Meirinho da Arma- 
da , levando-lhe hum recado de fua parte ; 
e tanto que efte foi morto ás punhaladas , 
prendeo os outros dous , de que o Gafpar 
de Quexada logo foi efquartejado vivo , e 
aíli o Luiz de Mendoça depois de morto. E 
porque na Armada não havia quem ferviífe 
defte officio , deo Fernão de Magalhães a 
vida a hum criado de Gafpar de Quexada 
pêra o fazer, por elie fer comprendido na 
traição do fenhor , porque com titulo de tré- 
dores ao ferviço d'ElRey de Caílella fe fez 
efta juftiça. E a João de Cartagena foi per- 
doada aquella morte natural , e houve ou- 
tra eivei de perpétuo degredo naquella er- 
ma terra; ecomelle ficou também hum Clé- 
rigo , que tinha a mefma culpa 7 com trinta 

ar- 



636 ÁSIA de J0Ã0 de Bakros 

arrates de pão a cada hum pêra fe manter. 
E peró que muita gente era com elies neí- 
ta confulta ? fomente em fuás 'petfòas fe fez 
juftiça de todos , porque havendo de punir 
os culpados, poucos lhe ficariam pêra fazer 
ília viagem ; mas no trabalho que deo a al- 
guns , receberam affás de pena. Porque co- 
mo eile affentoi? de paliar alli o inverno , 
que eram eíles mezes , Maio , Junho , Julho y 
e Àgofto , que o Sol anda cá parte do Norte , 
que habitamos ; neíle tempo não fomente os 
occupou em corregimento das náos , que era 
couía piedoía ver o que padeciam com frio , 
mas ainda os mandou entrar pela terra den- 
tro que foífem defcubrir , e a tentar fe ou- 
viam da outra parte algum tom do mar , pro- 
mettendo mercê áquelle que trouxeífe algu- 
ma boa nova. Na qual ida entraram vinte 
léguas pelo fertao , em que gaitaram dez- 
dias , e trouxeram comfigo huns homens da 
terra , cujos corpos paliavam de doze pal- 
mos , aos quaes o Capitão mor mandou dar 
dadivas , e reteve dous por moftra de fua 
grandeza , e os trazer a Caíteíla ; mas du- 
raram pouco por fer gente coftumada comer 
carne crua. Nefte mefmo tempo fe lhe per- 
deo hum navio , Capitão João Serrão , o 
qual elle Fernão de Magalhães mandara dian- 
te ver fe achava algum cabo , ou eílreito. 
E pofto que a gente fe falvou daquelie nau- 

fra- 



Década III. Liv. V. Cap. IX. 637 

fragio , fendo donde a Armada ficava té vin- 
te léguas . cm onze dias que parte da gen- 
te melhor difpoíta a veio bufcar per terra , 
padeceram tantos trabalhos de fome , e frio , 
que quando chegaram quafí os não conhe- 
cia , por virem femelhaveis á mefma mor- 
te , e os mais que lá ficaram mandou vir 
Fernão de Magalhães em hum batel. Par- 
tido daqui , onde lhe faleceo alguma gente 
de frio , e trabalho de repairar as náos, foi 
cofícando a terra , entrando em bahias , e 
portos por ver fe achava algum eítreito , té 
que chegaram a hum cabo a vinte dias de 
Outubro , a que chamaram das Virgens , por 
fer no dia que a Igreja celebra a feita das 
o; ze mil , o qual eftá em cincoenta e dous 
grãos ; e diante delle obra de doze léguas 
acharam a barra de hum eílreito , que eíla- 
va em altura de cincoenta e dous grãos , 
cincoenta e féis minutos , e tinha de boca 
obra de huma légua. E como pela grande 
força da corrente que trazia , e diligencias 
que mandou fazer , e íinaes de baleas mor- 
tas que achavam na praia 3 Fernão de Ma- 
galhães entendeo que eíiava na boca de al- 
gum eílreito , que paliava a outro mar lar- 
go , mandou fazer grande feita per todalas 
náos , como que alli eíiava o fim de toda 
fua efperança, E porque entre agente havia 
grande rumor fobre o pouco mantimento que 

ti- 



6$2 ÁSIA de João DE Bahkos 

tinham , vifto como elle Fernão de Maga- 
lhães fe determinava de entrar pelo eftreito , 
e feguir feil intento , mandou lançar hum 
pregão per todalas nãos , que qualquer pef- 
ioa que fallaffe em não haver mantimento, 
que morreííe por ifíb. Com a qual determi- 
nação elle entrou pelo eftreito , que em par- 
tes tem largura de tiro de efpingarda , e bom- 
barda , e em outras de légua , e légua e meia , 
tudo de huma parte , e da outra terra alta , 
muita delia efcaldada dos ventos , e a outra 
com arvoredo, em que havia acipreftes. E 
no cume das mais altas motanhas viam ja- 
zer a neve , como que todo anno citava fem 
fe derreter, e alguma declinava a cor celef- 
te 5 ou de mui antiga , e recopta , ou de 
qualquer outra coufa natural, que a g^nte 
não alcançava. Sendo já per dentro do qual 
eftreito té cincoenta léguas , vendo per a ri- 
beira delle angras , rios , e efteiros , que en-» 
travam pela terra , paliaram hum lugar mais 
eftreito , que fe fazia entre duas ferras mui 
altas , e além defta eftreiteza viram que fe 
fazia em dous braços. Fernão de Magalhães , 
porque fe não foube determinar qual daquel- 
les era o que paliava a outro mar, pelo da 
parte do Sul mandou entrar huma não, Ca- 
pitão Álvaro de Mefquita , que foífe defcu- 
brir o que lá hia dentro ; e pelo outro man- 
xiou hum batel ; que logo tornou > defcubrin- 

do 



Década III. Liv. V. Cap. IX. 6ty 

do fomente té doze léguas. E porque elle poz 
limitação á náo , que aos três dias tornafíe 
com nova do que achava , e eram já palia- 
dos féis , mandou outra náo que a foffe buf- 
cár, o Capitão da qual tornou dahi a três 
dias , íem achar noticia alguma. Fernão de 
Magalhães defejando faber o que era feito 
delia , diííe ao Aftrologo Andres de San Mar- 
tin que prognofticafle pela hora da partida , 
e fua interrogação ; o qual refpondeo que 
achava fer a náo tornada pêra Caílella , e 
que o Capitão hia prezo. E poflo que Fer- 
não de Magalhães não deo muito credito a 
iífo , todavia paífou aííi ; porque o Piloto 
com favor de toda a gente fe fez á volta 
de Hefpanha ; e ainda lòbre o Capitão Ál- 
varo de Mefquita o contrariar, foi ferido, 
e prezo , e vieram-fe per onde leixavam os 
dous degredados João de Cartagena , e o 
Clérigo , e chegaram a Cafíeiía paíTados oi- 
to mezes depois que fe partiram de Fernão 
de Magalhães. Elle quando fe vio fem aquel- 
la náo , por nella ir Álvaro de Mefquita, 
e alguns Portuguezes , e não ficava com mais 
favor que de Duarte Barbofa , e alguns pou- 
cos de que fe efperava ajudar , porque toda 
a outra gente Caftelhana eílava delle efcanda- 
lizada , além do avorrccimento que tinha 
áquella jornada poios grandes trabalhos que 
tinham paliado , ficou tão confufo P que fe 

não 



640 ASIÀ de J0Á0 de Barros 

não fabia determinar. E por fe juítificar com 
eftes do que fe receava 5 paliou dous man- 
dados íeus ambos de hum theor pêra as duas 
náos , (em querer que as peííoas principaes 
vieiTem a elle ; já como homem que não que- 
ria vef na fua náo muito ajuntamento , te- 
mendo alguma indignação deJies , fe lhe não 
refpondeíle á fua vontade. E porque hum 
deíies léus mandados foi ter á náo , Capi- 
tão Duarte Barbofa , onde eítava o Aftrolo- 
go Andres de San Martin , o qual regiílou 
eíte mandado em hum livro , e ao pé poz 
fua refpofta pêra em todo tempo elle dar ra- 
zão de íi ; e efte feu livro com alguns pa- 
peis feus , por elle falecer naquellas partes 
de Maluco , nós os houvemos , e temos em 
noíib poder , como adiante diremos ; não 
parece fora da hiftoria pôr aqui o traslado 
defte mandado , e a refpofta delle Andres 
de San Martin ; porque fe veja não per nós , 
mas per fuás próprias palavras , o eílado em 
que elles hiam ; e o propofito delle Fernão 
de Magalhães no caminho que fe efperava 
commetter per vida do noíTo defeuberto , 
quando lhe faleceííe o que elle defejava achar. 
É peró que em a nofla linguagem , eftas são 
fuás palavras formaes , efrafes daefcritura, 
fem mudar letra , fegundo eftava regiftado 
per Andres de San Martin, como diílemos : 
Eu Fernão de Magalhães Cavalleiro da Or- 
dem 



Década III. Liv. V. Cap. IX. 641 

dem de Sant-Iago , e Capitão geral defta 
Armada , que Sua Mageftade envia ao def 
cubrimento da efpeciaria , &c. Faço faber 
a vos Duarte Barbofa Capitão da não Vi- 
toria , e aos Pilotos , Mejtres , e Contra- 
?neftres delia , como eu tenho fentido que a 
todos vos parece coufa grave ejlar eu de- 
terminado de ir adiante 3 por vos parecer 
que o tempo he pouco pêra fazer efta via- 
gem , em que imos. E por quanto eu fou 
homem que nunca engeitei o parecer , e con- 
felho de ninguém 5 ante todas minhas cou- 
fas são praticadas , e communicadas geral- 
mente com todos , Jem que peffoa alguma de 
mi feja affrontada , e por caufa do que\ 
acontece o no porto de S.Julião fobre a mor- 
te de Luiz, de Mendo ca , Gafpar de Quexa- 
da , e defterro de João de Cartagena , e 
Ter o Sanches de Reina Clérigo , vós-outros 
com temor leixais de me dizer , e aconfe- 
Ihar tudo aquillo que vos parece que he fer- 
vi ço de Sua Mageftade , e bem fegurança 
da dita Armada , e não mo tendes dito ^ e 
aconfelhado : errais ao fervi ço do impe- 
rador Rey Nojfo Senhor , e is contra o ju- 
ramento , e pleito , e menage que me ten- 
des feito. Rolo qual vos mando da parte do 
dito Senhor , e da minha rogo , e encom- 
mendo , que tudo aquillo quefentts que con- 
vém ánojfa jornada , ajfi de ir adiante , co- 
Tqm. Ill P. I. Ss mo 



(yAfL ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mo de nos tornar 5 me deis vqffòs pareceres 
per efcrito cada hum perjl : declarando as 
coufias , e razoes por que devemos de ir 
adiante , ou nos tomar , não tendo refpeito 
a coufa alguma por que leixeis de dizer a 
verdade. Com as quaes razoes , e parece- 
res direi o meu , e determinação pêra to- 
mar conclusão no que havemos de fazer. 
Feito no canal de todolos Santos defronte 
do rio do ilheo em quarta feira vinte e hum 
de Novembro em cincoenta e três grãos de 
mil e quinhentos e vinte annos. Per man- 
dado do Capitão geral Fernão de Maga- 
lhães. Leon de Efpelece. Foi notificado per 
Martim Mendes Efcrivão da dita não em 
quinta feira vinte e dous dias de Novem- 
bro de mil e quinhentos e vinte annos. x\o 
qual clito mandado eu Andres de San Mar- 
tin dei 5 e refpondi meu parecer, que era 
do theor feguinte : Mui magnifico Senhor , 
vi fio o mandado de vojfia mercê , que quin- 
ta feita vinte e dous de Novembro de mil e 
quinhentos e vinte me foi notificado per 
Martim Mendes Efcrivão defia não de Sua 
Magefiade chamada Vitoria > per o qual em 
effeito manda que dê meu parecer acerca 
do que finto que convém a efia prefiente jor- 
nada , ajji de ir adiante , como tornar , com 
as razoes que pêra hum , e pêra o outro 
nos moverem > como mais largo no dito man- 
da- 



Década III. Liv. V. Cap. IX. 643 

dado fe contém , digo : Que ainda que eu 
duvide que per efe canal de todo/os Santos , 
onde agora ejiamos , nem pelos outros que 
dos dous ejireitos que a dentro eflam , que 
vai na volta de Lefle , e Eefnordefte haja 
caminho pêra poder navegar a Maluco , if 
to não faz , nem desfaz ao cafo , pêra ■ que 
não fe haja de faber tudo o que fe pu- 
der alcançar , fervindo-nos os tempos , em 
quanto ejiamos no coração do verão. E pa- 
rece que vojfa mercê deve ir adiante por 
elle agora , em quanto temos a frol do ve- 
rão na mão ; e com o que achar , ou âef 
cubrir té meado o mez de Janeiro primei- 
ro que virá de mil e quinhentos e vinte 
annos y vojfa mercê faça fundamento de 
tornar na volta de Hefpanha , porque dahi , 
adiante os dias minguam jã de golpe > e 
por razão dos temporaes hão de fer mais 
pezados que os de agora. E quando agora 
que temos os dias de dezefete horas , e mais 
o que ha da alvorada , e depois do Sol pof- 
to , tivemos os tempos tão tevipeftofos «, e 
ião mudáveis , muito mais fe efpera que 
fejam quando os dias forem defendo de 
quinze pêra doze horas , e muito mais no 
Inverno , como já no pajjado temos vifio. 
E que vojfa mercê feja defabocaão dos ef- 
tr eitos a fora pêra de todo o mez de Ja- 
neiro y e fe puder nefte tempo P tomada a 
Ss ii agua 7 



644 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

agua , e lenha que bafta , ir ãe ponto em 
branco na volta da Bahia de Calez , ou 
porto de S. Lucar de B arrame da donde par- 
timos. E fazer fundamento de ir mais na 
altura do polo Aujlral do que agora efta- 
mos , ou temos 5 como voffa mercê o deo em 
injlrucção aos Capitães no rio da Cruz, 
não me parece que o poderá fazer por a 
ierribilidade , e tempejluofidade dos tem- 
pos j porque quando nefta que agora temos 
fe caminha com tanto trabalho , e rifco , 
que fera fendo em fejjenta , e fetenta e 
cinco grãos , e mais adiante , como vojfa 
?nercê diffe , que havia de ir demandar Ma- 
luco na volta de Lefte , Lefnordefte , dobran- 
do o Cabo de Boa Efperança , ou longe del- 
le , por efta vez não me parece ; ajfi por- 
que quando lá formos feria já inverno , co- 
mo voffa mercê melhor fabe , como porque 
a gente eftá fraca , e desfalecida de fuás 
forças ; e ainda que ao prefente tem man- 
timentos que bafem pêra fefuftentar , não 
são tantos , e ta es , que fejam pêra cobrar 
novas forças , nem pêra comportar traba- 
lho demaziado , fem que muito o fintam em 
o fer de fuás pejfoas ; e também vejo dos 
que cahem enfermos que tarde convalefcem. 
E ainda que vojfa mercê tenha boas náos , 
e bem apparelhadas (louvado Deos) toda* 
via ainda falecem amarras ; em efpeciaU 

men* 



Década III. Lrv. V. Ca?. IX. 645- 

mente a ejla não Vitoria : e além dijfo a 
gente he fraca , e desfalecida , e os man- 
timentos não baflantes pêra ir pela fobre- 
dita via a Maluco , e de alli tornarem a 
Hefpanha. Também me parece que voffa 
mercê não deve caminhar por ejlas cofias 
de noite , ajji por a feguridaâe das nãos , 
como porque a gente tenha lugar de repou- 
far algum pouco : cd^ tendo de luz, clara 
dezenove horas , que mande f urgir por qua- 
tro , ou cinco horas que ficam de noite. Por- 
que parece coufa concorde d razão furgir 
por quatro , ou cinco horas que ficam da 
noite , por dar {como digo ) repoufo d gen- 
te , e não tempefiear com as nãos > e appa- 
relhos. E o mais principal por nos guardar 
de algum revés > que a contraria fortuna 
poderá trazer , de que nos Deos livre. Por- 
que quando em as coufas viftas , e olhadas 
fôem aquaecer , não he muito temellos em 
o que ainda não he bem vifio , nem fabido , 
nem bem olhado , fenão que faça furgir an- 
te de hum,a hora de Sol , que duas léguas 
de caminho adiante , e fobre noite. Eu te- 
nho dito o que finto ? e o que alcanço por 
cumprir com Deos , e com vojfa mercê , e 
com o que me parece fervi ço de Sua Ma- 
gefiade , e bem da Arfaaãa : voffa mercê 
faça o que lhe parecer , e Deos lhe enca- 
minhar : ao qual praza de> lhe profperar 

vi- 



646 ÁSIA de João de Barros 

•vida 5 e eflado , como elle defeja. Fernão 
de Magalhães recebido efte , e os outros 
pareceres , como íua tendo não €ra tornar 
atrás por coufa alguma , e fomente quiz fa- 
zer efte cumprimento , por fentir que a gen- 
te não andava contente delle , mas aílom- 
brada do caítigo que dera , pêra dar razão 
defi, fez huma comprida refpofta , em que 
deo largas razoes , tudo ordenado a irem 
avante. E que jurava pelo habito de Sant- 
iago que tinha no peito , que afli lho pare- 
cia , polo que compria a bem daquella Ar- 
mada : por tanto todos o feguiífem , cá el- 
le efperava na piedade de Deos que os trou- 
xera té aquelle lugar , e lhe tinha defcuber- 
to aquelle canal tão defejado , que os leva- 
ria ao termo de fua efperança. Notificado 
pelas náos efte feu parecer , e mandado , ao 
outro dia com grande feita de tiros mandou 
levar ancora ; e dado á vela , fez íèu cami- 
nho té que íahio daquelle canal ao outto 
mar de Ponente. E pofto que faça alguns 
tornos , ora a hum rumo , ora a outro , qua- 
fi a fahida eftá na altura da entrada , e em 
muitas partes vaia com a maré oito , e no- 
ve braças, e vai a agua tão teza que cor- 
re huma náo grande perigo , fe não eftá mui 
bem amarrada 7 porque porta muito polas 
amarras. 

CA- 



Década III. Livro V. 647 

CAPITULO X. 

Do que Fernão de Magalhães pajjbu em 
fua navegação do mar do Ponente té che- 
gar d Ilha Subo , onde mataram a elle , 
e a principal gente de fua Armada : e do 
que mais fuccedeo aos que ficaram. 

TAnto que Fernão de Magalhães fe vio 
no mar do Ponente , porque andava 
tão furioib como o Oriental donde vinha 
por cauía da frialdade do clima 5 mandou 
navegar contra a linha Equinocial pêra íe 
metter no quente ; e como achou os mares 
mais brandos , poz a proa em Aloeíhoroef- 
te per efpaço de quatro mezes. E fendo 
obra de mil e quinhentas léguas da boca 
do eítreito , fegundo fua eítimáção , e em 
altura de dezoito gráos da banda do Sul , 
acharam huma pequena Ilha, que foi a pri- 
meira terra que viram depois da fahida do 
eílreito , a que puzeram nome Ilha Primei- 
ra. E dahi a duzentas léguas ao Noroeíle 
deita em altura de treze gráos ? acharam 
outra que feria de huma légua , em a qual 
fizeram pefcaria ; e poios muitos Tubarões 
que nella havia , lhe chamaram dos Tuba- 
rões. E porque elle Fernão de Magalhães 
fabia que as Ilhas de Maluco citavam de- 
baixo da linha Equinocial , deita Ilha dos 

Tu^ 



648 ÁSIA de J0X0 de Bakros 

Tubarões foi navegando té fe metter nella. 
Curfando tanto per eíle rumo que levava, 
que de lhe parecer que tinha eícorrido as 
Ilhas de Maluco , (cá fegundo fua Carta , 
paffava de cento e oitenta gráos de longu- 
ra,) paflbu-fe da. banda do Norte em al- 
tura de quinze gi l áos e meio a ver fe acha- 
va algumas Ilhas , ou terra das que nós na- 
vegamos , pêra tomar lingua , e faber em 
que paragem era , já como homem que ti- 
nha perdido a eftimação do lugar em que 
podia íer. Na qual paragem achou hum nú- 
mero de Ilhas pequenas , e dahi por ferem 
deferias foram fubindo té altura de vinte e 
hum gráos , defejando achar alguma terra 
firme , e fazendo interrogações fobre iflb 
ao Aíírologo Andres de San Martin , por- 
que como lhe já falecia a conta , e razão 
do marear , leixando a Aftronomia , con- 
vertia-fe á Aftrologia. Finalmente , porque 
elle andou per aqui tornando a diminuir da 
altura de Ilha em Ilha , como dizem as re- 
des, em huma parte lhe matavam homens, 
em outra lhe furtavam o batel ; e fe aqui 
recebiam mantimentos , alli affrontas , e pe- 
rigos , veio ter a huma Ilha chamada Su- 
bo , onde acabou feus trabalhos. A qual 
Ilha eftá em altura de dez gráos da parte 
do Norte , e terra em roda dez , ou doze 
léguas, onde acharam ouro, e tanto gaza» 

lha- 



Década III. Liv. V. Cap. X. 649 

Ihado no Rey Gentio delia , que veio Fer- 
não de Magalhães ao querer fazer Chriftao , 
o qu£, elle acçeitou , baprizando-íç com ília 
mulher 3 e filhos 3 e mais de oitocentas pef- 
foas , e ifto mais por artificio do que ha- 
via mifter delle , que por devoção , ou elei- 
ção de melhor eftado ; e o caio foi efte. 
Como onde ha vizinhança logo ha compe- 
tência , efte Rey, a que elle no baptifmo 
poz nome D. Fernando , acertou de ter por 
vizinho outro Rey com quem andava cm 
guerra , contra o qual elle lhe pedio ajuda , 
pois era já feito Chriftao , e chamado Fer- 
nando do feu nome. Fernão de Magalhães 
polo comprazer metteo-fe nefte negocio de 
guerra : e peró que houve duas vitorias do 
Rey imigo de D. Fernando , quando veio 
a terceira com duas ciladas que lhe arma- 
ram os imigos, foi neccflario os Caftelha- 
nos recolherem- fe aos bateis. E primeiro 
que fe falvaífem , foram mortos Fernão de 
Magalhães , e o Aftrologo Andres de San 
Martin , e hum Chriftovão Rabello Portu- 
guez com outros féis , ou fete homens a 
vinte e íhtQ dias do mez de Abril de qui- 
nhentos e vinte hum. O qual tempo , e lu- 
gar de fuás mortes não alcançou o Aftro- 
logo Andres de San Martin , polto que pe- 
lo afcendente de fua partida , e per algumas 
interrogações que lhe Fernão de Magalhães 

íize- 



650 ÁSIA de! JoÃo de Bakros 

fizera , elle lhe tinha dito que naquelle ca- 
minho lhe via hum grande perigo de mor- 
te. Parece que levava errados os números 
das Taboas do Almenach , per que fe re- 
gia 5 como elle dizia , e adiante veremos , 
em algumas operações que fez de oppoíl- 
ções de Planetas com a Lua para faber a 
diftancia do meridiano de Sevilha ao lu- 
gar onde as tomava. Sobre cite grande def- 
aílre fuccedeo outro , que os metteo em 
maior confusão, e foi, que os Reys imi- 
gos vieram fazer paz entre íí , com tal que 
o Rey Fernando trabalhaíTe por os matar 
a todos. E porque não pode mais , acolheo 
vinte dos principaes , em que entravam os 
Capitães Duarte Barbofa , João Serrão ; e 
com íimulação de lhes dar hum banquete , 
foi do vafo da morte, do qual feito efca- 
pou fomente vivo João Serrão. Efte foi tra- 
zido á praia com as mãos atadas á vifta 
das náos , o qual deo nova do cafo , e que 
o traziam alli pêra o refgatarem por dous 
berços de metal , e alguma pólvora. E pê- 
ro que os Caílelhanos fe puzeflem em hum 
batel chegados hum pouco á praia , onde 
os índios citavam com elle , a quem havia 
de fazer a entrega , começaram a pedir mais , 
entretendo os Caílelhanos. de maneira , que 
temendo elles alguma traição fem terem de 
ver mais com João Serrão > nem com as 

pa- 



Década III. Liv. V. Cap. X. 65T 

palavras que elle dizia pêra os mover a pie- 
dade , fe recolheram á nio. E quando vio 
que o leixãvam naquelle eftado , porque João 
Lopes Carvalho o Porcuguez ficou alli por 
principal cabeça , diíTe contra elle : Ah com- 
padre , mal vos demande Deos minha mor- 
te , pois me não quereis livrar delia. E en- 
tão pedio que por amor de Deos que não 
esbombardeaíTem o lugar , por o não ma- 
tarem logo , lè com os tiros fizefíem algum 
damno j cá íe tornariam a elle. Os Caíle- 
lhanos partidos dalli o primeiro de Maio 
de quinhentos e vinte e hum , que foi o 
dia em que lhe aqueceo eira má fortuna, 
foram ter a huma Ilha dez léguas deita; e 
feito alardo da gente que tinham , por te- 
rem perdidos cincoenta homens na Ilha, 
e outros per o caminho , acháram-fe per to- 
dos cento e oitenta peííoas. E havido con- 
felho , porque não podiam navegar três náos, 
queimaram huma, e per as duas repartiram 
a gente ; e de huma chamada a Vitoria fi- 
zeram Capitão hum João Sebaftião , que 
era medre da mefma náo , e da outra o 
Piloto João Lopes Carvalho, o qual depois 
foi tirado do cargo , e prezo por algumas 
coufas que não aprouveram aos Caílelhanos 
por fer homem vicio fo. E eíla prizão foi 
em a Ilha Burneo , tendo já paliado por 
Mindanáo 7 e por outras Ilhas , onde os 



6$2 ÁSIA DE JOÃO DE BARKOS 

quizeram matar; e em lugar delle fizeram 
Capitão a humJoãoBaptilía , que era Me C- 
tre da mefma náo. Finalmente de ilha em 
Ilha foram ter ás de Maluco , onde EIRey 
de Tidore poios ciúmes que tinha de nós 
querermos fazer fortaleza ante em Ternate 
que em fua terra , os agazalhou mui bem > 
e acceitou ficarem alli alguns pêra feitori- 
zar cravo , que eram aquelles que ficaram 
com João de Campos , como atrás efcre ve- 
mos. E porque nas Ilhas não havia tanto 
cravo que abaítafie pêra carregar as duas 
náos por fer fora da novidade > e fomente 
havia algum velho , quizera-os EIRey de- 
ter té vir a novidade , e lho dar em abaf- 
tança ; o que elles não quizeram efperar, 
temendo que foífcm lá ter noiTas n^os , co- 
mo cada anno coftumavam. EIRey quando 
vio a fua preífa , em hum mez , que foi o 
mais tempo que os alli pode deter , não 
fomente mandou bulcar quanto pode haver 
na fua terra , mas ainda teve muita diligen- 
cia como pelas outras Ilhas , e principal- 
mente em Ternate , lhe fizeram boa fom- 
ma , muita parte do qual lá tinham feito 
Portuguezes per feus Feitores. E hum Por- 
tuguez per nome João de Louroufa que 
eftava em Ternate , como homem desleal 
á pátria , foi ainda em ajuda de fazer efta 
carga 3 e metteo por condição que elÍQ 

fe 



Década III. Liv. V. Cap. X. 65*3 

fe queria vir em as mefma náos , e que 
lhe haviam de trazer nellas trinta baháres de 
cravo. O qual partido os Caftelhanos accei- 
taram , porque pelos avifos que lhe elle dava 
das coutas da índia , e promeflas de os le- 
var á Ilha de Banda a carregar de maças , 
e aííi a Timor de fandalo , houveram elles 
que efte homem lhe era enviado perDeos, 
com que polo contentar ao prefente afíen- 
táram de o fazer Capitão da náo de que ti- 
raram o Carvalho , e aífí o fizeram. Porém 
depois tiveram outro confelho , que melhor 
lhes vinha pêra íua viagem tornar a capita- 
nia ao Carvalho porfer Piloto, que vir por 
Capitão João dcLourofa. Vindos a Banda , 
tomaram alli alguma maça em dez dias ,' cá 
não fe quizeram mais deter , aíTombrados do 
que lhe João de Louro fa fazia crer, dizen- 
do que tinha por nova que na índia fe fa- 
zia huma Armada de certos galeões , de que 
era Capitão hum Pêro de Faria , o qual man- 
dava o Governador da índia a fazer huma 
fortaleza em Maluco ; e que fe os achaífe , 
creíTem verdadeiramente que era homem que 
os havia de metter no fundo. E não fe con- 
tentou de dizer aos Caftelhanos iílo , não 
fendo aííi , mas ainda fez algumas cartas a 
feus amigos da índia, em que lhe notifica- 
va como hia naquellas náos de Caftella , e 
as efcufas que dava eram com dizer algu- 
mas 



6^4 ÁSIA de João de Bakkos 

mas coufas contra efteReyno, as quaes car- 
tas António de Brito quando per alli veio , 
houve á mao ; e polo que diíle , e fez , lhe 
foi depois cortada a cabeça per elle mefmo 
António de Brito em Ternate , com pregão 
de tredor , como veremos. Partidas eftas 
duas náos de Banda, paíTáram per a Ilha de 
Timor pêra fahirem pelo canal de Solor , e 
atraveíTarem aquelle golfão , e per fora da 
Ilha de S. Lourenço virem demandar o ca- 
bo de Boa Efperança, E porque a náo , de 
que era Capitão, e Piloto o Carvalho , fendo 
da Ilha Banda obra de cento e oitenta lé- 
guas , lhe abrio huma agua de maneira , que 
le hiam ao fundo , houveram confelho que 
a outra náo fe parti fle pêra Caftella , e elles 
tornaífem arribar a Ternate, como fizeram, 
e a de Caftella fez feu caminho , e veio cá ter , 
que caufou o que adiante diremos, e a ou- 
tra tornou a Ternate. A qual foi logo mui 
bem concertada ; e ante que partifíe , não 
polo caminho da outra, fenão com funda- 
mento de tomar a terra do porto de Pana- 
má , que he nas cofias da terra firme das An- 
tilhas , faleceo o Piloto João Carvalho , e 
em lugar delle fizeram o meftre chamado 
Baptifta Çenoes , e Capitão Gonçalo Gomes 
de Efpinoía , que fora Meirinho de toda Ar- 
mada. O qual fcguindo fua viagem , e fen- 
do já oitocentas léguas . de Maluco cmíjyifcr 

ren- 



Década III. Liv. V. Cap. X- 65$ 

renta e dous gráos de altura , tornou outra 
vez arribar , e veio ter nas coftas da Ilha 
chamada Batochina em o porto de huma Vil- 
la per nome Gramboconora , do qual lugar 
António de Brito foi logo avifado como alli 
eftava , e tão desbaratada de agua que fa- 
zia , e fortuna que paflara , que fe lhe logo 
não acudira , ella , e a gente fe perdera. E 
a primeira coufa que fez a requerimento de 
hum Bartholomeu Sanches Efcrivao da mef- 
ma náo , o qual o Capitão Gonçalo Gomes 
mandava pedir miíericordia polo eftado em 
que ficava , foi mandar huma caravella com 
muitos mantimentos , e ancoras pêra a náo. 
E trás ella mandou logo Cachil Daroez Go- 
vernador de Ternate com algumas ecracó- 
ras , que são grandes navios de remo ; etrás 
elle foi D. Garcia Henriques em navios pêra 
trazerem a náo áquelle porto , e fe não per- 
der de todo , como o mefmo Gonçalo de 
Efpinofa lhe mandava requerer. E porque 
Cachil Daroez per razão dos feus navios fe- 
rem de remo chegou primeiro á náo que 
a caravella de D. Garcia , como homem que 
fe quer.ia moítrar leal a noífas coufas , e eA 
tarmui efeandalizado d'E!Rcy Almançor re- 
ceber em feuReyno os Caílelhanos j entran- 
do em a náo , quizera com fua gente de guer- 
ra que levava fazer logo íangue. E verda- 
deiramente fe não fora o Feitor Duarte de 

Re- 



\ 

6ç6 ÁSIA de João de Barros 

Rezende , ao qual António de Brito com 
certos Portuguezes mandou ir com elle , fem 
dúvida Cachil Daroez houvera de lavrar do 
ferro. Finalmente entrada a náo ? quando 
Duarte de Rezende vio a gente , houve gran- 
de piedade , porque os mais delles anda- 
vam derreados , que fe não podiam mover 
fenão com ajuda , quaíi paralyticos , e eram 
já mortos trinta e fete homens , e andava a 
náo tão ifcada da enfermidade , além dos 
trabalhos da fome , e outras neceífidades , 
que receavam os noílos , depois que veio 
D. Garcia , entrar dentro como em coufa de 
peíle. Trazida a náo , e a gente ao porto 
de Terna te , como vinha desbaratada , com 
hum tempo que logo fobreveio fe desfez 
toda em o recife de pedras que o porto tem. 
A gente António de Brito a mandou curar , 
e prover com tanto cuidado , como fe fo- 
ram naturaes deite Reyno 3 e não levados 
áquellas partes pêra lhe darem defgoílo ; e 
quando fe D. Garcia Henriques veio pêra 
a índia , todolos que com elle fe quizeram 
vir elle os trouxe 5 e aííi Gonçalo Gomes 
de Efpinofa o Capitão , que depois o anno 
de quinhentos e vinte féis veio ter a efte Rey- 
no. Do qual eu houve alguns papeis que lhe 
achei , entre os quaes foi hum livro feito 
per elle de toda aquella fua viagem ; e aííi 
houve outros papeis, e livros , que Duarte 

de 



Década III. Liv. V. Cap. X. 657 

de Rezende Feitor de Maluco recolheo do 
Aílrologo Andres de San Martin. Porque 
como era Latino , e homem eftudioíb das 
coufas do mar, e Geografia, entendeo logo 
nellas ; e vindo a eíle Reyno , houvemos 
delle alguns , principalmente hum livro que 
elle Andres de San Martin efcreveo de lua 
mão, em o qual eftá o decurfo do caminho 
que fez , e de todas fuás alturas , obferva- 
çoes , e conjunções que tomou. E porque 
acerca deita matéria algumas peífoas tem ef- 
crito coufas , de que não tiveram boa infor- 
mação , e outros maliciofamente dizem mui- 
tas falfidades , o que aqui diííermos fera do 
mefmo feu livro , por fer parte fem fufpeita 
polo que toca á noífa. No rio de Janeiro 
a dezefete dias do mez de Dezembro de qui- 
nhentos e dezenove tomou elle huma conjun- 
ção de Júpiter com a Lua ; e no primeiro de 
Fevereiro de quinhentos e vinte tomou ou- 
tra oppoíição da Lua , e Vénus ; e a vinte e 
três do dito mez , e era , outra do Sol , e da 
Lua ; e em dezefete de Abril do mefmo an- 
no hum eclipfe do Sol , e a vinte e três de 
Dezembro , já paliado o eftreito , huma op- 
poíição do Sol ; e da Lua , e todas eftas 
obfervações calculava fobre o meridiano de 
Sevilha. E de lhe não refponderem a feu pro- 
poíito fobre o negocio a que hiam , aqueixa- 
fe de humas Taboas de Joannes de Monte 
Tm.m.P.1. Tt Re- 



6$8 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Régio , dizendo, que não pode fer fenao 
que os números eftavam errados 5 e que lhe 
parecia que devia fer por culpa dos impref- 
íbres. E em huma deftas obfervações , (não 
dizemos em que parte foi , porque tudo guar- 
damos pêra feu tempo , ) depois de ter cal- 
culado fuás equações , diz eftas formaes pa- 
lavras : De maneira , que haveria dijferen- 
ça dejie meridiano ao meridiano de Sevilha , 
não ejlando erradas as Tahoas do dito Al- 
manach , quarenta e dous minutos de hora ; 
forem forque me confia fer muito mais a 
dijferença , infiro haver erro nas Taboas , 
que certo não fei a que o attribua. Porque 
attrihuillo a vicio da imprefsão , não he de 
crer huma coufa tão commum , e tão divul- 
gada como os Almanaches de Joannes de 
Monte Régio da imprefsão de João Liertef 
tim abondar de tantos vicios nella , por ra- 
zão do credito de fua imprefsão. Pois at- 
trihuillo a que Joannes de Monte Régio er- 
rajfe a equação dos movimentos , também 
me parece grave coufa dizer hum homem de 
tanta veneração y e authoridade em Afiro- 
nomia , ter errado fua obra. Também me 
maravilho , e muito mais ver minhas expe- 
riências não convir em com o efcrito : infi- 
ro , e cerro-me em dizer que Quod audivi- 
mus , loquimur ; quod vidimus , teftamur ; 
e que toque a quem tocar y em o Almanach 

ef 



Década III. Liv. V. Cap, X. 659 

ejlarn errados os movimentos dos ceos : Sk> 
uti experientiâ experti fuimus. Foram tam- 
bém tomadas algumas cartas de mar ; e pê- 
ro que não houveflemos alguma ? fabemos 
que delias vinham fomente arrumadas pêra 
lançarem as terras que defcubriííem. E por- 
que viam per eftas operações do Aftrologo , 
e aíli per fuás lingraduras , e eftimativa ao 
modo da fua arte , ler mais em noíTo favor 
que no feu , íituavam as terras da derrota 
a feu propoíiro , e não fegundo o que achava 
elle Andres de San Martin. E de eftas , e 
outras coufas ferem feitas com malicia , tes- 
temunhou á hora de fua morte hum deiles 
per nome Bufta mente, o qual indo em hum 
navio noífo de Malaca pêra a índia , foi ter 
ás Ilhas de Maldiva , onde faleceo por ir 
muito enfermo. E no feu teftamento difíe , 
que pordefcargo de fua confciencia declara- 
va , que tal coufa , e tal , cm alguns cftro- 
mentos que os Caftelhanos tiraram em Ma- 
luco fobre aquelle feu negocio , elle teftemu- 
nhára o contrario da verdade , porque o fa- 
zia em feu favor ; e onde fe as coufas que- 
rem provar per efte modo , elías ficam ba- 
tizadas em nome. Fica aqui dizer htima cou- 
fa por honra de Duarte de Rezende , a que 
quero acudir por razão de fangue , e tam- 
bém das boas letras que tinha. Elle me di- 
rigio hum Tratado fobre eíta navegação de 
Tt ii Caf- 



66o ÁSIA de João de Barros 

Caftella , como quem teve na mão huns apon-" 
tamentos que o Aítrologo Faleiro tinha fei- 
tos ante de íua doudice , nos quaes dava mo- 
do como fc poderia verificar a diftancia dos 
meridianos , a que vulgarmente os marean- 
tes chamam altura de Lefte Oefte. Sobre os 
quaes Fernão de Magalhães , em cujo poder 
elles ficaram , ante que paííalTem o eftreito 
no porto de S. Julião , quiz ter prática ; e 
foi aflentado per todolos Pilotos , que em 
nenhum modo fe podia navegar per alli. Do 
qual regimento , que era de trinta capítulos , 
Ândres de San Martin , como homem dou* 
to na Aftronomia , concede o quarto capi- 
tulo , que era pelas conjunções , e oppofições 
da Lua com os outros Planetas , por fer cau- 
fa certa , e fácil. E porque Duarte de Re- 
zende traz as formaes palavras que Andres 
de San Martin diz fobre efta matéria , e tam- 
bém fobre hum eclipfe do Sol, que alli to- 
mou y de que atrás falíamos , e falia per ter- 
mos Aftronomicos , ou foi do Tratado que 
me elle dirigio , que eu empreitei > ou que 
também elle em fua vida daria o traslado a 
outrem , donde quer que folie ; quizeram-fe 
aproveitar delle emhuma eferitura defta na- 
vegação do Magalhães. E o author da obra 
quando vem a fallar no cafo , (bem fei que 
o não fez de malícia , mas de algum defeui- 
do ; ou de não ter noticia dos termos , ) con- 

fim- 



Década III. Liv. V. Cap. X. 661 

funde-os , dizendo , que o meridiano da-quel- 
le porto diftava do de Sevilha donde parti- 
ram , feflenta e hum gráos de Norte , e SuL 
E elle Andres de San Martin diz , que o 
meridiano daquelle porto diftava do meri- 
diano de Sevilha feflenta gráos da linha Equi- 
noccial ; porque gráos da Equinoccial são 
gráos de longura ; e gráos de Norte Sul são 
de largura. E quem eftava além da linha em 
quarenta e nove gráos , e dezoito minutos , 
em que eftá o rio de S. Julião , fegundo o 
mefmo Andres de San Martin tomou , e em 
Sevilha que eftá da parte do Norte em trin- 
ta e fete e meio , ajuntando huns aos ou- 
tros , faria oitenta e féis gráos , quarenta e 
oito minutos de Norte , e Sul ; mas ifto não 
íè. conta aífí , nem menos Andres de San 
Martin faz efta conta. Quizemos apontar ef- 
te erro , porque pode a tal efcritura delle ir 
á mão de peífoas doutas nefta faculdade , não 
queria que deífem a culpa a Duarte de Re- 
zende , fenão a quem mal ufou dos feus ter- 
mos > ou demos por defculpa ao author da 
obra, a que tomava Andres de San Martin 
nas fuás equações , que eftavam os números 
errados por culpa do impreífor , que he mui 
bom valhacouto aos que compomos alguma 
çoufa. E aftas de prudência he quem fe del- 
ia fabe aproveitar, pofto que mais modeftia 
feria confeíTar que fomos homens, de que 



6Ó2 ÁSIA de JoXo de Barros 

lie próprio errar. O que reíultou da vinda 
da náo que veio ter a Caíiella , foi haver 
entre EIRey D. João Noífo Senhor , e oEra- 
perador D. Carlos Quinto , e Rey de Caf- 
tella algumas dúvidas , tratando-fe o cafo fo- 
bre eíles dotis pontos , pofle , e propriedade , 
por razão das demarcações , que entre eíles 
dous Reynos havia ; pêra o qual negocio 
fc ajuntaram de ambalas partes três géneros 
de peflbas , Juriílas , Geógrafos , e Marean- 
tes. E porque entre elles houve mais duvi- 
das das que havia no cafo , eíles dous Prin- 
cipes fe concertaram depois per fi da ma- 
neira em que ora o cafo eílá ; e parece-nos 
<jue o ha de vir a determinar por parte da 
propriedade o mefmo Andres de San Mar- 
tin com feus eclipfes , como demoílraremos 
em a noífa Geografia : e verificallos-hemos 
per fuás próprias experiências que fez , e per 
livros que não tenham erros na imprefsão , 
porque não haja valhacouto contra a verda- 
de. E quanto á poíTe , quem ler o que atrás 
efcrevemos da continuação que os noífos ti- 
nham naqucllas Ilhas , do anno de onze que 
AfFonfo d'Alboquerque as mandou defcubrir 
té o anno de vinte , ante que a Armada de 
Caíiella lá foífe , que são dez annos de tem- 
po , com todolos outros negócios de cartas , 
e requerimentos , que os Reys daquellas 
Ilhas tiveram comnofco ; parece que julgará 

a po£ 



Década III. Liv. V. Cap. X* 663 

a poíTe por boa. Epois eftamos em a nar- 
ração das partes mais Orientaes que defcu- 
brimos , e conquiflámos , que são eflas de 
Maluco ; primeiro que partamos delias , que- 
remos dar conta do que Simão d'Andrade 
fez na China , terra também a mais Orien- 
tal da Afia ; e do que paílbu Thomé Pires 
noíío Embaixador , que Fernão Peres d' An- 
drade enviou ao Príncipe daquellas regiões , 
como atrás efcrevemos. E de íí trataremos 
do que Diogo Lopes de Sequeira fez em 
Ormuz , e na índia , em a narração das quaes 
coufas começaremos , e daremos fim a efte 
íèguinte fexto Livro. 

Fim do Livro V. da Década III. 



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DS Barros, João de 

4-11 Da Ásia de João de Barros 

.7 de Diogo de Couto 

B275 
1778 
v.3 
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